Wings of Fate

11 Lar é onde o coração está


Notas iniciais
Nada que eu já conheci me fez sentir assim Nada que eu já tenha visto me fez querer ficar Mas aqui estou eu, pronto para você Estou dilacerado, estou caindo, ouço meu lar me chamando Eu nunca senti algo tão forte. Isso é algo que eu jamais senti. Nothing I've ever known - Bryan Adams

Astrid apenas observava, boquiaberta, enquanto Merida comia. A princesa havia pego uma perna inteira de cordeiro e foi perfeitamente capaz de comê-la sozinha! Ela captou o olhar de Astrid a guerreira bebeu um gole de hidromel, tentando disfarçar o espanto.

Merida olhou em volta, varrendo o Grande Salão com seus olhos azuis. Haviam pequenos grupos de pessoas entretidas em conversas, aqui e ali. De vez em quando, alguém soltava uma gargalhada alta e explosiva, assustando e divertindo quem estava próximo. O grupo dos amigos de Soluço havia se dissolvido parcialmente. Os gêmeos disputavam entre si quem conseguia beber mais hidromel, com uma mínima vantagem de Cabeça Dura, enquanto outros vikings gritavam incentivos.

Melequento e um viking mais velho se entretinham em uma violenta queda de braço, as testas escorrendo suor e expressões medonhas de esforço estampadas na face. Soluço continuava a recusar convites para dançar, gentilmente se esquivando das tentativas frustradas das garotas vikings. Os irmãos de Merida corriam atrás de um Terror Terrível, que não parecia nem um pouco disposto a se deixar ser pego. E Bocão e Maudie dançavam, a enésima música naquela noite, fazendo a princesa admitir que mesmo sem uma perna, o ferreiro tinha uma agilidade e leveza admiráveis.

A ilha era bruta e selvagem, seu povo louco, sua terra e habitantes inesperadamente adoráveis e ela estava mais encantada com tudo do que gostaria de admitir. As brisas que sopravam através de Berk traziam o cheiro do mar, o zumbido e o assovio dos vôos nunca cessava, e os rugidos suaves na hora de dormir não a assustavam. Os vikings poderiam se vestir de uma forma estranha, mas suas risadas, sua fome, sua raiva eram como as dela, desesperadamente humanas. Como ela pôde ter pensado que aquele povo, tão parecido com ela era apenas um punhado de bárbaros sem consciência?

O choque a atingiu com violência quando ela percebeu que um dia teria que deixar aquele lugar e voltar para sua antiga vida de lições, espartilhos apertados e compromissos formais intermináveis, voltar para Dunbroch, onde ela não tinha amigos, onde sua risada alta era considerada estranha, onde ela nunca seria boa o suficiente.

Sua expressão deve tê-la traído, por que mesmo cercado por uma roda de garotas vikings carentes de sua atenção, Soluço olhava diretamente para ela do outro lado do salão, com a preocupação estampada no rosto. Quando seus olhares se encontraram ele fez um gesto de cabeça e ergueu as sobrancelhas, com uma expressão interrogativa que parecia perguntar “O que foi?”.

Merida sorriu para ele de lábios fechados e balançou a cabeça em negação como se respondesse “Não é nada.” Ele fez menção de ir até ela, mas assim que ele deu dois passos a roda de garotas se fechou sobre ele, limitando-o. Merida sorriu com isso e teve uma ideia. Ergueu-se de súbito e despediu-se de Astrid, que a deixou ir com um aceno.

Caminhou até ele, decidida, abrindo espaço entre as garotas que protestavam, indignadas, e pegou a sua mão. Soluço olhou para ela, a confusão e o alívio estampados no rosto quando ela o puxou para fora do grupo.

– Vem dançar comigo. – ela ordenou.

– Não! – ele disse, meio rindo, meio negando e apontou para a perna – Eu não posso! E não sei dançar.

Ela revirou os olhos, surpresa que ele tinha usado isso como desculpa, como se ela não o tivesse visto se mover muito bem com sua prótese. Ela apontou para onde Maudie e Bocão dançavam, com uma expressão de desafio no rosto. Ele pensava em algo para dizer em sua defesa, ciente de que estava perdendo a discussão quando Merida olhou para trás e puxou sua mão com um aperto de ferro. Por fim ele cedeu com um suspiro e um encolher de ombros, deixando-se ser guiado por ela em direção à multidão.

Enquanto caminhavam as pessoas paravam e lhes lançavam olhares de surpresa, muitos de aprovação. Os mais ousados riram e bateram palmas, o que fez Soluço corar, um pouco embaraçado, perguntando-se o que seu pai diria se o visse agora. Merida ostentava um sorriso radiante, totalmente ciente dos olhares escandalizados que o grupo de garotas lhe dirigia. Ela fizera o que nenhuma viking conseguia. Convenceu Soluço a dançar com ela. Ou melhor, obrigou-o.

O rapaz olhou em volta, um pouco nervoso, repassando rapidamente os movimentos que ele conhecia de cor em sua mente, mas que nunca executara. Ela se virou para Soluço e apertou sua mão uma última vez antes de soltá-la. Merida ergueu o braço direito com o punho fechado e Soluço fez o mesmo, encostando seu braço ao dela. Ela sorriu para ele quando giraram olhando um para o outro e trocaram o braço, invertendo o movimento. Soluço sentia agora o peso de todos os olhos do salão postos nele, mas não se importava. Tudo que podia ver era o azul límpido e claro diante dele. Era Merida que o segurava na terra agora, ela era o seu centro de equilíbrio. Ele riu quando eles se deram as mãos de frente um para o outro e ela saltou agilmente de um pé para o outro, sempre mantendo os olhos nos dele. Apoiou-se em um dos joelhos, segurando a mão dela no alto enquanto ela dava a volta ao redor dele e depois ergueu-se outra vez, tomando as mãos dela nas suas e dando um passo para o lado oposto do dela. Ela virou-se de costas para ele, ainda de mãos dadas e ele a girou habilmente, deliciado com o sorriso que ela lhe dirigia, a expressão em seu rosto, os cachos soltos que balançavam pelo rosto. Ele a ergueu pela cintura e conteve uma careta por causa do peso extra sobrecarregando a perna esquerda, mas manteve no ar assim mesmo. A música terminou abruptamente e Merida agora gargalhava extasiada, dando-lhe tapinhas nos braços para que ele a descesse. Por um ou dois segundos, tudo o que se ouvia no salão era o som de sua risada, até que um ruidoso rugido de aprovação emergiu da multidão.

Os dois olharam em volta, com uma expressão tímida no rosto e Soluço a colocou no chão, gentilmente, mas não soltou as mãos de sua cintura. Uma outra música começou e novos casais se formaram a volta deles, ignorando-os. O mundo era só deles agora, corados e ofegantes, olhando um para o outro.

Os amigos de Soluço os cercaram, quebrando o momento e ele a soltou, meio sem graça por ter ficado tempo demais daquele jeito, embora Merida não tivesse protestado.

– Quem diria? O novo pé de valsa de Berk, Soluço Haddock! – zombou Melequento, mas ninguém lhe deu atenção.

– Jamais imaginava que fosse viver para ver isso. Soluço dançando! – disse Astrid, com um sorriso.

O grupo conversava animadamente e até os irmãos de Merida se juntaram a eles. A princesa captou uma conversa entre o trigêmeos de Dunbroch e os gêmeos de Berk, quando Harris perguntou:

– Mas não existe nenhum dragão de três cabeças?

– Não. – respondeu Cabeça Dura, com uma expressão simpática, erguendo seu machado – Mas podemos fazer um para vocês.

Os garotos riram e até Merida riu do trocadilho. Ocasionalmente, os olhos dela encontravam os de Soluço, demorando-se nele, e isso não passou despercebido a Astrid.

– Merida, você vai assistir a corrida de dragões amanhã, não vai? – Perguntou Perna de Peixe.

Soluço olhou para Merida, que meramente o olhou de volta, com o rosto inexpressivo. Ele encarou-a, não esperando uma resposta, mas por que ela era linda, linda demais. Ela devia saber o que ele estava pensando, por que seu rosto redondo e sério foi transformado por um sorriso lento.

– Claro, por que não? – ela respondeu, voltando os olhos para Perna de Peixe – O Soluço vai participar?

– O Soluço não participa na corrida – explicou Cabeça Quente. – Por que ninguém pode ganhar dele e do Banguela.

– Alguém terá que me explicar as regras... – a princesa não terminou a frase, ciente do que ele diria.

– Será um prazer. – Soluço ofereceu-se, certo de que era isso o que ela queria.

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Já era madrugada quando Soluço, Merida e Bocão deixaram o Grande Salão. Algumas pessoas ainda estavam acordadas, a julgar pelas luzes acesas nas casas. Maudie já tinha ido na frente há muito tempo com os trigêmeos e Banguela, alegando que era tarde e que eles precisavam ir dormir. Após uma chuva de protestos da parte deles, Merida conseguiu convencê-los sob a ameaça de que se fossem dormir muito tarde acabariam não acordando a tempo para assistir a corrida de dragões no dia seguinte. Foi mais do que suficiente para mandá-los para a cama. Bocão bocejou, sonolento.

– E então, Merida, o que achou da sua primeira festa viking? – ele comentou, curioso com o que a princesa diria.

– Foi maravilhoso! A comida, a música... A dança – ela falou, olhando de esguelha para Soluço – Nunca me diverti tanto.

– Fico feliz que tenha gostado. Espere até ver o Festival do Degelo. E a Semana Bork, então? Nunca mais vai querer sair de Berk.

“Já não quero sair de Berk”, Merida pensou consigo mesma.

Bocão fez menção de se separar deles, indo em direção a sua casa. Antes de se virar, voltou-se para Soluço com um olhar penetrante.

– Lembre-se do que conversamos, Soluço. Boa noite princesa. Boa noite Soluço.

Merida despediu-se de Bocão enquanto Soluço resmungava alguma coisa ininteligível baixinho, falando consigo mesmo. Perguntou-se o que eles teriam conversado, mas achou melhor não comentar nada.

Quando entraram, a casa estava imersa em silêncio. Soluço fechou a porta e ao se virar, ficou surpreso ao ver que Merida ainda estava ali, de pé atrás dele. Ela se aproximou lentamente e ele a interrompeu, antes que os lábios dela encostassem nos dele.

– Merida... – ele tentou encontrar algo para dizer, qualquer coisa, mas sua mente nublou-se com a proximidade dela, sua garganta secou com o peso do olhar dela sobre ele, seus movimentos pararam quando ela o envolveu com os braços.

– Shhh... – ela silenciou-o, embora não fosse necessário. Ele já estava paralisado. – Eu quero agradecer, por hoje. – Ela explicou, e sua voz não era mais alta que um sussurro.

Merida inclinou-se na ponta dos pés e o beijou. Soluço correspondeu ao carinho dela de uma maneira contida, mas Merida não permitiu que ele se afastasse para recuperar o fôlego. Estava ansiosa, sôfrega, como se necessitasse do seu calor para viver. Entrelaçou os dedos na suavidade dos seus cabelos e derreteu-se quando Soluço aprofundou o beijo, inundada por sensações maravilhosas, algumas quase dolorosas, que exigiam a atenção das suas mãos.

– Merida... – Soluço arfou, roucamente – Temos que parar...

– É o que você quer? – ela perguntou, mas não esperou por sua resposta. Beijou-o outra vez, ávida de desejo.

Soluço sabia que não era o que ele queria. Não queria parar. Mas se não parasse agora, nunca mais conseguiria. Merida roubava todo o seu auto controle. Roçou os lábios nos dela, com uma meiguice atordoante. As palavras de Bocão ecoaram na mente dele, mas estavam tão longe agora...

Foi Banguela que o salvou. O dragão pareceu surgir do nada, e seus passos no chão de madeira despertaram o casal para a realidade. Soluço ficou tenso como uma corda de arco e Merida não sabia o que fazer com as mãos.

– Então... – ela começou, fazendo seu caminho até as escadas.

– Boa noite, Merida – ele sorriu para ela, o rosto corado de embaraço.

– Boa noite. E boa noite, Banguela.

O dragão grunhiu, sonolento, e Soluço ficou olhando até que os pés de Merida desapareceram do último degrau.

– Obrigado, amigo. Obrigado mesmo. – ele agradeceu, pensando em como se aproximara do desastre.

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O Conselho de guerra, composto pelos senhores dos clã e pelo rei, reuniu-se na grande tenda de Fergus. Após contabilizarem as poucas baixas, os líderes de clãs estavam satisfeitos. Poucos guerreiros haviam morrido, as terras escocesas foram retomadas, seus invasores, escorraçados como cães.

Mas Estóico não estava satisfeito e demonstrou isso aos líderes.

– Mas isso não faz nenhum sentido. Por que lançar mão de seus guerreiros em um ataque desses? – o chefe viking disse, olhando para as palmas das próprias mãos, como se esperasse encontrar alguma resposta ali.

– Não precisa fazer sentido. – disse Lorde McGuffin – Nós os derrotamos.

– Eles planejaram mal o ataque. Nos subestimaram. – completou Lorde McIntosh

– Eles não contavam com a nossa determinação. E também não contavam com os dragões – admitiu de mau gosto Lorde Dingwall.

Fergus ergueu uma das mãos para silenciá-los. Lançou um olhar para o chefe viking.

–O que está em sua mente, Estóico?

– Isso não faz nenhum sentido. Eles deveriam ter batedores para avisá-los sobre nossas forças se movendo. Provavelmente planejaram essa invasão a muito tempo. Mas atacar assim, repentinamente, sem nada a perder... Eu não sei. É quase como se estivessem nos distraindo. Como se nos quisessem em outro lugar, nos tirar do caminho para atacar. Foi fácil demais, entendem?

– Mas atacar onde? – perguntou Lorde McGuffin, com uma expressão pensativa.

Fergus levantou-se de súbito, com uma expressão aterrorizada no rosto.

– Elinor. – o nome saiu de sua boca, quase como um sussurro.

O rei caminhou até a entrada da tenda e gritou a plenos pulmões:

– Levantar acampamento! Vamos para Dunbroch!

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A moça sacudiu o grande lençol, que pousou delicadamente na cama da rainha. Uma onda de culpa a invadiu, o remorso terrível pelo que fizera tomando conta dela. Fora ela que, no meio da noite abrira passagem para o assassino que atentara contra a vida da rainha. Elinor era uma rainha muito amada pelo seu povo, inclusive por ela, mas não tinha escolha. O bretão chamado William tinha seu marido e seu filho pequeno como reféns, e os mataria se ela não cumprisse suas ordens.

E depois houvera a carta. Ela informara a um intermediário que a rainha tinha planos de enviar uma carta para a filha, que estava refugiada em alguma ilha viking. Como ela faria isso, a criada não sabia. Na mesma tarde, o intermediário trouxera a ela uma outra carta, que deveria ser posta no lugar da que a rainha enviaria. O dever dela era substituir a carta da rainha por aquela, sem que ninguém percebesse o fato.

– Aila – dissera o homem carrancudo. – William pediu-me para lembrá-la de que não deve ler a carta. Lembre-se que seu marido e seu filho estão conosco.

– Farei tudo o que pedirem! Por favor, prometa-me que não vai machucá-los. – ela implorou.

– Só depende de você.

Depois disso fora fácil. Aila era uma camareira de confiança da rainha, então estava sempre por perto. Quando a rainha fechou a carta com o selo de Dunbroch, tudo o que ela teve que fazer foi criar uma distração que a tirasse do escritório, lacrar a carta com o selo real e substituir a da rainha. Ela não fora vista e não tinha a menor ideia do que a carta continha, mas mesmo assim, sentiu medo por Merida e seus irmãos. Tinha visto a princesa crescer, conhecera- a desde garotinha e era o mesmo com os trigêmeos. Naquela noite pediu a todos os deuses que a perdoassem, e protegessem os príncipes e a princesa do que estivesse por vir.

Notas finais
Um doce para quem adivinhar que música eles dançaram.