Wings of Fate

16 O tempo cura tudo?


Notas iniciais
"O tempo não pára! Só a saudade é que faz as coisas pararem no tempo..." Mario Quintana

O sol entrava pela janela do quarto de Merida e uma leve brisa agitava as cortinas da sacada. A princesa quedava-se imóvel, deitada em sua cama, observando as pequenas partículas de poeira agitarem-se sob a luz solar. O dia mal começara, mas Merida queria que acabasse logo. Soluço, Estóico e os seus conterrâneos vikings haviam partido a mais de seis meses. Após o enforcamento de William — ao qual Merida não comparecera para evitar Soluço — Elinor havia oferecido aos vikings um banquete e a hospitalidade do castelo, insistindo que eles seriam bem vindos pelo tempo que quisessem. Mas Soluço fora enfático em sua recusa, dizendo que já havia ficado longe de Berk por tempo mais do que suficiente, lançando um olhar gelado a Merida e dizendo que já não havia mais nada que o prendesse ali. Depois de três dias evitando-o, Merida havia descoberto que Soluço partira e desde então todo o seu tempo livre era passado em seu quarto.

Seus dias dividiam-se entre suas lições com sua mãe e um ou outro compromisso social. No início, Merida se atirara completamente às suas lições, na esperança de que isso ocuparia sua mente e afastaria lembranças dolorosas. Elinor inicialmente aprovou o entusiasmo da filha, mas a rainha notou o evidente cansaço que a princesa tentara disfarçar, e reduziu suas lições pela metade. Ao ver a palidez acentuando-se e as olheiras marcando presença constante no rosto da filha, até mesmo incentivou Merida a sair em seus passeios pela floresta com Angus. Um pouco de sol e ar puro lhe fariam bem, afinal. Mas Merida apenas ia por obediência cega, não por ousadia e desejo de liberdade como antes. Após uma semana ela parou de ir, trancando-se em seu quarto após as refeições. Sua família já não sabia como reagir à mudança. No lugar de uma princesa impetuosa, valente e de natureza selvagem e inconstante, eles agora tinham uma moça tranquila, calada e apática. Quase como se os vikings tivessem levado com eles a princesa que conheciam. A antiga Merida tinha ido embora e em seu lugar havia apenas uma casca vazia que obedecia a ordens e fazia boa figura em eventos públicos, mas era, ainda assim, oca. Nenhum de seus sorrisos chegava a seus olhos, ela já não protestava contra os apertos do espartilho ou o tédio das lições de postura. Durante as refeições a princesa comia pouco e mal, geralmente com o olhar perdido em algum ponto vazio, alheia aos olhares de preocupação de seus pais e seus irmãos. Depois de vários minutos revirando o conteúdo do prato, ela se levantava, dizia estar sem fome e que iria para a cama mais cedo.

Em uma dessas noites, Elinor também acabou perdendo a fome e saiu da mesa com Vigilante para caminhar no jardim do castelo. O pequeno dragão era agora companhia constante da rainha, para grande desagrado de sua antiga guarda pessoal, polidamente dispensada. Antes que Soluço partisse, Elinor relatou a ele como Vigilante salvara sua vida e manifestou o desejo de mantê-la em Dunbroch. Soluço ficou um tanto surpreso com o pedido, mas por fim concordou. Afinal, se as duas haviam estabelecido uma ligação tão benéfica e tranquila entre si, quem era ele para discordar? Desde então Vigilante e Elinor eram quase sempre vistas juntas. Talvez devido a seu tamanho, Vigilante não assustava os servos do castelo, que logo se acostumaram à presença dela junto de Elinor. Mas os que haviam visto o que restara do corpo do assassino enviado ao quarto de Elinor sempre mantinham uma distância cautelosa da fera. O pequeno dragão agora ostentava uma fina gargantilha de ouro em seu pescoço, feita especialmente para ela e com um delicado pingente azul em forma de lágrima. Se alguém discordasse da afeição genuína que Elinor mantinha para com Vigilante, bastava ver o cuidado que a rainha reservava ao dragãozinho. Vigilante dormia em uma grossa almofada vermelha recheada com as melhores penas de ganso, quase aos pés da cama de Elinor. Ela também marcava presença em todas as refeições da família real, comendo peixes selecionados especialmente para ela, servidos em uma travessa de prata. Estranhamente, o pequeno dragão acolheu ao tratamento com dignidade, quase como se fosse destinado à realeza. Ninguém jamais abriria a boca no castelo para recriminar qualquer atitude da pequena Terror Terrível, que agia como um gato orgulhoso e mimado. Na única vez em que Fergus havia questionado Elinor sobre o tratamento destinado ao dragão, a resposta da rainha foi ao mesmo tempo firme e polida.

– Ela salvou a minha vida. — dissera, e aquilo pôs fim a qualquer discussão ou comentários posteriores.

Era na companhia de Vigilante que a rainha deambulava em seus jardins, perdida em pensamentos quando Maudie cruzou seu caminho, com uma expressão tranquila no rosto.

– Senhora, se não houver nada mais que precise, eu gostaria de me recolher. — a criada comentou.

– Não, não há nada, Maudie. Obrigada, e boa noite. — Elinor comentou, distraída.

A criada fez uma vênia, dobrando os joelhos enquanto segurava as saias e se virou para ir embora.

– Maudie... Eu posso lhe fazer uma pergunta? — questionou a rainha.

– Sempre, senhora.

– Como Merida era durante o tempo que ficou em Berk? — Elinor indagou, mordendo o lábio inferior. — Ela era... feliz?

Maudie sorriu com a lembrança. Elinor sabia que a criada jamais mentiria e que lhe daria uma resposta franca, pois conhecia Merida desde que a princesa era uma criança.

– Radiante, durante todo o tempo lá. Ela se esforçava para corresponder as suas expectativas, claro, mas a cada dia em que ela se deitava, era como se mal pudesse esperar para começar um novo.

– Entendo. E como era o relacionamento dela com o rapaz... Soluço?

Maudie hesitou um pouco antes de falar, pensando se contaria ou não do envolvimento dos dois em Berk. A criada tinha decidido manter aquilo em segredo, com medo de prejudicar a princesa. Secretamente ela também esperava, assim como todos em Berk, que Merida e Soluço acabassem juntos. Mas os acontecimentos haviam tomado rumos diferentes.

– Soluço e Merida não passavam muito tempo juntos, ele era sempre ocupado com suas tarefas em Berk, mas ele sempre fez questão de reservar cada minuto do seu tempo livre para ela. E desse tempo que passavam juntos eu posso afirmar apenas o que vi: Soluço tratava Merida exatamente como trata os seus dragões, com um carinho e paciência consideráveis. Em consequência, a princesa sempre acabava por fazer o que o agradaria. Se não for ousadia de minha parte dizer isso, acredito que não há na Escócia ou em qualquer outro lugar um pretendente mais adequado para Merida do que ele, Majestade.

– Não é nenhuma ousadia. Obrigada, Maudie. É só isso por agora.

Elinor dirigiu-se ao quarto da filha com Vigilante em seus calcanhares, certa de como começaria a conversa.

___________

A Rainha parou em frente à porta pelo período de três inspirações longas. Encarou os olhinhos brilhantes de Vigilante e sussurrou para o dragão um “Me deseje sorte”. Depois tomou coragem e bateu suavemente.

– Merida... Posso entrar?

Um fraco sim fez-se ouvir do outro lado e Elinor abriu a porta. Merida estava apoiada no parapeito da sacada de seu quarto, vestindo uma camisola longa de alças franzidas. Uma delas estava displicentemente jogada por sobre o ombro. Uma brisa suave agitava as cortinas e os cachos rebeldes da princesa. A rainha observou a filha e sua boca cerrou-se numa linha fina. Quem não a conhecesse e a visse assim, tão tranquila, tão serena teria acreditado que Merida era assim o tempo todo. Mas não era. A mulher parada ali era apenas uma pálida sombra do que Merida já tinha sido. Elinor aproximou-se dela e seguiu seu olhar até as pedras do pátio. Vigilante saltou agilmente para o parapeito, enfiando-se debaixo das mãos de Merida, que inconscientemente pôs-se a acariciar o dragão.

– Ele não está lá. — a rainha comentou, após alguns segundos de silêncio, sem mover seu olhar para a filha.

– É... Não está... — Merida comentou, quase para si mesma, então seus olhos brilharam por um instante em reconhecimento e ela olhou para a mãe, confusa. — Quem não está lá, mamãe?

A rainha lhe deu um sorriso misterioso, cheio de significado, e se virou para o quarto, admirando um belo vestido de seda azul escuro que tinha sido confeccionado especialmente para a princesa, cuidadosamente estendido sobre um dos catres. As mãos avaliadoras de Elinor inspecionaram o bordado delicado, a gola e as mangas trabalhadas com pequenas jóias incrustadas nas extremidades. O vestido seria usado no dia seguinte, em uma cerimônia em que Fergus concederia o título de conde a um dos soldados do seu exército, em recompensa por sua bravura e coragem na luta contra os invasores.

– Um trabalho digno de uma princesa, sem dúvida. — Elinor avaliou, com um ar distante. — Você nasceu nesse mundo jóias luxuosas e nobres títulos... Mas eu fico imaginando se é isso mesmo que você quer.

– É claro que sim! — Merida respondeu, exasperada, e por um breve momento naqueles últimos meses, ela se pareceu de novo consigo mesma. — Eu agora estou em casa, nossa família está unida e o nosso povo vive em paz. Está tudo como deveria estar. — Ela lançou o olhar ao chão, distraída, como se tentasse convencer a si mesma e não conseguisse.

Elinor tomou as mãos da princesa nas suas. Mãe e filha ficaram por alguns instantes assim, olhando para as próprias mãos até que Elinor falasse.

– Sim. Nossa família está unida novamente, a paz governa nossas terras outra vez. — Elinor fez uma pausa e estreitou Merida em um abraço. — Nós duas estamos juntas de novo, e você me terá para sempre. — ela fechou os olhos quando Merida retribuiu o abraço e acrescentou em um tom tranquilo. — Mas será que isto basta?

A princesa arregalou os olhos por sobre o ombro da mãe, ainda envolta em seu abraço. O entendimento moldou sua expressão seguinte, quando Elinor se afastou, segurando a filha pelos cotovelos. Um leve sorriso surgiu no rosto da rainha, pouco antes dela se afastar e rumar em direção à porta. Merida ficou olhando a mãe se distanciar, seu rosto uma mistura de surpresa e choque quando a rainha falou outra vez, pouco antes de cruzar a porta.

– Seja qual for a sua escolha, nós nos teremos para sempre.

Por um momento incrivelmente longo a princesa permaneceu assim, imóvel, olhando para a entrada. Então como se despertasse de um sonho, Merida correu até a porta, ajeitando a alça da camisola no caminho, enquanto perguntava:

– Mamãe, a senhora acha que... — ela parou de falar ao chegar a porta e ver o corredor vazio. Elinor já tinha ido embora.

Merida fechou a porta lentamente, mas continuou segurando o trinco, pensativa. Sua mãe realmente acabara de dizer que aprovaria qualquer escolha que ela fizesse? Era isso o que ela ouvira? Ao pensar nos últimos meses longe de Soluço, Merida sentia-se como alguém sedento sob um sol escaldante a quem oferecessem um copo d'água. Porém, mal o frescor atingira seus lábios e alguém o arrancara de suas mãos e o atirara longe. Ela mesma fizera isso. Para o bem de seu povo, é claro, mas a única responsável era ela. Não podia culpar Soluço. Mas agora sua mãe acabara de deixar implícito que a apoiaria em sua escolha, qualquer que ela fosse. Por um breve momento, Merida permitiu-se ter esperança.

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Um golpe lateral de Astrid desarmou Soluço. Era a terceira vez que isso acontecia desde o início de seu treinamento naquela tarde. A guerreira o observou caminhar mecanicamente até o machado com uma expressão raivosa no rosto. Tinha sido assim durante os seis meses seguintes ao seu retorno. Todas as vezes em que Soluço e ela lutavam acontecia o mesmo. No início ele atacava Astrid como se quisesse matá-la, com uma névoa estranha e perigosa em seus olhos. Seus golpes eram precisos e letais e nesses momentos era como se o machado fizesse parte do corpo dele, uma extensão de si mesmo. Mesmo Astrid, que em suas lutas continha-se para não ferir os adversários tinha que ficar vigilante frente à fúria cega de Soluço. Mas então, rápido como havia começado, seu ímpeto se desvanecia e o treinador de dragões baixava a guarda abruptamente, cometendo erros dignos da mais inocente das crianças.

Era quase como se ele esquecesse do porquê de estar ali, como se esquecesse o que estava fazendo bem no meio dos seus movimentos. Em muitos desses momentos ela o machucava sem querer, preparada para um ataque que não viria. Numa dessas ocasiões ela abrira um corte imenso no abdômen dele, deixando cair o machado logo em seguida, chocada, pois ela tinha absoluta certeza de que ele se defenderia. Depois disso ela redobrou o cuidado com ele, tanto para não ser morta quanto para não matá-lo acidentalmente. Então Astrid o desarmava, ele tornava a buscar a arma e começava a lutar outra vez, com menos vontade do que antes. A guerreira franziu o cenho para ele e atirou o próprio machado no chão.

– Já chega. Eu me recuso a servir como carrasco para expiar os seus pecados. — ela disse, num tom perigosamente baixo, encarando-o. O gelo no olhar dela quase chegava a estalar, mas Soluço estava distante demais para perceber — ou se importar.

– O que? — ele perguntou, subitamente estimulado pelas palavras dela.

– Estou dizendo que pra mim chega. Não vou participar disso que você está fazendo, seja lá o que for. Resolva isso e depois venha me procurar. — ela respondeu, com ambas as mãos nos quadris.

Soluço franziu o cenho para ela.

– Resolver... Isso? — ele inquiriu lentamente, dando ênfase a cada sílaba, com a raiva notável em sua voz.

– Sim! — a guerreira gritou, descrevendo um semicírculo em torno de si mesma, revirando os olhos e erguendo os braços para o céu. — Sim, resolver isso! Vá atrás dela. Faça o que tem que fazer. Mas não venha até aqui pronto para matar e de repente se distraindo com as lembranças para correr o risco de ser morto. Eu não vou carregar isso na minha consciência!

– Então é disso que se trata? Eu pensei já tinha te explicado o que aconteceu, Astrid. Eu não vou revirar isso tudo outra vez.

– Não vai revirar isso? Você está exalando isso! Está saindo pelos seus poros! — Ela cutucou o peito dele com o indicador — Você a ama, Soluço! Vá atrás dela e a traga de volta. Ela pertence a Berk e você sabe disso!

Soluço deu um risinho irônico e sem nenhum humor antes de responder.

– É um ótimo jeito dela mostrar que me ama também. Me desprezando pelo que eu sou e por... Isso... — ele fez um gesto apontando a perna de metal.

– Como você pode dizer uma coisa dessas? — Astrid rebateu, defendendo a amiga — Ela dormiu sob o seu teto, comeu sua comida. Ela conviveu com a nossa gente, aceitou os nossos costumes... Ela até parece viking! Ela até mesmo age como uma! Você me disse que o pai dela também não tinha uma perna e que ...

– Eu não vou atrás dela, Astrid! — ele gritou, cortando a frase dela bem no meio. A guerreira rangeu os dentes e cobriu a distancia entre eles quase correndo, armando um soco que Soluço não pôde desviar. O punho dela o atingiu com violência e ele caiu para trás, apoiado em seus cotovelos, tocando os lábios de leve e franzindo o cenho ao ver o sangue em seus dedos. Antes de poder se recuperar, Astrid agarrou-o pela gola da camisa e o ergueu, desajeitadamente, até que ele a olhasse nos olhos outra vez. Soluço havia se esquecido de como Astrid ficava forte quando estava com raiva. E naquele momento, ela transpirava raiva por todos os poros, por cada fio de cabelo, a cada expiração. Ele forçou a si mesmo a não desviar seus olhos dos dela.

– Eu não vou ficar parada vendo você fazer isso consigo mesmo, Soluço. — ela vociferou. — Eu não vou me sentar e ficar assistindo você se destruir. Não foi para isso que eu abri mão de você!

A surpresa tomou conta do rosto dele. Soluço abriu a boca para tentar falar, mas Astrid o sacudiu com força e ele parou.

– Eu ainda não terminei. Ouça. Eis o que você vai fazer. Você vai até o seu pai agora, e vai dizer que está indo até Dunbroch, conversar com Merida. Depois, você vai juntar suprimentos e vai encontrar Banguela e vocês dois irão até a Escócia. É óbvio que Merida não disse isso sem um motivo. Eu a conheço. Ela deve ter uma razão muito forte para fazer o que fez. Ela deve estar com medo ou confusa...

– Ou deve até estar casada com outro. — ele sugeriu com sarcasmo.

– Cale-se! — ela rosnou. — Eu vou te seguir por tempo suficiente até achar que você não vai mais voltar atrás. E você não vai voltar a Berk sem ter ido falar com ela. E se voltar a Berk sem ela, eu juro, em nome de Thor e de todos os deuses inferiores que vou te surrar até a morte ou morrer tentando. Será que eu estou me fazendo entender?

– Isso é loucura! Eu não posso simplesmente... — Soluço parou abruptamente ao ouvir o som dos punhos de Astrid se fechando com mais e mais força sobre o tecido de sua camisa, sua respiração ficando mais pesada e descontrolada e seus dentes rangendo tanto que achou que fosse se partir. Ele rolou os olhos e respondeu, da melhor maneira possível.

– Eu vou tentar. — ele disse, incerto.

Isso pareceu ser o suficiente, pois ela o soltou com um empurrão, girou nos calcanhares e foi embora, maldizendo os homens e sua teimosia.

Notas finais
Chegando na reta final, gente! Mais dois capítulos e WoF acaba!