Wings of Fate
15 O peso do dever
Notas iniciais
Exausta e ferida, Merida cobriu os olhos com a quando o brilho do sol incidiu sobre seu rosto. Piscou algumas vezes, olhando para o batalhão de soldados armados que marchava na direção deles. Mesmo ao longe, podia distinguir a figura inconfundível de seu pai, montado em Angus. Pelo capacete de chifres, Merida reconheceu Estóico e atrás deles os chefes de clãs. Ao vê-la, Fergus desmontou Angus e correu na direção dela, gritando seu nome. Quando a alcançou, Merida ignorou seus ferimentos e deixou-se cair no abraço do rei urso, que abriu os braços mais um pouco para receber seus outros filhos. Em meio às lágrimas de alívio por ver seu pai bem, Merida ouviu o som do galope próximo e se virou para ver sua mãe cavalgando uma égua branca na direção deles.
Elinor desceu com agilidade e praticamente correu até eles, abraçando Merida e os trigêmeos, todos ao mesmo tempo. Soluço observava a cena, com um sorriso leve desenhado em seu rosto. Então é assim que é ter uma mãe, ele pensou. Não pôde deixar de sentir uma pontinha de inveja de Merida e seus irmãos ali, sendo cobertos de beijos e prensados no abraço não de um, mas dos dois pais. Pensativo, ele mudou o peso de um pé para o outro. De repente um aperto de ferro fez-se sentir na manga de sua camisa. Ele mal teve tempo de ver a mão firme de Elinor puxando-o para o abraço também e meio que caiu de joelhos entre eles com o rosto agradavelmente preso entre as mãos frescas da rainha, enquanto ela o beijava suavemente na testa. Elinor o abraçou e por um longo tempo ele não soube o que fazer, mas quando a rainha sussurrou um "Obrigada" em seu ouvido, com a voz trêmula de felicidade, ele se rendeu e passou seus braços ao redor dela também.
O leve grunhido de Banguela afastou-os e Elinor pôde olhar melhor para cada um deles, correndo os dedos de leve pelo rosto de Merida, assustando-se ao ver seus ferimentos.
– Estou bem, mãe. — a princesa murmurou. — Soluço me protegeu do pior.
Fergus lançou um olhar a Soluço quando ele desamarrou algo da sela de Banguela e lhe entregou a ponta de uma corrente que estava ligada ao pescoço de William com a mesma displicência de quem entrega um cachorro a outra pessoa.
– Majestade, eu lhe entrego William, o líder da invasão bretã.
As emoções atravessaram o rosto de Fergus rapidamente: Fúria, asco, ódio. Mal pôde conter-se para pronunciar as palavras:
– Foi ele quem lhe feriu? — ele dirigiu-se à Merida, sem no entanto, tirar os olhos do bretão. A princesa assentiu.
– Tenho certeza de que nas nossas masmorras o prisioneiro lhe dirá tudo o que quiser saber, antes de ser enforcado. — salientou Elinor, como se dissesse que ali não era o momento de lidar com ele.
Fergus grunhiu, aceitando a sugestão da esposa à contragosto, ao mesmo tempo em que retirava a grossa capa de pele de urso de seus ombros e a colocava sobre os de Merida.
Naquele instante, Estóico e os chefes de clãs os alcançaram. O líder viking tinha uma expressão ilegível no rosto. Soluço mal pôde encarar os olhos do pai, baixando o olhar, falando tão rápido que mal conseguia se fazer entender.
– Eu sei que não devia ter deixado Berk... Mas as provisões foram checadas, os telhados foram arrumados, nós estocamos a lenha. Eu deixei tudo no lugar antes de sair, pai. Bocão e Astrid estão cuidando de tudo. Mas eu tinha que vir, não podia deixá-la tentar sair de Berk sozinha. Eu prometi que... — as palavras morreram assim que Estóico o puxou pelo ombro e o abraçou.
Soluço arquejou, aliviado e surpreso. Quando fora a última vez que o pai o abraçara? Demonstrações de afeto não eram muito comuns entre os vikings. Mas como era bom voltar a senti-lo em sua vida, quando até a alguns momentos atrás ele pensou que nunca mais o veria. Soluço o abraçou se volta, grato por tê-lo em sua vida.
Quando se separaram, Elinor sugeriu educadamente que todos fossem levados ao castelo onde os ferimentos seriam tratados e eles pudessem descansar, sugestão que foi imediatamente aprovada.
_____________
No meio da comoção pelo retorno da princesa e seus irmãos, Soluço e Merida foram separados. O médico que cuidou de Soluço era velho, pequeno e encurvado de uma maneira que fazia ele se lembrar de Gothi. O velho senhor cuidou de sua mão, imobilizando-a com ataduras e pedaços firmes de metal, tagarelando alegremente sobre o clima enquanto o fazia. Disse que dentro de um mês ele estaria apto a movê-la novamente, aplicando um cataplasma de ervas sobre o corte na testa. Ao ver o quanto as mãos dele tremiam, Soluço agradeceu silenciosamente aos deuses por não precisar de pontos.
Por fim saiu, dizendo algo sobre trazer alguém para ajudá-lo com o banho, mas Soluço mal teve tempo de perguntar, pois mal o homem cruzou a porta e um enxame de servas entrou no quarto, carregando uma banheira grande de metal, toalhas, sabonetes, essências e vários baldes de água fumegando.
Antes que pudesse ao menos pedir alguma privacidade Soluço já estava rodeado por elas. Tentou protestar em vão quando as criadas o despiram, corando profundamente quando percebeu o que aconteceria. Infelizmente para ele já era tarde para escapar da armadilha. Um balde de água morna foi jogado com displicência sobre a cabeça dele, enquanto vários pares de mãos lavavam seu corpo com esponjas, sempre com o cuidado de manter sua mão esquerda seca.
– Por favor, senhoras, isso não é necessário. Eu posso me... — ele se interrompeu, dando gargalhadas ao sentir alguém esfregar seu pé com uma esponja, fazendo cócegas.
As mulheres conversavam com uma tranquilidade que o assustava, como se estivesse realizando uma tarefa simples, como cozinhar ou costurar.
– As senhoras já lavaram tudo! — ele protestou, arregalando os olhos e corando furiosamente ao perceber que elas ainda não tinham lavado "tudo".
Soluço ouviu risinhos e virou-se para ver os trigêmeos parados na porta. Lançou-lhes um olhar desesperado, esperando encontrar alguma piedade neles, mas eles apenas riam.
– Me ajudem! — ele suplicou, mas poderia ter gritado, não fazia a menor diferença. Mal podia ouvir seus próprios pensamentos com aquela balbúrdia que as mulheres estavam fazendo.
Os três se entreolharam, como se considerassem atender ou não ao pedido dele e saíram rapidamente. Logo em seguida voltaram, gritando em alto em bom som:
– Mor'du! Mor'du voltou e está no castelo! Corram e salvem suas vidas!
A cena paralisou-se por alguns segundos, como se as palavras pairassem no ar, e as mulheres estivessem digerindo lentamente seu significado. Então um rugido distante se fez ouvir no corredor, um rugido que seria amedrontador se ele não soubesse que saía do fundo da garganta de Banguela. Em menos de nada todas saíram correndo, em uma confusão de gritos, lamentos e maldições, deixando Soluço nu e atordoado na banheira, com um dos lados do corpo totalmente ensaboado e a cabeça cheia de espuma. Quando a última criada fugiu, os trigêmeos entraram juntamente com Banguela e fecharam a porta, fixando firmemente o ferrolho. Ainda estavam rindo enquanto faziam isso, contudo.
Um deles — Soluço não soube exatamente dizer qual, pois diferente dos gêmeos de Berk aqueles garotos eram iguais como três gotas d'água — carregava roupas dobradas, com uma padrão geométrico idêntico ao que eles estavam vestindo.
Os três o ajudaram a terminar o banho, passando a água ou o sabonete quando solicitados e por fim, a toalha. Foi só quando já estava totalmente seco que Soluço reparou que suas roupas tinham desaparecido. Como se o seu rosto denunciasse o que estava pensando, os três se apressaram a lhe estender o kilt.
– Levaram para lavar. — comentou Hamish. — Suas roupas. Tinha muito sangue nelas. Mamãe pediu que viéssemos lhe ajudar a se vestir.
Havia uma camisa branca de mangas longas, com cordões para ajustar na gola, uma fivela para prender um longo tecido no ombro e um cinto de couro preto. Soluço observou o padrão xadrez do tecido em tons de roxo, verde de cinza, o mesmo que os três vestiam.
–São as cores da nossa família. Os Dunbroch só usam o kilt assim. — explicou Hubert.
Soluço vestiu a camisa, perguntando-se exatamente o que significava estar vestido como um Dunbroch e se aquilo significava que a família de Merida o via como um deles. Habilmente os príncipes envolveram o corpo de Soluço com o tecido, que era longo o suficiente para cobrir tudo o que era importante e ainda dar a volta por sua cintura, com o excedente passando por cima do ombro e prendendo-se outra vez na cintura, na parte baixa de suas costas. Quando se olhou em um grande espelho na parede, Soluço arquejou, com a boca levemente entreaberta. Se ele não tivesse absoluta certeza de que era um viking, alguém poderia lhe dizer que ele tinha nascido escocês e ele acreditaria. Tinha que admitir que o ar fresco nas partes baixas era muito confortável.
Naquele momento a porta se abriu e Merida entrou. A princesa usava um vestido longo amarelo claro, e seu cabelo tinha sido lavado e escovado, afastado dos olhos por duas minúsculas tranças que começavam nas têmporas e se juntavam em sua nuca. A despeito dos hematomas em seu rosto, Soluço achou que ela era a coisa mais linda que ele já tinha visto naquele dia. Ela também olhava para ele. Com os cabelos úmidos, vestido daquele jeito, com as cores de seu clã... Merida corou levemente com a sensação que a atingiu, desviando de leve o olhar para um canto mais seguro.
– Soluço... Nós podemos dar uma volta? Conversar? — ela pediu, levemente apreensiva.
Ele assentiu, seguindo-a pelos corredores. Ela parecia nervosa, como se tivesse que dizer algo difícil, mas não soubesse como. Soluço segurou a mão dela, satisfeito com como isso a ajudou a relaxar, toda a tensão escoou dela como água por sobre o telhado. Ele esperou pacientemente sem dizer nada enquanto caminhavam. De repente um grupo de criados virou um dos corredores e passou por eles. Merida soltou a mão de Soluço como se ela a queimasse, empalidecendo e olhando para o lado oposto ao dele.
Quando as pessoas passaram, sussurrando e tecendo comentários indiscretos, Soluço lembrou-se das palavras de Bocão "Até a simples suspeita sobre ela poderia prejudicá-la.".
Ele suspirou e parou de caminhar, chamando a atenção dela para si.
– Merida... Eu ia falar com seu pai. Só estava esperando o melhor momento. — ele explicou, em um tom calmo e carinhoso.
– Falar com meu pai? — ela indagou.
– Sobre nós. Tudo. — ele segurou outra vez a mão dela e os olhos azuis desceram para seus dedos, entrelaçados nos dela. — Merida, eu quero me casar com você. Você aceita ser a minha esposa?
O olhar da princesa encontrou o dele e Soluço sorriu, ao olhar para ela. Quando os olhos de Merida marejaram, ela soltou sua mão e desviou o olhar, ele soube que havia algo mais. Ela deu as costas para ele, encarando uma tapeçaria na parede com o desenho de três pequenos ursos e uma princesa sobre um cavalo. Precisou de toda a sua coragem para dizer em voz alta o que estava em sua mente, e ainda assim parecia que iria desmoronar. Preferia enfrentar Mor'Du cem vezes, cem vezes ser derrubada por ele e cem vezes achar que iria morrer com o urso amaldiçoado rosnando acima dela do que ter que dizer aquilo em voz alta. Mas de alguma maneira ela conseguiu se virar para ele e falar:
– Eu não vou me casar com você, Soluço. Você e eu não devemos ficar juntos. – disse, em um tom frio.
A dor a atingiu como um punhal quando o sorriso ruiu do rosto dele, dando lugar à incredulidade. A voz dele tremeu por um segundo, mas a seguir recuperou a firmeza.
– Merida, eu não... — ele começou, mas ela ergueu a palma da mão para ele, pedindo silêncio. Tinha que pará-lo, tinha que dizer tudo, não podia deixá-lo continuar. Ela tinha que fazê-lo desistir dela.
– Eu não posso me casar com um viking. — ela cuspiu as palavras, no tom mais rude que pôde.
A expressão magoada no rosto dele a cortou como mil navalhas incandescentes. Ele mal se recuperara do golpe e do choque que ela causou quando Merida atacou de novo, sem dar-lhe tempo para se recompor:
–Preciso de um homem do meu povo, um homem que seja digno da minha posição. — ela sugou o ar, fechando os olhos antes de proferir a próxima frase — Preciso de um homem completo, Soluço. Em todos os sentidos.
Ele abanou a cabeça uma, duas vezes como se não conseguisse entender as palavras ou não conseguisse extrair delas nem uma gota de sentido. Depois olhou para ela horrorizado, ao compreender e assimilar o que ela dissera. Um homem completo. Tudo o que ele não era. Foi então que mais do que depressa o desprezo tomou conta de suas feições. Sua voz era fria e cortante como gelo quando ele falou.
– Eu compreendo. — ele disse, curvando-se, em uma vênia tão profunda que fez Merida querer chorar, e depois deu meia volta e a deixou, caminhando a passos duros pelo corredor, sem olhar para trás nem uma única vez.
Quando o som dos passos dele se distanciaram, Merida permitiu-se chorar finalmente, encostando-se à tapeçaria e escorregando lentamente até o chão, com as mãos cobrindo a face. O que ela fizera? Nunca seria capaz de consertar aquilo. Mas era o necessário, não era? Se aceitasse a proposta de Soluço sem que houvesse uma competição pela mão dela, os chefes de clãs ficariam ofendidos e outra guerra se iniciaria. E já haviam perdido tanto! Tantas pessoas tinham morrido pela ambição de um homem estúpido. "Temos uma obrigação para com o Reino, Merida, e essa obrigação está acima de nossos desejos pessoais, até mesmo dos nossos sentimentos.". As palavras da carta de sua mãe vieram-lhe à mente, tão claras que ela pôde até mesmo ouvi-la falando em sua cabeça. Merida sabia que nunca mais iria amar alguém como amava Soluço. Não havia ninguém que seu coração desejasse mais, ninguém que a compreendesse melhor, ninguém com quem ela quisesse passar o resto de seus dias. Mas Merida não mergulharia seu reino em ruína e caos em troca da sua felicidade. Ela não seria como Mor'Du. Ela fizera a coisa certa, não fizera? Mas por que é que não conseguia se sentir bem com isso?
Os ombros da princesa tremeram com os espasmos que os soluços lhe causavam. Ela afundou a cabeça entre os joelhos e deixou escapar um grito que foi morrendo aos poucos em sua garganta até cessar, em um gemido doloroso. Se alguém passasse por ali veria uma princesa sentada, agarrada aos próprios joelhos, de cabeça baixa, chorando. Se alguém passasse por ali naquele momento, jamais diria que a princesa valente da tapeçaria que cavalgava pela noite habilmente com três pequenos ursos na garupa e a mulher chorando no chão eram a mesma pessoa. Mas ninguém passou. Não havia ninguém para vê-la.
Fale com o autor