Notas iniciais
Lena havia ido embora, junto com seus pais e irmãos, da festa sobrará apenas eu, além de meus tios, meus primos e claro Adam, ninguém na casa pensou em jantar, os empregados de meus tios limpavam toda a parte externa e as varandas, eu e Adam fomos pra dentro de casa, pra uma das salas de entretenimento da casa, enquanto umas das arrumadeiras aprontava o quarto de hóspedes. Adam continuava comigo. — Você não se chateia se eu te perguntar uma coisa? — Adam perguntou. — Não primo. — Respondi. — Senti que tu olhava pra Lena de uma forma diferente hoje, tu gostou dela? — Adam perguntou. Eu dei risada e olhei no fundo dos olhos dele. Adam era branco, mas a pele atualmente era bronzeada em um tom muito claro, os olhos eram da cor de mel recém tirado, cabelo curto e começo de barba da puberdade. — Se eu lhe contar primo, tu nem acreditaria. — Falei e Adam sorriu. — Oush pois conte rapaz, vai ficar com esses sentimentos tudo guardado aí? Num pode! — Adam falou. — Eu estou apaixonado por uma pessoa, só que essa pessoa está apaixonada por outra pessoa, Acho que é isso. Dor de amor. — Falei e Adam sorriu. — Dor de amor, ih primo, essa dor é a pior de ser curada. Essa você só cura com vinho e outro amor... — Adam falou. Nossos rostos estavam tão próximos, sentia a barba dele quase que me roçando. Quando finalmente virei o rosto, ficamos a pouco mais de 7 centímetros dos lábios um do outro.... Estávamos sentados num dos sofás, quase que abraçados, quase que nos beijando, quando finalmente, nossos lábios se tocaram. Tocaram e eu pude finalmente sentir Adam mesmo que nossos lábios estivessem apenas se tocando, era um começo. — Primo, mil desculpas, acho que isso foi involuntário. Devemos estar muito bêbados, pra deixar com que isso aconteça. — Adam falou. Eu acabei soltando um riso involuntário. — Acho que devemos ir dormir. — Adam falou e eu concordei acenando com a cabeça, uma das empregadas acabou vindo me ajudar e me levou ao quarto de hóspedes ao lado do de Adam, eu sentei primeiramente no banquinho que estava ao lado do baú onde minha tia costuma guardar o enxoval do quarto. Esfreguei meu rosto com minhas mãos. — Porcaria! — Falei. Pensando como poderia ter estragado as coisas com Adam. — Acho que preciso me desculpar, sou uma péssima pessoa. — Falei novamente sozinho. Sai do quarto e fui em direção ao de Adam. Abri a porta e lá estava Adam, sentado na cama, tirando a camisa branca que usava na festa. — Adam, eu preciso me desculpar com você, o que aconteceu há pouco. — Falei e Adam fez um sinal para sentar na cama. Eu entrei, fechei a porta e sentei na cama, quando Adam passou a mão pelo meu rosto e me beijou, me beijou como se beija uma garota, me beijou com uma força, com carinho e consegui finalmente sentir o cheiro dele ainda mais de perto. Cheiro de brisa de verão, cheiro de Adam.
A Noite me rendeu carinhos, caricias e Adam e eu como se fossemos um, como se fossemos mil, eu nunca tinha sentido tanta dor e prazer junto ao mesmo tempo. A dor que eu sentia, era equivalente ao dente, a dor de amor. Será que essas dores doem tanto ou eu que sou fraco para o amor? Passei metade da noite pensando nisso, até que por volta das cinco da manhã retornei ao meu quarto, quarto que estava tão arrumado e limpo, diferente do de Adam que cheirava a ele, cheirava a mim e ao nosso suor nos cobertores e no mosquiteiro, quando Adam dormiu, eu continuei acordado, pensando na vida, pensando no que tinha acabado de acontecer. Em nós. Em nós, nós juntos como uma corda. — Bem que poderia ser assim todos os dias da minha vida. — Falei enquanto do meu lado Adam dormia. Minha mente correu e percorreu caminhos que eu jamais imaginaria. Nós dois fugindo de Mar Grande, indo para a capital, indo pra Bahia, até mesmo em direção a São Paulo. Essa era a vontade que eu sempre tive, mas a coragem que me faltou. Levantar da cama foi complicado, primeiro por querer ficar ali naquele pequeno universo que eu estava com Adam, segundo por querer ter um foto retrato daquele momento e por último, mas não menos importante, como queria continuar com aquele sentimento que tive, as sensações, as cores. Os beijos.... Me joguei em minha cama, com um sorriso que ia de orelha a orelha. — Sinto que minha vida está para mudar, logo posso dar adeus a Mar Grande. — Falei antes de cair no sono e me embriagar em meus sonhos de um futuro, onde pudesse contar ao meu pai quem eu era, em finalmente ser feliz. Sonho que só durou até às dez da manhã, quando minha tia me acordou. —Lander acorda, que se teu pai vier brigar comigo, vou colocar a culpa em ti. — Minha tia falou e eu comecei a me mexer e sair do futuro que eu sempre quis ter. — Vem menino que o café já tá na mesa. — Minha tia falou e fechou a porta. Eu acordei, arrumei meu calção que estava parecendo ter saído de uma garrafa de tão amassado, quando finalmente levantei e fui em direção a cozinha e lá encontro minha tia, que bem sentada catava o feijão. — Dormiu bem né? Dormiu até essas horas. Se teu pai vier me falar alguma coisa, tu que vais ouvir viu! — Minha tia falou dando risada. — Dormi tanto tia que até sonhei, sonhei tanto, que quase não queria acordar. — Falei e minha tia deu risada. — Sonho com alguém é? Sonho assim só pode ser com mulher! — Minha tia falou. — Não posso contar tia, se não num realiza. — Falei, indo em direção ao armário e pegando uma das xícaras que estavam lá, assim como na tarde anterior, a mesa de café estava posta e nela tinha de tudo. Queijo de cabra, cuscuz, beiju. Tudo que poderia ter. — Cadê Adam, tio e as meninas? — Perguntei a minha tia. Fora Adam, Tia Serena tinha mais três filhos homens, Arn e Vicent esses moravam na cidade, estudavam na escola católica, Arn para Padre, Vicent pra Advogar. Então sobravam Adam, Luna e Elisabeth. Além de tio Coriolano. — As meninas nem comem, só pensam em correr, ir a escola e brincar, seu tio e Adam desceram pra roça muito que cedo, na esperança de ver o canavial e os canavieiros que chegaram do sul. — Tia falou. Eu comecei a comer, quando tia olhou pela janela. — Mas não se preocupe, Adam vai lhe levar a cidade na carroça e você pode até levar Crispim. — Tia falou. Fazia tempo que Crispim não ia pra casa, inclusive pra deixar claro, mesmo que não pareça, Crispim é um burro e não um humano. — A menina vai arrumar as coisas pra tu levar pra tua mãe, ela até já levou um bom bocado de coisa, mas tem umas pra ti ainda. — Tia falou e eu dei risada, tomei o café com um cuscuz que faria até Gonzagão se arrepiar. Eu sai da cozinha e fui pra frente da casa, encontrei na frente Crispim, já com sacas, cuias e sela. — Oi Crispim. Quanto tempo que a gente não se via, tu tá até mais jovem! — Falei passando a mão entre as orelhas, na cabeça do jumento. Ele rinchou e eu dei risada. Logo que eu e Crispim começamos a conversar, Adam chegou junto com meu tio, ambos em seus cavalos. Adam sorriu e meu tio acenou com a cabeça. — Bom dia Zé preguiça. — Adam falou e eu dei risada. — A noite foi boa né fio, por isso acordou tarde. Bebeste demais também. — Meu tio falou, quase que dançando maracatu encima do cavalo. — Também tio. A festa estava animada por demais né? — Falei olhando pra meu tio. — E tu acha que nem vi tu de papo encima de Helene né? Pelo jeito tens concorrência viu Adam! — Meu tio falou. — É Adam me falou que ela é uma pessoa deveras interessante e destemida. — Falei ficando um tanto corado. Adam me olhava com um sorriso estampado no rosto e eu me sentia a pessoa mais feliz do mundo. Aquele sorriso me atravessava mais forte que um tiro. Na minha mente só me via chegando na igreja com meu terno branco, montado em Crispim, Adam com seu terno cinza e as botas de couro e esporas em seu cavalo alazão, chegando e o padre casando a gente...
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