Wizard
32 Capítulo 14 - Second Season
Notas iniciais
Estávamos sentados em uma mesa redonda, nos fundos da casa de verão. Era eu, Carla, Clara e Renata, junto com a pessoa que avaliaria o nosso material, Amadeus. Já fazia uma hora que ele apenas analisava os objetos com algumas ferramentas que não reconheci, e só ouvia murmúrios vindos dele. Ele estava com a Joia da Vida do rato-cego mãe há alguns minutos, agora ele devolve a mesa e se recostou, apesar da face quase neutra, tinha um olhar surpreso nele.
— Não vou mentir pra vocês, os itens são realmente de monstros. – Ele disse por fim. – As peças dos Ratos-cegos e dos Morcegos Gigantes não valem muito, mas o restante, se vendido a pessoa certa vai poder comprar um terreno grande como esse. Tranquilo.
— Pera, realmente vale assim tanto? – Perguntei.
— Apesar de que, na minha opinião como Ferreiro Bestial, valia mais a pena refinar ou transformar em itens do que vender como matéria-prima. – “Ferreiro Bestial, esse termo não me é estranho”. Forcei um pouco a minha mente e lembrei que ferreiros comuns não conseguiam trabalhar com matéria prima de monstros, mas um grupo de clãs, em algum ponto da história, aprendeu a usar certas magias vindas de cromatinas únicas pra moldar e criar itens, eles acabaram conhecidos como Ferreiros Bestiais.
— Tem certeza que não é só pra lucrar um pouco? – A Regina disse sorrindo.
— Também. – Ele respondeu. – Podemos fazer o seguinte. Pelo que eu vi os seus parentes não tem nenhum set de armaduras, ou armas realmente funcionais. Eu vou levar poucas peças de ratos cegos e morcegos gigantes, faço algumas coisas e caso gostem, eu trabalho o resto e ganho uma parte, caso vender, se não só cobro uma pequena quantia de matéria prima pra mim.
— Vamos pensar com carinho. – Ela disse. Eles apertaram as mãos e a Carla o levou até a saída.
— Edu, onde está o restante? – Perguntou a minha mãe.
— Em Somnia, por que a pergunta?
— Bom, você disse que o calabouço que vocês entrariam se renovaria.
— Isso, pelo que entendi precisa de um tempo pra ele se recuperar, depois os monstros voltarão. Embora, talvez não alguns. Tipo o Minotauro, o rato-cego mãe, o Verme Gigante...
— Imperial. – Olhei meio confuso pra ela. – Os outros nomes estão certos, mas os vermes se chamam Verme Imperial, provavelmente vocês enfrentaram a Rainha deles também.
— Então, — a Carla voltou e sentou em uma das cadeiras. – o que vão fazer com o nosso espólio?
— Nosso? – a Renata perguntou.
— Bom, foram nós que lutamos lá embaixo pra conseguir isso. – Disse a Carla. Minha mãe se levantou pra debater, dava pra ver minúsculas brasas aparecendo no ar. Literalmente.
— Ok, que tal assim, podemos ir uma segunda vez pegar mais itens, mas não tão despreparados como dessa vez. Aí passamos tipo 60% do que pegarmos pra vocês, em valor bruto claro.
— Mas o de agora viraria novos itens pra vocês. – A Renata entendeu o ponto. Podíamos fazer dali alguma renda pra nossa família, para as nossas famílias. Mesmo que não tão legal assim. – O quão ilegal isso é agora?
— Bom, vou ter que pesquisar nos registros. Pra mim precisei apenas cadastrar as minhas armas e Gem, o que foi de certa forma ok. Mas agora quanto a vender, sinceramente não sei.
— De qualquer forma, apesar de não tão feliz assim, concordo com o que ele disse, podemos ir lá mais vezes, mas essa primeira remessa podia virar algum equipamento pra nós. Talvez algumas armaduras leves e escudos, já que magia de larga escala é impraticável lá.
— Teria um cômodo vazio por aqui? – Perguntei.
Minha mãe me entregou o meu pendante, recarreguei e trouxe todo o nosso espolio de volta. Separamos e contamos tudo, depois pegamos a lança e o cajado e fomos para o deserto, seria melhor do que perder o controle tão perto de casa.
Testamos a lança, mas não apresentava nenhuma magia, apesar de ser bem resistente. Renata entregou o cajado à Clara, que imbuiu sua magia nele. Assim que parecia carregado, ela apontou para um ponto na areia, mas nada aconteceu.
— Então, quando estiver pronta. – A Carla disse.
— Eu estou tentando! – A Clara disse. Senti um calafrio quando ela tentava usar a magia, de alguma forma parecia que sentia ligado a ela. Olhei para a Carla e, pela cara, também sentia algo parecido. Eu fiquei ao seu lado e segurei o cajado também. Senti a energia fluir por mim, como se meu sangue fervesse, mas não me queimava. Senti também um vento gélido, olhei para a areia, mas tudo ficava cada vez mais escuro, como se de repente o dia se transformou em noite. Suportei por alguns segundos essas sensações, e quando acabaram, sussurrei Chama das Trevas. O ponto onde havia mirado surgiu uma esfera negra, e tudo num raio de 20 metros ardeu num turbilhão de chamas negras. Mesmo afastados, podíamos sentir o calor emanado dali.
— Como?
— Eu não sei, só toquei no cajado e foi a primeira coisa que passou na minha cabeça.
— Deixa eu tentar. – A Carla segurou o cajado e, assim que imbuiu sua magia nele, disse Chama das Trevas. Novamente uma área foi completamente apagada pelas chamas, deixando apenas um monte de vidro deformado.
— Talvez ele aceite apenas aqueles que fizeram a Dungeon. – Eu disse. Depois da Clara tentar mais duas vezes, ela desistiu e entregou para mim. Voltamos para a casa e chamamos o Amadeus. Entregamos parte dos itens de morcegos gigantes e ratos-cegos, pra vermos o que ele conseguia fazer, ele pediu um prazo de uma semana. A Renata concordou e assim que fechado o acordo. Ele partiu alegre com a nossa carga.
— Bom agora com isso feito o que faremos? – Disse a Cláudia. Os outros ficaram na casa, foi a punição que a Renata deu a eles, apesar de serem felizes por ainda poderem ficar com suas pedras.
— Voltamos pra nossa rotina. – A minha mãe disse. Peguei uma folha no meu bolso, quando abri vi a runa que tinha anotado. Como nem mesmo nas memórias que herdei tinha algo relacionado, fiquei muito em dúvida. Sem contar que também as via no meu escudo e pendante.
— Cláudia, pode fazer um favor pra mim? – Ele voltou atenção pra mim e o papel que estava segurando. – Tem como descobrir se alguém consegue ler isso? – Ela pegou a folha e me olhou desconfiada.
— Onde você viu esse símbolo?
— No topo do cajado, por que?
— Como?
— Pelo meu outro olho, sério por quê? É ruim assim?
— É só incomum. Só. Ok Eu procuro por isso, mas não conte a muita gente que pode ver essas runas.
— Ok...
Depois de me despedir de todos, voltei de carro junto da Carla e Clara, estava sozinho no banco de trás, então pude dormir bem durante a viagem. Quando estávamos próximos da nossa cidade, minha mãe me acordou.
— O que aconteceu?
— Nada. – Ela conferiu se a Carla estava dormindo antes de continuar. – Vi o desenho que você entregou pra Cláudia. Onde conseguiu aquilo? — Eu gaguejei um pouco, ela fechou o semblante, então engoli seco antes de responder.
— Eu vi aquilo no cajado com o olho de peixe.
— É um órgão feito por magia, já suspeitava. Há quanto tempo você vê essas runas?
— Desde que consegui enxergar, na Dungeon, por quê?
— Por que outras pessoas podem querer isso de você. Poder ver runas, aliado ao conhecimento de decifrá-las, pode revelar magias e várias outras coisas antes de você enfrentar alguém, ou entrar em certos locais. Pessoas matariam por esse seu olho.
— Pera, eles podem arrancar o meu olho?
— Podem sim.
— Que ótimo.
— Olha, desde que não espalhe pra cada pessoa que conhece, vai ficar tudo bem. – Ela dirigiu por um tempo, enquanto repetidamente tamborilavam os dedos. — Pra quantas pessoas você contou?
— Você e os meus primos. E a Alice.
— Tente não contar pra mais ninguém.
Voltei para a escola, estava sentado no meu lugar, lendo o livro de história quando a Alice chegou.
— Hey. – Ela disse se jogando na cadeira. – O quão encrencado ficou?
— Sem pendante e magias por um mês. E você?
— Presa em casa até “criar juízo”. O que pode acabar amanhã ou talvez ano que vem.
— Pelo menos ainda tem a sua Gem.
— Você pode andar por aí, então não reclama tanto. – Abri um pequeno sorriso. Fechei o livro e olhei ao redor, vendo se tinha alguém prestando atenção em nós. Como não, puxei a minha cadeira pra perto dela e sussurrei.
— Quanto as nossas coisas, bom, acho que vão virar itens pra nós voltarmos na Dungeon.
— Incluindo o cajado? – Concordei. – O que ele faz mesmo? – Expliquei pra ela sobre a magia Chama das Trevas e quem podia usá-la. – Caralho, que foda! E quem vai ficar com ele?
— Bom, no momento, ninguém, tudo ficou na casa de verão ao cuidado da mãe da Cláudia. Relaxa, quando for repartir tudo, eu levo você até lá.
— Aé? – Ela disse sorrindo. – Quero ver convencer a minha família a deixar eu sair com você.
— Então vai ser um encontro? – Ela corou e virou o rosto antes de responder.
— É o que parece não? Você e eu em uma viagem... digo todos vão pensar assim.
— Talvez. – Coloquei a mão no queijo, fingindo pensar sério no assunto. Ela fez um biquinho, tirando uma risada de mim. – Hey, fica tranquila, deixa comigo que eu convenço ela. – O professor entrou na sala, então voltei para o meu lugar. Passou alguns minutos, mas essa sensação não saía de mim, meu coração ainda batia rápido, mal conseguia me concentrar no que ele dizia. Olhei de canto de olho pra Alice, ela estava concentrada na explicação. “Será que estou me apaixonando de novo?”, olhei mais a frente e vi minha ex trocando mensagens com alguém. Suspirei, batendo de leve o meu lápis na mesa. “Realmente espero que não.”
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