Wings of Fate

14 A ira de um homem gentil


Notas iniciais
Há três coisas que todo homem sábio deve temer: O mar em uma tempestade, uma noite sem luar, e a ira de um homem gentil. O Nome do Vento.

O eco do som de gotas pingando despertou Merida. A princesa foi tomada pela sensação de estar na cama de Soluço, mas o frio úmido de onde se encontrava lhe trouxe as lembranças do que havia acontecido. Não estava em Berk. Seus olhos se adaptaram á escuridão do local que ela reconheceu como sendo uma caverna. Não. Não era uma caverna. Era o antigo palácio do príncipe Mor’Du, que ela visitara anos antes, com sua mãe transformada em urso. Procurou Soluço e Hamish correndo os olhos pela sala, mas não os viu. Ficou imóvel ao ouvir o som de conversas abafadas, concentrando-se para escutar um pouco melhor. Haviam duas pessoas falando, e Merida reconheceu a voz de Soluço. Era o mesmo tom baixo e suave que ele costumava usar para falar com dragões arredios; perfeito para acalmar e deixar à vontade. Depois a outra voz falou.

– Eu não tenho mais tempo para os seus joguinhos, viking. O Lorde William quer saber onde estão os outros dois. — houve o som de uma pancada seca e Merida rangeu os dentes ao ouvir o arquejo de dor de Soluço — Onde estão os príncipes?

– Não conheço nenhum príncipe. — Soluço mentiu, gritando tão alto em seguida que Merida teve que se virar para ver o que o homem estava fazendo com ele.

O capanga deu uma olhadela rápida em Merida e sorriu de esguelha, como um gato que encurrala um rato.

– Olhe só quem acordou! — ele se virou para o outro capanga que estava observando, escondido na sombra — Vá chamar o Lorde William, diga a ele que a princesa acordou.

A luz fraca de uma vela mostrou Soluço, caído no chão com os pés e as mãos acorrentados. Um hematoma roxo e chamativo pronunciava-se em seu olho direito e seu rosto estava banhado com o sangue que fluía de um corte na têmpora. Soluço captou o olhar assustado dela e sussurrou baixinho as palavras "estou bem" para acalmá-la, dando-lhe um sorriso fraco e sem vida. Os olhos dela se encheram de lágrimas com isso. Como ele podia estar ferido, sangrando no chão e ainda assim se preocupar mais com ela do que consigo próprio?

Os passos na direção deles atraíram seus olhares para ver William e o outro capanga empurrando Hamish pela nuca. O garoto tinha as mãos e os pés ligados por correntes, o que com certeza atrasaria muito seu avanço. Um breve vislumbre do sangue causado pelas grossas algemas nos pulsos do irmão fez o sangue de Merida ferver nas veias.

– Vejo que finalmente resolveu se juntar a nós princesa. — William falou, carregando a última palavra com um sarcasmo que revirou o estômago de Merida. — Mas para que a nossa reunião fique completa, poderia fazer a gentileza de dizer onde estão os seus outros dois irmãos?

Soluço fez que não com a cabeça e Merida prendeu a respiração quando o primeiro capanga lhe deu um forte pisão na mão esquerda dele, quebrando seus dedos. Soluço urrou de dor, respirando de uma maneira estranha, como se tivesse se esquecido de fazê-lo.

– É muito indelicado intrometer-se na conversa alheia, meu rapaz. — comentou William com tranquilidade, repreendendo-o como se estivesse a falar com uma criança. — Mas o que se pode esperar de bárbaros sem modos como vocês, não é mesmo? Agora princesa, espero que me diga onde estão os seus...

Merida levantou-se com dificuldade, seus próprios pés e mãos unidos também por correntes grossas. Lançou a William um olhar de puro desprezo e cuspiu-lhe nas botas impecavelmente limpas. O homem olhou com surpresa para ela e depois para a mancha de saliva em seus sapatos. Por fim, soltou um suspiro profundo, como se já esperasse uma reação dessas da parte dela.

Ele pacientemente abriu uma bolsa de couro que estava carregando e revelou seu conteúdo aos olhos de Merida. Uma alicate. Pregos. Um martelo. Um açoite de couro de nove pontas. Colares com espinhos de metal. Um serrote.

– Não direi nada a você, não importa o que use contra mim. — ela cuspiu, com um olhar de ódio no rosto.

– Usar contra você? Ah, não, princesa, eu não sou um bárbaro como o seu amigo ali. Eu jamais usaria um instrumento desses para ferir uma mulher. — William explicou. — Mas já que o seu amigo viking não quis falar, talvez o seu irmão queira. — ele disse lançando um olhar rápido para Hamish.

Merida foi rápida, lançando-se contra ele e envolvendo seu pescoço com as correntes, jogando todo o seu peso contra o de William, mas seus capangas rapidamente se livraram dela.

O bretão sugou o ar, fazendo um som estranho e apoiando as mãos nos joelhos. Depois, endireitou-se e ajeitou a túnica que vestia, como se estivesse preocupado com sua própria aparência. Olhou para a princesa, segura e se debatendo nos braços dos capangas. Ele puxou os cabelos dela para trás e seus lábios se aproximaram do ouvido dela, mas sua voz não era um sussurro, longe disso. Ele falou alto o suficiente para que Soluço escutasse.

– Ouvi dizer que as selvagens escocesas são agressivas assim. Mas isso não será um problema para mim, eu garanto. Tudo o que o meu rei deseja são as cabeças dos membros da família real, e eu vou entregar a ele, acredite em mim, eu vou. Vocês serão levados para a Bretanha comigo e lá serão decapitados. Mas antes, pode ter certeza que nós dois vamos nos divertir muito.

A mão de William lutou contra as saias de Merida, mas a princesa se debateu e lhe acertou um chute na perna, indignada. O bretão logo se recompôs, devolvendo a agressão de Merida com um soco. Um filete de sangue escorreu do lábio da princesa, e ela mal teve tempo de se recuperar quando ele a acertou mais uma vez, e mais outra, e mais outra... Soluço lutava para ficar de pé, cada gota de seu sangue ferveu com a ideia do que o bretão ia fazer a ela. Ele não iria. Ele iria? Um ódio terrível apoderou-se dele e quando os capangas soltaram a princesa atordoada pelos golpes para lidar com ele, Soluço chutou os calcanhares do primeiro com o máximo de força que pôde. O homem caiu imediatamente e a perna de Soluço ergueu-se e desceu, acertando-o na cabeça, partindo seu pescoço instantaneamente. O segundo capanga não foi tão descuidado. Aproximou-se do viking com uma longa faca de caça em riste, descrevendo círculos cautelosos. De canto de olho, Soluço viu William arrastar Merida para um canto escuro e o senso de urgência se apoderou dele. Tinha que acabar com esse homem logo.

Uma parte dormente em sua mente o lembrou que ele não via Hamish em lugar nenhum, mas não tinha tempo para isso agora. Tinha que lidar com o assassino e cuidar de William. Por favor, Thor, não... Que não seja tarde...

– Soluço! – a voz de Hamish se fez ouvir.

Ele se virou rapidamente e o príncipe atirou-lhe sua espada. Soluço sorriu. Agora as coisas estavam equilibradas.

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William empurrou Merida para o chão e lançou-se sobre ela. A princesa gemeu de dor quando embateu na pedra sólida e viu as formas retorcerem-se à luz bruxuleante da vela, vagamente consciente dos sons de luta mais adiante. As mãos do bretão ajeitavam-se embaixo de seu corpo, lutando contra as várias camadas de roupa, rasgando os tecidos com uma ânsia voraz. Rasgou-lhe o vestido de lã como se não passasse de uma teia de aranha. Então passou a lutar contra a própria roupa, pois a dela já não era empecilho. As mãos de Merida tatearam no escuro até encontrar uma pedra, mas ela estava fraca e desorientada pela surra que levara. Quando conseguiu levantar a pedra para acertar-lhe a cabeça, Wiliam afastou-a com um tapa, como se fosse uma mosca.

– Você vai morrer, princesa, mas não antes de conhecer um homem a sério. Já estava na hora, não estava? – ele riu, dirigindo-se para a princesa nua, no chão.

William continuou a tagarelar, enquanto explorava o corpo da princesa com as mãos violentas e rudes, machucando e arranhando, pressionando até quase lhe partir os ossos.

De repente, o bretão parou tudo o que estava fazendo e tirou as mãos de cima da princesa, erguendo-as para o alto com uma expressão assustada. A voz de Soluço fez-se ouvir atrás dele.

– Levante-se e se vire. Bem devagar. — ele sibilou, em um tom perigosamente baixo, com a ponta da espada apoiada em sua nuca.

Ao voltar-se para ele, William foi pego de surpresa com o soco armado de Soluço, caindo de costas. Antes mesmo que o bretão pudesse se recuperar, Soluço se pôs em cima dele e distribuiu socos com a mão que não havia sido quebrada. Tinha os olhos duros como pedra e cada soco que dava extravasava sua raiva. Wiliam jazia desacordado, mas o Soluço continuava a espancá-lo como se sua vida dependesse disso. Hamish tentou segurar seu braço, mas Soluço desvencilhou-se facilmente.

– Pare! Já é o bastante! Você vai matá-lo, Soluço. — o príncipe gritou.

– Sim! Vou matá-lo! — Soluço respondeu.

– Soluço, pare! Temos que a ajudar minha irmã! — Hamish segurou outra vez o braço do viking, que parou o que estava fazendo e olhou nos olhos dele. — A Merida, Soluço! Temos que ajudar a Merida.

Soluço arfava com o esforço e havia um brilho selvagem nos olhos dele. Ele tinha algo de animal ali, no chão, ferido e ensanguentado, agredindo uma presa que já nem se movia mais. Ele piscou ao ouvir o nome de Merida e em um instante toda a raiva escoou dele e ele se ergueu, preocupado, meio correndo, meio cambaleando até a princesa. As roupas dela estavam em farrapos ao lado de seu corpo e a princesa retraiu-se de leve quando ele a tocou no rosto, mas sua expressão serenou-se ao ver quem era.

– Estou aqui, Merida. — ele disse baixinho, mal notando as lágrimas que rolavam pelo seu rosto livremente.

Hamish se aproximou, com o olhar baixo e segurando a capa meio camuflada do capanga morto e entregou-a a Soluço, que a recolheu e a arrumou nos ombros de Merida, erguendo a princesa com cuidado para não machucá-la ainda mais. Ela se apoiou nele, lentamente recuperando as forças, mas ainda meio zonza pelos golpes recebidos. Soluço a entregou a Hamish e voltou-se para o bretão, mais uma vez. O rosto de William estava quase irreconhecível, o olho direito fechado e inchado, sangrando e cheio de cortes. Ele havia perdido dois ou três dentes com a surra. Soluço subiu-lhe novamente as calças, enojado, com gestos um pouco mais brutos do que seria necessário. O homem ergueu um braço, balbuciando alguma coisa incompreensível, e seu único olho bom que não estava totalmente aberto. Soluço lhe deu um pontapé forte nas costelas e a raiva voltou a sua voz.

– Eu deveria matá-lo, aqui e agora. Mas vou levá-lo até o Rei Fergus só para ter o prazer de ver o que ele fará com o homem que violentou sua filha primogênita.

O olho bom de William se arregalou ao ouvir isso enquanto Soluço tateava pelas roupas dele à procura das chaves das correntes que os prendiam. Ao reconhecer o tilintar do metal, ele arrancou as chaves de um bolso e libertou-os, prendendo William com as três correntes grossas de metal que ele usara contra eles. Entregou a ponta de uma delas a Hamish e abraçou Merida, sacando a espada, apontando-a para as costas do bretão.

– Se tentar alguma coisa, qualquer coisa, eu corto os seus tendões e você irá até Dunbroch arrastado. — Soluço ameaçou.

O homem grunhiu alguma coisa ininteligível, mas Soluço captou o que ele quis dizer.

– Acha que eu não faria? Tente. Me desafie. Como você disse, sou um bárbaro sem modos.

Lenta e dolorosamente as quatro figuras saíram do antigo palácio e adentraram na floresta, seguindo seu caminho em direção a Dunbroch.

Após tortuosos momentos caminhando, Merida já estava melhor e mais consciente, embora ainda sentisse dor por todo o seu corpo. Soluço ignorava seus próprios ferimentos, atento a ela. Mas uma dúvida ainda o corroía por dentro. Ele falou sem nem mesmo perceber que o fazia.

– Merida... Ele... — disse baixinho e parou, incapaz de completar a frase.

– Não... Você chegou a tempo, Soluço. Obrigada. — ela olhou para ele, sorrindo, com o rosto arruinado pelo inchaço e hematomas.

Soluço franziu a testa, consternado.

– Não cheguei não, Merida. Você está machucada. Olhe o que ele fez contigo.

– Você também está machucado pelo o que estou vendo. Muito mais do que eu — ela falou, apontando sua mão quebrada.

– Isso não é nada. — ele retrucou, pensativo. Havia prometido a Elinor que a protegeria, e ainda assim...

Uma sombra passou por eles e uma voz conhecida gritou, de algum lugar acima:

– Estão aqui! Estão aqui!

Todos olharam para cima, vendo Hubert montado em Fachen e Harris montado em Banguela. Os dois dragões desceram e Banguela foi direto para Soluço, lambendo-o em todos os lugares, quase derrubando-o. Os trigêmeos abraçaram Merida, todos ao mesmo tempo, arrancando arquejos de dor e satisfação da princesa. Assim que a soltaram começaram a falar, todos ao mesmo tempo.

– ... não ouvimos o sinal e então fomos atrás — disparou Harris.

– O Soluço deu conta dos três, sozinho... — elogiou Hamish.

– Estão vindo pra cá agora mesmo... — alertou Hubert.

Merida congelou e seu rosto empalideceu, a despeito das marcas arroxeadas.

– Esperem. Quem está vindo para cá agora mesmo? — ela perguntou, preocupada.

– Papai. E o exército. Talvez mamãe. Quando vimos que vocês não deram o sinal, fomos atrás deles.

Merida suspirou, aliviada. Iriam para casa.

Notas finais
Sou só eu que imagino que o Soluço fora de si deve ser assustador?