Wings of Fate
9 Afinidade
Notas iniciais
Com movimentos longos e suaves, a rainha Elinor escovava os cabelos. Usava uma longa camisola branca e se preparava para dormir, ou ao menos tentar. A guerra estava estampada em sua face. Tudo nela, até sua casa era menos do que antes. Elinor havia mandado desmanchar seu jardim particular e usá-lo como abrigo aos refugiados que chegavam todos os dias, fugindo da guerra. A grande maioria composta de camponeses e aldeões, gente simples que não podia e nem sabia se defender de um ataque armado. As muralhas do castelo ofereciam um abrigo seguro e os pátios estavam apinhados de gente que usufruía dessa proteção.
Elinor pensou em Fergus, que naquela noite dormiria sem a proteção de Dunbroch, contando apenas com seus homens para protegê-lo e seu coração apertou-se. O rei urso era um excelente guerreiro, ela sabia, mas nunca deixaria de se preocupar. Antes de ser uma rainha, ela era sua esposa. Respirou fundo, pensando que acontecesse o que acontecesse, uma rainha tinha de estar preparada para tudo e ser forte pelo seu povo.
Pousou a escova de cabelo na penteadeira, dando a noite por perdida. Sabia que não conseguiria dormir. Havia tanto em sua mente agora, seus filhos que estavam longe, seu marido que lutaria, uma guerra que ameaçava seu reino.
Um breve som da porta se abrindo ganhou sua atenção. Sem se virar, Elinor falou.
– Não preciso de mais nada. Obrigada, Quinn.
Não obteve resposta e ao ouvir passos em sua direção a rainha se virou, indignada, mas não foi Quinn quem ela viu.
O que ela viu foi um homem imenso vestido como um dos criados, mas segurando um punhal afiado e brilhante, manchado de sangue. Elinor descreveu um círculo ao redor do homem cautelosamente, tentando distraí-lo. Se ao menos pudesse chegar até a porta...
– Quem é você? – ela perguntou.
O homem não respondeu. Ao invés disso avançou até ela, com uma expressão ilegível no rosto.
– Não precisa fazer isso. Posso lhe dar ouro. Você pode fugir e eu esquecerei o seu rosto.
– Lamento. – o estranho falou pela primeira vez e pelo seu tom, dava a entender que não queria fazer o que viera fazer, mas que infelizmente, faria. – Mas William a quer morta, e o que William quer, ele consegue.
– William? – Elinor inquiriu.
– O líder da invasão dos bretões. – ele respondeu, secamente.
Sem mais nenhuma palavra, o homem saltou sobre ela, completamente ensandecido, brandindo o punhal em sua direção. Elinor desviou-se no último segundo e o estranho caiu sobre a penteadeira, mas se levantou rapidamente, colocando-se entre ela e a porta.
Avançou sobre ela outra vez, mas a rainha segurou as mãos dele, com o punhal perigosamente perto do pescoço dela. Se o seu destino era morrer, morreria! Porém, ele não a tocaria sem receber luta. O homem revidou com a outra mão, dando a Elinor tantas bofetadas que seus lábios ficaram desfeitos. Um dos joelhos dele a acertou nas costelas e Elinor dobrou-se com a dor, arfando, incapaz de se colocar de pé.
– Prometo que será rápido. – o homem tentou, em vão, tranquilizá-la.
A rainha aguardou de olhos bem abertos, sabendo que chegara o momento de unir-se a seus antepassados e confessar-lhes o seu fracasso. Então o inesperado aconteceu. Tudo o que Elinor pôde ver foi o brilho verde azulado das escamas da pequena Vigilante sobre o ombro do homem e então uma forte labareda o queimou todo o rosto. Os gritos de agonia do atacante foram a coisa mais horrenda que Elinor já tinha ouvido, mas Vigilante não parou de cuspir fogo até que eles parassem, o que não demorou muito para acontecer. Em menos de um minuto tudo acabara e Vigilante bateu as pequenas asinhas quando o corpo do homem perdeu sustentação e caiu. Logo as roupas dele incendiaram-se também, mas Elinor teve a prudência de apagá-las com a água de uma jarra antes que incendiassem todo o quarto.
Fumaça e vapor subiram do que restava do corpo e o cheiro horrível de carne queimada empesteou o quarto da rainha. Elinor tossiu e pontadas de dor a invadiram no local onde o homem a acertara. Vigilante continuava no ar e as pequenas lufadas de ar do bater de suas asas afastaram a fumaça, revelando o corpo caído do agressor. Do pescoço para cima tudo o que restou de sua cabeça foi seu crânio, completamente enegrecido pelas chamas de Vigilante. Carne, pele, cabelo e sangue foram completamente consumidos pelo jato de fogo e Elinor levou as mãos aos lábios, abafando um gritinho de surpresa.
Levantou-se com esforço, por conta das costelas que provavelmente estariam quebradas, com as pernas um pouco trêmulas do susto e se sentou na cama. Sentiu-se imensamente cansada, a mente trabalhando para tentar assimilar o que acontecera ali. Vigilante olhou para ela e pousou ao seu lado. Grunhiu baixinho e se aproximou de Elinor, deixando pequenos furinhos onde suas garras encontravam os lençóis abaixo dela. A rainha sorriu para o dragãozinho, que encorajado, subiu em seu colo.
Surpresa, Elinor acariciou a pequena fera, que ronronou baixinho sob os dedos dela até cair no sono. Pensou em Soluço e no que seria dela se o garoto não tivesse lhe deixado o dragãozinho. “Eu os protegerei como se fossem da minha família.” Ele dissera. Nunca tinha visto um dragão atacar antes, mas se aquele único dragão em seu colo, tão pequeno, podia causar um dano tão horrível a uma pessoa, o que os outros, maiores, seriam capazes de fazer? Pela primeira vez, Elinor pensou na enorme besta que Soluço cavalgava. Parecia dócil como um gatinho, mas ela ouvira rumores de que a criatura era considerada pelos vikings a cria profana do raio e da própria morte.
Havia outros dragões com os vikings, claro, que ela ainda não vira, mas por um breve momento, seu coração se encheu de tranquilidade, e enquanto sentia a pequena respiração curta e ritmada sob suas mãos ela soube que seu marido e seus filhos não poderiam estar mais seguros, nem que estivessem em uma fortaleza guardada por dez mil homens.
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Pela décima sétima vez naquela tarde, a flecha fez seu caminho até o alvo. Astrid assobiou, deslumbrada com a habilidade da princesa. Trocara os alvos de lugar, fizeram com que se movessem, até mesmo colocou Merida em cima da sela de Tempestade e a fez voar, mas não importava. Merida sempre acertava o alvo, com uma precisão mortífera. A princesa elogiara sua habilidade com o machado, mas Astrid nunca a enfrentaria se ela estivesse usando um arco. Seria como suicídio.
Algumas pessoas que estavam assistindo acima da arena aplaudiram enquanto Tempestade pousava e a princesa descia, meio pulando, meio escorregando da sela, com um sorriso no rosto.
– O que achou? – perguntou a Astrid.
– Você me ensinaria? – a guerreira pediu.
– Só se me ensinar a usar o machado.
Astrid assentiu e estendeu a mão para ela. Merida a apertou. Tinham um acordo. Então arregalou os olhos subitamente e foi até a sela de Tempestade, de onde tirou um pacote e o entregou a Merida.
– Eu tinha me esquecido. Eu trouxe isto para você. É para o Snoggletog. Soluço já lhe falou dele?
Merida assentiu, desamarrando o barbante do embrulho com cuidado. Ao abrir, encontrou uma túnica verde água, um corpete de couro para a cintura que em muitos aspectos lembrava um espartilho, calças de cor bege claro e uma estola de pele para os ombros, parecida com a que Astrid usava.
– Obrigada, Astrid. Parece muito confortável. – respondeu Merida, pensando na mobilidade que as calças lhe trariam.
– E é. – a expressão da guerreira ensombreceu-se, como se ela se lembrasse de algo do passado, e ela comentou de uma maneira quase inconsciente, com o olhar distante. – Ele gosta de verde.
Merida ergueu os olhos das roupas e olhou para Astrid, curiosa.
– Ele? Ele quem?
– Soluço. – a guerreira respondeu, dando um sorrisinho sem graça.
– Ah. – Merida olhou para ela, se perguntando como ela sabia.
Houve um momento de silêncio constrangedor e Merida voltou sua atenção às suas roupas novas. Ela também gostava de verde. Desde que vira os olhos dele, nenhuma outra cor parecera tão linda.
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Depois de passar a tarde na arena com Astrid, Merida fez seu caminho para casa outra vez. Qual não foi a sua surpresa ao encontrar não apenas Banguela esperando por Soluço, mas o próprio Soluço sentado nos degraus de casa, com o dragão ao seu lado. A luz do sol se pondo iluminava as sardas delicadas na pele dele e refletia em seus olhos de um jeito maravilhoso. Ele sorriu de lado quando a viu e Merida sentiu seu mundo rodar.
– Olá, Merida. Estava esperando você. – ele disse, com um ar descontraído.
– Me esperando? Temos uma inversão de papéis? – ela brincou.
– Estão todos organizando o Snoggletog. Tive um tempo livre. – Ele deu um tapinha no degrau a seu lado, convidando-a a se juntar a ele – O que é isso na sua mão?
– Um presente que eu ganhei da Astrid. – Ela se sentou ao lado dele e eles ficaram admirando a visão do sol desaparecendo lentamente no horizonte.
Logo os dragões levantaram vôo, saindo da ilha para procriar, como ele havia dito. Já era escuro quando o último deles sumiu no horizonte.
– E quanto ao Banguela?
– Uma vez, quando eu perdi o meu elmo, fiz para o Banguela uma cauda que ele podia ajustar sem a minha ajuda. Ele sumiu por alguns dias e quando voltou, tinha trazido o meu elmo. Tenho quase certeza de que isso foi a única coisa que ele foi fazer. Procurar o meu elmo. O Banguela é o único Fúria da noite que conhecemos. Temo que ele seja único.
– Como você. – ela completou.
Soluço sorriu para ela e Banguela grunhiu em concordância. Houve um momento de silêncio perfeito, onde os dois encaravam as estrelas, cada um envolto em seus próprios pensamentos. Merida buscou a mão de Soluço e quando a pegou ele a ergueu e beijou-a, fazendo a pele dela formigar com o contato.
–Você quer voar? – ele perguntou, com um ar que parecia indiferente, mas que na verdade era cheio de expectativas.
– Quero. – ela respondeu.
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Lá em cima, sobrevoando as encostas rochosas de Berk, Merida esqueceu-se de tudo por um momento. O vento nos cabelos e a sensação de liberdade a inebriavam. Soluço olhava as casas lá embaixo, pensativo.
– Quando estou aqui em cima, eu posso ser apenas eu mesmo. – ele falou, mas franziu a testa, pensando se aquilo não o faria parecer estranho para ela — Não sei se faz algum sentido para você.
Merida sorriu diante do que ele dissera. Fazia todo o sentido. Em Dunbroch, Merida estava sempre representando um papel diante das pessoas. Ela era a princesa, o exemplo a ser seguido. Não levantava a voz, nunca se sentia triste, nunca cometia erros. Sempre radiante como o sol da manhã. E sempre com medo de mostrar sua verdadeira face.
– Eu sei exatamente como se sente.
Soluço se virou para ela com uma expressão interrogativa no rosto. Ela inspirou fundo antes de explicar.
– É como se as pessoas estivessem sempre te avaliando, sempre esperando que você desse um passo em falso. Esperando, talvez até desejando que você cometa um erro. Não importa o que você faça e o quanto se esforce, sempre está abaixo das expectativas. E quando eles te olham, vêem um líder, mas...
– ... mas ninguém realmente te conhece de verdade. É como se vissem apenas uma máscara. – ele completou as palavras dela, chocado com o modo como ela o entendia.
Merida assentiu, também tomada pela surpresa. Ela continuou, sem tirar os olhos dos dele:
– Acho que esse é o pior tipo de solidão que existe. Estar cercado de pessoas que te admiram, cercado de pessoas que vivem ao seu redor, mas que não te conhecem. Estar sempre cercado de pessoas, mas estar sozinho.
Soluço assentiu.
– Mas você não esteve sempre sozinho, não é? Você tem o Banguela. – Merida rebateu.
– Não foi sempre assim. – Soluço respondeu, com o olhar distante. Por um momento, Merida viu a dor nos olhos dele, mas ela passou logo e ele voltou a olhar para a frente.
Ouviu um arquejo atrás de si e se virou para ela. Merida olhava para o céu, com uma expressão de deslumbramento no rosto. Soluço nem mesmo precisou olhar para saber o que ela estava vendo. As cores da aurora boreal dançavam brilhantes no céu acima deles. Podia ser algo bem impressionante para alguém que nunca tivesse visto o fenômeno, mas Merida estava simplesmente sem ar.
– Mas isso é lindo! Como vocês chamam isso?
– Chamamos de Fogo de Aurvandill. É o brilho emitido por Gerda, a noiva do deus Freyr.
Merida assentiu, abraçando Soluço e encostando a cabeça no ombro dele.
Soluço pensou no quanto eles eram diferentes, mas ainda assim pareciam se encaixar de alguma maneira. O que ela tinha que o fazia se sentir tão bem, tão à vontade, tão ele? Tentou dizer a si mesmo que ela era uma novidade, como os dragões tinham sido para ele. Algo novo e diferente, algo que ele nunca tinha visto antes, um enigma, um desafio para animar as coisas. Eventualmente quando ele se acostumasse a ela, ela iria se desvanecer como poeira no vento. Talvez ele até se cansasse dela. Mas uma vozinha dentro dele dizia “Você não se cansou dos dragões ainda. Você ama o Banguela ainda mais agora do que quando o encontrou pela primeira vez. Ela não é diferente dos dragões. Quem pode garantir que você não irá gostar ainda mais dela no futuro do que você gosta agora?”
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