Wings of Fate
5 Sobre deveres e convicções.
Notas iniciais
A princesa abriu o lacre de envelope. A carta fora redigida numa folha grossa de velino de cor creme, assinada de próprio punho pela rainha, adornada com o brasão de Dunbroch. Merida franziu a testa e leu as palavras escritas na caligrafia impecável da mãe:
“Espero que esta carta lhe encontre bem e sem ressentimentos. No momento em que você concordou instantaneamente com sua partida para Berk, eu soube que não se curvaria aos desejos de seu pai. Eu simplesmente sabia, pois você é minha filha. Acredite em mim quando digo que não há nada mais doloroso para uma mãe do que ver seus filhos longe, mas essa é uma escolha que não me pertencia. Temos uma obrigação para com o Reino, Merida, e essa obrigação está acima de nossos desejos pessoais, até mesmo dos nossos sentimentos. Esse é o preço que nós pagamos pelo nosso posto privilegiado. Nós apreciamos os privilégios, porque, quando chega a hora, temos que enfrentar o perigo e tomar decisões que nos desagradam. Como uma princesa, você não é exceção a essa regra. O seu dever no momento é permanecer viva, juntamente com seus irmãos. A linhagem de Dunbroch deverá ser mantida incólume e se o pior sobrevir a nós, guardo comigo a esperança de que você e seus irmãos tomem de volta o que lhes é de direito. Você é jovem e como tal, age com o coração. Mas suplico que procure a verdade por trás das minhas palavras.
Não guarde mágoas de seu pai. Ele agiu com a firmeza de um rei, fez o que era preciso. Ninguém jamais a amará como nós amamos. Entenda isso e será mais fácil aceitar o que está por vir. Proteja seus irmãos, Maudie não será capaz de mantê-los na linha sem a sua ajuda em uma terra povoada por dragões. Seja gentil com Soluço e ajude-o, se puder. Ele está assumindo uma responsabilidade muito pesada para alguém tão jovem, será muito bom para o seu aprendizado observar como ele se sai. E não se esqueça de quem você é. Em uma ilha viking ou não, você ainda é a princesa de Dunbroch e tenho certeza de que não me envergonhará.
Com amor incondicional,
Elinor.”
Merida enxugou as lágrimas do rosto e fungou de leve. Virou-se para seus irmãos. Esperava que ainda estivessem dormindo, mas encontrou três pares de olhos azuis encarando-a, marejados. Os três se deitaram ao lado dela, cada um com a cabeça encostada em seu colo. Merida. Deu-se um pontapé mentalmente por não ter pensado neles. Se seu plano tivesse funcionado, como ficariam seus irmãos? Sozinhos em uma terra estranha, sem mais ninguém de sua família por perto. Apesar de não aprovar os métodos da mãe, Merida soube que tinha sido a escolha certa, no final. Sentiu-se perversa e egoísta. Os trigêmeos sempre confiaram nela e a admiraram. E ela nem mesmo pensou duas vezes antes de abandoná-los.
– Estou com medo – choramingou Hubert.
– Nós também – disseram Hubert e Hamish, quase ao mesmo tempo.
Merida acariciou os cabelos dos irmãos. Não sabia o que poderia dizer para consolá-los. Como poderia dizer-lhes que tudo ficaria bem quando ela mesma não tinha tanta certeza disso?
Os três olharam para ela, com olhinhos expectantes. Então antes que desse por si, a princesa se viu entoando uma canção de ninar, cantada para ela muito tempo antes, em um lugar muito longe dali.
A naoidhean bhig, cluinn mo ghuth
Mise ri d' thaobh, O mhaighdean bhan
Ar righinn oig, fas as faic
Do thir, dileas fhein
A ghrian a's a ghealaich, stuir sinn
Gu uair ar cliu 's ar gloire
Naoidhean bhig, ar righinn og
Mhaighdean uashaill bhan
Antes que ela terminasse a canção, os três já dormiam ressonando baixinho. Merida esgueirou-se com cuidado para fora da cama e se preparava para subir ao convés.
– Sua mãe ficaria orgulhosa — Sussurrou Maudie para ela, sem tirar os olhos do que estava tricotando.
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Soluço estava exausto. Desde que saíra da floresta com Merida não tinha comido nada, para poupar a si mesmo do costumeiro enjôo marítimo. Uma vez na embarcação, checara todas as provisões que alimentariam vikings e dragões durante a viagem. Delegou tarefas e até mesmo ajudou seus companheiros a executá-las. Seus amigos que antes o tratavam quase como um igual, agora dirigiam a ele um respeito silencioso. Enquanto os marujos vikings relaxavam, Soluço movia-se entre eles parando em cada pequeno grupo e falando calmamente, valorizando-lhes os progressos realizados durante o dia, ouvindo suas queixas quando haviam, checando se eles ou os seus suportes estavam tendo problemas.
Os vikings, mesmo sendo homens rudes e acostumados ao desconforto, comoveram-se com o cuidado que Soluço destinava a eles. Não eram homens de cerimônias e sabiam que a verdadeira autoridade e liderança vinham de partilhar o trabalho duro, não de tentar se colocar acima dele. Assistiam Soluço com aprovação enquanto apreciavam suas refeições. Todos sabiam como o rapaz deveria estar cansado desejando se deitar confortavelmente em uma rede e adormecer. Mas ele continuava a mover-se entre seus homens, garantindo que suas necessidades de alimentação e repouso fossem atendidas antes das suas próprias.
Quando terminou suas tarefas, Soluço subiu até o convés. Desde muito jovem ele havia se acostumado à solidão, primeiro contra a sua vontade, pelo isolamento imposto por seus conterrâneos. Mas quando Soluço se tornou o motivo de orgulho de Berk e as pessoas andavam nos seus calcanhares o tempo todo, Soluço começou a se sentir incomodado. Precisava de um tempo para si mesmo. Gostava do silêncio. Dava-lhe a oportunidade de organizar seus pensamentos, ceder às dúvidas e ás pressões externas, ainda que por um único momento, deixar-se levar por suas emoções sem olhos curiosos e avaliadores. Exceto os olhos de Banguela, claro.
O dragão sempre estava com ele nessas ocasiões e parecia entendê-lo. Debruçou-se na amurada com uma das mãos fazendo festa na cabeça de Banguela e pensou sobre o dia caótico que vivera. Chegar em uma terra distante, suscitar a antipatia de três clãs ao mesmo tempo, voar com uma princesa que não era nada daquilo que ele esperava, descobrir que o pai iria para uma guerra e que ele seria o novo líder, ganhar um beijo de uma rainha. Até que não era nada mal. Se ele se saísse bem, talvez um dia alguém escrevesse uma canção sobre ele.
Olhou para as estrelas, sentindo-se grato pela brisa marítima e o som das ondas. Quando chegasse a Berk seria início de inverno. Recapitulou mentalmente todas as tarefas que esperavam por ele para manter seu povo aquecido e bem alimentado, revivendo os momentos em que era seu pai a realizá-las. Ouviu passos no convés, mas não se virou. Quem quer que fosse, logo iria embora e o deixaria sozinho. Mas os passos aproximaram-se na direção dele e Soluço soube pelo som que eram leves demais para serem os de um viking. A figura postou-se ao lado dele, debruçada na amurada, os cabelos vermelhos agitando-se de leve, com a brisa. Soluço sentiu vontade de enrolar uma das mechas vermelhas entre os dedos, mas conteve-se. De repente teve medo. Estava nervoso. Ela não dizia nada. Estaria furiosa por ir para Berk contra a própria vontade? Iria descarregar sua frustração nele?
– Gostaria que soubesse que fui contra trazer você daquele jeito. – falou, sem olhar para ela, tentando remediar a fúria da princesa. — Não é o modo como faço as coisas.
– E como você faz as coisas, Soluço? – Havia algo no tom de voz dela. Raiva? Ironia? Virou-se para ela e pegou o finzinho de um sorriso. Nem raiva, nem ironia. Diversão.
– Eu só... não acho certo forçar ninguém a nada. – Suspirou, mais aliviado.
– É mesmo? Então como você doma os dragões? – ela ergueu uma sobrancelha.
– Nunca domei um dragão em toda a minha vida. – Disse, com uma certeza tão firme que a abalou. Ela olhou para ele, com a testa franzida. Soluço quase podia tocar sua curiosidade.
– Mas então como...? – ela parou subitamente, quando ele ergueu a palma da mão para ela.
– Não acredito em doma. Não uso essa palavra. Domar é subjugar, dominar. Nunca fiz isso. Jamais montei um dragão que não me quisesse em suas costas.
– Mas Banguela é o seu dragão! – Merida protestou.
– O vento pertence a alguém? E o raio? E a fúria de uma tempestade? Um dragão é como uma força da natureza. Ele estabelece um Elo com alguém e essa pessoa se torna seu parceiro. Banguela não me pertence. – O dragão olhou-o e sorriu, fechando os olhos de puro prazer com as carícias de Soluço. O rapaz voltou-se para ela outra vez. — Ele me escolheu e eu escolhi a ele. Não é uma coisa, uma propriedade que possa ser dada ou vendida. Somos amigos e isso é tudo.
Merida encarou Soluço, com uma admiração renovada. A palavras de Soluço a atingiram como uma bofetada. Merida crescera sendo forçada a fazer coisas que não queria. Durante toda a sua vida sofrera com as tentativas de sua mãe de suavizar a sua natureza selvagem – tentativas bem intencionadas, mas ainda assim catastróficas – e ali estava um homem que mantinha firmes as suas convicções em fazer justamente o contrário.
– Se você me der licença agora, preciso muito dormir. — soltou um bocejo — Estou exausto.
Merida assentiu sorrindo. Gostaria muito que ele ficasse, quase se sentiu triste por estar indo embora. Soluço caminhou com passos pesados, seguido por Banguela. Então a princesa se lembrou do motivo que a levou até o convés, em primeiro lugar.
– Soluço! – chamou-o.
O rapaz olhou-a por cima do ombro, de um jeito que pareceu perturbador e encantador ao mesmo tempo. Seu rosto ruborizou instantaneamente e ela desatou a falar para esconder o embaraço:
– Eu só queria agradecer por ter cedido a sua cabine pessoal para nós. Foi muito gentil da sua parte.
Soluço sorriu para ela e Merida prendeu a respiração até que ele se virou e foi embora. Ela fez seu caminho até a cabine. Todo o seu corpo tremia de leve. O que fora aquilo? O que estava acontecendo com ela?
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Os dias se passaram e Merida não pôde ficar mais a sós com Soluço. Sempre que o via ele tinha um ar atarefado, estava sempre fazendo alguma coisa, sempre ajudando e cuidando de seus homens. Quando um dos marujos gritou a palavra "terra" pela primeira vez, Merida não sabia se deveria rir ou chorar. O frio era de matar e mesmo agasalhada Merida estava tiritando. Seus irmãos não pareciam tão incomodados. Ao verem os dragões voando, a primeira coisa que se esqueceram foi do frio. Pararam ao lado dela, encarando as encostas rochosas de Berk com curiosidade e tagarelando sem parar.
Foram recebidos no cais com gritos e saudações escandalosas que pararam assim que os vikings notaram a ausência de Estóico e a presença da princesa, seus irmãos e Maudie. Banguela já havia corrido para terra firme, sendo recebido por dragões que vinham até ele como um enxame de abelhas. Não demorou muito para sumir da visão de todos. Um homem loiro com uma perna postiça e um gancho estranho no lugar da mão veio conversar com Soluço, que disse algumas coisas de forma resumida e breve e depois voltou ao barco para buscar Merida.
Ele foi até a rampa e estendeu a mão para ela. Merida sorriu perante o gestou e aceitou-a.
– Aquele que estava comigo era Bocão – disse enquanto ajudava os trigêmeos e Maudie a subirem no cais – Ele é o mestre ferreiro de Berk. Meu mestre.
Merida assentiu. Soluço era aprendiz de ferreiro. Quando iria parar de surpreendê-la? Ao menos isso explicava os músculos.
– Eu vou levá-los até a minha casa para que possam se aquecer.
Merida, Maudie e os irmãos seguiram Soluço encosta acima. Pelo caminho, dragões e vikings saudaram-no e pareciam honestamente felizes em vê-lo. As mulheres olhavam para Merida com alguma antipatia, em geral as mais jovens. Aqui e ali ovelhas pastavam a grama que ainda não tinha sido queimada pelo frio intenso e fugiam nervosas sempre que um dragão se aproximava demais. Merida notou que algumas garotas mais jovens usavam calças, como os homens, mas com saias estranhas cobrindo-as parcialmente. As casas eram de madeira, e em cima do telhado de cada uma delas haviam estranhos poleiros onde os dragões descansavam. No alto da colina estava a casa de Soluço.
Ele abriu a porta e a segurou para seus hóspedes passarem. Todo o interior da casa era construído com madeira rústica. O chão estava cuidadosamente polido com cera de abelha. Havia uma lareira acolhedora revestida de pedras bem no centro da sala, escudos e lanças cruzadas adornavam as paredes. Havia um catre em um dos cantos da sala e uma escada no outro, que provavelmente levava aos quartos da casa. Uma segunda porta estava entreaberta na sala e Merida visualizou que ali deveria ser a cozinha. Soluço levou-os até o segundo nível, onde haviam três quartos. Um ficou para os trigêmeos, o segundo para Maudie e o terceiro Soluço destinou a Merida.
– Mas e você? – ela questionou, notando que a casa não tinha mais nenhum outro quarto.
– Não se preocupe comigo. Eu posso dormir na sala, no catre.
Soluço abriu a porta do quarto que seria de Merida. Os gêmeos e Maudie haviam ficado nos outros quartos arrumando suas coisas nos baús que alguns vikings trouxeram. Havia uma cama de madeira de espaldar alto, coberta com peles. Uma tapeçaria bem detalhada com desenhos de dragões voando cobria uma das paredes. Ao vê-lo, Merida soube imediatamente que aquele era o quarto de Soluço. Ele estava cedendo o seu quarto para ela! Havia também uma pequena mesa e uma cadeira com alguns esboços de dragões voando. Próximo da porta, um baú para guardar as roupas, e uma lareira pequena revestida de pedras.
Soluço estudava cuidadosamente as reações da princesa. Merida fora criada em um castelo, com servos para atenderem a todas as suas necessidades, espaço, luxo, conforto. Tinha medo de que ela não se adaptasse ali. Ele abriu uma janela para deixar um pouco de ar entrar, observando a princesa de canto de olho. Como ela não dissera nada, ele falou:
– Bem, não é exatamente como morar em um castelo...Mas...
Ela aproximou-se dele, observando a paisagem recém revelada pela janela. Ele seguiu seu olhar e viu o que ela estava encarando. Da sua janela, podia-se ver toda a aldeia e além dela, as rochas onde as estátuas dos seus ancestrais se aninhavam e o mar azul até onde a vista alcançava. Merida estava deslumbrada pela visão. De seu quarto tudo o que ela podia ver eram as pedras do pátio lá embaixo.
– Não... Não diga isso, é perfeito. – disse baixinho. Ela segurou as mãos dele, prendendo seus olhos aos dele e por um momento Soluço pôde jurar que ela estava corando. Antes que ele pudesse pensar em algo para dizer, Merida soltou-o e voltou novamente os olhos para o oceano. Ele então dirigiu sua atenção para acender a lareira, acendendo-a para aquecer o quarto para ela.
– Vou deixá-la ficar à vontade princesa. Tenho que ir ao Grande Salão agora, explicar às pessoas o que aconteceu. Eu vou voltar logo.
Merida assentiu e Soluço saiu, deixando-a sozinha com seus pensamentos.
Dois homens atarracados traziam as coisas dela. Um a princesa não conhecia. O outro era o homem chamado Bocão. Eles deixaram o baú no quarto e o primeiro homem saiu. Bocão, ficou e fez uma vênia respeitosa para a princesa.
– Meu nome é Bocão, princesa. Se houver algo que você precise, sou o ferreiro de Berk. Chame se precisar de alguma coisa.
Então ele notou Maudie pela primeira vez. Quando seus olhos encontraram os dela, a criada corou profundamente, da tez redonda até o imenso decote.
– Qualquer coisa. – Bocão acrescentou, olhando para ela com súbito interesse.
Merida abafou um risinho e o viking saiu, deixando as duas sozinhas. Maudie soltou um suspiro a princesa sorriu para ela.
– O quê? – A criada perguntou ao ver o sorriso na face da princesa.
Nem bem Bocão saíra uma senhora faladora e simpática batera à porta, trazendo dois sacos de provisões alimentícias. Merida espiou dentro dos sacos. Cebolas, hortelã, alho, alguns pães embrulhados em tecido que cheiravam como acabados de assar. Havia algumas frutas também.
Maudie agradeceu as provisões e a mulher foi embora.
– Eu notei que Soluço não comeu muito durante a viagem. O que acha de cozinharmos alguma coisa para ele comer quando voltar? – perguntou Maudie.
Merida achou a ideia brilhante. Mas havia um pequeno detalhe.
– Não sei cozinhar. – lamentou.
–É claro que não sabe. Você é uma princesa. Por isso eu vou lhe ensinar. – ela explicou gentilmente.
A cozinha da casa era pequena, mas muito bem organizada e as panelas brilhavam tanto que quase se podia ver o próprio reflexo nelas. Nos minutos seguintes Maudie expôs a Merida os mistérios da culinária. Descascar e picar cebolas, escolher uma peça de carne e limpá-la e cortá-la em cubos, cortar legumes e refogar a carne em uma panela quente. Adicionou uma dose generosa de vinho tinto e o cheiro inebriou os sentidos da princesa.
Enquanto esperavam a carne cozinhar, Merida arrumou a mesa.
A reunião com a aldeia no Grande Salão o deixara esgotado. Como a grande maioria das pessoas, Soluço não gostava de falar em público. E para ajudá-lo as pessoas repetiam sempre as mesmas perguntas. Por fim, Bocão enxotou-os, praguejando e dizendo que Soluço tiraria o dia para descansar da viagem e que no próximo ele assumiria seu papel como líder. O rapaz que não poderia ter se sentido mais grato, seguiu para casa, mais morto do que vivo, exausto e faminto.
Quando chegou à casa encontrou a mesa posta, a lareira calorosamente acesa, os príncipes e a princesa sentados de olhos fixos na porta. Todos pareciam impecavelmente limpos e tinham os cabelos úmidos, como se tivessem acabado de tomar banho e trocar de roupas. Ele estava a meio caminho de perguntar algo quando o cheiro o atingiu. Foi o suficiente para sua boca se encher de água. Merida levantou-se e o puxou pela mão, sorrindo.
– Bem vindo! Estávamos esperando você, Soluço. Está com fome?
Ele olhou para ela, intrigado, mas assentiu. Os trigêmeos se entreolharam, surpresos com a reação carinhosa da irmã, mas não disseram nada. Mesmo Maudie não pôde deixar de sorrir. A princesa não agia assim com ninguém.
Soluço sentou-se resignado. Maudie desatou a falar.
– Uma senhora gentil trouxe provisões e a princesa achou que seria uma boa ideia cozinhar alguma coisa. – Merida olhou-a, curiosa. Aquilo fora ideia de Maudie, não dela. Mas a criada limitou-se a olhar para ela e sorrir, um sorriso que era tudo, menos amigável.
Maudie serviu-os. Soluço levou a colher à boca e fechou os olhos. O sabor era celestial, uma sinfonia de carne de carneiro e cebola fazendo maravilhas em sua boca. A quanto tempo ele não ingeria comida quente? Soluço deixou escapar um gemido de prazer, deliciando-se com o tempero. Os meninos soltaram risinhos e Maudie sorriu. Mas Merida corou tão vergonhosamente que quase entrou debaixo da mesa. Ao abrir os olhos e ver a reação embaraçada da princesa, Soluço baixou os olhos para o próprio prato.
– Desculpe. – murmurou. – Isto está ótimo. Obrigado mesmo.
Os trigêmeos devoraram tudo com voracidade e logo saíram, alegando que iam conhecer a vila. Maudie terminou sua refeição e subiu, com a desculpa de que iria preparar um banho para ele. Soluço se perguntou se aquela era uma maneira gentil de dizer que ele estava fedendo. O silêncio constrangedor avolumou-se e cresceu entre eles.
– Você quer mais? – Merida perguntou, quando estavam sozinhos.
– Por favor. – ele estendeu o prato para ela. – E obrigado de novo. Obrigado por isso.
– É só uma coisa boba. – disse Merida, enquanto o servia.
– Não, não é. É uma gentileza que eu não estava esperando. As pessoas aqui não costumam ser gentis. Não dessa forma. O meu povo é rude. Não é maldade, é só... Só não é o jeito viking de fazer as coisas. – disse, levando outra colherada à boca e mastigando, pensativo.
– Talvez você só precise conhecer um jeito novo de fazer as coisas. Talvez você goste. – Ela comentou distraída. Quando Soluço ergueu os olhos do prato e a olhou, só nesse momento Merida percebeu o impacto de suas palavras. Falara sem pensar. Sua mãe já a advertira tanto para tomar cuidado com isso! Seu rosto ruborizou imediatamente, mas ela já era prisioneira daquele olhar verde floresta.
Soluço abriu a boca para falar, mas os passos de Maudie na escada quebraram a ligação dos olhares. A criada olhou de um para outro, reagindo ás faces ruborizadas com uma sobrancelha erguida.
Soluço terminou sua refeição e pediu licença ao levantar-se, deixando Merida sozinha com seus pensamentos.
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