Winds of Fortune
31 Capítulo 30
A igreja do padre Kellan estava às traças desde que eu havia parado de aparecer para cuidá-la. Tudo estava escuro e empoeirado, mas Anna, em um piscar de olhos, a deixou brilhando como um brinco.
Uma das melhores coisas nos anjos era a habilidade de fazer aquilo. Foi realmente muito útil, especialmente quando ela me levou para o quarto que costumava ser do padre, para a cama, o único lugar onde eu poderia me deitar confortavelmente enquanto as contrações começavam a ficar ritmadas.
— Quantos demônios na cidade? – olhei para ela.
— Matei oito, nove com o demônio que estava na sua casa. Não deveriam ter removido as armadilhas pro diabo.
— Sam removeu pra Ruby entrar. Briga com ele depois.
— Pode apostar que eu vou.
— Anna – segurei sua mão. – Como a Charlie tá?
Ela pôs suas mãos em minha barriga por um momento.
— Ela está bem. Não se preocupe, eu vou ficar com vocês, eu só preciso tirar os demônios do caminho, tá bem? Vai dar tudo certo, fica calma. Eu volto já.
E sumiu, obviamente, o que não me deixava nem um pouco mais tranquila. Eu respirava o mais fundo que podia para controlar as dores das contrações, não me importando mais em verificar o intervalo de tempo entre elas ou a duração de cada uma.
Me deitei de lado, tentando ficar confortável, mas aquilo não ajudava muito. Eu precisava caminhar, precisava esticar minhas pernas, e com muito esforço, foi o que tentei fazer, aproveitando para procurar por alguma roupa confortável e me livrar do moletom que estava usando.
Estava frio pra caramba e a roupa mais confortável que eu tinha, uma das minhas camisolas de algodão. O aquecedor estava ligado, amém à Anna por aquilo, mas meus pés estavam congelando.
Dava pra ouvir Anna lutando com demônios do lado de fora.
Deus, por favor, tenha dó, eu tô parindo aqui!— reclamei em oração.
Por que diabos os demônios estavam atrás de mim? Literalmente tiveram todo o tempo do mundo pra tentar me pegar, e justo naquele momento, dentre todas as oportunidades, era quando decidiam vir?! Por que?
Um pensamento aterrador me ocorreu conforme o tempo passava.
Talvez... Talvez não estivessem ali por mim.
Porque se anjos do tipo do Zacarias queriam usar Charlie contra nós para nos manter no cabresto, os demônios definitivamente não estavam muito atrás naquele problema.
Ironicamente, quando eu mais precisava que os anjos fossem um pé no saco, como de costume, eles me deixavam somente com Anna.
— Eu tô parindo aqui, inferno! – gritei aos quatro ventos. – Será que dá pra alguém vir me dar uma mãozinha?!
Então eu percebi que havia cometido um erro colossal em falar isso em voz alta.
Porque Castiel ouviria.
E Castiel diria à Dean.
E isso desconcentraria ele.
Merda.
— Caramba, minha filha, não tinha uma hora pior pra nascer, não? – gemi de dor.
Anna alternava entre ficar comigo do lado de dentro e amenizar minhas dores e voltar para fora para matar demônios quando eles eventualmente apareciam, e, caramba, eles estavam aparecendo como baratas saindo de um bueiro.
— Por que aquela vaca nos quer tanto?! – perguntei irritada, caminhando de um lado para o outro no quarto.
— Para ter algum tipo de vantagem sobre vocês. Talvez uma tentativa de barganhar com Sam e evitar que morra, mas é uma tentativa tola de escapar da morte. Ela sabe que há anjos cuidando de você.
— Tem alguma coisa errada, tem alguma coisa que não estamos entendendo nisso tudo, não é possível. O que estamos deixando escapar?!
Mais contrações chegando. Era cada vez mais difícil ficar de pé, então eu acabei me ajoelhando no chão, ficando parcialmente de bruços na cama, porque era uma posição aceitável para as minhas pernas.
Senti a urgência de empurrá-la. Ter de fazer força me assustava, mas eu não tinha escolha, eu precisava ajudá-la a sair. Tentei controlar minha respiração enquanto começava a fazer força, me agarrando ao colchão da cama. Sentia dor demais para conseguir evitar gritar e assustar Anna.
Havia alguma coisa errada.
Alguma coisa estava acontecendo lá fora.
Era como se meu sexto sentido estivesse me avisando que alguma coisa terrível estava a caminho e eu não conseguia discernir o que era, pois a dor me desconcentrava completamente. Em meu peito um estranho medo, algo nas minhas entranhas me dizia que nós tínhamos algo grande a caminho, meus instintos lutando um contra o outro, um me dizendo para me concentrar em Charlie e outro me dizendo para me preparar para pegar meu facão e matar seja lá o que fosse que estivesse chegando.
Comecei a ouvir tiros do lado de fora e algumas explosões, mas me sentia tão mal que não conseguia ficar de pé para ver o que estava acontecendo. Anna logo sumiu de novo e eu estava sem minhas armas por perto.
— Bella!
A voz de Dean fez meu coração pular no peito. Logo ouvi a de Sam, também, e Castiel surgiu ao meu lado, imediatamente assustado ao me ver daquele jeito.
Se estavam ali, haviam conseguido, certo?
Certo?
Então por que meus instintos me diziam que havia algo errado?
A porta do quarto se abriu e Dean entrou, era como se tudo estivesse completo. Minha família estava ali, finalmente.
— Caramba, o que eu faço? – Dean perguntou nervoso.
— Fica calmo – eu o olhei enquanto respirava fundo, outra contração me fazendo gritar contra o colchão. – Você tem que... Lavar as suas mãos... Eu preciso de ajuda...
Castiel, que estava de terno, logo tirou o paletó e a gravata e começou a arregaçar as mangas. Sam, parado em frente à porta, parecia assustado como uma criança.
— Você conseguiu? – perguntei a ele.
Ele apenas assentiu, os olhos arregalados.
— Sam! – ouvi a voz de Ruby do lado de fora da janela – Ajuda aqui!
— Eu preciso...! – ele apontou para o lado de fora.
— Vá – eu gesticulei.
A cara de assustado dele quase me fez rir por um momento e ele não tardou a sair dali correndo. Quando Dean e Castiel reapareceram, Castiel começou a dizer a Dean o que deveria ser feito, o que era algo que eu não esperava dele. Era bom saber que enquanto eu gritava, tentando ajudar Charlie a sair, os dois ao menos estavam se preparando para recebê-la.
Dean se ajoelhou à minha esquerda e Castiel à minha direita, e enquanto Dean me encorajava a empurrar, afastando algumas mechas de cabelo do meu rosto, Castiel me ajudava com a dor, felizmente.
— Bella, ela está pronta – Cass me olhou. – Você está pronta. Não tenha medo, estamos aqui. Empurre.
Antes fosse tão simples assim. Charlie nem tinha nascido ainda e eu já sabia que seria cabeça dura igual ao pai, me dando trabalho.
Mesmo que ela estivesse encaixada na posição certa, e que eu tivesse dilatada ao máximo, colocá-la pra fora foi mais difícil do que eu imaginei que seria.
A sensação de perigo começava a me alarmar e me distrair. Dean disse algo sobre estar vendo a cabeça de Charlie e minha cabeça estava concentrada numa crescente descarga de energia em outro lugar.
— Castiel, o que está acontecendo?! Que energia é essa?!
— Do que tá falando? – Dean perguntou confuso.
— Tem alguma coisa errada! Vocês mataram a Lilith?!
— Se concentre na Charlie – Castiel tentou me dissuadir, mas isso apenas reforçou que meus instintos estavam certos.
Me virei para frente, Castiel me oferecendo suporte, deixando que eu me apoiasse em seus ombros. Eu estava queimando em baixo. Era uma dor estranha, pois mesmo que Castiel me anestesiasse, ela voltava. Então, pouco a pouco, conforme eu fazia força, ela escorregava para fora de mim.
Dean a segurou bem a tempo, antes que ela caísse, porque quando chegou, chegou de uma vez.
— Por que ela não está chorando? – perguntei nervosa.
— Dean, me dê ela – Castiel estendeu os braços para segurá-la, no que Dean o fez, morrendo de medo de derrubá-la. – Pegue toalhas, rápido.
— Cass, por que ela não está chorando?!
Ela era pequena e tinha bastante cabelo. Era bochechuda e do rostinho redondo, como uma bonequinha. Castiel pôs a mão em seu peito por um momento e então ela começou a chorar, no que Dean e eu respiramos aliviados.
Castiel a secou rapidamente, da forma mais delicada possível, para deixá-la sequinha no manto que Dean trouxera, e a embrulhou com todo o cuidado antes de entregá-la para mim e me ajudar a levantar para deitar na cama.
— Cass, ela tá bem? – Dean o olhou.
— Está, sim – ele sorriu. – Só precisava limpar as vias aéreas dela. As duas estão bem.
Me acomodei na cama, ainda sentindo as contrações finais que expulsariam a placenta de dentro de mim. Charlie se remexia, inquieta, e chorava, e eu encostei seu rostinho ao meu colo para que ela se aquecesse mais rápido.
— Você é tão pequena – meus olhos se embaçaram enquanto eu deslizava os dedos sobre seus finos cabelos.
Dean se ajoelhou ao lado da cama, olhando Charlie de perto. Dessa vez ele nem tentava esconder suas lágrimas. Chorava livremente, um grande sorriso em seu rosto, e Castiel, sentado na cama, ao lado de Dean, também chorava.
Eu não conseguia parar de pensar no quanto ela era fofa. Eu não sabia ao certo com quem ela se parecia mais, era cedo demais para saber, mas aquelas bochechas fofinhas podiam muito bem ser do Dean e não minhas. Mesmo o cheirinho dela era bom. Fazia muito tempo que eu não sentia cheirinho de bebê. As amigas de Renée vez ou outra estavam grávidas, e volte e meia me deixavam segurar os bebês quando as visitávamos na maternidade.
Mas nada se comparava a segurar o meu próprio bebê nos braços. Vê-la bem, saudável, de alguma forma fazia com que tudo valesse a pena.
Fazia a luta toda valer a pena.
Logo ouvimos passos. Sam e Anna entraram, observando tudo fascinados.
— Você está bem? – ela me olhou.
Eu assenti, sem conseguir falar por um momento, chorando com os outros dois. Sam pareceu sem jeito, começando a recuar, mas eu o chamei assim que notei aquilo.
— Sam, vem – o olhei. – Vem conhecer a sua sobrinha.
Ele engoliu a seco, se aproximando a passos tímidos. Pôs a mão no ombro de Dean, observando Charlie, que agora segurava o indicador do pai.
— Ela é uma graça – sorriu.
— Nasceu bem no dia dos namorados – Anna cruzou os braços, sorrindo.
— É? – me alarmei. – Que horas são?
— Meia noite e oito – Dean olhou seu relógio.
— Oh – engoli a seco. Realmente havia perdido a noção de tempo. – Alguém poderia me explicar o que estava acontecendo lá fora? Cadê a Ruby?
— Bem, é solo sagrado de uma igreja sacramentada – Anna deu de ombros. – Ela não poderia entrar nem se quisesse. Os demônios pararam de vir.
— Realmente não é hora de falarmos sobre isso – Castiel a censurou.
— Por que? – o fitei. – O que aconteceu? Que energia estranha era aquela que eu estava sentindo? Vocês sentiram também, não sentiram?
— Bella, não se preocupa com nada – Dean tentou desviar o foco. – Se concentra na Charlie, a gente cuida do resto.
— Dean – o encarei. – O que foi que aconteceu?
Ele suspirou, baixando a cabeça por um momento. Sam parecia envergonhado com algo, e um silêncio constrangedor tomou conta do quarto.
— Se vocês não começarem a falar, eu vou chamar alguém que possa me responder – ameacei. – É sério, gente, o que houve? A Lilith tá morta ou não?
— Ela está morta, sim – Sam suspirou.
— E...? Não deveríamos comemorar isso?
— Sam, não – Dean se virou para ele por um momento.
— Parem com o suspense. Eu tô com uma sensação estranha desde pouco antes de vocês chegarem, como se alguma coisa ruim estivesse se soltando. O que aconteceu no convento?
— Lilith não ia romper o último selo – disse Sam.
— Para, agora não é uma boa hora – Dean se levantou. – Por favor, para.
— Vocês poderiam, por favor, parar com esse suspense? O que foi que aconteceu que eu não posso saber? – os entreolhei.
Dean se afastou de Sam, claramente desconfortável.
— Bella, você deveria se concentrar na Charlie agora – Castiel afagou meu ombro. – De verdade. O resto é com a gente.
— Suspensa ou não, eu ainda sou uma Santa – o encarei. – E Charlie não tá mais num lugar fácil de proteger. Me digam logo com o que eu tenho que me preocupar.
— Lilith não ia romper o último selo no convento – Sam recomeçou. – Lilith era o último selo – ele engoliu a seco. – E quando eu a matei...
— Lúcifer... – sussurrei, estremecendo, segurando Charlie contra o meu peito com mais firmeza. – Essa energia...
— Lúcifer saindo da jaula – Anna explicou. – O Apocalipse começou, oficialmente.
Puta merda.
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