Apesar da ansiedade de voltar para casa e ver meus bebês, eu estava começando a me preocupar com os possíveis desfechos que aquele confronto direto com Deus poderia ter para a estranha. Era horrível contar com a sorte e depender de alguém inconstante, mas pior seria se não tivéssemos ajuda nenhuma.

— Acham que ela tá bem? – perguntei enquanto começava a roer as unhas.

— Duvido muito – Dean suspirou. – Talvez ela tenha sido desintegrada...

— Aquela versão dela, talvez – disse Crowley. – Ela pode se copiar, lembra?

— Conveniente – Dean riu.

— Mas eu suspeito que cada vez que ela faz isso ela se desgasta mais um pouco. Enquanto Deus estiver respirando, ela não terá omnipotência. Espero que ela tenha feito um bom uso da foice.

— Então, como pegamos Peste? – Sam perguntou.

— Prioridades primeiro, Alce. A patroa é mandona e eu não quero irritá-la. Vocês vão pra casa e descansam e depois nós vamos atrás do contato. Se compararmos essa realidade de vocês à realidade original, vocês estão indo muito depressa e estão com muito mais vantagem. Demoraram um ano, originalmente, pra finalmente enfrentar Lúcifer. Se continuarmos nesse ritmo, o confronto acontecerá dentro de quatro meses ou menos, então... Calma. Respirem um pouco – nos entreolhou. – Eu vou preparar terreno pra pegarmos o contato, e então... – deu de ombros. – A mágica acontece.

— Simples assim? – arqueei uma sobrancelha.

— Sim, simples assim. E quando tudo acabar, vamos todos viver as nossas vidas como era antes, em perfeito caos – sorriu satisfeito.

Um celular começou a tocar, no que nos entreolhamos. Obviamente, não era um dos nossos, a julgar pelo toque de chamada. Crowley tirou o celular do bolso, franzindo o cenho ao atender.

— Sim?

Um longo período de silêncio se seguiu, e as expressões dele oscilavam entre irritação e preocupação. Assim que a chamada se encerrou, ele ficou encarando o celular em silêncio por algum tempo.

— E aí? – Sam não resistiu e perguntou.

— Um passarinho me contou que Lúcifer está com as mãos ocupadas agora – ele fez uma careta. – Algum tipo de ritual numa fazenda.

— Isso não pode ser bom – massageei minha testa.

— Pode apostar que não. Até onde sei, segundos os rumores que o vento trás, só tem um Cavaleiro que não deu as caras ainda.

Sam e eu nos olhamos, pensando a respeito, e então concluímos juntos:

— Morte.

— Bingo – disse Crowley.

— Então é um ritual pra trazer o Cavaleiro à Terra? – perguntei.

— Muito provavelmente.

— Ela tá com a foice dele – Sam o encarou.

— Sim. Tsc – Crowley parecia menos confiante naquele momento. – Suponho que a senhora minha futura rainha precise usar a foice o quanto antes, porque o dono vai querer de volta e não imagino que vai fazer cerimônia pra pegar o que é dele. Ai de nós!

— Só tem uma coisa que eu não entendo... – Dean chamou nossa atenção, no que nós o olhamos. – Deus sabe de tudo que tá rolando e não tá interferindo no Apocalipse – franziu o cenho. – Se Ele tá na Terra, por que não derrota Lúcifer? Ele podia fazer isso num piscar de olhos, tipo... Ele é Deus!

— E é um filho da puta, ao que consta – cruzei os braços, me recostando ao banco. – Não tá movendo um dedo pra impedir que o mundo que Ele fez se acabe. Ele não liga.

— Ele só tá incomodado com o fato de ter alguém tentando impedir – Crowley crispou os lábios. – Deus é realmente... Peculiar. Mau de um jeito que supera os piores do Inferno. Nem eu daria as costas aos meus desse jeito.

Seu celular tocou de novo, e ele agora parecia mais ansioso. Apenas aceitou a ligação e ficou em silêncio, ouvindo a voz do outro lado.

Sem explicação nenhuma, ele sumiu do carro, no que nós nos irritamos.

— O que tá rolando? – indaguei.

Peguei o telefone para ligar para Anna, e no momento em que iniciei a ligação, Dean deu uma freada brusca, no que eu me bati contra o banco deles, derrubando meu celular em algum lugar do carro.

— O que foi isso?! – perguntei o encarando, e então percebi.

Parado à nossa frente, no meio da estrada, no breu da madrugada, estava Castiel, sendo carregado por Crowley. A camisa do seu pijama estava em frangalhos e seu rosto estava ensanguentado.

Dean e eu logo saímos para acudi-lo.

— O que aconteceu?! – ele perguntou exasperado ao demônio.

— Não sei – Crowley respondeu. – Ela me pediu para buscá-los, mas não deu tempo.

— Tempo de que? – o encarei.

— Zacarias – Castiel disse com um fio de voz, rouco, se esforçando para falar. – Matou... Anna... Daniel e... Ariel – franziu o cenho, gemendo de dor.

Senti meu coração afundar em meu peito, minha respiração acelerando enquanto eu sentia o desespero me apossando lentamente.

— Cass... Cadê a Charlie?

— Ele... Ele a levou.

Dean e eu nos olhamos, incapazes de falar, e eu senti como se tivesse levado um soco em meu estômago. Ofegante, nauseada, eu sentia o mundo girar.

Aquilo não podia estar acontecendo. Estávamos indo bem, já tínhamos dois anéis, já tínhamos um plano!

Meu bebê...! Meu bebezinho, minha pequena...! O centro do meu mundo...!

Depois de todo aquele papo sobre confiança...!

— Você disse que os protegeria! – gritei aos quatro ventos. – Você nos prometeu segurança! Pediu pra confiarmos em você! Eu morri por você! Fiz tudo o que você mandou e você nos deixou à mercê, sua desgraçada! Pra quê eu te sirvo se quando eu preciso de ajuda você some?! Você é igual à Ele!

— Eu não sou!

Me virei para vê-la, pronta para esbravejar mais e descontar minha fúria, mas percebi que ela estava...

Estava ainda pior que antes. E ainda pior que Castiel. Cortes e roxos por todos os lados, um olho fechado, sangue escorrendo de sua cabeça.

— Castiel – ela gesticulou para que ele se aproximasse, no que Crowley e Dean o ajudaram a caminhar até ela. Ela tocou sua cabeça e logo ele estava novo em folha. – Leva eles daqui agora, eu não despistei Ele ainda.

— Zacarias levou a Charlie! – a encarei. – Matou Anna, e Daniel, e...

— Eu sei! – ela esbravejou por um momento, baixando a cabeça. – Eu sei, tá? Desculpa. Eu ainda não venci.

— No que depender de mim, não vai, não.

Ela fechou os olhos, baixando a cabeça, respirando fundo.

Às costas dela, um estranho surgira. Estatura mediana, caucasiano, cabelos castanhos meio espetados e uma barba espessa.

Trajado de branco da cabeça aos pés.

— Castiel... – Ele encarou o anjo. – Meu filho, que decepção – franziu o cenho. – Entendo sua rebeldia e seu carinho pelos humanos, mas ela? – apontou para a estranha. – Essa criatura... Baixa— Ele riu. – Vocês não fazem a menor ideia do que ela é.

— A gente faz, sim – Dean respondeu, fechando as mãos em punhos.

— Ela contou pra vocês que é uma escritora? – Ele arqueou as sobrancelhas. – Ah, que gracinha! Por essa eu não esperava – riu. – Olha, rapazes, eu esperava mais de vocês – nos entreolhou. – Há alianças que fazemos por necessidade, mas essa aliança aqui... Não fazem a menor ideia de com quem estão se metendo.

— Não importa – disse Sam. – Nós escolhemos ficar do lado dela.

— E não vamos mudar de ideia – eu engoli meu orgulho para falar.

— Preferimos mil vezes uma estranha de origem duvidosa que se importa à ter você – Dean disse entredentes.

— Vocês estão se ouvindo? – Ele perguntou descrente. – Eu sou o pai de vocês, de todos vocês. Bem, não seu – apontou pra mim. – Mas não vem ao caso.

— Tá vendo o mundo se acabar e não tá movendo um dedo! – Dean esbravejou. – Tem gente inocente morrendo, catástrofes acontecendo, e você não faz nada!

— Vocês precisam entender que esse é só um planeta dentre milhares de outros, só uma realidade entre uma infinidade de outras – deu de ombros. – Milhares de divindades criaram e destruíram várias versões da humanidade, e mesmo quando não destruíam, a humanidade fazia por conta própria. Eu dei a vocês o livre-arbítrio, e autodestruição é uma escolha. Faz parte.

— Deixou eles ao relento como se não fossem nada! – a estranha se virou para ele. – Criou o mundo com regras estúpidas e sem sentido, e no momento em que eles começaram a fazer exatamente o que você pré-determinou...! – apontou para Ele. – Você ficou putinho e sumiu! Você não tem moral! Nunca foi um pai de verdade!

— Ah, é muito fácil pra você apontar esse dedo pra mim e se achar a dona da razão, não é? – Ele sorriu, se aproximando dela. – Devo contar à eles as coisas que fez com Olivia Teller?

— Cala a boca – ela fechou as mãos em punhos.

— Você deu uma vida inteira pra ela, e quando não gostou, recomeçou tudo do zero! Matou o pai dela duas vezes! – ele nos olhou por um momento, falando conosco. – E as coisas que fez com Iberis? – tornou a encará-la. – Iberis era só uma garota inocente, tentando resolver um mistério, e você a lançou na boca dos lobos!

— Cala a boca!

— Ah, e o que fez com Mia Gates, ou Erika Storm? Nossa, Alexis, você fez a Erika ser torturada desde criança! Fez ela sofrer experimentos como uma coisa, largou ela na sarjeta! E pra que? Só pra ela se tornar uma mercenária mutante ao lado de Wade Wilson! E não serviu pra nada, porque você também desistiu daquela versão da vida dela! Parou de escrever a história dela no momento em que teve uma crise! Uma tentativa de suicídio e você jogou tudo pro alto!

Nós nos entreolhamos em silêncio, assustados com o que estávamos ouvindo.

— Cala essa sua boca – ela disse entredentes. – Você não sabe de nada.

— Todas as filhas que você diz amar, as filhas por quem diz que mataria e defenderia com unhas e dentes... – parou à sua frente. – Você as faz sofrer como cães de beira de estrada depois de levarem uma surra e tem a audácia de apontar o dedo pra mim como se eu fosse o vilão? Vê se cresce, garota!

— Você não sabe de nada!

Um facho de luz surgiu de seu punho e ela O acertou, jogando-o longe. Castiel ficou na frente de Dean, Sam e eu, defensivamente, e Crowley logo se encolheu atrás dele também, sem saber pra onde correr.

— Não fala delas como se as conhecesse! – esbravejou, caminhando na direção dele. – Eu fiz tudo o que eu podia pra dar poder à elas! Eu fiz tudo o que podia pra que a vida delas fosse melhor dentro do universo em que elas estavam! Eu não criei aqueles universos, eu só as inseri lá! Iberis é minha, e só minha, e a vida dela tinha um propósito! Não fale dos meus filhos como se fossem seus! Eles são meus, Chuck! Meus! E tudo o que você criou eu vou tomar pra mim!

Algo me dizia que deveríamos ir embora, mas eu não queria ir.

Era uma luta entre criadores...

Quantos de nós poderiam dizer que testemunharam algo assim?

Além do mais, eu queria saber mais sobre a estranha, sobre Alexis.

Porque se ela havia feito todas aquelas coisas com suas próprias filhas, com suas... Personagens...

O que a impedia de fazer pior conosco? O que nós, meros mortais, poderíamos fazer contra ela se ela decidisse acabar com todos nós?

Estávamos entre a cruz e a espada.