Wings of Fate
1 Uma notícia inesperada.
Notas iniciais
O garoto entrou na forja, arfante. Contornou suavemente a forma negra e redonda do dragão a cochilar. Ressonava tranquilamente, alheio ao som de metal sendo moldado. Avistou seu objetivo logo: usando apenas calças e o pesado avental de couro de ferreiro, Soluço fazia ganhar forma um enorme machado de batalha de duas lâminas, martelando-o sobre uma bigorna. O aço gemia a cada batida, fazendo o garotinho de seis anos se encolher e levar as mãos aos ouvidos. Seus músculos se moviam quase automaticamente. Apesar do constante frio de Berk, Soluço transpirava em bicas. As gotas de suor moviam-se conforme a vibração das batidas, delineando os contornos dos músculos construídos por anos de trabalho na forja. Soluço franzia a testa em concentração quando Banguela grunhiu para avisá-lo da presença do garoto. Ao virar-se para Banguela Soluço o viu, sorriu para ele e limpou o suor da testa com as costas da mão.
– Olá, Bjorn. Veio buscar a encomenda do seu pai? Só um segundo, vou ver onde o Bocão guardou.
– Na verdade, Soluço, eu vim a pedido do seu pai. Ele pediu que você fosse encontrá-lo no Grande Salão.
As sobrancelhas de Soluço ergueram-se. O que era tão importante a ponto de precisar interromper o trabalho dele com Bocão? Justamente no momento em que Soluço pensou no que diria ao gigante louro de mãos intercambiáveis, Bocão apareceu.
– Acho melhor que você vá. É importante.
– Você sabe? Há algum problema, Bocão? – Soluço inquiriu, enquanto vestia a camisa.
– Isso é um assunto entre você e o seu pai, garoto. É melhor que eu não me intrometa. Vou ficar bem por aqui. Não se preocupe, eu termino esse seu machado.
Soluço assentiu e lançou um olhar rápido para Banguela, que ergueu seu corpanzil e seguiu-o para fora da forja até o caminho para o Grande Salão. As pessoas passavam por ele sorrindo e acenando, perguntando como estava, o que vinha fazendo. Soluço nunca se acostumaria com essa atenção. Quando mais jovem, todos faziam o melhor possível para ignorá-lo como se ele fosse uma doença contagiosa.
Quando entrou, Estóico estava de costas para ele, as duas palmas das mãos apoiadas na mesa. Banguela entrou atrás de Soluço e fez uma expressão curiosa, as pupilas dilatadas enquanto seu amigo fechava as duas portas imensas. Estóico não fez menção de se virar para ele, e Soluço viu enquanto se aproximava que ele tinha um papel prensado abaixo de uma das mãos.
– Pai – disse em um tom cauteloso. – O senhor queria falar comigo?
– Filho. – soltou um longo e pesado suspiro antes de se virar para ele. – Sim. Eu quero. Filho, como você bem sabe, sua ajuda com os dragões tem aberto novos horizontes para o nosso povo. Nós pudemos unir os clãs vikings em outras ilhas, pudemos trocar e somar recursos, e nosso povo está crescendo, filho. Mais forte do que nunca, e tudo graças a você.
Soluço franziu as sobrancelhas, sobressaltado. Quando seu pai começava a falar sobre as realizações dele, normalmente a conversa vinha acompanhada de responsabilidades. Exatamente como quando a cinco anos atrás, seu pai havia lhe entregado as chaves da antiga arena de combate e lhe dito que era sua responsabilidade transformá-la em uma academia para treinar os dragões.
– Pai... – Interrompeu Soluço – Onde exatamente o senhor quer chegar?
Estóico suspirou. Nunca fora bom com palavras, mas sempre tentava fazer o melhor que podia.
– Tem havido certas incursões, filho. Nosso povo tem viajado para cada vez mais longe nas costas dos dragões e parece que dessa vez chegaram a um lugar que não pertence ao povo viking. Houveram acusações e trocas de farpas dos dois lados. Um incidente diplomático. Hoje cedo recebi uma mensagem do governante local, um homem chamado Fergus. Pelo que eu li parece ser um homem justo, que assim como eu não deseja a guerra. Ele sabe que temos os dragões e teme pela segurança do seu povo. Ele propôs um tratado de paz...
– Um tratado de paz? – Soluço interrompeu novamente, os olhos ganhando um brilho maníaco — Pai, mas isso é ótimo! Pense nas possibilidades! Uma nova rota de comércio, talvez novas espécies de dragões, novas culturas. Seria maravilhoso!
– Sim filho... Mas ainda há um porém. – Estóico levou a mão á testa.- Ele deseja algo em troca.
– Não me diga que ele quer os nossos dragões?
– Não filho. Parece que esse homem tem uma filha em idade de se casar. Da sua idade... – Estóico parou subitamente, lançando um olhar penetrante ao filho.
Soluço parou por um momento. Seus olhos fixaram os do pai, a perplexidade estampada em seu rosto. Depois desviaram-se, percorrendo todo o salão, as grandes estátuas dos seus ancestrais vikings até pararem subitamente nos olhos de Banguela. Soluço apoiou as duas mãos nas laterais da cabeça de Banguela, prendendo os seus olhos aos do amigo, que sempre fora seu porto seguro. Quando falou, não olhou para seu pai.
– Eles querem que... eu me case com ela. – ele falou, calma e pausadamente, ponderando o som e o significado de cada palavra.
– Não exatamente, filho. Há uma competição entre os clãs deles. Ao que parece os candidatos devem mostrar seu valor através de provas de força, inteligência, não sei ao certo. Somente o vencedor pode se casar com a princesa, se ela assim o quiser. Eles propuseram que você seja o representante do nosso povo este ano, por ser o filho do líder.
– E se eu vencesse, teria que me casar com ela?
– Talvez. Ela é uma princesa, afinal, pode ser que ela não te escolha. Mas filho, apenas a sua participação nos torneios já iria assegurar o tratado. Você poderia...
– ...evitar uma guerra. – Soluço falou, completando as palavras do pai. Pensou por um instante no que elas significavam. Se seu pai tivesse lhe dito aquilo cinco anos antes, ele teria pensado por muito tempo antes de dizer sim. Mas agora as coisas eram diferentes. Soluço amava Berk. E um dia ele seria o líder. O crescimento do seu povo era algo que o interessava. E se houvesse uma guerra, Berk teria que recorrer aos dragões. Haveria perdas terríveis, tanto do lado deles quanto dos inimigos. Poderiam nunca se recuperar.
– Eu aceito.
Estoico estava boquiaberto. Olhou para o filho, incrédulo.
– Você aceita?
– Sim. É o melhor para Berk. Se o meu casamento puder impedir uma guerra, então acho que é um preço pequeno a se pagar pela paz. E além disso, essa princesa seria louca se me escolhesse.
Estóico franziu as sobrancelhas. Soluço estava errado neste ponto. Desde que ele combatera o grande dragão Morte Rubra, haviam chovido propostas de casamento arranjado, mas Estóico negara todas. Seu filho perdera a perna para que a paz entre vikings e dragões fosse conquistada. Não poderia lhe pedir mais do que isso. Os invernos mais frios eram fáceis de suportar graças ao calor fornecido pelos dragões. Havia comida suficiente para todos e as casas não precisavam ser refeitas o tempo todo. Haviam expedições para encontrar novas ilhas e povoá-las e quando eram habitadas, unir os clãs vikings sob uma bandeira de paz. Não. Não poderia pedir mais que isso. Mas mesmo agora, mesmo quando Estóico precisava mais do filho, ele agira com maturidade e aceitara tudo, sem questionar. Era um líder nato, e saber que não reconhecia seu valor deixava Estóico transtornado.
– Ela seria louca se NÃO te escolhesse filho. Partiremos daqui a três dias. Vou recolher suprimentos e organizar a viagem.
Soluço deu um sorrisinho sem graça e caminhou lentamente para fora do salão, acompanhado por Banguela. Queria ficar sozinho, como na época em que eram apenas ele e Banguela, voando as escondidas. Desde que derrotaram o Morte Vermelha, Soluço não tivera mais um segundo de paz. As mesmas pessoas que antes o renegavam estavam constantemente querendo sua atenção. Havia o trabalho na arena, claro, ele tinha que repassar aos outros o que havia aprendido. Mas o seu tempo livre não era mais tempo livre. Ele não conseguia mais nenhum minuto sozinho com Banguela, só pra pensar. Bocão percebeu, e disse que se ele ainda quisesse, poderia voltar a ajudar na forja. Quando Soluço aceitou, as garotas faziam fila na porta, acumulavam-se em cada janela, e ele deu suas esperanças por perdidas, até Bocão enxotá-las sob a ameaça de que se voltassem, ele as usaria para alimentar o fogo. Havia sempre muito trabalho, mas Soluço não se importava. O trabalho o ajudava a pensar. E afinal, fora na forja que seu elo com Banguela fora consolidado, quando ele construiu a cauda protética para o amigo. Era para lá que ele se dirigia quando foi abordado por seus amigos.
Cada um estava acompanhado por seu dragão. Soluço evitou olhar para Astrid. Não sabia como lidar com ela. Quando pequenos eles nunca haviam sido próximos, mas quando ela descobriu sobre Banguela as coisas pareceram se encaixar entre eles. Após o frenesi da Morte Vermelha quando as coisas se perderam em um turbilhão de novas responsabilidades para ambos, ela começou a parecer...distante. Soluço não a havia pressionado desde então. De repente eles não pareciam certos um para o outro, como um par de suportes para livro mal casado. Astrid era uma tempestade de verão, que vinha e levava tudo de uma vez, vento, fúria, granizo. Soluço era estável como uma brisa suave. Depois desse distanciamento, ele não sabia muito bem como se sentir em relação a ela. Melequento interrompeu seus pensamentos.
– Cara, eu não queria estar na sua pele. – ironizou.
– Nem eu. – completou Cabeça Dura. – Casar? Aos Dezenove anos? E com uma princesa?
– Qual o problema ela ser uma princesa? – Cabeça Quente rebateu, como sempre era contrária as opiniões do gêmeo.
– Princesas são mimadas e desagradáveis. Gostam de ser obedecidas o tempo todo e são todas cheias de não me toques. Quanto tempo vai levar até que ela te proíba de ver o Banguela e voar nele?
–Proibir? – ele perguntou, de sobrancelhas erguidas, lançando um olhar de pânico ao dragão.
– Isso nem é o pior. E se ela for feia? Pode ser cheia de espinhas. Ou muito gorda... – Melequento continuou.
A expressão de Soluço se tornou cada vez mais aterrorizada.
– Ou tão magra que parece que vai quebrar. – Interrompeu Perna de peixe — Ou ela pode...
– Parem com isso vocês todos. – A voz de Astrid silenciou-os – Soluço está fazendo um grande sacrifício por nós. – Olhou cada um nos olhos, como se os desafiasse a contradizê-la. Um a um eles desviaram ou baixaram o olhar. Ela sorriu com o canto dos lábios para Soluço, de um modo que só ele podia ver. – Vão ficar aí parados? Temos que preparar a viagem!
– Vocês vão conosco?
– Eu não irei, mas eles sim. Vou tomar conta da academia até que você volte. – disse enquanto ia enxotando todos – Vamos, vamos, eles vão partir em três dias...
Soluço olhava, perdido em pensamentos enquanto o pequeno grupo se dispersava. Astrid com certeza seria uma boa líder. Ela tinha tudo o que ele não tinha: energia, determinação e ela emitia autoridade. Banguela enfiou a cabeça por baixo das mãos dele. Tinha a preocupação estampada na face e Soluço não pôde deixar de sorrir. Ninguém conseguia ler suas emoções como Banguela. Talvez Bocão chegasse bem perto, mas o seu melhor amigo lia seu coração como um livro de letras grossas.
– Estou bem, amigo. Vou ficar. Tenho que ficar. – disse baixinho, ao entrar na forja.
– Claramente que não está. – Bocão, surgindo subitamente atrás dele. – O que está perturbando você?
– Eu disse ao meu pai que aceitaria competir nos jogos. – Soluço disse, estudando a expressão do ferreiro.
– Nunca duvidei que você faria isso.
– Eu só... Não sei se foi a escolha certa.
– Soluço. Ouça. Por muito tempo, todos acharam que você era um caso perdido. Até eu achei.
– Ah, obrigado mesmo. Sua sinceridade é comovente.
– Escute, eu ainda não terminei. O que eu quero dizer é que você é diferente de nós. E quando eu digo isso, não quer dizer que seja algo ruim. Você é capaz de ver e sentir coisas que os outros não podem.
– Eu...
– O que eu estou tentando dizer é... Ah Thor, todo poderoso, eu nunca pensei que diria isso... Só... Seja você. Tem dado certo para todos nós, então não deixe que os outros coloquem ideias na sua cabeça. Entendeu?
Soluço sorriu.
– Obrigado Bocão.
– Agora vamos trabalhar.
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Dunbroch
– Vikings? – Merida ergueu-se da mesa subitamente — Ah, mãe, isso não pode ser sério.
– Abaixe a voz, filha. Estou bem ao seu lado. – disse a Rainha Elinor.
Os trigêmeos se olharam e se levantaram da mesa ao mesmo tempo. Quando Merida falava naquele tom de voz, ninguém queria estar perto.
– Por que um viking tem que competir pela minha mão? Vikings são feios, enormes, peludos, sanguinários e eles fedem!
Elinor franziu o sobrolho.
– Ah é mesmo? Quantas vezes você saiu das nossas terras, filha?
– Ah, mãe... Não é isso que eu...
– Quantas? – Perguntou Elinor novamente, num tom que não dava margem a discussões.
– Nenhuma. – Merida respondeu, cabisbaixa.
– E quantos vikings você conheceu em seus dezoito anos de vida?
– Nenhum...
– Deve ter ouvido muitas canções sobre eles, pesquisado em mapas... Certamente deve ter lido a respeito deles, não? O quanto você sabe sobre a cultura deles?
– Nada... Mas eu... – Merida falou, apenas para ser cortada pela voz da mãe.
– Nada. Claro. Mas ainda se vê no direito de fazer essas suposições maldosas sobre os nossos convidados? Uma princesa não faz esse tipo de comentário mal educado sobre seus hóspedes.
– Mas mãe! – Merida ergueu subitamente o tom de voz, ao ver que estava perdendo o argumento — As pessoas falam!
– As pessoas falam – disse Elinor pausadamente – Que uma princesa cruel e egoísta, em uma tentativa de envenenamento mal sucedida transformou a própria mãe em um urso na esperança de evitar um casamento e tomar o reino para si.
Merida arregalou os olhos. Não sabia que diziam isso dela por aí.
– Não dê ouvidos aos outros, Merida. Você é uma princesa. Seja educada, ainda que os outros não sejam. Você não os conhece. Esse rapaz se dispôs a viajar de muito longe para competir pela sua mão! Não seja tão rápida em julgá-lo. Trate-o com o mesmo respeito que você dirige aos outros clãs. Prometa que vai tentar.
– Sim, mãe. Eu prometo.
Elinor ergueu-se da mesa e desapareceu entre os corredores, deixando Merida com seus próprios pensamentos. Merida suspirou resignada, lembrando-se das histórias que as criadas contavam sobre os vikings. Algumas descreviam-nos como homens bárbaros, peludos e barbados, com uma sede de sangue interminável. Chegavam por mar, em fabulosos barcos de madeira que cortavam as águas como as flechas rasgam o ar e ancoravam na areia graças aos cascos rasos. Outras pessoas diziam que nunca tomavam banho. Outras que eram gigantes e exímios lutadores.
Sua mãe tinha razão. Não podia se basear em fofocas de criadas. Caminhou devagar pelos corredores, mas parou ao ouvir sussurros vindos de um dos quartos. Duas camareiras conversavam baixinho.
– Não servirá de nada fazerem outros jogos. A princesa não vai escolher nenhum pretendente este ano, assim como não escolheu nos outros.
Merida deixou escapar um arquejo, e levou a mão aos lábios.
– Ouvi dizer que o clã McGuffin não queria mais fazer parte dos jogos. Uma criada que viaja com eles disse á minha irmã que se a princesa Merida não escolher um pretendente ainda este ano os McGuffin não participarão mais do torneio.
– Mas por que?
– Ora, o primogênito dos McGuffin não pode esperar para sempre. Merida tem que se decidir, o tempo que ela está fazendo os clãs perderem poderia ser usado para cortejar outras noivas. Há rumores de que até o jovem DingWall tem pretendentes nas terras dele.
Merida arregalou os olhos. Até mesmo DingWall? Tentou imaginá-lo sendo desejado por alguma garota, com seu olhar embasbacado. Não conseguiu.
– Além disso, a princesa está ficando velha. Ainda é muito bonita, mas está ficando velha, e logo não sobrarão muitos pretendentes para ela. Ninguém quer uma esposa com mais de vinte anos.
Merida continuou a caminhar silenciosamente pelos corredores, pensando no que ouvira. Se aquilo era verdade, então o pai dela teria que subir mais e mais o seu dote ao longo dos anos. As propostas de casamento minguariam. Ela prometera à sua mãe que escolheria quando estivesse pronta. Mas se esperasse demais, acabaria por não cumprir sua promessa nunca. Seus pais acabariam que ter que escolher alguém para ela, e ela se veria obrigada a aceitar, por não ter mais nenhuma escolha. O tempo corria contra ela, e não podia esperar mais. Desta vez ela teria que escolher, pronta ou não.
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