Wings of Fate
13 Capturados
Notas iniciais
O vento uivava, gelado e persistente, espalhando pequenas fagulhas do que restara da fogueira. Soluço havia sugerido que eles dormissem embaixo da asa de Banguela, o que foi uma ótima ideia. As asas do dragão os protegeria do vento. Mas quando foi acordado pela quarta vez pelo som dos dentes de Merida batendo, ele desistiu de fingir que estava tudo bem com ela. A lua estava alta no céu naquela noite, mas ele não precisou de luz para saber que ela estava tiritando dentro do saco de dormir. Provavelmente eu vou me arrepender disso, pensou.
– Merida. – ele chamou baixinho, para não acordar Banguela.
A princesa apenas ergueu a cabeça para olhar para ele, tão desejosa de fazer silêncio quanto Soluço. Ele também não disse nada. Apenas desamarrou o saco de dormir e ergueu uma das abas para ela. Merida levantou-se e entrou no saco de dormir com ele, aninhando-se em seu peito, aproveitando o calor de seu corpo. Soluço ficou imóvel no início, respirando profundamente, tentando acalmar seus batimentos. Depois, envolveu Merida em seus braços e sussurrou bem baixinho contra o cabelo dela:
– Me desculpe pelo que eu disse.
– Está tudo bem. – ela murmurou em resposta.
Soluço beijou-lhe o topo da cabeça e os dois adormeceram.
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O sol mal nascia no horizonte e Soluço já empacotava as poucas coisas do acampamento. Merida selava Banguela e de vez em quando parava de arrumar as correias para acariciar o dragão. O som de uma caneca de metal indo de encontro ao chão chamou a atenção da princesa para Soluço.
Ele olhava alguma coisa no horizonte, com uma expressão surpresa.
– Odin todo poderoso... Não é possível. – ele disse entredentes.
Merida olhou na mesma direção que ele e viu um dragão, uma enorme criatura amarronzada com asas gigantes que planava suavemente, aproximando-se de onde eles estavam. Mas não fora o dragão que surpreendera Soluço e sim seus cavaleiros. Merida nem precisou contar para saber que seus três irmãos cavalgavam a enorme besta. O sangue da princesa ferveu nas veias enquanto o dragão pousava na rocha à sua frente. Os trigêmeos desceram, sorridentes, sem se importar com a promessa de morte nos olhos da irmã.
– Um machadraga. Por que eu não estou surpreso? – comentou Soluço.
– Era o único em que cabíamos nós todos. – explicou Hamish.
– O que é que vocês estão fazendo aqui? – rugiu Merida – Pensei que tinha mandado que ficassem em Berk!
– E nós obedecemos. – disse Hubert.
– Seu mentiroso de uma figa. Mentiroso! – ela gritou a última palavra.
– Nós obedecemos, Merida. Você nos disse para ficar e nós ficamos. – apressou-se em dizer Harris.
–Mas você não nos disse quanto tempo deveríamos ficar. Então, ficamos por uma hora e te seguimos. Mas nós obedecemos. Ficamos. – esclareceu Hubert.
– Eu vou lhes dar uma surra que vocês nunca vão se esquecer. – Ela esbravejou, lançando-se na direção deles.
Mas antes que ela pudesse dar um único passo, Soluço segurou-a pela cintura. Merida se debateu e xingou, mas Soluço não diminuiu o aperto.
– Me solte, Soluço! Me solte!
– Não posso, Merida. Não posso deixar que você bata neles. Não vou permitir. Se fizer isso, você pode se machucar seriamente, ou até morrer. – ele disse, num tom perfeitamente calmo.
– Você viu o que eles fizeram! Você vi... – ela parou de se debater e o encarou, franzindo a testa sem compreender. – Me machucar?
– Sim. Se machucar. – ele explicou, pacientemente. – Está vendo aquele dragão com eles? – ele fez uma pausa, certificando-se que Merida estava olhando. Ela estava. – Não parou de olhar para você desde que ergueu sua voz para eles. Ele não te conhece. Se você os tocar, ele vai te incinerar antes que eu possa sair do lugar para chegar até você. Então eu terei que matá-lo por isso, e não estou ansioso para matar um dragão. Nem para perder você, Merida.
Merida de repente tornou-se consciente do par de olhos amarelos sobre ela, do olhar intenso que o dragão lhe dirigia. Em sua fúria por ser desobedecida ela mal notara o dragão encarando-a.
– Merida. – Soluço falou, em um tom suave. – Eu prometi a sua mãe que tomaria conta de vocês. E eu não quero te perder, nem quero que se machuque. Eu vou te soltar agora. Promete que não vai fazer nada estúpido?
Merida encontrou o olhar verde floresta e assentiu. Soluço deixou cair os braços que prendiam a princesa estudando cuidadosamente suas reações. Ela alisou o vestido e empinou o nariz para os irmãos.
–Isso ainda não acabou. – disse. – Mamãe vai ficar sabendo, e nenhum dragão no mundo vai mantê-los a salvo dela.
– Agora que estamos todos mais calmos, qual é o nome dele? – Soluço perguntou, em um tom alegre.
– Fachen. – responderam os três ao mesmo tempo.
– Fachen? Perguntou Merida. Não puderam pensar em um nome melhor?
– O que é Fachen? – Inquiriu Soluço.
– Fachen é uma criatura horrenda que vive nas nossas florestas. – Merida explicou. – Tem metade de um corpo, um olho só e é tão feio que induz a ataques cardíacos. Por que escolheram esse nome?
– Os vikings escolhem nomes feios para os dragões. Pensamos que seria bom fazer o mesmo.
– Fazemos isso para espantar gnomos e trolls. – Soluço esclareceu, gentilmente.
– Por isso o seu nome é Soluço? – perguntou Hamish.
– Hamish!
– Tudo bem, Merida. Não é a primeira pessoa que pergunta. Mas vamos ao mais importante. O que faremos com eles? – apontou para os trigêmeos.
– A minha vontade é de socá-los até a morte. Mas agora que já estão aqui, não fará sentido enviá-los de volta a Berk.
– E nós não iríamos. – informou Hamish.
– Parece que não há remédio senão deixar vocês virem conosco — Merida suspirou. – Mas se as coisas se complicarem, fujam.
Os trigêmeos assentiram, mas dessa vez, Merida não soube dizer se eles estavam realmente falando sério.
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Aquele era, sem dúvida um dos vôos mais chatos que Soluço tivera com Banguela. Para todos os lados em que ele olhasse, apenas água, a imensidão azul até onde a vista alcançava. Voavam durante o dia e descansavam a noite, em pequenas ilhas em que mal cabiam os dragões, mas que ele já havia mapeado antes com a ajuda de Banguela. Conversavam a noite, em volta da fogueira, e os trigêmeos contaram que descobriram Fachen nas florestas de Berk, quando saíam juntos para explorar. A partir do que Astrid ensinara, não fora difícil fazer amizade com o dragão. Os Machadragas eram criaturas tímidas, preferindo a quietude das grandes florestas à companhia de outros dragões.
O livro dos dragões ajudara muito, ensinando-os por exemplo, que não era nada seguro tocar as asas afiadas como lâminas do dragão com as mãos nuas.
– Como escaparam da vigilância de Maudie? – perguntou Merida, curiosa em saber como eles conseguiram passam tanto tempo na floresta treinando o dragão sem que a criada os repreendesse.
– Foi fácil. – disse Hamish, fazendo um gesto de desdém com a mão – Maudie passava a tarde quase toda na forja. Tudo o que precisávamos fazer era chegar antes que ela voltasse.
Soluço e Merida se entreolharam, mas não disseram nenhuma palavra.
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No nono dia de viagem, Merida cochilava na sela atrás dele, apoiada em seu ombro. Um breve olhar nos trigêmeos revelou que eles faziam o mesmo, um abraçado ao outro. Soluço acordou Merida, sacudindo-a delicadamente e chamando seu nome. Ela se inclinou sobre seu ombro, esfregando os olhos enquanto ele apontava animadamente para uma mancha de terra escura no horizonte. Merida acordou os irmãos, chamando-os por sobre o vento.
– Vamos descer na floresta. – ela pediu para Soluço – Não sei se é seguro sermos vistos antes de saber a situação real.
Soluço assentiu.
Estava completamente escuro quando eles desceram em uma pequena clareira. Banguela, visivelmente exausto, parou até que Soluço removesse a sela e caiu, rolando sem entusiasmo por um momento. Soluço o presenteou com tapinhas acariciantes, falando baixinho sobre como ele havia feito um bom trabalho. O dragão comeu alguns peixes salgados e prontamente adormeceu.
Fachen aninhou-se em um dos galhos de uma grande árvore, as enormes asas agora fechadas serviam-lhe se apoio para caminhar. Merida observava o estranho dragão movendo-se com interesse, pois ele não tinha patas.
Depois de montarem acampamento e optarem por acender uma fogueira pequena, mas rodeada por pedras para esconder o seu brilho, o pequeno grupo sentou-se em volta dela para comer e planejar o que fariam no dia seguinte.
– O que você sugere, Merida? Eu não conheço esses bretões bem o suficiente para planejar nada. O que você tem em mente?
– Amanhã, antes do sol nascer eu vou até a borda da floresta, observarei a movimentação do castelo e...
– Quer dizer nós. – ele a corrigiu, calmamente. – Nós vamos. Você e eu.
Merida sorriu, mas continuou descrevendo o plano, direcionado a seus irmãos dessa vez.
– Vocês ficarão aqui, com Fachen para protegê-los. Se algo correr mal, daremos um sinal e vocês fugirão e tentarão encontrar ajuda.
– Que sinal? – perguntou Hamish.
– Um tiro do Banguela. – Soluço sugeriu.
– Perfeito. Então temos um plano?
Todos assentiram.
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Sob a proteção das árvores, Merida e Soluço observavam o castelo, agachados e atentos a qualquer sinal de mudança. Banguela estava alguns passos atrás deles, vigiando o que quer que pudesse emboscá-los, mas ainda assim fora do alcance da visão dos dois. O dia não amanhecera por completo e havia uma luminosidade azulada no horizonte indicando que o sol se erguia, mais uma vez. Merida franziu a testa.
– Qual é o problema? – Soluço perguntou baixinho.
– Problema? – ela repetiu.
– Essa expressão no seu rosto. Esse seu jeito de olhar por cima do ombro. Parece um dragão encurralado.
– E suponho que você já tenha encurralado muitos dragões? – ela perguntou.
– E quando você tenta me distrair da minha pergunta com outra pergunta, eu sei que está pensando em um problema.
Merida suspirou, resignada. Ninguém a lia como ele. Talvez nem sua própria mãe, que a criara e a vira crescer conseguisse ler através de suas ações como ele fazia. Ele a conhecia a pouco tempo, mas a conhecia bem demais.
– Há algo estranho. Está quase amanhecendo e eu não ouvi uma única ave cantar. Nenhum som de grilos ou cigarras. Nada. Está tudo muito quieto. Eu não gosto disso, Soluço.
Merida havia crescido naquela floresta. Se ela dizia que havia algo diferente, ele acreditaria nela. A princesa olhou mais uma vez por cima do ombro, depois falou baixinho para Soluço.
– Estamos sendo observados — ela sussurrou, e depois beliscou a perna dele ao ver que ele estava se virando para olhar. — Não! Não se vire. Precisamos tirá-lo daqui, levá-lo para longe dos meus irmãos. Afastá-lo para que possamos lidar com ele.
– Certo. E como é que Banguela dará o sinal para eles se não pudermos chegar até ele?
– Vamos lidar com uma coisa de cada vez. Mantenha os olhos fixos no castelo e me siga. Vamos fingir que queremos olhar mais de perto.
Soluço assentiu e os dois se levantaram ao mesmo tempo, começando a trabalhar seu caminho entre as árvores, entrando mais na floresta. Merida observava a floresta, escondida atrás do cabelo, olhando os movimentos do estranho que os estava seguindo. Era um homem, não muito alto, vestido com uma daquelas capas esverdeadas que os guarda caças usavam para se camuflar na vegetação. O homem era bom, mas Merida era melhor. Ela conhecia essa floresta com a palma de sua mão e sabia quando algo não se encaixava nela. Merida se movia silenciosa como uma sombra e seus pés mal faziam ruído em contato com as folhas secas do solo. Surpreendentemente Soluço também não emitia som algum, mesmo com a perna metálica. Após cobrirem várias centenas de metros e se afastarem bastante do lugar onde seus irmãos estavam, Merida parou subitamente e rápida como um relâmpago armou uma flecha em seu arco e se virou para a sombra nas árvores. Soluço sacou sua espada cuja lâmina brilhava com as chamas que a envolviam. Um segundo homem saiu detrás da segurança das árvores, um homem alto, loiro, de cabelos compridos e uma barba rala, com uma expressão de desprezo no rosto. Merida apontou a flecha para ele quando ele avançou na direção dela.
– Nem mais um passo. — ela advertiu.
– Se tem uma coisa que eu odeio mais do que um escocês — ele falou, pausadamente — é um escocês em um viking juntos.
O homem estalou os dedos e um terceiro se juntou a ele segurando Hamish pelos cabelos, com uma faca colada à garganta dele. Merida arquejou, olhando de relance para o irmão que tinha um olho roxo e uma expressão aterrorizada na face.
– Vocês dois virão comigo sem fazer nenhum barulho. Larguem as armas.
Soluço fechou sua espada prontamente, mas Merida hesitou, ainda com o arco apontado para ele, dessa vez, tremendo, calculando se teria uma chance de atirar no homem que segurava Hamish. Ao ver a indecisão nos olhos da princesa, o homem que segurava seu irmão gritou:
– Obedeça ao senhor William.
Mas Merida estava petrificada. O homem apertou a faca contra a garganta de Hamish e um filete de sangue, muito, muito vermelho escorreu pela lâmina, com uma lentidão atordoante. Merida abaixou o arco e a faca se afastou alguns centímetros. Logo em seguida alguém se aproximou por trás e uma pancada a atingiu com força na nuca. Merida caiu, e a última coisa que seus olhos viram antes de deslizar para a inconsciência foi Soluço caindo ao seu lado, desmaiado.
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