— O que vai fazer agora? – Crowley a encarou. – Como pretende matar Deus?

— Só preciso deixar Ele me pegar, mas eu preciso que Ele esteja sozinho. Se tiver algum anjo com ele, a coisa vai desandar.

— Posso criar uma distração... – Crowley fez um biquinho.

— Que tipo de distração? – Dean cruzou os braços.

— Posso colocar alguns dos meus demônios atrás dos anjos, uma caçada bem divertida munida de balas feitas a partir de espadas angelicais.

— E vocês têm que ir pra casa – ela nos encarou. – Deem uma olhada em Castiel. Ele provavelmente já deve ter acordado. Voltem pra casa e descansem.

— Mas a gente não ia atrás de Peste? – Sam indagou.

— E vão, mas não agora. Vocês não têm respeito nenhum pelo próprio sono. Sinceramente, olha!

— Tá, mas... – Dean pigarreou. – Você não veio aqui só pra se queixar e pegar isso com o Crowley. Poderia ter feito isso em outro lugar. Veio aqui por um motivo – ele nos surpreendeu. – Qual é?

Ela riu, mais de nervoso do que por graça, ao que parecia, e tragou seu cigarro longamente antes de expirá-lo.

— Essa é uma das coisas que eu mais amo em você, Dean – ela o fitou, no que Dean desviou o olhar, embaraçado. – Você não pode ser feito de trouxa. Nem mesmo por mim. É bom saber que isso não se alterou em você nesse mundo.

— Do que tá falando?

— Sentem – indicou, no que percebemos que atrás da gente haviam cadeiras que não estavam ali antes.

Sem saber o que esperar, fizemos o que ela mandou. Crowley logo se levantou, guardando a foice de volta em seu paletó.

— Bem, vou me retirar. Me avise quando terminar de falar com eles.

— Põe a bunda de volta na cadeira, Fergus – ela ordenou, ainda que sem encará-lo, bebendo mais um pouco do uísque com refrigerante. – Isso é sobre você, também.

— Fergus? – Sam arqueou uma sobrancelha.

Crowley revirou os olhos, se sentando novamente.

Ela parecia desconfortável, como se não estivesse ali para fazer algo que queria. Tão logo o primeiro cigarro acabou, ela acendeu outro, nos encarando.

— O que eu vou dizer pra vocês agora é um negócio que eu não... – mordeu o lábio por um momento. – Eu não tava a fim de dizer, não, sendo bem sincera. Mas eu prefiro mil vezes que vocês saibam disso por mim, que ouçam da minha boca, do que ter Deus falando isso pra vocês e jogando vocês contra mim.

— Corte logo o suspense, meu bem – Crowley suspirou.

— Eu não sou Deus, o que tá bem óbvio. Também não sou uma deusa, nem nada assim. Eu sou só uma humana – deu de ombros.

— Isso não faz sentido nenhum – Dean pestanejou.

— Mas é a verdade. Eu não criei vocês, nem esse mundo. A verdade é que a Bella é de um mundo totalmente diferente do de vocês. Você tirava sarro do mundo dela o tempo todo – ela encarou Dean.

— Eu?! Como?!

— No seu mundo original, a história da Bella é ficção. Uma história chamada Crepúsculo. Ela e Edward se casam, até mesmo têm uma filha híbrida lá, e nem me perguntem como, porque até hoje eu não entendi isso – ela nos cortou antes que pudéssemos fazer nossas perguntas. – O negócio é que, tipo, eu juntei os mundos de vocês. Não era pra vocês três serem uma família. Eu interferi em muita, muita coisa, e obviamente Deus quer me matar por isso.

— Você juntou os nossos mundos de propósito? – Sam perguntou, no que ela assentiu. – Por quê?

— Por puro egoísmo – ela deu de ombros.

— Você vai ter que me dar uma resposta melhor que essa – eu insisti.

— Já mostrei como a vida de vocês acabou – ela o encarou. – E eu tava tão cansada de ver vocês sofrendo – suspirou. – Eu não aguentava mais tanto sofrimento – massageou sua testa, fechando os olhos. – E eu não tenho poder pra mudar o que aconteceu com vocês no universo original, então... – deu de ombros, tornando a nos olhar. – Eu criei uma variação em que os universos de vocês se encontram, na esperança de mudar as coisas. Na esperança de... Sei lá... Dar um final feliz pra vocês.

— Mas como? Como você conseguiu fazer tudo isso?

— Essa é a parte engraçada de ser humano. Engraçada, pra não dizer amarga e de muito mau gosto. Eu sou uma escritora.

Pestanejei algumas vezes, incerta. Eu tinha ouvido aquilo mesmo? Crowley, com um sorrisinho maroto, parecia já saber daquilo.

Sam se recostou na cadeira, sua boca aberta em um grande ‘‘O’’, parecendo ter uma epifania naquele caos.

— Agora eu saquei! – disse ele. – Agora tudo faz sentido!

— O que faz sentido? – Dean franziu o cenho.

— Ela precisa fazer as coisas usando as regras do nosso mundo, que já está estabelecido, e não pode fazer grandes mudanças na presença do criador do nosso mundo! Então Deus também é um escritor, certo?

— Na mosca. No meu mundo ele não é Deus, e tem um nome. No seu mundo ele é Deus, e é conhecido por outro nome.

— Tá de sacanagem – Dean a encarou.

— Não.

— Esse tempo todo as nossas vidas eram... Uma história?!

— Eram uma história antes de eu chegar, e continuarão sendo mesmo quando eu terminar aqui.

Dean estava em choque, absolutamente furioso, e se contendo ao máximo para não quebrar o que estava ao alcance dele.

— A propósito, Bella, você foi criada por outra autora – ela me surpreendeu. – Você também não é minha, eu apenas quis trazer você pra cá.

— E por que eu? – perguntei. Eu precisava perguntar.

— Porque eu gosto de você – ela sorriu. – Você é gente boa pra caramba, eu adoro você! A sua criadora eu não gosto, não, eu não vou com a cara dela, mas você e os Cullens são gente fina! Só de pensar em todos vocês no mesmo universo...! – ela começou a rir. – Eu não parei até fazer acontecer. Achei que vocês três seriam muito mais felizes se estivesse juntos. E não me arrependo de nada. O negócio é que... Eu tentei jogar o jogo seguindo as regras desse mundo, mas eu burlei muita coisa. Santos Guerreiros não existem no universo de vocês, de nenhum de vocês. Santos Guerreiros são uma criação minha – deu de ombros. – E obviamente Deus não gostou nada disso, e tá querendo o meu pescoço. O que eu faço é meio... Ilegal no meu mundo. Mas aqui? Aqui é uma ofensa à Deus. Sinceramente, eu não ligo – deu de ombros. – Eu tô aqui pra dar um final feliz pra vocês e eu vou com isso até o fim. Sei que eu não sou uma santa, e sei que eu sou meio sádica... – desviou o olhar, envergonhada.

Meio? – Crowley arqueou as sobrancelhas, começando a rir. – Olivia Teller, Atanasia, Iberis e companhia discordam totalmente disso.

— Não fode – ela resmungou pra ele. – Enfim, não importa. Eu não presto mesmo, tá? Que fique bem claro isso – nos entreolhou. – As coisas que tu fez no Inferno não chegam nem perto da minha imaginação – encarou Dean, que arqueou as sobrancelhas, sem reação. – E tô muito mais próxima de demônios que de anjos, eu tô ligada nisso.

— Como assim? – Sam perguntou.

— Uma vez fizeram uma limpeza espiritual nela... – Crowley chamou nossa atenção. – Estouraram ‘‘pontos’’ de pólvora aos pés dela, pra tirar o ‘‘encosto’’ que estava a acompanhando – e se virou para encará-la. – E o cheiro de enxofre subiu junto com a fumaça da pólvora, não é verdade?

— É – respondeu irritada, enchendo o copo com uísque e refrigerante de novo. – Eu não sei se no meu mundo eu atraio demônios, ou se a minha energia é tão ruim, porque eu sou uma pessoa ruim, e acabo criando essas coisas, mas enfim – pigarreou. – Não vem ao caso. Meu ponto nisso tudo é: Deus vai usar as minhas verdades pra tentar persuadir vocês a abandonar esse barco e fazer o que Ele quer. Eu imploro, por tudo o que é mais sagrado: Não. Façam. Isso.

— É? – Dean se levantou da cadeira, irritado demais pra continuar quieto. – Me dá um bom motivo pra confiar em você agora. Como eu posso ter certeza de que tudo isso não é uma brincadeira sádica sua e que as nossas vidas são reais?!

— O meu amor por vocês, Dean. Ele torna tudo isso real.

Estávamos sem reação com aquela resposta. Sam e Dean se encararam, os olhos semicerrados em descrença, e eu não sabia nem o que pensar.

— Foi o meu amor por vocês que me trouxe aqui, que me fez juntar os seus mundos pra dar um final feliz pra todo mundo.

Ela baixou o olhar para o chão, incomodada, e eu percebi que ela tentava não chorar, mas que estava com os olhos marejados. Tragou seu cigarro novamente, respirando fundo.

— Eu tô cansada – ela fechou os olhos por um momento. – Podem me odiar o quanto quiser, e podem até não confiar em mim, mas a única coisa que me diferencia daquele cuzão é o fato de eu me importar. Ele vai tentar colocar vocês contra mim, mas só faltam dois anéis pra pegarmos Lúcifer e Miguel – ergueu os olhos para nós. – Ele vai jogar sujo e usar tudo o que puder contra a gente, o mesmo vale pra Miguel e Lúcifer, mas vocês precisam confiar em mim. Eu preciso que segurem o ‘‘sim’’ de vocês até a hora certa chegar. Eu preciso que vocês, mesmo com toda a raiva que estão sentindo de mim agora, sigam o plano. Por favor. Contei toda a verdade e tudo o que eu peço é que confiem em mim.