Wings of Fate
6 Nas garras do frio.
Notas iniciais
Astrid parou, séria, avaliando o três garotos como se fossem leitões em um mercado, e lembrando-se da conversa que tivera com Soluço quando todos os outros saíram do Grande Salão, deixando os dois sozinhos.
– Então ela te escolheu mesmo. – Não era uma pergunta. Astrid entrara no Grande Salão por último e não tinha ouvido as explicações de Soluço.
Quando o viu deixando o navio e voltando para pegar a mão dela, Astrid deu o máximo de si para não parecer magoada. Tinha esperanças de que a tal princesa não o escolhesse, mas ao vê-la, elas caíram por terra. E o cuidado que ele tinha com ela... O jeito como a olhava fez o sangue de Astrid ferver nas veias.
– Me escolher? – Soluço interrompeu o fluxo dos pensamentos da guerreira. Franziu a testa, confuso.
– Sim. Te escolher. Vocês já estão... Você sabe. Casados? – Astrid tentou parecer o mais neutra possível, como se a pergunta fosse mera curiosidade.
–Não. Não, nós não vamos nos casar, Astrid. – Soluço observou a reação dela. Havia algo ali. Era alívio? Não. Não podia ser. – Eu na verdade a trouxe por outro motivo. Resumindo a situação toda, parece que um inimigo se levantou contra o reino dela. Meu pai ficou para lutar com eles e achou que a princesa e os irmãos ficariam a salvo em Berk até que a guerra terminasse. Os tais jogos nem chegaram a acontecer.
– Creio que enviar reforços esteja fora de questão não é mesmo? – ela perguntou.
– O inverno está no início, mas eu duvido que haja algum viking que seja louco o suficiente para se lançar ao mar. Ninguém sairá antes da primavera. Vou ter que enviar um terror terrível para explicar a situação a ele. — Soluço fez uma pausa, esperando que Astrid dissesse algo, mas ela não se pronunciou – Astrid. Tem uma outra coisa que eu gostaria de discutir com você.
Os olhos azuis o encararam com firmeza e ela inclinou levemente a cabeça de lado. Quando Astrid fazia isso, podia ser intimidador para alguns. Mas Soluço a conhecia bem demais. Era o seu jeito de dizer “Estou escutando. Prossiga.”
– Gostaria que você aceitasse os irmãos de Merida na Academia.
– Olhe, Soluço, a academia não é lugar para príncipes. Se você quer arrumar uma babá...
– Não, não Astrid. Daria certo. Eles são inteligentes, corajosos. Você precisa ver as coisas que eles fazem! E depois, seria bom para eles, você sabe. Esquecerem um pouco as coisas que estão vivendo. Ocupar o tempo.
Astrid suspirou, resignada. Não havia nada que Soluço pedia que ela não faria. E aquele argumento era irrefutável. Como Astrid poderia deixar três crianças – que talvez até já fossem órfãs — a mercê do sofrimento de esperar por notícias dos pais? Ele tinha razão. Ao mudar o foco dos problemas, eles poderiam esquecer-se, ao menos momentaneamente das coisas ruins que vinham acontecendo. Além disso, eram crianças. Astrid gostava de crianças.
– Mande-os para mim amanhã. E você deveria ir descansar. Está com uma cara péssima.
Soluçou riu e a beijou na bochecha, rapidamente.
– Obrigado, Astrid. – virou-se e saiu porta afora, deixando Astrid a segurar o lado do rosto que ele beijara.
Voltou as atenções novamente aos garotos escoceses. Pegara os três perseguindo Tempestade, tentando de maneiras estranhas fazer com que o dragão levantasse vôo com um deles na garupa.
Astrid descreveu um círculo a volta deles. Ergueu uma mecha de cabelo ruivo de Hamish e a soltou, com uma expressão neutra. Estendeu a mão para tocar-lhes o peito e depois a barriga. Por último, apertou-lhes os antebraços e os músculos grossos acima das pernas. Estalou a língua e fez uma careta em reprovação.
–Magros demais. – Comentou para si mesma. Deu mais uma volta ao redor deles, avaliando seus comportamentos. Os três mantiveram os olhos pregados em algum ponto específico no chão.
– Então – Astrid falou, um pouco mais alto do que deveria, com a voz cava e dominante que fez os trigêmeos saltarem. – Querem montar um dragão?
– S-sim. – balbuciaram os meninos, olhando para ela de relance. Astrid fez que sim com a cabeça, como se pensasse em algo muito interessante.
–Mas servirão? – Ela passou os olhos por eles, com uma sobrancelha erguida.
Tocou o cabo do machado pendurado na cintura e Hamish se perguntou se ela o fazia para assustá-los. Os trigêmeos já estavam assustados. Astrid metia-lhes medo, mesmo sem o machado. Movia-se com aparente calma, como se pudesse a qualquer momento explodir em alguma ação violenta.
– Antes de qualquer outra coisa, é um privilégio ser aceito na academia de treinamento de dragões de Berk. Vocês entenderam?
Hubert sorriu.
– Então quer dizer que servimos? – perguntou, com o rosto iluminado.
– Isso nós veremos. – disse Astrid. – Me acompanhem.
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A neve tingira Berk de branco. Maudie assumira por completo o controle de todas as tarefas da casa. Soluço passava boa parte do tempo preparando a aldeia para o inverno: ajudando na reparação de telhados, na armazenagem da lã das ovelhas, estocagem da lenha que seria usada, a conservação dos alimentos que seriam guardados através de defumação, salga ou fermentação. Durante um ou dois dias, Merida só o via de relance, quando ele saía para ir ajudar na aldeia ou quando chegava a noite. Sentiu-se estranhamente deslocada e sozinha. Até Maudie notou.
– Por que você não vai ver os seus irmãos? Já faz algum tempo que não os vejo. Você poderia ir se certificar de que eles ainda estejam vivos? – estava preocupada com os trigêmeos, era verdade, mas com Merida ausente, Maudie poderia passar algum tempo na forja.
– É um boa ideia. Soluço os colocou na academia de treinamento dos dragões, seria interessante ver como eles estão se saindo. – disse e saiu, deixando Maudie com um sorriso.
Pelo caminho, Merida cumprimentou alguns moradores e pegou com eles informações de como chegar até a arena. Ao chegar, desceu por uma rampa que dava no centro da arena. Algumas crianças vikings passaram por ela olhando-a com curiosidade, mas ela mal os notou. A princesa estava impressionada com o tamanho do lugar, e girou sobre si mesma, olhando para cima, para as imensas grades que a cercavam.
– Precisa de ajuda com alguma coisa? – uma voz feminina disse, tirando o olhar de Merida do teto gradeado da arena.
A garota loira tinha uma expressão neutra. Era alta e magra, com curvas suaves e delicadas. Seus olhos eram azuis, seu rosto redondo e gracioso. Uma tiara de couro mantinha a franja afastada da testa.
– Ah... Olá. Eu sou...
– A princesa Merida. – cortou Astrid, sem dar tempo para Merida responder.
– Só Merida na verdade. Como sabe o meu nome?
– Todos em Berk sabem seu nome. Eu sou...
–Astrid! – gritaram os trigêmeos em uníssono. Correram para ela, com sorrisos que iam de orelha a orelha. Os olhos deles fixaram-se em Merida e desataram a falar, os três ao mesmo tempo:
– Fogo! Fogo por toda a parte! Mas ela simplesmente...
– ... então ela pulou na garupa do dragão e foi subindo...
– ... você precisa vê-la com um machado, Astrid sabe lutar igual a você...
A cabeça da princesa rodava. Os príncipes tagarelavam sobre Astrid como se ela fosse uma deusa, todos ao mesmo tempo. A princesa pensou em gritar uma ordem de silêncio, mas a guerreira pigarreou e os trigêmeos silenciaram-se. Merida olhou-a, boquiaberta. Ninguém exceto Elinor tinha esse controle sobre eles.
– Como eu dizia, eu sou Astrid Hofferson.
– Muito prazer em conhece-la, Astrid. – Merida respondeu, polidamente, repetindo as palavras como a mãe lhe ensinara. — Parece que os ouvi dizendo que você sabe lutar. Isso é comum por aqui?
– Comum? – Astrid arqueou uma sobrancelha.
– É que de onde eu venho, as mulheres não podem usar armas. Elas não lutam.
– Elas não lutam? – perguntou Astrid, com ar de dúvida. – Nem com homens nem umas com as outras? Com ninguém?
Merida confirmou com a cabeça. Astrid franziu o cenho como se lutasse para assimilar a ideia.
–Mas a nossa irmã luta! – disse Hamish, atraindo um olhar da guerreira – Nosso pai que a ensinou! Com o arco ela é invencível!
– É mesmo? – indagou Astrid, lançando um olhar mais cuidadoso a princesa. – E sabe usar uma espada ou um machado?
– Sei usar a espada. – respondeu Merida, fazendo um gesto de desdém com a mão – Mas não sou tão boa. Minha mãe quase não me deixava treinar. Sou melhor com o arco.
– Só tem um jeito de saber, não é mesmo? – falou Astrid, andando em direção a um baú em um dos cantos da arena. Tirou de lá uma espada e um machado duplo de batalha e se virou para encarar a princesa novamente – O que acha de testar sua habilidade?
Os olhos dos garotos brilharam em antecipação e Merida sorriu, assentindo. Astrid jogou-lhe a espada, que Merida apanhou pelo punho. Os irmãos se entreolharam, extasiados e se afastaram, dando espaço para elas. Astrid esperou que Merida ajustasse sua espada e ficasse em posição de ataque. Uma vez que isso aconteceu, ela se colocou em posição também.
Astrid mal erguera o machado e Merida já avançara para ela, dirigindo-lhe um golpe lateral, que Astrid defendeu com facilidade. Astrid descrevia círculos a volta da princesa, observando-a com olhos avaliadores. Queria aprender com ela, entender como se movia primeiro para depois atacar. A expressão da guerreira era de seriedade, seu cenho franzido demonstrando a concentração que colocava em seus movimentos.
Merida por outro lado era fogo puro. Era muito impetuosa em sua aproximação. Tivera aulas de esgrima com o pai, mas nunca se dedicara inteiramente à arma, preferindo, sempre que podia, o arco. Merida era ligeiramente mais alta que Astrid, o que lhe conferia um alcance melhor, mas Astrid era rápida e quando começou a atacar, os pulsos de Merida latejavam com cada golpe defendido ao segurar a espada.
Por Merida ter o melhor alcance e Astrid ter os movimentos mais rápidos as duas tendiam a se equilibrar com frequência. Então, como uma flecha saindo do arco, Merida investiu contra Astrid lançando uma série de cortes rápidos. Ataque. Golpe lateral. Cortada à direita. Acima do ombro. Cortada por cima. Para frente, para trás e para frente de novo. Astrid arquejou, surpresa, enquanto a princesa a forçava a ceder terreno recuando e aparando os golpes com o machado. Por um momento, as duas lâminas se encontraram em ficaram juntas por não mais que alguns segundos.
Então algo brilhou no olhar de Astrid. A guerreira descreveu um semicírculo para baixo, livrando a lâmina do machado da espada de Merida. As duas se afastaram ofegantes, mas Astrid estava apenas começando. Girando o machado duplo em ângulos que a princesa nunca antes tinha visto, Astrid avançou, forçando Merida a recuar. Em um momento que pareceu durar quase nada, a guerreira prendeu a lâmina da espada entre as lâminas duplas do machado, girando-o e desarmando Merida. A princesa arregalou os olhos, chocada. Astrid estivera apenas brincando com ela o tempo todo. Astrid apontou o machado para ela e depois baixou-o, sorrindo.
– Você luta muito bem, Astrid. Espero nunca ter de te enfrentar a sério. – Merida admitiu, um pouco constrangida com seu próprio desempenho.
Os trigêmeos aplaudiram e deram gritinhos de entusiasmo. Astrid estava boquiaberta. A reação da princesa a surpreendera. Esperava que Merida se zangasse por ter perdido, pois imaginava que, por ser uma princesa ninguém jamais a deixasse perder. Astrid a desarmara para colocá-la em seu lugar e para que ela visse que ali era não era nada mais do que uma garota comum, mas a atitude dela a havia surpreendido. Merida não só admitira a derrota como também elogiara o desempenho da adversária. Sentiu-se mal por tê-la julgado previamente.
– Obrigada. Você também lutou muito bem, Merida. Fazia muito tempo que ninguém em Berk me fazia transpirar. – Astrid elogiou. Podia ver que a princesa não gostara de perder, mas enfrentara o fato com dignidade.
Merida sorriu para Astrid, feliz com o elogio, por que sabia que era sincero. Fazia muito tempo que não praticava, e fora bom ver que podia praticar livremente sem ser julgada por isso. Em sua terra isso era quase impossível.
– Acho que seria melhor irmos agora. Já estou fora a algum tempo. Maudie deve estar preocupada.
Astrid assentiu.
– Se quiser praticar outra vez, será bem vinda amanhã. Depois das aulas da academia, claro. Gostaria muito de ver sua habilidade com o arco.
– Eu virei. E trarei o arco. Obrigada por hoje, Astrid.
Despediram-se e o pequeno grupo logo se dispersou. Astrid ficou sozinha na arena, com uma impressão muito melhor da princesa.
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O sol quase se punha quando Merida sentou-se nos degraus da casa de Estóico com Banguela, para esperar por Soluço, como fazia todos os dias. O frio era congelante e a neve caía, fina e suave, mas a princesa não se importou. Encostou-se ao corpo agradavelmente quente do dragão, que sorriu para ela e a protegeu com uma das asas.
Merida sorriu consigo mesma, ao lembrar de Astrid. Nunca tivera amigos da sua idade. As pessoas tentavam ser gentis com ela, mas se descobriam que ela era uma princesa, fechavam-se em um tratamento respeitoso e formal e se afastavam. Crescera sozinha, tendo por companhia mais duradoura apenas sua família, mas sempre desejara ter amigos com que compartilhar segredos e momentos felizes. Felizmente, para Astrid, não fazia a menor diferença a posição que Merida ocupava na vida.
Enquanto pensava nisso, algo chamou sua atenção. Em sua visão periférica, Merida teve um vislumbre de uma luz azul, que sumiu assim que ela se virou para olhar. Fixou o olhar na floresta e viu o tremeluzir azul de novo. Levantou-se e soltou um arquejo. Uma luz mágica? Seria possível que tivesse visto uma luz mágica tão longe de casa?
Deu um passo na direção da luz e depois outro. Estava tão entusiasmada que se esqueceu até mesmo do frio. Logo estava andando rápido e depois correndo. Ouviu Banguela chamar por ela, mas mesmo esse som estava em um pano de fundo distante agora, como em outro universo. Merida via a luz mágica piscar ao longe e corria em direção a ela como uma mariposa atraída pela chama. Nada mais importava. Queria ver onde elas a levariam.
As botas de Merida afundavam chiando na neve e logo ela estava na floresta. Por mais que tentasse não conseguia aproximar-se das luzes. Estavam sempre distantes e estranhamente desfocadas. E enquanto as luzes de sua terra ficavam imóveis e depois sumiam, as luzes de Berk tremeluziam sempre em movimento, como se corressem dela. E o seu azul era mais pálido também.
A floresta se fechava mais e mais sobre ela e Merida olhou para trás, insegura. Estava escuro agora, e ao se virar ela já não podia ver as tochas de Berk acesas. Estava muito, longe. Perdida. Mas não se importou. Se encontrasse as luzes mágicas, elas a levariam ao seu destino, assim como fizeram antes. Uma estranha calma a invadiu e ela sabia que ficaria bem.
Então as luzes mágicas pararam de se afastar. Merida sorriu, ao pensar que estava finalmente chegando perto. Viu o tremeluzir e correu na direção dele. Parara de piscar por completo agora, mas a princesa seguiu em frente, certa de que estava no caminho certo. Estava muito escuro, mas ela não teve medo. Abriu caminho pela neve e continuou seguindo na direção da luz.
Quando estava bem perto de onde a luz piscara pela última vez, Merida ouviu o estalar seco de um galho de árvore partindo-se. Estacou subitamente, consciente de que não estava mais sozinha. Olhou em volta às cegas, procurando inutilmente a fonte do ruído. Então um tremeluzir repentino chamou sua atenção.
Todos os pelos do corpo da princesa se ergueram. Dez ou doze passos a sua frente, faíscas elétricas cintilavam sobre a pele de um dragão. A fera a encarou de olhos semicerrados, o corpo todo tomado por eletricidade. Soltou um rugido baixo e ameaçador. Merida arregalou os olhos e gritou, apavorada.
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Soluço soube que havia algo errado quando viu Banguela sozinho à entrada de casa. O dragão parecia nervoso e ao vê-lo correu até ele e tentou chamar sua atenção.
– O que foi amigo?
Banguela rosnou para ele e olhou para o degrau onde Merida costumava esperar por ele todos os dias.
– Onde ela está? – Soluço perguntou.
Banguela olhou na direção das árvores e Soluço montou em sua garupa. Meio segundo depois estavam no ar.
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Merida corria pela floresta, mas estava tão escuro que ela mal podia ver o caminho à frente. Ouvia os passos pesados da fera atrás dela e sabia que aquele dragão era totalmente selvagem. Se Soluço estivesse com ela, saberia o que fazer imediatamente, mas ela não poderia contar com essa sorte. Os galhos a arranhavam ou se partiam, grudando em seu cabelo. Ela quase podia sentir a respiração do dragão atrás de si quando as passadas dele pararam. Merida olhou para trás e viu que o dragão estava parado, encarando-a.
Por algum motivo ele rosnou e virou-se para ir embora, como se tivesse decidido repentinamente que ela não valia a pena. A princesa quase não pôde acreditar em sua sorte. Apoiou-se nos joelhos para respirar, tomando o fôlego que lhe fora roubado na extensa corrida. Ao erguer-se viu a sombra negra de Banguela pousando mais a frente e soube que ficaria bem.
– Soluço! – ela adiantou-se dando um passo na direção dele. Mas algo na expressão dele estava diferente. O que era? Cautela? Medo?
– Merida. Não se mova. Não dê mais nenhum passo, está entendendo? Fique onde está e eu irei te pegar.
Merida obedeceu, assustada com o jeito que ele falou. Mas virou-se, esperando ver o dragão que a perseguira. Foi então que ouviu o som do gelo rachando, bem abaixo de seus pés. Estava em pé sobre um imenso lago congelado. Merida sempre fora uma ótima nadadora, mas sabia que ao cair na água gelada, esse conhecimento não a ajudaria em nada. O frio intenso paralisaria todo o seu corpo e ela morreria afogada, sem poder mover um músculo para se salvar.
– Soluço... – ela chamou por ele e o nome saiu meio gemido, meio chorado, entre dentes.
– Fique bem aí. Não se mova. – Soluço posicionou a cauda protética de Banguela, olhando ora para Merida, ora para o dragão. – Banguela, vamos pegá-la amigo.
O dragão grunhiu e bateu asas duas, três vezes, ganhando altitude. Merida fechou os olhos em uma prece silenciosa. Cada milésimo de segundo parecia extremamente longo. Inspirou fundo e tentou permanecer imóvel, concentrando-se na própria respiração. Contou três respirações e ouviu um estalo abaixo de si. Arquejou.
–Rápido, Soluço! Ráp... – e então o gelo quebrou e Merida foi engolida pela água mortalmente gelada.
No início, a princesa se debateu, tentando nadar, mas o longo vestido inflou ao seu redor como um balão. A água gelada entorpeceu todo o seu corpo, ganhando o controle sobre cada músculo, rapidamente avançando para paralisar o sangue que corria nas veias da princesa. Pelo que pareceu ser uma eternidade Merida ficou na água. O próprio tempo parecia correr mais devagar, e antes mesmo de sentir vontade de respirar outra vez, ela sentiu sono. O sono estendia-se sobre ela como um cobertor pesado.
Então um aperto de ferro a ergueu pelas axilas. Ela queria protestar, dizer que a deixassem em paz, que queria apenas dormir, mas estava tão cansada, tão cansada! Banguela ergueu Merida no ar e pousou na entrada de uma caverna próxima. Rápido como uma cobra, Soluço desmontou e ergueu Merida, que mal se movia para dentro da caverna. Com muito esforço tirou-lhe o vestido ensopado de água gelada e o atirou em um canto da caverna, onde caiu com um baque seco.
O olhar de Soluço ensombrou-se ao ver que ainda restavam muitas peças de roupa.
– Feiknstafir... – Praguejou baixinho, enquanto as mãos rasgavam a camisa e o espartilho que a prendia. Por que é que alguém vestia tanta roupa? A seguir vieram as anáguas, as botas e as meias. E em um curto espaço de tempo, Merida estava nua como viera ao mundo.
Soluço tirou uma capa longa da sela de Banguela e envolveu os ombros da princesa com ela. Reuniu alguns gravetos em uma pilha desajeitada, afastou-se um pouco e apontou para eles.
–Fogo! – disse, e Banguela atirou neles, fazendo as chamas erguerem-se rapidamente.
Merida estava mais dormindo que acordada e gemeu baixinho quando ele a ergueu no colo e caminhou com ela até a fogueira. A perna protestou com o peso extra e Soluço deixou escapar um arquejo, mas não se importou. Cada segundo contava. Tinha que aquecê-la e tinha que ser rápido. Sentou Merida bem perto do fogo, friccionando os seus braços e pernas para manter seu sangue fluindo.
–Não durma, Merida. Não durma, está me ouvindo? – a princesa grunhiu algo em resposta. Tinha os lábios azulados e todo o seu corpo estava frio.Os dedos de sua mão direita estavam duros e da cor de cera. – Vamos, fale comigo. Fale comigo. – ele implorou dando-lhe tapinhas no rosto, para acordá-la. Se ela adormecesse agora, seria para sempre.
Merida abriu os olhos lentamente.
– Bom. – ele murmurou. – Fale comigo, princesa.
– Não me chame de... – ela conseguiu dizer, em um murmúrio rouco. – Meu nome é Merida.
– Me desculpe, sua Alteza. – ele provocou, para mantê-la falando.
– Merida! – ela resmungou, um pouco mais alto agora. Talvez ficasse brava mais tarde, mas Soluço não se importava. Ela estava desperta, finalmente. Ele nunca ficara tão feliz em travar uma discussão.
Soluço continuou a massagear vigorosamente os braços e pernas dela, até que a sensação do tato foi voltando devagar, formigando e espetando como agulhas em brasa sobre a pele. Merida sentiu leves fisgadas de dor a cada apertão, mas estava cansada demais para se encolher.
– Mexa-se Merida. Você tem que se mover. – ordenou.
Ele concentrou-se nas mãos dela, massageando com força. Se o sangue parasse de circular em qualquer parte do seu corpo agora, seus membros ficariam enegrecidos e teriam que ser amputados. Soluço estremeceu com o pensamento.
– Banguela. Venha até aqui garoto. – chamou.
O dragão aproximou-se dele e se sentou perto do fogo. Soluço apoiou Merida na forma negra do Fúria da noite. Os dragões tinham o corpo muito mais quente que os humanos. Ajudaria Merida a se restabelecer. Sentiu um medo terrível quando a realidade do que acontecera o atingiu. Quase a perdera.
Então o peso dos últimos dias desabou de uma vez sobre Soluço. As responsabilidades como líder, a ausência do pai, o medo de não ser bom o suficiente, de perder sua única família, as decisões que tinha feito, a fé que os outros depositavam nele, e agora como um último golpe, a incapacidade de proteger Merida. Tudo isso explodiu dentro dele até jorrar para fora em forma de lágrimas e soluços contidos. A princesa agora já tinha se aquecido o suficiente para começar a tremer violentamente. Não falou quando puxou Soluço para si e o abraçou, afagando seus cabelos e recebendo suas lágrimas no ombro, ao mesmo tempo em que absorvia o calor do corpo dele.
– Estou bem, Soluço. – falou baixinho, e as palavras morreram no ombro dele.
Ele também a abraçou, acariciou-lhe as costas com as pontas dos dedos, acompanhando a curvatura suave da espinha, subindo de novo para os ombros, para então demorar-se com doçura no pescoço, roçando em seus cabelos.
Quando ele se acalmou e sua respiração se tornou mais estável, se viu subitamente consciente de que Merida estava completamente nua embaixo da capa, que nem de longe servia para cobri-la inteira. Ele fungou levemente e se afastou dela, tentando manter os olhos no chão, sem muito sucesso. Com os cabelos pingando e os dentes batendo,Merida ajeitou-se na capa, que se entreabriu suavemente. Sem querer Soluço acabou por vê-la. A pele extremamente branca, o contraste rosado e delicado dos mamilos, a curva suave dos seios pequenos e bem desenhados, a cintura delicada e fina, os quadris redondos, a fina e delicada camada de pelos vermelhos que lhe cobria o sexo.
Franziu a testa e desviou o olhar, perturbado. Era a primeira vez que via uma mulher nua e as circunstâncias não eram propriamente ideais. Ergueu-se sem olhar para ela e murmurou um pedido desajeitado de desculpas, enquanto torcia-lhe o vestido para retirar o excesso de água e o estendia perto da fogueira para secar. Queria manter-se ocupado para não pensar no que vira.
– Eu já volto. – disse e saiu a passos largos da caverna.
Não demorou muito tempo estava de volta, apanhou uma caneca de metal na sela de Banguela, encheu com a água de um cantil e colocou algo dentro para ferver na fogueira. Quando o líquido ferveu, ele o tirou, deixou esfriar por algum tempo e entregou-lhe caneca, olhando para qualquer lugar na caverna, menos para ela.
– Beba isso. É chá de agulha de pinheiro. O gosto é péssimo, mas vai ajudar a te esquentar.
Merida aquiesceu. O gosto era realmente horrível, mas ela logo pôde sentir o calor retornando ao seu corpo. Soluço sentou-se na entrada da caverna, pensativo. Lá fora uma nevasca caía como uma cortina branca e o vento insinuava-se para dentro da caverna. Não iriam a lugar algum com aquele tempo. Mas por algum motivo estranho, a princesa não se sentiu nem um pouco incomodada por isso.
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