Wings of Fate
7 Futuros possíveis
Notas iniciais
Soluço observava a neve caindo, envergonhado. Envergonhado por que mal tinha conseguido proteger a princesa. Envergonhado pela reação quase que instantânea de seu corpo ao ver a princesa nua. Aquilo o fizera sentir-se péssimo. Mesmo em uma situação daquelas, onde Merida quase morrera, ainda assim ele a desejara. Mas, acima de tudo, envergonhado por ter chorado na frente dela.
Em Berk, o choro era tido como fraqueza. Quando criança não houveram muitos momentos em que Soluço queria chorar, mas se precisava, fazia-o em privado em algum lugar longe de olhos curiosos ou zombadores. A última vez em que Soluço realmente chorou fora alguns dias após perder a perna. Ainda não podia andar por muito tempo e sentia dor se ficasse muito tempo de pé. Bocão dissera que quando o encontraram, sua perna estava totalmente esmigalhada, uma massa disforme e pastosa de sangue, pele e osso, mas que o fogo havia cauterizado o ferimento e era só por isso que ele não tinha morrido de hemorragia. Banguela o salvara sim, mas seria bom não lançar muito peso sobre o membro até que ele cicatrizasse totalmente. Nesses dias, Soluço não saía muito de casa e com exceção das manhãs em que ia voar com Banguela, ele quase não via as pessoas.
Em uma dessas ocasiões, ao acordar no meio da noite, sentiu dor em forma de fisgadas horríveis no pé esquerdo. Gemeu baixinho e pensou em gritar por ajuda, mas parou quando se lembrou que já não havia mais pé esquerdo. No entanto a dor era contínua e cortante, como se ele ainda estivesse lá. Ao sentar-se, pensamentos amargos cruzaram sua cabeça e a auto-piedade instalou-se nele.
Levou as mãos ao rosto chorou. Quando as lágrimas vieram ele não as reprimiu como tinha feito tantas vezes antes. Trincou os dentes contra os soluços, mas desistiu, entregando-se por completo a eles. Enrolou-se em uma bola e ficou deitado na cama, dobrado num nó trêmulo, incapaz de dormir, incapaz de voltar o pensamento para outras coisas, incapaz de chamar por ajuda. De novo, de novo e de novo.
Então houve um som de pancada leve na porta. Um som tão fraco e miúdo que ele só o notou quando parou. Soluço prendeu a respiração, cerrou os olhos com força e ficou o mais silencioso que podia, para que pensassem que ele estava dormindo e fossem embora. Ouviu um som leve atrás de si, e abriu os olhos semicerrados para ver a sombra de Banguela, exposta pela luz do luar que se derramava pela janela.
– Agora não, Banguela. – ele murmurou com a voz rouca, esperando que o dragão desistisse e fosse embora, deixando-o sozinho.
Mas o que aconteceu foi o contrário. Banguela, ao invés de recuar, avançou e Soluço sentiu a cama mexer-se quando o dragão apoiou parte do seu peso nela. Gentil, mas firmemente, Banguela desfez o nó apertado do corpo de Soluço, com uma das patas. Depois, com a cabeça, meio empurrando e meio batendo, como no dia em que ele acordara sem a perna, o dragão o obrigou a sentar-se. Quando Soluço parou, de olhos marejados e fixos nele, Banguela encarou-o por alguns segundos, fechou os olhos e apoiou a cabeça em seu colo. Soluço abraçou o dragão e começou a chorar outra vez, primeiro baixinho, depois mais alto. Naquele gesto simples haviam mais palavras do que um humano seria capaz de dizer. Significava demais para ele. “Estou aqui. Jamais irei embora. Você pode chorar comigo, se quiser. Eu sei como é, sei o que você sente. Você sempre pode se apoiar em mim.”
Se é que era possível, Soluço amou-o ainda mais por isso. Continuou abraçado a ele, mesmo quando as lágrimas secaram e os tremores pararam. Ainda sentiu a dor fantasma na perna, algumas vezes até mesmo coceira. Mas depois daquele dia ele aguentou firme, certo de que acontecesse o que acontecesse, Banguela estaria com ele.
Mas aquilo era diferente. Não queria que Merida achasse que ele era fraco e se sentiu surpreso por se importar tanto com o que a princesa pensava dele. Ele não queria pensar sobre ela ter que ir embora um dia. Ela era forte, rápida, teimosa e orgulhosa, exatamente como os heróis das histórias que ele ouvia quando criança. De uma maneira estranha e perfeita, eles se complementavam. Ele era moreno, ela era ruiva. Ela comia como um javali, ele mal tocava na comida.Quando ele pensava, ela agia. Quando ele pensava em uma rota de fuga, ela se armava para defendê-los. E ela era uma boa amiga. Não era? Era por isso que ele não queria que ela fosse embora, tentou se convencer. Amigos não gostavam de estar longe um do outro. Mas quanto mais ele pensava, mais ele soube que não se sentia assim sobre seus outros amigos. Nem Astrid, nem os gêmeos, nem Perna-de-Peixe ou Melequento. Se eles o deixassem para sempre, ele não se sentiria vazio. Mas ela...
–Soluço. – ela chamou.
Ele se levantou e se virou para falar com ela, de olhos postos no chão. Torceu as mãos, um pouco encabulado, quando um delicado par de pés apareceu em seu campo de visão. Ele não conseguia olhar para ela. Em vez disso ficou apenas encarando seus pés descalços. Ainda estava envergonhado, mas Merida tocou-lhe o queixo e tentou fazê-lo erguer a cabeça, mas Soluço se recusava a olhá-la nos olhos.
– Olhe para mim. – ela pediu.
Soluço ergueu os olhos, mas eles seguiram dos pés dela e concentraram-se em um caracol vermelho caído no ombro dela. Merida soltou seu queixo e apoiou uma mão em cada lado do rosto dele.
– Soluço. Olhe para mim. – disse, e dessa vez havia comando e autoridade em sua voz. Por um segundo Soluço pensou tratar-se de Elinor. E obedeceu.
Os olhos azuis perscrutaram os dele. Soluço abriu a boca para falar, embora não tivesse nenhuma ideia do que diria, mas Merida silenciou-o com o indicador.
– Você salvou a minha vida. Obrigada. Eu lhe devo tudo agora.
– Você não me deve nada. – Ele disse, baixinho. – Por que você entrou sozinha na floresta?
Eles se sentaram perto da fogueira e Merida contou tudo, desde o início. A forma como seu pai perdera a perna, seus sentimentos com o casamento arranjado, a história das luzes mágicas, o feitiço que transformou sua mãe em ursa, como ela havia lutado contra clãs para defendê-la, o retorno de Elinor a forma humana. Soluço ouvia atentamente e sem interrupções, balançava a cabeça enquanto Merida falava. Ao fim de meia hora ela conseguiu finalizar seu relato. Soluço rabiscava a areia com um graveto, com um ar distante e pensativo. Como não dissera nada, Merida tomou seu silêncio por descrença.
– Você não acredita em mim... – ela disse, com um ar levemente acusador.
– Não! Não é isso. – ele se apressou em desculpar-se – Eu só estava pensando.
– Ah – Merida murmurou, contemplando as chamas que crepitavam. – Pensando o quê?
– É que... toda esta história... Você me surpreende, Merida. Você não é nada do que eu estava esperando que fosse.
O rosto de Merida ficou vermelho. Por essa ela não esperava.
– O que você esperava que eu fosse? – inquiriu.
– Eu não sei. Nunca vi uma princesa de verdade. Mas já ouvi histórias. E em todas elas, são mulheres apáticas, lindas e delicadas...
– Ah. Bem, obrigada, então. – ela franziu o cenho para ele e Soluço a olhou, curioso. Depois percebeu por que ela estava irritada.
– Não, não foi isso que eu quis dizer! – corrigiu-se depressa — Você é linda. Mas você não é apenas linda. Você faz as coisas. Nem sempre do melhor jeito, nem sempre do mais cuidadoso. Mas você faz assim mesmo. Você é uma criatura rara.
– Como assim? – ela perguntou, com a curiosidade estimulada pelas palavras dele.
– Como hoje, por exemplo. Se uma coisa a incomoda, se algo desperta a sua curiosidade, lá vai você – fez um movimento com a mão estendida para as chamas. — Você sabe sempre exatamente o que fazer. Nunca hesita. Simplesmente vê e reage.
– Eu nem sempre sou tão segura assim... – disse, voltando a encarar o fogo. – E você também não é exatamente o que eu pensei que fosse.
– Não sou? – ele sorriu.
– Também ouvi histórias e rumores sobre o seu povo.
– Nem tudo o que se ouve dizer por aí é verdade. Não somos selvagens sanguinários e violentos como nos pintam. – disse, na defensiva.
– Mas algumas coisas que dizem devem ser verdade... Nunca vi ninguém lutar como vocês. – recordou-se de Astrid na arena. – E além disso – continuou – Você é muito diferente dessa imagem que as pessoas desenham. É quase como se você não fosse um viking.
– É... Eu ouvi isso a minha vida toda. E ouvir de você... Bom, você nem mesmo é uma de nós. Você é estrangeira. Só faz parecer mais verdadeiro.
– Mas eu não acho que isso seja uma coisa ruim. – Merida abraçou os próprios joelhos, expondo as pernas nuas. – Eu gosto de como você é.
E o que a surpreendeu foi que havia verdade em suas palavras. Ela não dissera aquilo apenas para consolá-lo.
Soluço se levantou e pegou o vestido, que estava seco agora. Lá fora, a tempestade acalmava. Estendeu o vestido para ela e virou-se para a entrada da caverna, dando-lhe alguma privacidade.
– Me desculpe pelas suas outras roupas. Eu tive que rasgá-las.
– Tudo bem. Não é como se eu gostasse delas. Limitam os movimentos.
Soluço ergueu uma sobrancelha com o último comentário, ouvindo o farfalhar do tecido enquanto Merida lutava com o vestido. A neve caía mais devagar agora, e ele se concentrava nela quando a princesa bloqueou seu campo de visão, completamente vestida agora, mas ainda com a capa dele em volta dos ombros. Ela parou ao seu lado, encarando a entrada da caverna, olhando a neve cair.
Sem olhar para ele, Merida quebrou o silêncio, perguntando rapidamente:
– O que você acha que aconteceria? Se nós nos casássemos? – sentiu o rosto ficar quente e suas mãos suavam tanto que achou que fossem pingar.
Ele sorriu de lado e olhou para ela:
– Você está me propondo?
– Você se casar comigo? – Agora sim ela sabia que seu rosto devia estar rubro – Não! Eu só estava me perguntando...
– Eu não sei. – ele respondeu, pensativo. – Há muitas coisas sobre as quais pensar a respeito. Eu não poderia deixar Berk. A academia precisa de mim. Mas como seria cada dia, eu não sei.
Soluço pensou que seria bom viver com ela em Berk. Construir uma vida ao seu lado, explorar e se aventurar em conjunto, fazê-la rir, compartilhar sua cama e ter uma família. Soluço tossiu um pouco para limpar a garganta.
– Como você acha que seria? – ele perguntou.
Seria estranho? Eles eram amigos, você não se casa com seu amigo. Mas uma vozinha no fundo da mente de Merida lhe disse que provavelmente seria menos estranho do que ela esperava.
– Como é agora, talvez. – refletiu.
Merida sabia, em qualquer família era a noiva que se mudava para a casa do noivo, e não o contrário. Quando os seus irmãos nasceram, Merida perdera qualquer ilusão de ser uma rainha. As mulheres não subiam ao trono, a menos que não houvesse outra escolha. Sempre fora assim. Não que ela se importasse, na verdade. Nunca se interessara pelo poder, por que ele tiraria a sua liberdade. Os três eram muito jovens para assumir o trono, mas poderiam fazê-lo se o reino tivesse um regente que fosse responsável por eles até que tivessem idade suficiente. Quando ela olhou de relance para Soluço, sua expressão era séria e pensativa, suas sobrancelhas quase unidas. Ela baixou o olhar quando ele olhou para ela.
– Isso não é nada justo – ele disse – Como podem simplesmente te dar alguns pretendentes e te fazer escolher?
– Eu já tive tempo mais do que suficiente para encontrar o amor. Agora eu preciso fazer uma escolha.
– Tenho certeza de que não é assim que o amor funciona.
– Alguma vez você já se apaixonou? – ela inquiriu, com um pouco de medo da resposta.
Ele demorou um pouco para responder, devagar o suficiente para o pânico rastejar pelas entranhas dela.
– Eu estava apaixonado pela ideia que eu tinha dessa pessoa por muito tempo.
– O que aconteceu?
– Nada. E tudo. – Ele respondeu com o olhar distante – Eu meio que senti como se a aldeia a tivesse sacrificado para mim. Bem, você nos salvou, então aqui está, leve essa garota que você sempre quis. Não me entenda mal. Ela é incrível e nos damos muito bem. Mas ela nunca foi apaixonada por mim e eu não estou apaixonado por ela. É por isso que essa situação é injusta, entende? Você deveria poder escolher, não ser levada a escolher. Não é justo que você perca sua chance de ser feliz. Especialmente por minha causa.
Merida olhou-o nos olhos. Soluço era gentil, inteligente, engraçado. Era mais forte do que pensava que era. Por nenhum momento em que estavam juntos ela duvidara de que pudesse confiar nele. Ele fazia o que era certo sem se preocupar com sua própria segurança. E ele era bastante bonito, ela admitiu para si mesma, e tinha os olhos e o sorriso mais lindos que ela já vira. Lembrou-se da luz em seus olhos quando ele estava no convés do navio, o vento em seu cabelo quando voaram em Banguela, a expressão em seu rosto quando ele pensava em algum problema difícil. Seu coração acelerava quando ele sorria para ela, sua respiração parava quando ele tocava sua mão. Falar com ele era fácil como nunca tinha sido com ninguém. E ele queria que ela fosse feliz, ainda que fosse com outra pessoa.
Merida não ia mais fingir que pensava nele apenas em termos amigáveis. Ela já estava bem além desse ponto agora. Nunca tinha se sentido assim com ninguém. Ela mordeu o lábio e estendeu a mão, mais hesitante do que quando teve que tocar um dragão pela primeira vez e pegou seu braço.
–Você não... – ele murmurou.
– Eu quero. – Antes que ela pudesse se conter, ergueu-se na ponta dos pés, fechou os olhos e beijou-o.
Por alguns segundos ele ficou imóvel e seu coração afundou. Mas em seguida ele inclinou a cabeça e apertou seus lábios contra os dela.
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