Notas iniciais
música do capítulo, botem pra tocar assim que começarem a ler https://www.youtube.com/watch?v=6LASz6HAL7E

Nós estávamos ali, parados igual estátuas, tentando entender o show de luzes que estava acontecendo bem diante dos nossos olhos. As árvores ao nosso redor eram gradualmente derrubadas em meio à toda aquela violência, com o impacto dos golpes desferidos de um para o outro.

Eu havia pegado minha lança do porta-malas, pronta para lutar, se fosse preciso, mas aquilo não me dizia respeito.

Ou talvez dissesse.

Nós havíamos discutido tanto sobre os arcanjos não lutarem em Terra para que ninguém morresse no meio da luta, e que para que nada fosse destruído, e no entanto...

Lá estava Deus lutando contra sua rival, destruindo tudo pelo caminho.

Era o nosso fim? Nosso plano tinha mesmo ido por água abaixo?

— Chamem o Zacarias! – ouvimos ela gritar. – Peguem a Charlie!

O som de outro impacto e então ela foi jogada longe. Me voltei para Dean, o encarando. Ele parecia receoso, mas sabíamos o que tínhamos que fazer.

— Zacarias, seu imbecil! – eu gritei. – Venha nos pegar!

— Você não deveria fazer alguma coisa?! – Dean perguntou à Crowley. – Vai só ficar olhando?!

— O que quer que eu faça? – franziu o cenho. – Eu sou só um demônio! Sou o Rei do Inferno, mas sou só um demônio! Ela tem a foice, ora! Se eu chegar perto, serei liquidado!

— Vocês são loucos?! – ouvimos a voz de Gabriel, que apareceu às nossas costas. – Vocês não podem...!

Então ele pareceu se dar conta do que estava acontecendo, seu rosto ficando pálido enquanto observava a briga não muito longe de nós.

— Pai...? – ele murmurou.

— Onde você estava? – Sam lhe perguntou.

— Estamos em guerra uns com os outros, caso tenha se esquecido – respondeu irritado. – Facção Winchester contra as do Céu e Inferno, se esqueceu?! Dean, você não pode dizer ‘‘sim’’ agora!

— Zacarias pegou a Charlie! – encarei Gabriel. – Anna, Daniel e Ariel estão mortos!

— Merda – praguejou entredentes, desviando o olhar. – E por que vocês estão nesse fim de mundo em vez de estar em casa?! Eles não deveriam ficar sozinhos por muito tempo, vocês sabem disso!

Dean, Sam e eu nos olhamos com remorso, sabendo que era culpa nossa por querer viajar normalmente pra variar um pouco.

— Eu vou fazer o que for preciso pra trazer a Charlie de volta – disse Dean.

— Ótimo, perfeito, eu não esperava menos de você! – Gabriel ironizou. – Mas se você fizer isso, Sam não pode dizer ‘‘sim’’ ainda de jeito nenhum! Aquilo ali é péssimo agora! – apontou para a briga. – Vocês só têm dois anéis! O que acham que Miguel vai fazer quando ver o pai?!

— Vamos pegar Peste de uma vez – Crowley me encarou, sacando seu celular e começando a digitar alguma coisa. – Plano B. A contagem regressiva começou.

Ouvi um bater de asas e posicionei minha lança para me preparar para um ataque. Não fiquei mais tranquila ao perceber que era Zacarias.

Seu típico sorriso não estava presente. Assim como Gabriel, ele observava a luta que acontecia ao nosso redor com horror e cheio de apreensão.

— Não pode ser... – murmurou.

— Não só pode ser como é – Dean se aproximou dele.

— Com quem meu Pai está brigando?

— Com o nosso Deus – respondi.

— Cadê a Charlie?! – Dean o segurou pelo colarinho, o empurrando contra o Impala.

— Ela está segura – Zacarias se ateve a responder. – Por hora.

— Eu digo ‘‘sim’’ pro seu chefe e você devolve a nossa filha, agora!

— Calma, bonitão, prioridades primeiro – segurou as mãos de Dean, forçando-o a soltá-lo. Ajeitou o paletó, se afastando do carro. – Melhor. Hora. Possível – ele sorriu. – Está mesmo aceitando ser a casca de Miguel, Dean Winchester?

— Sim, estou! – respondeu irado.

— Pois muito bem – e começou a falar em enoquiano, chamando o maldito arcanjo.

Castiel se aproximou, me puxando para longe de Dean, no que eu e Sam o olhamos com desespero. Dean sorriu, ou ao menos tentou, mas eu sabia que ele estava com tanto medo quanto eu. Não era pra ser daquele jeito, não era pra ser naquele momento.

— Eu vou trazer a nossa menininha de volta, eu prometo – e deu uma piscadinha.

Gabriel e Castiel nos afastaram de Dean à força, nos levando para trás do Impala.

— Cuida deles pra mim, Sammy – ele disse.

As luzes ficavam cada vez mais fortes ali, a voz de Miguel, indistinta, cada vez mais alta e ficando insuportável. Nos abaixamos, tampando nossos ouvidos, mas não adiantava muito.

Crowley havia desaparecido no ar, como era de se esperar. Nenhum demônio que ficasse perto de um arcanjo sobreviveria à sua chegada, era sabido.

A luz branca engoliu Dean por inteiro. O impacto da chegada de Miguel estilhaçou os vidros da janela do Impala, e meus ouvidos doíam.

O momento pareceu durar uma eternidade, meu mundo ameaçando girar, mas quando enfim podíamos enxergar de novo e eu me levantei, eu senti um arrepio percorrer minha espinha.

— Finalmente.

Aquela voz...

Não era Dean. Não mais.

Um longo par de asas azuis se abrira perante nossos olhos. Zacarias se ajoelhou em uma perna, a cabeça baixa em sinal de respeito ao seu general.

Gabriel e Castiel pareciam mais indignados que temerosos, ali.

— Não é bom quando o destino começa a se cumprir, irmão?

Miguel se virou, encarando Gabriel com seus brilhantes olhos azuis. O mais novo já estava com sua espada em mãos, assim como Castiel, e eu estava segurando minha lança com firmeza. Sam engoliu a seco, sem saber o que fazer. Zacarias se levantou, sorrindo satisfeito consigo mesmo.

— Não tem nada de bom em destino se cumprindo – Gabriel vociferou. – Só destruição, caos e morte! O que tem de bom nisso?!

— É a ordem natural das coisas – Miguel sorriu. – Conforme o plano do Pai – seu rosto se voltou para a luta que acontecia não muito longe de nós. – Mas aquela coisa ali... Aquilo ali não é natural, irmão. Por que nos traiu?

— Sabe muito bem o motivo!

— É tolice. Se importar com coisas tão... Descartáveis e passageiras. É uma pena, Gabriel. Eu esperava mais de você. No fim, você e Lúcifer são iguais. Rebeldes e desobedientes, desordeiros... Pequenos e estúpidos.

— Não me compare à ele! – Gabriel se enfureceu, suas asas se abrindo, no que Castiel puxou Sam e eu para trás. – Jamais presuma que eu e Lúcifer somos iguais! Nós não temos nada em comum, ouviu?! Nada!

— Então prove, Gabriel – Miguel se aproximou dele. – Lute ao meu lado. Vamos ajudar o pai a derrubar aquela aberração, como nos velhos tempos.

— Não – Gabriel recuou lentamente. – Eu tenho uma ideia melhor.

Não sei como, nem de onde, mas Gabriel pegou sua trombeta e a assoprou.

O som foi diferente dessa vez, beirando o insuportável devido à altura, nos dobrando de dor, como se atravessasse nossas almas. Eu ainda estava zonza quando vi o rosto de Miguel oscilando entre várias emoções diferentes, sendo ira a que prevaleceu.

— Não deveria ter feito isso – disse entredentes. – Não me obrigue a matá-lo, irmão.

— Ninguém te obriga a nada, seu idiota – Gabriel zombou. – Você, Lúcifer, o Pai... Vocês fazem o que bem entendem. Tá na hora de eu reagir à altura.

— Alce – a voz de Crowley chamou a nossa atenção. – Venha comigo.

— Você – o nariz de Miguel se franziu em nojo ao ver o demônio.

No minuto em que ele cogitou se aproximar de Crowley, eu me pus à frente dele, e Gabriel na frente de Miguel, o barrando.

— Sam, vai – o encarei.

— E você? – me olhou desesperado.

— Não posso ir, não com tudo isso acontecendo!

— Lealdade... – Miguel riu. – Está jogando no time errado, Isabella.

— Vai, Sam – implorei a ele. – Sabe o que tem que fazer.

Milhares de asas estavam batendo, agora. Pouco a pouco, os arredores eram preenchidos com anjos, dezenas a cada momento. Sam abriu o porta-malas do carro, pegando sua mochila e a enchendo com todas as coisas que precisaria para a caçada.

— Mas e você, Bella? – ele se virou para mim, angustiado.

— Não posso deixar Castiel e Dean, não sem saber onde Charlie está. Os anjos não podem me matar, lembra? Vai, Sammy, por favor!

— Trarei ele de volta são e salvo – prometeu Crowley, puxando Sam pelo ombro. – E Bella?

— O que?

— Não percam – pediu, antes de sumir de vista com Sam.

Miguel suspirou.

— Tsc. Que perda de tempo. Tanta energia gasta em lutas sem propósito...

Miguel foi súbita e violentamente lançado para longe, derrubando vários anjos no processo, como pinos no boliche.

À nossa frente, Alexis, ensanguentada e ofegante, ergueu seu punho em posição de ataque, cuspindo sangue no chão.

— Cai dentro, frango!

— Onde Ele tá? – Gabriel perguntou.

— Eu tô bem aqui, Gabe – Chuck apareceu onde Miguel estava antes.

Zacarias, assim como os outros anjos lealistas, se dobraram em um joelho. Castiel e eu nos olhamos, engolindo a seco, nos virando para observar os demais anjos que continuavam chegando. Os rebeldes, os desertores, os amedrontados. Os exaustos. Os que não tinham mais nada a perder.

— Vou pedir pela última vez: não façam isso.

Nós não respondemos. Não precisávamos. Estávamos com nossas armas em punho, e todos juntos nos posicionamos para o ataque iminente, assim como os nossos inimigos.

— Que assim seja – Ele suspirou.

Todo o nosso sofrimento, todas as nossas provações... Elas chegariam ao fim.

Éramos Legião porque éramos muitos.