Wings of Fate
10 Batalhas e Orgulho
Notas iniciais
Estóico encarou as linhas inimigas friamente. Havia uma certa ordem na batalha, um modo como as coisas deveriam acontecer. Havia a parede de escudos, que era a linha de frente onde eram mantidos os homens mais fortes. Quando as duas linhas inimigas se chocavam, a parede de escudos tinha que conter o avanço do adversário. O impacto da batalha era recebido ali, por isso cabia a eles segurar as forças do inimigo. Se a parede de escudos caísse, os inimigos avançariam, ganhariam terreno e a batalha estaria perdida.
O céus nublavam-se acima deles, e Estóico perguntava-se se isso seria ou não um problema quando perdeu a concentração por um segundo, seu raciocínio interrompido por um som de metal batendo contra a madeira, constante e baixinho, vindo da direita. Olhou para o lado e viu um garoto, que segurava uma lança e seu escudo, mas tremia tanto que os dois se chocavam. Ele olhava para as linhas inimigas com os olhos arregalados como os de uma coruja e o suor escorria de seu rosto. Devia ter a idade de Soluço. Tinha cabelos longos e pretos e olhos azuis.
– Qual é o seu nome, garoto? – perguntou Estóico.
O rapaz virou-se para o viking, surpreso com a pergunta, mas respondeu assim mesmo.
– Meu nome é Kyle. – ele parou de tremer por um segundo, e acrescentou depressa – Senhor.
Estóico poderia ser viking, mas estava lutando pela Escócia, e era um chefe de clã que merecia respeito.
– Já lutou em alguma parede de escudos, Kyle?
– Não, nunca lutei senhor. Minha família cria ovelhas, senhor. Sou o mais velho de sete irmãos e por isso tive que vir.
Estóico deu um risinho baixo. Criavam ovelhas, exatamente como em Berk.
– Então me escute, e escute com atenção. O golpe mais perigoso da batalha na parede de escudos não é da espada ou do machado que você pode ver, e sim do que não pode ver, da lâmina que vem por baixo dos escudos para morder seus tornozelos. Fique atento a isso.
O jovem escocês assentiu, nervoso. Estóico suspirou. Aquela gente tinha medo da morte. Tinha medo da dor, tinha medo de perder suas terras, tinha medo de morrer em batalha. Não eram como os vikings, homens que abraçavam a batalha como se fosse uma amante. Exibiam suas cicatrizes de lutas passadas com orgulho e lutavam com coragem, por que sabiam que se morressem em combate as Valquírias viriam buscar suas almas perdidas e as levariam para junto de seus deuses, cantando seus nomes com a glória de heróis.
–Fique perto de mim, Kyle. Eu o protegerei.
O garoto arregalou os olhos, surpreso, mas assentiu para o chefe viking. Os homens das linhas inimigas gritavam insultos para eles. Em geral as paredes de escudos passavam muito tempo olhando uma para a outra, gritando insultos, ameaçando e juntando coragem para aquele que é o momento mais medonho, quando madeira encontra madeira e lâmina encontra lâmina.
Mas o sangue dos escoceses estava incendiado e eles não se importavam. Queriam vingança.
Então simplesmente atacaram.
Esse ataque desordenado não fazia nenhum sentido, mas os escoceses estavam furiosos. Foram ofendidos pelos bretões e se sentiam insultados pelo modo como os cavaleiros deles tinham matado e pilhado nas aldeias fronteiriças. Só queriam penetrar nas fileiras inimigas. E de algum essa paixão se espalhou entre os homens, de modo que eles uivavam de raiva enquanto corriam para a frente de batalha. Um instante antes de os escudos se chocarem, os homens da retaguarda atiraram suas lanças, que passaram silvando sobre a cabeça das fileiras da frente.
Também haviam lanças sendo atiradas contra eles, e Estóico pegou uma do chão enquanto corria e a atirou de volta, com o máximo de força que pôde.
Então ouviu-se o estrondo, o trovão de madeira, escudos encontrando escudos, acompanhando pelo som de lâmina contra lâmina, o ressoar de lanças encontrando escudos, o som de corpos caindo, homens morrendo, sangue espirrando. O choque das paredes de escudos fez os homens á frente darem um passo atrás, mas logo estavam pressionando para a frente de novo, tentando forçar sua fileira da frente a atravessar os escudos dos bretões
Enquanto lutavam, Estóico ouviu o bater de asas acima de sua cabeça e sentiu as lufadas de vento que o acompanhavam. Havia escolhido para a batalha doze de seus melhores cavaleiros de dragão, e agora que as paredes de escudos se chocavam eles entravam em cena. O plano era que eles atacassem os inimigos por trás, de modo que eles ficassem prensados entre os vikings e os dragões, sem nenhuma chance de escapar, pois uma opção era tão letal quanto a outra.
Uma coluna de fogo desceu dos céus quando um Pesadelo monstruoso atacou. Um Zíper arrepiante cercou os inimigos com gás e muitos morreram quando a faísca foi acendida. Os bretões que estavam mais atrás agora abriam caminho à força entre os próprios colegas, desesperados para fugir do alcance dos dragões, mas encontrando a morte ao dar de cara com os vikings.
Quando a batalha estava praticamente ganha, o pior aconteceu. Grossos pingos de chuva caíram dos céus, e as palavras outrora repetidas centenas de vezes na arena de treinamento de Berk ecoaram na mente de Estóico, límpidas e claras como se ele ainda fosse um jovem recruta: “ Um dragão com a cabeça molhada não consegue cuspir fogo.”
Estóico praguejou, irritado com a mudança dos planos. A chuva agora caía sobre eles em baldes, encharcando o solo e lavando o sangue derramado. Os guerreiros bretões soltaram vivas e atacaram seus inimigos com força e ímpeto renovados, decididos de que a sorte estava agora a favor deles.
Mas Estóico era um líder, e um líder sempre tinha um segundo plano. Em meio ao barulho da batalha ele gritou a plenos pulmões:
– Tragam o Transformasa! Tragam o Tambor Trovão!
Mas a ordem não era necessária. Os cavaleiros de dragões do fogo já se retiravam do embate, enquanto outros dois erguiam-se por trás das linhas inimigas. Por um momento os bretões apenas riram, assistindo a fuga dos dragões e acreditando que estavam a salvo de qualquer ataque por causa da chuva.
Mas nem o Transformasa e nem o Tambor Trovão eram dragões de fogo e eram inimigos que não podiam — e não deviam – ser ignorados.
Quando uma chuva de ácido caiu sobre suas cabeças os gritos terríveis prevaleceram até mesmo sobre os sons da batalha e da chuva.
O Tambor Trovão também atacou, lançando rajadas de som maciças sobre os inimigos, impelindo-os para a frente, onde a morte os aguardava nas lâminas vikings.
Em menos de nada a batalha estava ganha. Os poucos bretões que sobraram se renderam, apavorados com a perspectiva de morrer banhado em ácido ou por um som tão alto que seria capaz de matá-los.
Estóico limpou a chuva da testa e olhou em volta, procurando por Kyle. Em algum momento da batalha o garoto se afastara dele e o líder viking temeu o pior. Encontrou-o caído junto a uma pilha de corpos de bretões, que ele provavelmente matara sozinho. Uma lança estava cravada em seu abdômen e Estóico sabia que ele não viveria muito. O garoto estava apavorado. Revirava os olhos nervosamente e seu peito subia e descia em um ritmo descompassado e desigual. Estóico colocou a espada em uma das mãos dele, fechando seu punho em volta do cabo e segurando-o lá com firmeza.
– Senhor... Eu me afastei e fui cercado, senhor...
– Shh... Está tudo bem. – Estóico tranquilizou-o — Não importa agora.
O garoto ergueu a cabeça o suficiente para ver a lança cravada na barriga e seus olhos se arregalaram em pânico súbito. Começou um tagarelar sem sentido, metade das palavras mal sendo ouvidas por Estóico.
– Eu estou perdendo muito sangue. Eu não posso perder tanto sangue... Eu não posso... Eu não posso perder tanto sangue assim... Senhor, me ajude... Tem alguma coisa errada...
– Kyle. – Estóico chamou-o, e ao ver que ele não parava de falar, disse o nome dele um pouco mais alto, até que o garoto interrompeu a ladainha e seus olhos azuis encontraram os dele, tomados pelo pavor de uma morte próxima. – Você vai morrer, é isso que está acontecendo.
–Não... Não. Não não não... – O garoto falou interminavelmente, até que o líder viking o interrompeu novamente, e seus olhos se encontraram outra vez.
–Olhe para mim. – Estóico ordenou, e Kyle obedeceu, respirando rapidamente – Isso mesmo, continue olhando. Não lute, Kyle. Pense em coisas boas. Quem você mais ama?
– Minha garota, Fainne.
– Deixe que ela o leve. – Estóico disse suavemente, como se falasse com uma criança. – Não lute. Deixe que Fainne o leve.
O garoto pareceu olhar para o vazio por um momento e então acalmou-se. Seu peito subiu e desceu mais três vezes, então parou. Uma lágrima deslizou pelo rosto de Estóico, mas ele não pareceu se dar conta dela. “Tão jovem, tanta coisa por ver e por viver.Poderia ser o meu filho”, ele pensou, e fechou os olhos. Sua mão soltou a do garoto do punho da espada. Ele morrera com bravura, segurando uma espada. As Valquírias viriam por ele, carregariam sua alma suavemente do campo de batalha, e quando Estóico morresse, encontraria com ele festejando junto aos deuses. Eles se abraçariam e ele contaria a ele quem era Fainne.
Deixou-o e se juntou aos outros.
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O Grande Salão estava cheio quando Merida entrou, tanto de pessoas como de dragões. Assim que passou pela grande porta, um calor aconchegante a invadiu, e os cheiros de cerveja, hidromel, pão recém assado e uma séria de outras iguarias a atingiram. Seus irmãos já estavam lá, é claro, em algum lugar, juntamente com Maudie e Bocão. Ela viu Soluço de costas, conversando com Astrid e mais algumas pessoas e foi até ele, insegura. Os ombros dele tremeram e ela soube pelos sons abafados que ele estava rindo. Banguela estava com ele também, e foi o primeiro a vê-la. Arregalou os olhos para ela e rugiu saudando a amiga e alertando Soluço para a presença dela. O rapaz se virou, com o finzinho de um sorriso no rosto que desapareceu completamente ao vê-la.
Ela, que já estava com medo a reação dele ao vê-la com aquelas roupas, corou profundamente com o olhar que embasbacado que ele dirigia a ela. Quando a viu surgir com a linda túnica verde água, a calça bege e a estola de pele nos ombros, Soluço ficou simplesmente sem ar. Seus cabelos estavam presos em um rabo de cavalo no alto da cabeça, mas alguns caracóis teimosos insistiam em cair-lhe ao longo do rosto. Ele estava sem palavras. Ela sorriu para ele, sem graça e se aproximou do pequeno grupo. Astrid pigarreou para chamar a atenção dele e Soluço falou, sem tirar os olhos dela.
– Pessoal... Essa... É... – ele balbuciou, incapaz de formar uma frase completa.
Merida riu diante do embaraço dele.
– Você é sempre articulado assim?
– Esta é a princesa Merida, primogênita do clã Dunbroch. – anunciou Astrid para o grupo, ao perceber que Soluço não seria capaz de dizer mais nada. – Minha amiga. – completou, em um tom firme, como se desafiasse alguém a dizer o contrário.
Soluço finalmente pareceu acordar do transe e apresentou seus amigos.
–Merida, estes são Perna de Peixe, os gêmeos, Cabeça Dura e Cabeça Quente, Melequento, e Astrid. – falou, indicando com gestos cada um deles
A princesa curvou-se em uma delicada vênia.
–É um prazer conhecê-los.
Melequento intrometeu-se, empurrando Astrid de lado e ignorando todos os outros, tomou a mão da princesa e a beijou.
– E eu sou Melequento Jorgenson, seu humilde servo, ao seu dispor. – disse, num tom de voz anormalmente alto e curvou-se, ainda segurando a mão da princesa.
A boca de Merida franziu em uma linha fina, e Astrid e Soluço entreolharam-se. Os dois sabiam, mesmo com o pouco tempo de convivência com a princesa, que ela odiava essas formalidades, ainda mais em público. Agora quase todos no salão olhavam para ela, e com certeza ela não estava contente com isso. Continha-se, pois estava em um ambiente social, mas ele soube ao ver os olhos dela faiscando que ela estava furiosa. Mesmo Banguela se afastou alguns passos.
Então, Melequento soltou-lhe a mão, se aproximou perigosamente e disse algo no ouvido da princesa. Merida arregalou os olhos em choque e tudo o que Soluço pôde ver foi o vislumbre do punho rápido de Merida indo de encontro ao queixo de Melequento. Uma gargalhada estrondosa rolou pelo grupo, explodindo com toda a força da tensão acumulada. Cabeça Dura riu até perder o fôlego e Perna de Peixe enxugava lágrimas dos olhos. Astrid riu tanto que não conseguiu ficar em pé e acabou se agachando, com uma das mãos no chão, para manter o equilíbrio. Merida não soube exatamente o que era tão engraçado, mas permitiu-se um risinho encabulado.
– Já gosto dela. – disse Cabeça Quente, entre as risadas.
Merida estendeu a mão para Melequento, ajudando-o a se levantar.
–É, eu acho que mereci essa. – ele desculpou-se.
– Mereceu sim.
– Já estava na hora de alguém fazer isso. Eu só lamento que não tenha sido eu. – zombou Astrid.
Em algum lugar do Grande Salão, música começou a ser tocada e quase instantaneamente um grupo de garotas rodeou Soluço, excluindo todos os outros. Merida ergueu uma sobrancelha, surpresa, mas Astrid apenas riu.
– Ele não vai dançar. Nunca o vi dançar, nem antes de perder a perna, nem agora. – Astrid comentou, divertida.
– Tudo bem deixá-lo assim?
– Ah, ele vai ficar bem. Banguela está com ele. Vamos comer alguma coisa. – disse e puxou-a pela mão.
Astrid guiou Merida entre as grossas colunas do Grande Salão, cumprimentando pessoas enquanto se esgueirava até a mesa do banquete. Quando Merida parou de seguí-la, Astrid olhou para ela, intrigada. A princesa tinha os olhos fixos em algo acima das colunas. Astrid nem precisou olhar para saber o que ela estava vendo.
– É o crânio do Morte Vermelha. Alguns o chamam de Morte Rubra. – ela comentou, parando ao lado de Merida e olhando para o grande crânio.
A princesa assobiou baixinho. Sempre admirou seu pai pela coragem que teve ao enfrentar Mor’du sozinho, mas ao tentar imaginar o tamanho daquela coisa, pensou que Soluço deveria ser no mínimo um pouco doido para lutar contra ele.
– É imenso... – balbuciou a princesa.
– Devia tê-lo visto vivo. – disse Astrid.
– Você viu? – perguntou Merida, de olhos arregalados postos na guerreira.
Astrid assentiu, mas ainda olhava para o crânio.
– Vi. Duas vezes. Uma foi na primeira vez que voei em Banguela. A outra foi quando Soluço e Banguela o mataram.
– Estóico contou sobre ele quando os clãs narraram os feitos do meus pretendentes. Ninguém acreditou até ver o dente. – O olhar de Merida parou em uma fenda onde estava faltando um dos dentes que havia sido retirado do crânio. – Mas eu nunca ouvi a versão do Soluço.
– Ah, ele nunca diria. – Astrid suspirou.
– Por que?
– Toda a Berk diz que ele é um herói por tê-lo matado. – Astrid apontou para o crânio com um gesto de cabeça — Ele nos salvou. Mas no fundo, acho que ele se recusa a se orgulhar disso.
– Mas por quê? Ele é um herói. Deveria se orgulhar! Eu me orgulharia. – protestou Merida.
– Eu também me orgulharia, mas Soluço não é assim. Você o conhece a pouco tempo, mas já deve ter percebido. Soluço ama os dragões, com todas as suas forças. Nunca vai se orgulhar de ter matado um deles. Não acho que ele sinta remorso por ter feito, ele não teve escolha. Mas ele nunca se orgulhará disso. Nunca vai sentir orgulho de matar.
Merida assentiu, pensativa, olhando para uma pequena fissura no crânio, a provável causa de sua morte.
– Ao invés de julgá-lo por isso, pense na coragem dele em não querer se orgulhar. – Astrid completou.
A princesa lançou um olhar na direção dele, pensando em como Soluço era nobre. Tentou imaginar qualquer um de seus outros pretendentes na mesma situação, mas não conseguiu. Tinha certeza de que eles se gabariam sobre seus feitos aos quatro ventos, falando sobre sua coragem e bravura.
Soluço era inteligente e criativo. Toda a Berk estava cheia de coisas criadas por ele. Os estábulos, as estações de alimentação dos dragões, o sistema de prevenção de incêndios e até algumas coisas pequenas, como as selas dos cavaleiros.
Ele também era um líder nato, independentemente da opinião que tinha sobre o seu desempenho. Era sensível e se preocupava com as necessidades dos outros antes das suas próprias
Merida não tinha dúvida que se tivesse conhecido Soluço antes dos jogos, ele teria sido aquele que ela escolheria, o homem com quem ela se casaria. Seu rosto corou instantaneamente quando o pensamento passou pela cabeça dela. Esposa dele. Compartilhar seu nome, seus sonhos... E sua cama.
– Merida? – Astrid chamou. — Você está bem?
– Sim. Sim, estou. Venha, vamos comer.
Merida sorriu para ela e a seguiu.
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Passaram-se alguns Claros e Escuros desde que a fêmea humana a soltara. Vigilante fechou as asas e pousou em uma pedra, numa pequena ilha ainda distante de casa. Seus olhos encontraram o círculo de fogo que se despedia distante, terminando mais um Claro e dando início a um Escuro.
Antes de soltá-la, a humana dissera alguma coisa na fala dos sem-asas, acariciara sua cabeça e a lançara no vazio, onde Vigilante bateu asas e entendeu que tinha que ir para casa. Sentia saudade da humana, um vazio dentro de si que só acabaria na presença dela.
A pequena Terror Terrível cheirou o ar e reconheceu no Sopro cheiros familiares. Fechou os olhos, ressonando baixinho. Estava perto agora. No próximo Claro, voaria para casa.
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