Wonderwall.
31 A culpa é dela.
Notas iniciais
— Hora do óbito, 14:56. — constatou o médico. — Eu sinto muito. — disse com um olhar pesaroso direcionado a mim. — Foi um enfarte fulminante, fiz tudo que estava ao meu alcance, mas infelizmente ele não resistiu.
Há pouco segundos ele tentava reanimar o meu pai com massagens cardíacas, ele estava exausto, tinha feito tudo que pode, mas infelizmente seu esforço de nada adiantará. Meu pai estava inerte no chão, seu coração não aguentou a verdade sendo jogada na sua cara, por mim. Minhas palavras mataram o meu pai, minha raiva e todo meu desprezo foram capazes de fazer o coração dele parar.
— Oliver. — escutei a voz de Felicity. Mas estava tão absorto e concentrado no corpo falecido do meu pai no chão que não conseguia olhar para ela. — Oliver, por favor, olha para mim.
Dois enfermeiros entraram no quarto, um deles se agachou e cobriu o corpo do meu pai com um lençol e depois ambos o ergueram e o colocaram em uma cama. Eu vi toda a cena sem mexer um único músculo, apenas senti meu coração se encher de dor e culpa.
— Oliver. — Felicity agarrou minha mão e me puxou, fazendo-me olhá-la. Ela acabará de levantar da cama, mesmo muito fraca e com a perna engessada ela havia levantado e caminhado até onde eu estava. —Eu sinto muito. — seus braços enlaçaram meu pescoço e ela me abraçou apertado, soltando um gemido de dor.
— Felicity. — murmurei. — Volta para a cama.
— Não, você precisa de mim.
— Você está fraca.
— Eu aguento. — seus braços me apertaram ainda mais e mesmo ela tentando disfarçar, percebi o quanto um simples abraço a afetava e a fazia sentir dores.
— Felicity. — falei, lhe dando um demorado beijo na testa. — Eu acabei de perder o meu pai, você ainda precisa de cuidados, não quero perder mais ninguém, principalmente você.
Ela ergueu a cabeça e fitou meus olhos. Tudo que tinha acabado de acontecer me deixou devastado, e por mais que ficar preso nos braços dele fosse a minha maior necessidade no momento, não podia colocá-la em perigo. A levantei e levei-a direto para a cama.
Fiquei observando o momento que os enfermeiros removiam o corpo do meu pai do quarto. Foi difícil não sentir um enorme aperto no coração, apesar de tudo que ele fez, continua sendo o meu pai, eu o amava ainda. Engoli o nó na minha garganta e encarei Felicity, apenas quando ela ergueu a mão até o meu rosto para limpar lágrimas involuntárias que haviam caído, notei que estava chorando. Felicity me abraçou e acabei me aninhando no seu abraço, o único lugar que me sentia bem no momento.
(...)
Mais tarde, quando não podia mais adiar o inevitável, liguei para Thea vir até o hospital, estava na hora de falar sobre nosso pai. Antes ela conversou com Felicity, as duas pareciam entrosadas na conversa, falavam sobre Jeremy e no quanto eu fui um idiota no passado. Quando Donna chegou para ficar com Felicity, pedi para Thea deixar as duas a sós, porque precisávamos conversar.
Antes de sairmos do quarto, Felicity me encarou profundamente e apertou minha mão, tentando silenciosamente me transmitir forças. Eu lhe dei um beijo na testa, então me retirei do quarto com Thea logo atrás de mim.
— Eu estou tão feliz que enfim vocês se acertaram. — minha irmã falou, saindo do quarto de Felicity. — Vou ajudar a organizar o casamento de vocês. — emendou cheia de entusiasmo. — Por que vocês vão casar né? Agora vocês têm um filho, e vão ter mais né? Uma me...
— Thea. — interrompi minha irmã.
— O que foi, Ollie? — indagou, olhando em meus olhos. — Que cara é essa? Você só me olhou assim uma vez.. Quando o meu peixinho morreu.
— Senta aqui. — peguei em seu ombro e a fiz sentar em uma das poltronas no corredor, então sentei ao lado dela e comecei a falar tudo que havia acontecido.
— Oliver. — Thea espantou-se e levantou abruptamente. — Que brincadeira é essa? Não tem graça.
Levantei-me e segurei nos ombros dela, lhe olhei nos olhos, tentando de alguma forma lhe passar um pouco de calma. Thea sempre foi apegada ao meu pai. Essa noticia deve estar sendo terrível para ela, perder nosso pai sem ter a oportunidade de dizer adeus. Imagina quando ela descobrir que foi minhas árduas palavras que levaram nosso pai da gente.
Respirei fundo.
Sei que será difícil, mas Thea precisa acreditar em mim ao invés de ficar se negando.
— Não é uma brincadeira, Thea. — murmurei. — Faz pouco tempo que nosso pai saiu desse quarto. Ele teve um infarto fulminante. — Thea limpou uma única lágrima que desceu por sua bochecha e maneou a cabeça.
Não queria acreditar de forma alguma.
— Os médicos tentaram reanimá-lo. Mas mesmo com todo os esforços da equipe, eles não conseguiram.
— Isso é mentira, Olivier. — seus olhos se encheram de lágrimas e ela cruzou os braços. — O que ele estaria fazendo aqui?
— Você vai ficar sabendo, mas não agora. É muita coisa para digerir. — falei, me aproximei dela e lhe abracei forte, deixando minha irmãzinha aninhar seu rosto no meu peito e chorar em silêncio. — Agora, precisamos permanecer fortes e unidos, pela mamãe.
— Oliver... — ela choramingou. — Nosso pai está mesmo morto?
Afaguei suas costas e lhe dei um beijo no topo da cabeça.
Estava doendo tanto em mim quanto nela.
Tudo que eu queria agora, era negar, dizer que nosso pai estava vivo e que aquilo não tinha passado apenas de uma brincadeira de muito mal gosto. No entanto, estaria mentindo para minha irmã.
— Sim. — murmurei. — Eu sinto muito.
[....]
— Como foi com ela? — questionou Felicity.
— Terrível. — respondi. — Nosso pai cometeu muitos erros na vida, mas Thea o amava incondicionalmente. Será difícil para ela.
Foi difícil deixar minha irmã em seu apartamento, ela estava muito abalada ainda e não conseguia acreditar, muitas vezes me questionou se era mesmo verdade, se tudo não passava de uma pegadinha com a cara dela. Bem que eu queria que fosse. Mas ela acabou ficando melhor com Roy ao lado dela, acabou dormindo e aproveitei para ligar para nossa mãe e contar tudo, por incrível que pareça, mamãe reagiu de forma controlada e disse que estava pegando o primeiro voo para NY.
Então, antes de ela chegar tive que vir visitar Felicity, porque com mamãe aqui, não vou ter muito tempo para passar ao lado da minha garota.
— E como você está? — questionou, ajeitando-se na cama.
Felicity ainda parecia fraca e com dores, mas tentava esconder isso de mim, talvez apenas queira me livrar de mais incômodos. Porém sua saúde nunca será um incômodo para mim.
— Estou melhor do que ela.
Felicity me encarou, sondando-me a procura da verdade, mas aconteceu que Felicity não é ingênua, ela sabe que nada está bem, que na verdade, está tudo ruim, horrível, intragável.
— Você não está bem, Oliver. — disse. — Você está péssimo, só não quer demonstrar o quanto tudo está te abalando.
— Não posso me sentir mal, a culpa foi toda minha, Felicity.
Ela me encarou de forma ríspida.
— Então a culpa é minha também. — disse, o tom angustiado. — Porque seu pai colocou os pés nesse hospital por minha causa. — ela suspirou. — eu não sei porque seu pai não gostava de mim, mas sei que a culpa de ele estar nesse quarto foi minha.
— Não foi sua culpa. — rebati, aproximando-me dela. Peguei sua mão e enrosquei meus dedos nos dela. — Não foi você que disse coisas horríveis para ele. — beijei sua mão e sua testa.
— Por favor, não se culpe, Oliver. — murmurou. — você vai se destruir aos poucos se viver se culpando pela morte do seu pai. — disse. — Eu já te perdi uma vez, não vou suportar perder mais uma.
— Você não vai me perder, eu prometo.
Ela respirou fundo.
— Eu pensei em algo que podia lhe fazer esquecer um pouco isso. — sibilou, acariciando minha nuca.
— No que você pensou? — encarei seus olhos que carregavam um brilho intenso que conseguia acalentar meu coração.
— Nosso filho.
— Nosso filho? — questionei, sentindo o meu coração ficar ainda mais acalentado dentro do peito. — O nosso filho. — falei, sentindo cada letra, cada som se adaptar aos meus lábios “nosso filho” — O que tem o nosso filho?
— Jeremy é uma criança maravilhosa, ele tem o poder de nos deixar muito, muito feliz e também nos faz esquecer as coisas ruins. — respondeu. — Está na hora de você passar um tempo com ele. Tenho certeza que Jemy precisa do pai dele também. E quero muito que tenham esse momento de pai e filho.
— Pai e filho? — involuntariamente um sorriso enorme surgiu nos meus lábios.
— Sim. — ela beijou a minha bochecha. — Você já passou muito tempo longe dele, e ele longe de você.
Não podia negar que estava ansioso para esse momento com Jeremy desde o dia que fiquei sabendo que era pai. Ele já está com quase três anos, sei que já perdi alguns momentos importantes da vida do meu filho, mas agora não quero mais perder nada. Sei que tenho que ir de vagar, assim como para mim tudo isso e uma novidade, para Jemy também é.
E não vejo a hora de pegá-lo no colo, ensinar muitas coisas para ele e ouvi-lo me chamar de pai pela primeira e muitas vezes.
— Já conversei com a minha mãe. — disse Felicity, me tirando a cena de Jeremy me chamando de pai da cabeça. — Ela arrumou o Jemy, eles estão vindo para cá. Mamãe irá ficar comigo e Jeremy com você.
— Você tem alguma dica? — levantei e parei de braços cruzados ao lado da cama. — do que ele gosta? Qual o esporte favorito dele? O sorvete preferido dele é chocolate?
Estava muito ansioso por esse momento, mas confesso que também estou um pouco assustado. Isso tudo é muito novo para mim. Nunca fui próximo de crianças, e minha experiencia com Thea pequena não é das melhores, eu deixei seu peixe morrer e foi horrível. Preciso começar a me adaptar a um filho, e conhecer todos os seus gostos é uma prioridade.
Felicity começou a rir, o que me fez olhar feio para ela.
— Desculpe, é que você está muito nervoso— comentou. — Você pode se acalmar?
Relaxei e respirei fundo. Afirmei com a cabeça e Felicity começou a me passar várias informações sobre nosso filho. Ele gosta de animais, plantas, parques, vídeo game, e seu esporte favorito é basquete, ele não tem um time favorito, o seu sabor de sorvete favorito são todos. Sua cor favorita é verde e seu herói favorito é o arqueiro verde. Jemy gosta de desenhos antigos, não sabe amarrar o cadarço e odeia bebidas quentes, também odeia brócolis.
Eu já tinha um bom número de informações.
— O resto você descobre sozinho. — soltou Felicity.
— esse momento será muito importante para mim, Felicity. — falei, sentando ao lado dela. — conhecer o Jemy melhor, passar esse tempo com ele e poder esquecer tudo de ruim que aconteceu.
— Eu sei. — ela segurou minha mão. — Daria tudo para passar esse momento só observando vocês dois.
Beijei os nós dos seus dedos. Tudo que eu mais queria era arrebatar seus lábios, mas Felicity praticamente havia colocado um sensor com alarme na sua boca.
Fiquei mais um tempo com ela, até sua mãe chegar com Jeremy. O pequeno ficou feliz ao ver a mãe, os dois ficaram um tempo juntos, e ver a cumplicidade dos dois me deixou encantado. Aqueles poucos minutos foram o suficiente para Jeremy tornar-se a pessoa mais importante da minha vida. Eu o amava, sentia todo meu amor por aquele garoto transbordar do meu peito e se espalhar por todo o meu corpo.
A partir daquele momento, sabia que Jeremy havia se tornado a pessoa que eu daria a minha vida para mantê-lo a salvo.
[...]
Estava parado, esperando o sinal fechar para poder atravessar a rua. Jeremy estava ao meu lado, ele segurava a minha mão e olhava ao redor procurando por pássaros nos fios de luz. O pequeno ficou muito feliz quando Felicity lhe contou sobre o passeio que ele iria fazer comigo e não questionou em momento algum o porquê de sair comigo, que sou praticamente um estranho.
Eu acho que o garoto gosta de mim.
— Então, para onde você deseja ir, rapazinho? — questionei, apertando firme a alça da bolsa azul que Donna havia levado com coisas que Jeremy precisaria durante o passeio.
Eu pareço um daqueles paizão que levam os filhos ao parque.
— Eu posso escolher um lugar? — ele indagou, levantando o rostinho para me encarar.
— Sim.
— Humm, vou pensar. — disse, colocando a ponta do dedo indicador sobre o queixo.
Enfim, o sinal abriu e enquanto Jemy pensava em um lugar, nós atravessamos a rua e andamos pela calçada.
— Podemos ir ao paque?
— Claro que podemos. — respondi. — Mas o que você quer fazer no parque?
— Alimentar os pombos. — respondeu sem nem pensar antes. — Eu gosto dos pombos.
— E você só gosta dos pombos?
Ele deu um sorrisinho e negou com a cabeça.
— Também gostu di gatos. — disse, seus olhinhos brilhando como luzes de natal. — Eu tenho um gatinho.
— Hum. — ergui uma sobrancelha. — e esse gatinho por acaso se chama Mogus?
— Como você sabi? — ele perguntou cheio de surpresa.
— Bom, eu sei algumas coisas.
— Mais o que mais você sabi?
— Hum. — ponderei.
— Qual a comida favoita dele?
— Atum.
— E qual a coi dele?
— Ele é cinza. E tem olhos verdes.
— Nossa! — ele exclamou. — Você já viu eli?
— Sim, muitas vezes.
Jeremy ficou em silêncio, pensando, talvez, em como eu sabia tanta coisa sobre Mogus.
— Ele é um super gatu.
Enquanto fazíamos uma caminhada até o parque, Jeremy me contou muitas coisas sobre suas travessuras com Mogus e sobre como a mãe ficava louca com os dois de vez em quando.
Constatei que Felicity estava certa, nosso filho tinha o dom de arrancar todas as tristezas e de fazer esquecer cada coisa ruim que havia acontecido. E quanto mais tempo eu passava com ele, mais tempo queria passar, apenas não queria que esse nosso momento acabasse.
Jeremy alimentou os pássaros e depois nós tomamos sorvete. Eu o levei ao museu e nós fomos parar em uma quadra de basquete, ele ficou encantado olhando os garotos maiores jogando. Eu também o levei a um parque de diversão e por algum tempo voltei a ser criança ao lado do meu filho. As horas que passei com Jeremy foram perfeitas e quando recebi a ligação da minha mãe, dizendo que estava no apartamento de Thea, senti um buraco se abrindo no meu coração, ficar longe de Jeremy depois da tarde incrível que passamos juntos, seria doloroso.
Também não foi muito fácil para o Jemy, ele disse que queria ficar mais tempo comigo. Queria visitar outros lugares, tomar mais sorvete, jogar basquete. Então prometi para ele que sairíamos de novo, milhares de vezes. Falei que nunca mais ficaria um dia inteiro sem vê-lo, e claro que não vou ficar mesmo. Ele me convidou para visitar o Mogus quando ele, a mamãe dele e sua avó voltassem para casa. Falei que com certeza iria visitar o Mogus, esse gato sempre gostou de mim. Felicity até tinha ciúmes.
Voltamos para o hospital e Jeremy matou a saudade da mãe e da avó. Felicity matou a saudade do filho e então pediu para Donna levar Jeremy fazer uma visita para Diggle que estava ansioso para ver o menino. Depois que eles saíram, ela me fez um grande interrogatório e eu falei sobre cada pedacinho do meu dia com o meu filho.
— Ele está encantado com você, Oliver. E isso é ótimo.
— É mesmo?
— Sim. — respondeu. — O Jemy não é de ir com a cara de uma pessoa assim, logo no inicio, ele gosta de conhecer bem antes. Mas caramba, ele te adora.
— Isso é bom?
— É ótimo, meu amor. — ela exclamou, sorrindo boba.
— Ele é uma criança incrível mesmo. — falei. — cada segundo que passei com ele foi maravilhoso, ele me fez esquecer toda essa história do meu pai e tudo que está acontecendo.
— Eu falei.
— Mas agora, preciso me desligar do dia incrível que tive com ele. — falei, sentando-me na cadeira ao lado da cama dela. — Minha mãe já está aqui, e eu preciso ver como ela está.
— Eu sei. — ela falou, apertando minha mão.
— Você vai ficar bem? — questionei, encarando seus olhos. — Não quero que passe a noite sozinha.
— Eu já sou bem grandinha, Oliver, vou ficar bem. — murmurou. — Esse momento vai ser difícil para você e sua família, vocês precisam ficar juntos.
Felicity estava certa. Preciso ficar ao lado da minha mãe e da minha irmã. Meu pai sempre manteve nossa família unida, apesar de todos os seus defeitos, a família sempre foi a sua base, ele sempre nos manteve protegidos, de uma forma torta, mas manteve. Agora esse papel é de certa forma minha, preciso garantir que minha mãe e minha irmã continuaram em pé.
— Eu tenho que ir. — falei, levantando-me. — minha mãe demonstrou o quanto ela é forte na ligação, mas tenho certeza que ela está destruída.
— Ela perdeu o amor da vida dela, eu estaria destruída também se perdesse você.
— Você não vai me perder, eu prometo. — lhe dei um beijo na testa, e quando fui me afastar, Felicity segurou meu queixo e puxou meus lábios para os dela, apesar de ela me pegar de surpresa, não me afastei, retribui toda a doçura e calmaria do seu beijo. Eu precisava tanto dos seus lábios, que tê-los sob os meus recarregaram minha bateria diária.
Quando nos afastamos, ofegantes. Felicity me mandou agradecer sua mãe por ter trazido alguns itens de higiene.
[.....]
Quando cheguei no meu antigo apartamento, que agora era da minha irmã. O clima estava péssimo, Thea ainda não parara de chorar, mas agora estava sendo aparada por minha mãe, que mantinha sua pose de durona. Quando passei pela porta, ela colocou uma almofada em baixo da cabeça de Thea e Roy a substituiu. Mamãe veio me abraçar e com certeza perguntar tudo que havia acontecido.
— Como você está, filho?
— Estou bem. — respondi. — Mas e você?
— Como que isso aconteceu, Oliver? — questionou, mudando de assunto.
Olhei Thea por sobre o ombro de mamãe e por mais que ela estivesse absorta em sua dor, escutaria tudo que eu falasse com nossa mãe. Apontei para a cozinha e minha mãe entendeu o recado, encaminhou-se para a cozinha e eu a segui.
Assim que passamos pela porta da cozinha, minha mãe começou seu interrogatório. Perguntou o que eu e meu pai estávamos fazendo em um hospital, e como tudo havia acontecido, então comecei pelo início. Falei sobre a missão, sobre Felicity, sobre nosso reencontro e a forma que ainda somos apaixonados um pelo outro, falei sobre o incêndio e por fim contei o porque do meu pai estar no hospital. Só não falei sobre Jeremy.
Minha mãe não escondeu sua insatisfação por Felicity ter reaparecido e nem ligou quando falei que meu pai ofereceu dinheiro para ela ir embora da minha vida outra vez.
— Essa garota só traz desgraças para nossa família, Oliver. — sibilou, cobrindo a testa com a mão e respirando fundo. — Como você pode estar apaixonado por uma pessoa como ela? Felicity já te magoou uma vez e agora você está com ela novamente?
— Mãe. — tentei rebater, mas ela foi rápida ao erguer uma mão e dizer:
— A culpa é dela, ela matou o seu pai.
— Chega mãe! — vociferei, não me importando mais se Thea fosse ou não escutar nossa discussão. — A culpa não é da Felicity. — emendei. — Você sabia que o meu pai, o seu marido escondeu um neto de você?
— O quê?
— Felicity ficou grávida e o meu pai ofereceu dinheiro para ela abortar o bebe, mas Felicity não aceitou, então os dois fizeram um acordo, ela permaneceria longe de mim, o mais longe possível e dessa forma Robert a deixaria em paz. — expliquei. — Mas se caso ela tentasse me procurar, ele tomaria o bebe dela.
Minha mãe bufou.
— Não acredito que você está defendendo ela, Oliver. E colocando a culpa toda no seu pai. — rebateu. — que nem aqui está mais para se defender.
— Meu Deus. — respirei fundo e encarei a minha mãe. — Se coloca no lugar dela por um momento... e se fosse com você? — questionei. — Se um homem influente como o General do Exército americano, que conheceu até o presidente, ameaçasse tirar eu o Thea de você. Como ia se sentir?
Ela ponderou por um tempo, mas no fim, não tinha resposta. E pelo que conheço da minha mãe, ela teria feito o mesmo.
— Eu também senti raiva dela, mãe. Mas eu entendi que qualquer mãe faria o mesmo que a Felicity fez. Quando se trata do nosso filho, Felicity vira uma fera. Ela colocou o amor pelo filho na frente e escolheu ele. Não existe nada mais forte do que o amor de uma mãe. Não é mesmo? Já te ouvi falando isso centenas de vezes.
Encarei minha mãe e embora parecesse indiferente, sabia que no fundo estava compreendendo tudo que eu acabará de falar, e, que lá, mais no fundo ainda, ela entendeu tudo que levou Felicity a fazer o que fez.
— Reencontrei Felicity novamente, eu nunca a esqueci. Apenas aprendi a conviver sem ela, sentindo rancor, ódio e mágoas por tudo que aconteceu no passado. — falei. — Mas acima de todos esses sentimentos ruins, existe um sentimento bom e maior do que qualquer coisa. Eu a amo e não quero viver longe dela, mãe. Quase a perdi e foi terrível. Não quero mais me obrigar a ficar longe dela.
— Esse sentimento te deixa cego, Oliver.
— Não, mãe. — rebati. — Esse sentimento me faz bem, me deixa feliz, me torna ainda mais vivo. E não sei se sou capaz de conviver sem tudo isso que sinto por, Felicity.
— Seu pai está morto, Oliver.
— Mas não é culpa dela. — retruquei. — Se quer culpar alguém, culpe a mim. Porque não foi ela que disse coisas terríveis para ele, fui eu. Posso conviver com você colocando a culpa da morte do papai em mim, mas não posso viver longe dela.
Eu virei as costas.
— Aonde você vai, Oliver?
— Preciso organizar um funeral.
Se minha mãe não conseguia aceitar que amo Felicity e ela me ama, e por causa desses sentimentos, nosso destino é ficar juntos, não posso mais fazer nada. Talvez mamãe me odeie, mas eu já fiquei tempo demais longe de Felicity e do meu filho, não quero mais passar um dia longe dos dois. Assim como Felicity fez uma escolha no passado que mudou completamente a sua vida, eu estou fazendo a minha. Escolho Felicity e o meu filho, nem que por isso, tenha que conviver com o ressentimento da minha mãe.
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