Notas iniciais
"Existe um tempo para ousadia e um tempo para cautela, e o homem sábio sabe o momento de cada um deles." Sociedade dos Poetas Mortos

Estóico encarou o grupo de guerreiros que ele iria chefiar. Fora-lhe dado o comando de um batalhão inteiro.

De um lado, seus homens, guerreiros vikings atarracados e bem treinados, vestidos para a guerra, portando espadas, machados ou lanças, ansiosos para lutar e talvez morrer em batalha e garantir sua estadia eterna em Valhala. De outro os guerreiros escoceses, se é que podiam ser chamados de guerreiros. A maioria dos que respondera ao chamado do rei era composta de fazendeiros e camponeses, munidos de foices, machados, lanças e espadas rudimentares. Um único guerreiro viking valia por quatro daqueles homens. Gosmento de aproximou de seu chefe, seguindo o olhar de Estóico até parar nos guerreiros escoceses.

– A esta altura Soluço já deve estar em Berk. Acha que ele está organizando o Snoggletog?

– Provavelmente sim. Já deve ter percebido que não há como mandar reforços.

– Por que você disse a ele para mandar reforços sabendo que já seria meio do inverno quando ele chegasse?

– Se ele acreditasse que ficaríamos por nossa conta, nunca teria partido. Iria insistir em ficar e lutar, quando eu precisava que ele voltasse e cuidasse de Berk e da princesa.

Gosmento assentiu.

– As tropas dos bretões estão a um dia de marcha daqui. Chegarão ao amanhecer. — Fez uma pausa e suspirou, com uma expressão desanimada — Quanto tempo acha que vão durar? — perguntou, indicando os guerreiros escoceses com a cabeça.

Na Escócia, um homem em cada três era guerreiro, mas entre os vikings, quase não havia ninguém que fosse ignorante em empunhar uma espada. Se os vikings fossem lutar contra os escoceses seriam como lobos lutando contra ovelhas. E isso sem levar em conta os dragões.

A maioria não tinha nem mesmo uma simples armadura de couro para se proteger dos arranhões. E apesar de estarem indo para a batalha, preferiam estar em casa, cuidando das ovelhas ou em qualquer outro lugar onde o risco de morrer em batalha não fosse tão iminente.

– Provavelmente muito pouco. Estão apavorados como gatinhos.

– Então cabe a você transformá-los em leões. Faz muito tempo que não ouço um discurso de guerra seu, Estóico. Mostre-me que ainda sabe fazê-los. — Provocou Gosmento, com um sorriso de esguelha.

O líder viking adiantou-se entre os guerreiros e um murmúrio pedindo silêncio correu dos vikings para os escoceses. Estóico esperou que passasse e quando falou, sua voz era comando e autoridade:

– Guerreiros escoceses! Meus irmãos de armas! Eu vim até aqui para lutar e sangrar por cada um de vocês. Lutarei por seus lares, por seus filhos, por suas mulheres, como se fossem meus! Mas por que os bretões vem até aqui? Por que desejam suas mulheres para o prazer deles, seus filhos para serem seus escravos, seus lares para serem deles. Mas estes homens não os conhecem! Não conhecem nossas espadas, nossas lanças, nossos machados. E amanhã vamos mostrar a eles! Amanhã lutaremos pela nossa liberdade!

Houve um rugido de aprovação entre os soldados. Vikings e escoceses bateram nos escudos com espadas ou lanças de modo que o crepúsculo se encheu de batidas rítmicas enquanto os homens gritavam Liberdade a plenos pulmões.

Em meio á algazarra, Estóico dirigiu-se a Gosmento:

– E então?

– Estou vendo que você não perdeu a mão, Estóico.

– Nunca duvide disso.

E Gosmento não duvidou. No dia seguinte, todos saberiam que Estóico não era chamado de O Imenso apenas por seu tamanho.

______________

Quando se separou dela, trêmulo e ofegante, Soluço não quis abrir os olhos. Manteve-os fechados, a testa franzida em uma expressão concentrada. Foi a voz dela que o fez abrir seus olhos.

– Diga alguma coisa... — ela murmurou em um tom quase inaudível.

– Por que eu? — ele perguntou.

– Por que eu ganhei vida quando conheci você. — ela respondeu, em meio a um sorriso.

Os olhos dele brilharam por um segundo e ele aproximou seu rosto do dela lentamente. Sua mão deslizou pelo braço dela, hesitante no início, depois mais e mais confiante, subindo pelo ombro, deslizando até a mandíbula, traçando suavemente a curva da bochecha com o polegar, deixando um rastro de pele arrepiada por onde passava. Pela primeira vez na vida, Merida se sentiu exatamente ela mesma. Não uma princesa, não uma dama. Apenas Merida. Completamente exposta diante dele, sem nenhuma máscara, nenhuma maquiagem ou artifício para esconder quem ela realmente era. Ela sentiu os calos sob a pele da mão dele quando ela tocou sua nuca, segurando seu cabelo.

Os lábios dele roçaram pelos dela por um momento torturantemente longo até que ela suspirasse gemidos ou pragas, embora ela já nem tivesse certeza de qual. Ele sorriu sobre os lábios dela, divertido com a reação da princesa. Então ele se cansou de provocá-la e a beijou de novo. Seus lábios se moviam contra os dela com um carinho quase fraternal. O jeito como estremecia, denunciava um tremendo esforço para controlar a vontade de avançar, de cruzar linhas mais ousadas. Temia assustá-la.

Mas Merida não tinha esse medo. Tateou às cegas e encontrou a mão de Soluço, levando-a à sua cintura. Soluço soltou um suspiro surpreso quando os quadris dela impeliram-se para a frente. E quando ela sentiu a rigidez sob o tecido, pressionou ainda mais seu corpo contra o dele.

Aquilo era demais para ele. As sensações de desejo que sentira horas antes retornaram com um impacto atordoante, e ele teve de esforçar-se para manter a mente concentrada no que pretendia fazer. Afastou-se dela, o cenho franzido e praguejando baixinho. A princesa quase protestou quando ele a soltou, olhando-o, ofegante, com uma expressão que era metade confusão e metade tristeza.

– Acho que já podemos voltar agora. — ele disse, respirando profundamente, tentando acalmar os batimentos cardíacos. Estava trêmulo e um pouco nervoso. Se ela fizesse aquilo de novo ele não sabia o que poderia acontecer depois, ou se teria forças para se afastar.

– Você está chateado? — ela perguntou, hesitante.

– Não estou. — ele respondeu, sorrindo para ela. Tomou suas mãos e levou-as ao lábios, beijando os nós dos dedos dela com uma lentidão torturante, sem tirar os olhos dos dela, vendo-a corar com o gesto. — É melhor irmos. Devem ter colocado toda a Berk atrás de nós agora.

Merida assentiu. Soluço acordou Banguela, que se colocou de pé resmungando, subiu na sela e estendeu a mão para ela. A princesa subiu e abraçou a cintura dele, sorrindo, e encostou a cabeça no seu ombro enquanto ganhavam altitude.

–No que está pensando? — perguntou.

– Os dragões logo estarão partindo. Nessa época eles migram para procriar. Então, depois de quatro ou cinco dias, eles voltam. Normalmente trazemos os filhotes para Berk. E é quando comemoramos o Snoggletog.

– Snoggletog?

– É um feriado anual que nós temos. É o primeiro em que meu pai não estará presente, mas ele não gostaria que fosse cancelado.

–Eu sinto muito...

– Nada disso é sua culpa, Merida. — ele sorriu por cima do ombro para ela, desatando a falar sobre o Snoggletog. Descreveu a festa, a comida, a música, o costume de tirar os elmos e deixá-los virados para trocar presentes.

De repente, Merida se deu conta de que nunca vira Soluço usar um elmo viking. Todos tinham o seu, o que fazia a princesa se lembrar de um grande rebanho de carneiros. Mas Soluço não usava um. Quando questionado sobre isso, Soluço assumiu uma expressão distante, como se lembrasse de algo de muito tempo atrás. Algo doloroso.

– Meu elmo está guardado em casa. É algo especial, metade do peitoral da minha mãe. -Merida arregalou os olhos e Soluço sorriu — É, eu também tive essa reação quando soube. Eu não o uso por que quase o perdi, uma vez. Banguela o recuperou para mim, sabe? É a única coisa que eu tenho dela.

Logo avistaram as luzes de Berk e Banguela desceu lentamente em círculos, parando na frente da casa de Estóico. Um grupo de pessoas que aglomerava-se à entrada voltou-se para eles. Carregavam tochas e alguns estavam montados em seus dragões. Entre eles estavam Bocão e Maudie. A criada atravessou o grupo de vikings guinchando desesperadamente e abraçou a princesa antes mesmo que ela pudesse descer da sela.

– Onde vocês estavam? Fiquei tão preocupada! Você sumiu por horas!

– Merida se perdeu na floresta. Eu e Banguela a encontramos. — disse Soluço, resumindo a história toda.

Merida suspirou, agradecida por ele não ter dado mais detalhes do que acontecera. Já era bastante estranho ser uma estrangeira entre vikings. Pioraria muito as coisas se todos soubessem que a princesa se perdera por ter ido perseguir uma luz mágica na floresta no meio da noite. Soluço fora compreensivo, mas ela não tinha certeza sobre os outros. Certamente achariam que ela, além de estrangeira, era doida.

Ao verem que a princesa e Soluço estavam bem, as pessoas se dispersaram lentamente, voltando para suas casas, restando apenas Maudie, Bocão, Soluço e Merida.

– Bem, se estão todos bem, então vou para casa. — disse Bocão, dirigindo um sorriso de esguelha a Maudie — Senhora. Tenha uma boa noite.

Maudie ruborizou, sorrindo mais do que seria necessário em uma situação daquelas. Merida revirou os olhos para a reação dela e Soluço simplesmente ergueu uma sobrancelha. Antes de se retirar, Bocão puxou Soluço de lado e falou-lhe baixinho:

– Amanhã bem cedo, na forja.

Soluço assentiu, pensando no que Bocão poderia querer dele enquanto Maudie tagarelava sobre o estado deplorável do cabelo de Merida.

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No dia seguinte, Soluço acordou bem cedo e fez seu caminho até a forja, antes mesmo do vôo matinal com Banguela. O dragão o seguia, chateado por ter sido deixado em segundo plano, mas Soluço odiava a ideia de não saber logo o que Bocão queria.

Apesar de ser cedo, a fornalha no canto da forja estava bem atiçada. Foi agradável depois do frio congelante lá de fora. Bocão estava de costas para ele, acionando o fole como se tivesse o demônio bufando no cangote.

– Bocão... Há algum problema? — disse Soluço, para chamar a atenção do ferreiro.

Ele deu uma olhadela para trás, na direção dele.

– Ah, Soluço, chegou cedo. Entre. Vou demorar um minuto.

Continuou acionando o fole por um bom tempo, produzindo uma chama alaranjada viva, que lembrou a Soluço o cabelo de Merida. Mas também, tudo o lembrava dela, ultimamente. Bocão retirou um lingote de metal e deu-lhe algumas marteladas sobre uma bigorna. Após um minuto, a peça perdeu o brilho laranja.

– Fole. — disse Bocão, sem olhar para ele, repondo a peça na fornalha.

Soluço apressou-se a obedecer, acionando o fole em um ritmo regular, até que o brilho laranja voltasse à peça. Bocão fez sinal para que ele parasse, martelando o metal junto à bigorna mais algumas vezes.

Ele a repôs na fornalha e Soluço acionou novamente o fole, sem ser solicitado. Na terceira vez que repetiram o processo, Soluço já estava encharcado de suor. Pensou em tirar a camisa, mas não quis largar o fole pelo tempo que levaria para fazer isso. Bocão pareceu não notar o calor. No entanto, antes que pudesse repetir o processo uma quarta vez, Bocão soltou uma bufadela longa e se virou para o antigo aprendiz. Soluço aguardou pacientemente.

– Ah, Thor... Como é que eu posso dizer isso? — olhou para os lados e coçou a cabeça, encabulado. — É sobre você e a princesa. Para ser honesto, estou um pouco preocupado com vocês dois, vivendo tão próximos um do outro. Eu sei que você é um bom garoto, mas... parou embaraçado

– Bocão! — Soluço disse, indignado. — Como você pode imaginar uma coisa dessas?

– Bom, você é um homem, e ela é uma mulher. — fez uma pausa antes de acrescentar — Jovem. E linda. Não é muito difícil de imaginar, Soluço.

– Não...Não, não... Eu não estou ouvindo isso! — Soluço jogou os braços sobre a cabeça, desejando poder desaparecer. — Não é nada disso. E mesmo que eu quisesse que fosse, e não estou dizendo que eu quero, não há nenhuma razão pela qual ela iria querer algo assim, ainda mais comigo...

Mas Soluço já não tinha tanta certeza disso, ao menos não depois do beijo da noite passada.

– Ora, Soluço, não menospreze minha inteligência. Eu já vivi muito mais do que você, posso ser mais velho, mas eu sei das coisas. Acha que eu não reparei que quando voltaram a garota estava sem as meias? E eu nem quero imaginar sem o que mais.

Soluço lembrou-se. Na sela de Banguela, quando Merida se sentava, sua saia subia escandalosamente, mas ela não se importava, por que estava sempre usando meias. Naquela noite ele rasgara as meias dela e as deixara na caverna, mas ninguém além deles sabia disso.

– Soluço, você não fez nenhuma besteira, fez? — inquiriu Bocão, com uma expressão preocupada no rosto.

Soluço corou até a raiz dos cabelos, se é que aquilo era possível.

–É claro que nã... — falou, sendo entrecortado por Bocão.

– Ouça, eu não sou a pessoa mais adequada para falar com você sobre isso. Eu preferia que fosse seu pai aqui, ao invés de mim, mas no momento isso não é possível. O que eu sei é que no calor do momento, é quase impossível compreender as consequências que virão a longo prazo.

– Sabe Bocão, o fato de você ser como um pai para mim não torna exatamente tudo isso mais fácil de ouvir.

Bocão suspirou, comovido pelo que Soluço dissera. Sempre pensara nele como um filho, mas não tinha certeza de que o garoto se sentia do mesmo jeito com relação a ele.

– Não aconteceu nada. — ele arquejou, reorganizando as ideias. Parou por um segundo e então contou a história toda, desde que encontrara Banguela sozinho até a parte em que ficaram presos na caverna por causa da nevasca, omitindo a conversa que tivera com Merida e a parte em que ela o beijara. Ou que eles se beijaram. Ele já nem sabia mais.

Bocão assentiu. Inspirou o ar profundamente antes de falar.

– Bem, acho que dada a situação não havia muito mais que você pudesse fazer. Isso explica a ausência das meias. A sua sorte é que estavam todos com sono, por isso ninguém deve ter notado. — fez uma pausa e lançou um olhar penetrante a Soluço — Mas o que eu disse ainda é válido.

– Ah, Bocão, por favor! — protestou, Soluço, farto daquela conversa.

– Não falo apenas para proteger você Soluço. Uma garota viking pode entregar-se a quantos amantes quiser, desde que seja discreta. Mas a única filha de um rei, não pode se dar esse luxo. Tem de se manter acima de todas as suspeitas em todas as áreas. Até a simples suspeita sobre ela poderia prejudicá-la. Quem gosta dela deve levar isso em consideração. Compreende?

Soluço assentiu. Tão ansioso quanto Soluço para pôr fim a aquela conversa, Bocão o dispensou.

– É só isso que eu tinha para dizer. — concluiu.

– Bocão... Obrigado. Por se preocupar, quero dizer.

O ferreiro fez um gesto de dar ombros, virou-se e voltou a remexer no fole, dando graças aos deuses por não ter nenhum filho.

Notas finais
Sou péssima para nomear capítulos e as próprias fanfics. Então, como a inspiração não vinha de jeito nenhum, este vai se chamar apenas oito.