Enquanto eu tentava decidir a forma como deveria proceder, sem saber ao certo como deveria reagir, Sam estava extático, tagarelando horrores com a estranha enquanto ela fumava e Crowley bebia. E Dean...

Dean obviamente se enfiou no banheiro, com a desculpa de que tomaria um banho pra esfriar a cabeça, mas eu sabia que ele estava perturbado demais com todas aquelas revelações.

— Quer dizer então que vocês não tem Deus na realidade de vocês? – Sam perguntou a ela.

— Teoricamente não. É discutível – ela deu de ombros, tragando seu cigarro.

— E no que você acredita?

— Eu acho que ele não é muito diferente do Deus daqui. Se existe, não dá nem aí pra nenhum de nós. Vocês estão enfrentando uma epidemia de gripe suína, mas a gente? A gente tá numa pandemia. Pandemia de Corona Vírus.

— Pandemia? – Sam e eu perguntamos em uníssono.

— Isso aí. Centenas de milhares de mortos e o número não para de aumentar. Há quem acredite que seja o fim do mundo, mas não tô apostando muito nesse paralelo entre os nossos mundos, não, então relaxa. No que depender de mim, o mundo de vocês não vai passar por isso porque eu não vou deixar. Enfim – suspirou, jogando o que restava do cigarro dentro do copo de bebida vazio. – Tô enrolando muito aqui, não posso ficar. Passa a foice aí – olhou para Crowley.

— É claro. Assim que fecharmos o acordo – sorriu de canto.

— Tá zoando? – ela franziu o cenho.

— Não. É uma venda como qualquer outra, querida. Como pretende me pagar, se não com a sua alma?

— Minha alma não tá aqui, criatura! Mesmo que eu faça um pacto contigo, como vai pegar minha alma em dez anos, hein?

— Eu dou um jeito – respondeu sem se desfazer do sorriso. – Mas pode imaginar como estou animado com a ideia de ter a alma de Deus no Inferno comigo...

— Eu. Não. Sou. Deus – o encarou.

— E quem vai assumir as rédeas quando você O matar? – ele cruzou os braços. – Essa função será sua, querida. Pense bem. Sem Deus, sem Lúcifer, sem Miguel... Portas abertas pra você tomar tudo pra si.

— Tá, mas tu não vai conseguir passar pro meu mundo, cabeção – ela resmungou. – Não acha que se fosse possível eu já não estaria aqui, de carne e osso? Não vou fazer um pacto contigo oferecendo minha alma em troca da foice. Pede outra coisa.

— Controle permanente do Inferno. Pra sempre. O que me diz?

Ela semicerrou os olhos.

— O que tá escondendo nas entrelinhas, Fergus?

— Não me chame assim – seu sorriso se desfez.

— Dane-se. O que tu tá escondendo? Fala logo, tô com pressa.

— Eu fico com controle absoluto do andar de baixo. Nem você vai poder interferir lá. Terra e Céu são todinhos seus, não me interessam, mas o Inferno... É meu. Eu lhe dou a foice, você mata Deus, mata os arcanjos lá na jaula, tira os dois bonitões de lá, e continua fazendo o que quiser aqui em cima, e eu fico com o Inferno. Só isso.

— Nunca é só isso – ela franziu os lábios. – Tu vai tentar me passar a perna, eu tô ligada, tá achando que eu sou besta?

— Não, mas acho que está desesperada e vai fazer o que precisar ser feito pra dar aos seus meninos o final feliz que você planejou. Ou estou errado? Você prefere que um dos três patetas aqui venda a alma no seu lugar?

— Qual é teu problema, maluco? – ela se levantou. – Tu e o meu marido são iguaizinhos! Ele sugeriu a mesma coisa!

— Você é casada? – nós três perguntamos em uníssono.

— Sou, e daí? O que eu quero dizer é que ele sugeriu que eu empurrasse esse problema no colo de vocês porque eu tava interferindo demais, só que se um de vocês vender a alma, daqui a dez anos vai descer e sambar no colo do capeta aqui! – referiu-se à Crowley. – É estúpido e joga fora todo o esforço de vocês, então não! É problema meu e eu resolvo. Eu tenho uma contraproposta – ela se virou para encará-lo.

— Que é...? – ele arqueou uma sobrancelha.

— Quero a coroa do Inferno também – cruzou os braços.

Sam e eu nos olhamos sem saber o que dizer.

— Poderia elaborar, por favor? – Crowley cruzou as pernas.

— Eu não confio em você, seria burrice demais, até pra mim. Eu não confio em você e confio nos outros demônios menos ainda.

— Você quer me dar a liderança e ficar com a mão no volante ao mesmo tempo – ele concluiu.

— Óbvio. A gente divide o reinado e eu farei tudo em meu poder pra manter a sua soberania lá. Vai ter os meus poderes à sua disposição se nós vencermos. Feito?

— Eu ouvi direito?

Dean, apoiado ao batente da porta do banheiro, nos olhava com descrença.

— Você não tá falando sério, tá? – encarou a estranha.

— Não vou deixar vocês irem pro Inferno! – ela esbravejou. – Prefiro todos vivos me odiando a ter um de vocês no Inferno enquanto os outros dois tentam descer pra substituir! É minha vida, é problema meu!

— Acredita mesmo que ele vai cumprir o pacto?!

— Ei, um pacto é um pacto! – Crowley ergueu o indicador, o censurando. – No Inferno nós prezamos pela integridade. Não sou Lilith e não sou Lúcifer e eu prezo pela qualidade de um trato bem feito. Aumenta a clientela.

— Não faz isso – Dean pediu à ela. – Não vale a pena arriscar o seu pescoço por isso, a gente mata os arcanjos com as espadas deles!

— Se eu não conseguir matar Deus antes de vocês irem pra jaula, isso não vai servir de nada. Se preocupe com a sua família – ela engoliu a seco. – Manter vocês à salvo é responsabilidade minha – e se voltou para Crowley de novo. – Compartilhar a coroa quando vencermos. Essa é minha oferta.

Crowley tamborilou os dedos sobre a mesa, a encarando com um claro cinismo.

— Vai bancar o difícil agora? Sério mesmo, isso? – ela fechou as mãos em punhos.

— Só preciso de um beijo e negócio fechado – sorriu de canto.

Ela revirou os olhos, suspirando.

— Não na frente das crianças. Lá fora – abriu a porta.

— Nós somos mais velhos que você – Sam riu sem graça enquanto Crowley se retirava.

— Dane-se, ainda são meus bebês! – ela respondeu de nariz empinado, fechando a porta ao sair.

Nós três nos olhamos sem saber se deveríamos fazer ou falar alguma coisa a respeito.

— Será que eles vão...? – Dean fingiu desinteresse.

— Acho que vão – disse Sam.

— Só tem uma forma de saber – eu me levantei da cadeira, indo até a mesa e afastando as persianas para espiar.

Dean e Sam logo vieram atrás de mim para espiar pelas persianas e nós arfamos surpresos ao ver que ela e Crowley não haviam dado um mero beijinho.

Os dois estavam se agarrando no meio do estacionamento, Crowley descabelando as madeixas vermelhas dela, encurralando-a contra a lateral do Impala, para o horror de Dean, que se afastou imediatamente da janela.

— Meu Deus! – exclamou horrorizado. – Credo! Na frente da minha bebê! Tô me sentindo sujo agora!

— Pra alguém que não tava a fim de selar um pacto com um demônio, ela tá bem animadinha – constatei, me afastando também. – Sam, para de espiar – chamei sua atenção, mas ele não parou.

— Cara, quantas pessoas podem dizer que já viram Deus se agarrando com um demônio? – ele riu. – Isso aqui é histórico!

— Para com isso, seu voyeur – lhe dei uma bronca.

— Acho que tem alguma coisa errada – seu tom subitamente mudou.

— Por que?

A porta se abriu subitamente, Crowley exasperado.

— Vocês têm que sair daqui agora! Pro carro, já!

— Por que? – Dean perguntou.

— Deus está vindo! Quer ficar aqui e sofrer as consequências?!

Nós não paramos pra discutir: pegamos todas as nossas coisas e corremos para o carro, percebendo que a estranha não fazia menção de nos acompanhar. Olhava para o céu noturno, olhos distantes, enxergando coisas que eu nem podia imaginar o que eram.

— Escolta eles daqui, Crowley.

— Hã? – o demônio se virou para ela. – Não vou deixar você! Temos um pacto!

— O pacto vai pro ralo se Deus os pegar! – ela esbravejou. – Tira eles daqui!

— Vambora! – Dean chamou o demônio enquanto nós entrávamos no Impala.

Crowley ficou ali, parado, a encarando, no que ela se virou para ele, seus olhos ficando repentinamente brancos e sua cara se distorcendo de uma forma que me deu calafrios na espinha.

— Vai! – ela mandou pela última vez, no que Crowley, nem um pouco contente, se virou para entrar no Impala, e Dean pisou fundo no acelerador.

Estávamos na estrada quando vimos um facho de luz branca descer do céu diretamente para o estacionamento onde ela estava, a acertando em cheio.

— Puta merda...