Wings of Fate

17 Reencontro


Banguela e Soluço pousaram em uma pequena ilha a seis dias de Berk. Astrid e Tempestade haviam parado de seguí-los há dois dias e eles puderam ficar completamente sozinhos. Desde então o pensamento do treinador de dragões sempre se voltara para Merida. Não podia deixar de se sentir um pouco bobo por ter deixado Merida daquele jeito. Astrid tinha razão, Merida dera muitas provas de que gostava dele e de que respeitava o povo viking. As coisas que ela dissera simplesmente não faziam sentido. Ele havia tentado ao máximo afastar as lembranças do que acontecera, mas agora ele se agarrava a elas como um náufrago a uma tábua. Em sua mente ele revia a cena vez após vez, tentando achar alguma coisa, qualquer coisa, desconstruindo o diálogo exatamente como fez com o comportamento de Banguela, até encontrar uma maneira de se aproximar dele. Com o passar dos dias ele se convencera de que Merida estava tentando afastá-lo por algum motivo.

Ao olhar para trás e avaliar friamente o comportamento da princesa, Soluço encontrou várias rachaduras nos argumentos usados por ela. A primeira estava em suas origens. Os pais de Merida não pareciam se importar com o fato de ele ser viking ou não, o que significava que ela também não se importava. E Merida havia ficado tão á vontade entre seu povo que quase se podia dizer que ela era parte dele. Não se podia fingir uma coisa dessas e Merida não parecia ser capaz disso. Depois, ela havia dito que preferia um homem do povo dela. Mas pelo que Soluço pôde ouvir, os jogos pela mão dela aconteciam anualmente com os mesmos pretendentes. E ela não escolhera nenhum deles. "Eu já tive tempo mais do que suficiente para encontrar o amor." ela lhe dissera uma vez. Por último havia a questão de sua perna, a mais cruel e mais dolorosa. Soluço nunca lhe falara a respeito de como se sentia sobre isso, mas o pai de Merida também sofrera um destino semelhante. Ela devia saber como era. Talvez por isso ela tivesse escolhido abordar o assunto. Por saber que o golpe seria tão profundo que ele se afastaria dela imediatamente. Merida nunca havia demonstrado nenhum tipo de aversão ou repulsa, então ele via esse como o único motivo dela ter dito aquelas coisas. Quanto mais Soluço pensava nisso, mais ele se sentia idiota por ter se afastado ao invés de enfrentá-la. Se não tivesse se deixado dominar pela raiva e exposto todas as rachaduras nos argumentos dela, talvez ele estivesse em um lugar bem diferente agora. Quanto mais Soluço pensava e unia os fios, mais se tornava óbvio o padrão que Merida havia tecido. O motivo de ela tê-lo mantido afastado de repente ficou tão claro que ele se perguntou como não o havia visto antes. Xingou a si mesmo mentalmente por ter sido tão cego. Em mais um dia de viagem ele chegaria a Dunbroch. Mas ele não iria direto até Merida. Havia uma coisa que precisava ser feita primeiro.

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Merida amassou com força o papel, que foi atirado junto à pilha com dezenas de outros. Perdera quase toda a noite na tentativa de escrever algo para Soluço. Em sua mente ela sabia o quê escrever na carta, sabia o que dizer e pelo quê se desculpar, mas escrever as palavras era totalmente diferente. Nada do que ela dizia parecia ser bom o suficiente, o bastante para remediar o estrago que causara. Ela molhou outra vez a ponta da pena no tinteiro e se posicionou para escrever outra vez, mas a pena ficou tanto tempo suspensa no ar que uma gota de tinta negra pingou no papel. Merida ficou por longos minutos encarando a gota de tinta. "Escura como um Fúria da Noite", pensou. Ela havia se focado tanto em Soluço que mal havia se dado conta de como sentira falta de Banguela também. E de Astrid. E de Bocão. Franzindo a testa, pousou a pena delicadamente sobre a mesa.

Ela se ergueu, empurrando a cadeira para trás e foi até a sacada de seu quarto. O vento balançou de leve a longa camisola branca enquanto Merida olhava para o céu noturno, pensativa. “Ele não está aí” ela se repreendeu mentalmente. Com um suspiro, a princesa voltou para o seu quarto, esfregando o braço arrepiado com o frio. Um golpe de vento inesperado ergueu sua camisola até metade da coxa e Merida se virou, sobressaltada e confusa. Seu queixo caiu ao reconhecer Banguela e o dragão sorriu para ela, naquela forma típica e desdentada que ela tanto amava. Mas não foi o dragão que fez seu coração falhar uma batida, sua respiração acelerar e suas pernas tremerem. Ele não teve que tirar o elmo para Merida reconhecê-lo. O vento trouxe a ela seu cheiro, suor limpo, levemente metálico. E mesmo que não estivesse ventando, o modo de desmontar da sela, o som de sua perna mecânica contra a pedra fria, os tapinhas acariciantes de que ele deu em Banguela, antes de se virar para ela outra vez... Tudo era ele, e seu coração sabia. Ele tirou o elmo e passou a mão sobre os cabelos, jogando-os para trás, daquela maneira que ela gostava tanto. Seus olhos verdes prescrutaram o azul dos dela. Tudo o que ela planejara dizer na carta sumiu de sua mente. Houve um momento de silêncio tranquilo e os olhos avaliadores de Soluço percorreram o quarto, passando pela cama, as inúmeras esculturas de urso, a tapeçaria, para depois a encontrarem, demorando-se nela, em seus ombros nus, na delicada renda branca no decote, no bordado logo acima do seio... Merida corou ao se lembrar que estava só de camisola, sozinha com um homem que não era seu parente em seu próprio quarto. Soluço reparou que ela estava mais magra e parecia abatida.

– Você não me parece muito casada para mim. — ele comentou com um sorriso torto.

– Eu... eu... Meu marido não está... no momento... — ela balbuciou, tentando em vão justificar uma mentira.

– É mesmo? É um pouco estranho — ele começou, dando um passo na direção dela, seu sorriso se alargando ao vê-la recuar — que uma princesa se case e continue a viver na casa dos pais ao invés de ir para junto de seu marido.

Merida engoliu em seco e Soluço soube que tinha acertado. Ele continuou a andar lentamente na direção dela. Ele dava um passo, ela recuava outro, numa estranha dança que só eles conheciam.

– Também é muito estranho — ele continuou — que uma mulher casada ainda viva em seu quarto de solteira, com uma cama de solteira, e um único baú de roupas para guardar o que é só dela... — ele inquiriu com uma sobrancelha erguida, enquanto caminhava na direção dela, as mãos para trás, com toda a calma do mundo.

Merida continuava a manter o seu silêncio assustado, e ao recuar mais um passo viu-se encurralada. Ao olhar para trás, estava a tapeçaria com o desenho de sua família. À sua frente estava Soluço, tão perto que ela podia sentir o toque de sua respiração em sua pele.

– Mas o mais estranho — ele falou, com o tom de voz baixo, para só ela ouvir. — É o modo como você tentou me afastar, naquele dia. Por quê Merida?

Soluço sabia a resposta. Mas ele queria ouvir dela. Mas Merida era teimosa e não se deixaria ser pega tão facilmente sem luta.

– Eu não posso me casar com um viking. Achei que já tinha lhe dito. Eu... eu odeio os vikings... — ela gaguejou, sem muita franqueza. Aquela proximidade dele não a deixava pensar. — Eu odeio você... — ela murmurou, mas não havia força nenhuma naquelas palavras.

Soluço sorriu e seus lábios se aproximaram perigosamente dos dela, mas pararam antes de a tocarem.

–De verdade que me odeia? — ele perguntou, divertido.

– Sim... — ela respondeu de olhos semicerrados. — Mas também o amo...

Ele sorriu e tocou os lábios dela com os seus. Merida finalmente se rendeu, envolvendo a nuca dele com os braços, colando seu corpo ao dele, expressando fisicamente o que ela não conseguira dizer em palavras: a saudade que sentia dele. Soluço deixou o beijo se aprofundar também, ignorando os alertas no fundo de sua mente. Suas mãos acariciaram o rosto dela, demoraram-se no pescoço, deslizaram para os ombros, deixando uma das alças finas da camisola escorregar e cair descuidadamente.

Ele se separou dela e a abraçou, não antes de lhe deixar um beijo na testa. Ele exalou o cheiro dos cabelos dela e se perguntou como ele pôde passar tanto tempo sem isso. Ela se afastou um pouco e o olhou nos olhos.

– Soluço... Eu sinto muito... — ela começou, mas ele afastou uma lágrima de seu rosto com o polegar e calou seus lábios com um selinho, abraçando-a outra vez. — Eu estava com medo pelo meu povo. Se eu te aceitasse e houvesse uma guerra entre os clãs...

– Eu compreendo. Você precisava me afastar.

– Mas eu não me importo mais. Vamos fugir, Soluço. Vamos embora para onde ninguém nos encontre, só nós três. — ela lançou um sorriso para Banguela, que já estava esparramado em sua cama e grunhiu em concordância. – Eu senti tanto a sua falta...Eu quero ficar com você...

– Você fugiria comigo? – ele perguntou surpreso.

– É a única forma de evitar uma guerra... E sim, eu fugiria. Até o fim do mundo, não importa onde você nos leve e...

Ele a calou abruptamente com um beijo intenso. Merida arquejou com o susto, mas não demorou muito para que o devolvesse com a mesma intensidade, se esquecendo de qualquer outro pensamento e de toda a precaução. Ele se afastou por um instante e seus lábios vagaram suavemente pelo pescoço arqueado dela, arrancando suspiros conforme desciam mais e mais até os ombros, enquanto as mãos exploravam o ventre, a cintura, os quadris... Os dedos de Merida cravaram-se com força em seu cabelo. Ela estava completamente fora de controle agora.

Soluço guiou-a até a mesa onde Merida estivera escrevendo e a ergueu pela cintura para colocá-la sentada sobre ela, sem nunca interromper os beijos.

Com os braços em volta do pescoço dele, Merida estremeceu quando as mãos de Soluço desceram da cintura para os quadris e em seguida para as coxas. Já estava com as saias pela cintura quando uma das esculturas de urso caiu no chão, derrubada pela cauda de Banguela, que, adormecido, agitava-se em seu sono.

Soluço se afastou dela, assustado, levemente ofegante e corado. Merida desceu da mesa, despreocupadamente e pôs-se a alisar a camisola como se nada tivesse acontecido.

Ele cobriu o rosto com a palma das mãos e inspirou profundamente, várias vezes. Quando se recompôs, virou-se para ela, sorrindo.

– Me desculpe. — ele murmurou. — Pondo as mãos em você desse jeito, quase como... — ele franziu a testa e balançou a cabeça. "Como William", ele pensou, e de repente se sentiu envergonhado. Não era como se ele não quisesse tocá-la. Mas ele sabia que era a primeira vez dela e queria que fosse tão bom para ela quanto seria para ele. Jamais se perdoaria se a machucasse de alguma forma. — É muito difícil para mim, manter o controle com você assim tão perto.

– Eu acho que posso dizer o mesmo. — ela deu um risinho sem humor. — Acho que podemos manter as mãos para nós mesmos, por enquanto.

– Eu concordo. O que eu ia dizer, antes de... Bem... Nós não precisamos fugir para casar, como se isso fosse uma infâmia. Eu falei com os Lordes, Merida.

– Você o quê? — ela exclamou.

– Os Lordes, McGuffin, Dingwall e McIntosh. Eu disse a eles que desejava pedir a sua mão, mas apenas se nenhum deles discordasse. É por isso que estou aqui, Merida. Me resta falar com o último chefe de clã, Fergus Dunbroch e pedir a mão de sua filha.

Tudo o que ele podia fazer era olhar para ele, embasbacada. Levaram vários segundos até que seu cérebro processasse a informação.

– Você falou com eles... Você fez isso por mim? – ela mal conseguia falar, e seus olhos marejaram enquanto ela levava as mãos aos lábios. – Mesmo depois do que eu...

Ela parou e esfregou os olhos com as costas da mão. Soluço cobriu a distancia que os separava e a abraçou outra vez, beijando o topo de sua cabeça.

– Não chore. Eu odeio ver você chorando, sabia? — Ele tomou sua mão — Venha, vamos falar com o seu pai.

Merida hesitou, segurando a mão dele com força.

– É que... bom... Não seria uma coisa boa falar com o meu pai saindo do meu quarto...

O entendimento brilhou nos olhos de Soluço. Ele deu um risinho fraco e sem humor, virando-se para acordar Banguela.

– Acho que isso estragaria as minhas chances, não é? Não se preocupe ninguém nos verá.

Com o dragão desperto, Soluço montou outra vez na sela e desapareceu na noite.

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Sentada sobre as próprias mãos, Merida esperou, balançando os pés, sentada em sua cama. Já havia se passado cerca de meia hora quando Elinor bateu à sua porta. Se a rainha pareceu surpresa por vê-la acordada tão tarde, não demonstrou. Apenas lhe pediu que a acompanhasse, por tinha um assunto de seu interesse aguardando por ela na Sala do Trono. Elinor ajudou- a se vestir, e Merida optou por um vestido azul marinho simples de mangas longas, do tipo que ela costumava usar pra cavalgar. A princesa fez o seu melhor para parecer curiosa, mas ela já sabia o que estava esperando por ela. Teve que se conter ao máximo para não sorrir de orelha a orelha e não sair correndo pelos corredores deixando sua mãe para trás. Em vez disso, caminhou o mais tranquilamente possível, mantendo o mesmo semblante abatido de algumas semanas atrás.

Alguns guardas acordados às pressas estavam rigidamente postados no fim da escadaria, com expressões de assombro nos rostos ensonados. Merida não teve que olhar na direção dos olhares deles para saber que estavam olhando para a cria profana do raio e da própria morte. Banguela causava esse efeito nas pessoas. Seu pai estava sentado no trono com uma expressão consternada, o tronco inclinado para a frente e os cotovelos apoiados nos joelhos, segurando três cartas. Era a própria imagem da insegurança. Conforme a princesa descia os degraus seu coração acelerava ao ver mais e mais a imagem de Soluço parado ao lado de Banguela. O olhar dele a encontrou, atraído pelo som de seus passos e o sorriso que se formou em seu rosto foi uma resposta ao seu. Quando finalmente chegou até eles, sempre observada cuidadosamente por seus pais, Merida tentou fingir que era a primeira vez em seis meses que ela o via, e não apenas há alguns minutos. Não foi preciso muito esforço da parte dela. O sorriso desenhado em seu rosto ia de uma orelha a outra e há muito tempo seus pais não a viam tão radiante. Por mera questão de formalidade, a princesa estendeu sua mão direita e Soluço a beijou, formigando a pele dela com o contato dos lábios.

– Merida, o seu pai tem um assunto para discutir com você. — Elinor explicou, calmamente.

Fergus olhava de Elinor para Merida e de Merida para Elinor, agindo como um ratinho que tinha que escolher entre o gato e o falcão.

– Merida... Ah... Filha... — ele começou um pouco desnorteado. Depois tomou um fôlego profundo e despejou as palavras todas de uma vez. — Soluço veio até aqui para pedir a sua mão em casamento.

Elinor suspirou e rolou os olhos, aborrecida com a falta de tato do marido. Merida simplesmente arregalou os olhos e tentou parecer surpresa.

– O que seu pai está tentando dizer, é que Soluço está aqui hoje com o propósito de pedir-nos a sua mão, querida. E nós concordamos em aceitar a sua decisão, qualquer que ela seja.

– Eu me sinto lisonjeada e aceito o seu pedido. — Merida respondeu polidamente. — Mas a questão dos Lordes? — ela perguntou ciente da aprovação deles.

– Soluço já remediou a situação. Os Lordes enviaram cartas declarando apoio ao seu matrimônio e garantindo a continuidade da aliança. Nada irá impedir que vocês dois fiquem juntos. — A rainha completou.

Fergus relaxou visivelmente ao ver a expressão extasiada da filha, apoiando as mãos no trono. O rei urso estava pálido e nervoso com a possibilidade de Merida explodir em alguma ação violenta pelo fato de um rapaz pedir sua mão a seu pai e não a ela. Mas ao mesmo tempo em que estava feliz, seu coração parecia apertado em seu peito. A imagem de sua menininha tentando levantar o seu arco pesado veio à sua mente, trazendo-lhe lágrimas aos olhos enquanto a princesa acariciava o dragão e trocava algumas palavras com Soluço. O rapaz era uma boa escolha — com certeza a melhor entre todos os pretendentes — mas a aceitação de Merida implicava na ida da princesa à Berk. Como os corredores do castelo ficariam vazios sem ela!

Quando os trigêmeos nasceram, Fergus se sentiu imensamente feliz e orgulhoso. Era raríssimo que uma mãe desse a luz a três crianças e nenhuma delas sucumbisse. Elinor tinha sido forte e saudável como ele, de uma maneira mais suave. Mas por mais forte que fosse o amor que ele nutria pelos filhos, era a sua primogênita que tinha lhe roubado o coração.

Ele se lembrou da primeira vez que a viu, aos berros e quase colocando o castelo abaixo com seu choro. Então ele a segurou e lhe disse "olá" baixinho. Imediatamente a pequena princesa se calou e o fitou com seus olhos azuis intensos e ele sorriu através das lágrimas que brotavam em seus olhos. Os dois sempre foram perfeitamente compatíveis, para desespero de Elinor.

A mão suave da rainha pousou na sua e o olhar castanho encontrou o azul. Fergus leu as mesmas emoções no rosto da esposa, embora mais cuidadosamente contidas por um sorriso.

– É o melhor para ela. — a rainha falou, dando voz a seus pensamentos.

– Eu sei que é. — ele falou, com a voz um pouco rouca.

O problema seria fazer seu coração de pai aceitar isso.

Notas finais
Ufa! Mais um capítulo entregue no prazo. Esse capítulo ficou um pouco mais extenso do que isso e eu fui cortando as parte menos necessárias. Havia muito a ser dito, espero que não tenha dado a impressão de algo feito nas coxas. Infelizmente minha mente estava muito longe essa semana, tenho prova do Enem no sábado e não pude focar inteiramente na história... Espero que não tenha decepcionado ninguém!