A calmaria antes da tempestade sempre era a parte que eu odiava mais.

Estávamos no hospital, agora. Castiel e Anna haviam nos escoltado até lá antes de serem convocados por Gabriel, assim como o resto de sua guarnição, e fiquei sozinha com Dean enquanto Sam e Ruby voltavam para casa pra se livrar do copo do demônio que Anna havia matado lá.

Dean ficava quase o tempo todo com Charlie no colo. Depois de fazer todos os exames necessários nela e em mim, estaríamos liberadas em breve para voltar para casa e eu obviamente aproveitei para dormir um pouco. Era bom ser mimada com comida de hospital e soro na veia, pra variar.

Eu estava amamentando Charlie quando recebemos visitantes inesperados.

— Ora, vejam só – Zacarias se aproximou, fazendo menção de tocar em Charlie, no que a segurei com mais firmeza e recuei na cama. – Quem diria que macacos pelados como vocês conseguem fazer uma coisinha tão fofa como essa?

— Sai de perto da minha família.

Dean, que tinha saído para pegar um café, estava menos do que feliz por voltar para um quarto onde Zacarias e outros dois anjos estavam.

— Justamente quem eu estava procurando – ele se virou para se aproximar de Dean.

— Quem é você?

— Sou Zacarias, um velho conhecido da sua esposa.

Revirei os olhos, irritada, tentando me conter para não afetar Charlie.

— Tô pouco me lixando pra quem você é, rala peito daqui – o encarou.

— Ah, eu vou, eu vou... – ele se aproximou de Dean. – Assim que eu pegar o que eu preciso dessa sala. Eu estou aqui para pegar a Espada de Miguel.

— Espada de Miguel? – Dean semicerrou os olhos. – A gente não tem nada disso aqui, zé mané!

— Cuidado como fala comigo, rapaz – Zacarias o ameaçou. – Você não vai querer que algo aconteça com a pequena Charlie, vai?

Engoli a seco, sem ter pra onde correr.

— Eu não tenho espada nenhuma – Dean respondeu com mais seriedade.

— É claro que não tem espada nenhuma. A Espada de Miguel é você, cabeça de vento. Você é uma casca.

Ele pestanejou confuso.

— Eu sou o que?

— Uma casca. A casca, pra ser mais exato. O Apocalipse começou, garoto, e para vencermos o capeta, nosso general precisa de sua arma para lutar. Miguel precisa de você para derrotar Lúcifer.

— Tá me dizendo... Tá me dizendo que Miguel precisa me possuir pra matar Lúcifer?

— Exato. Não vê? É uma grande honra. Diga ‘‘sim’’ à Miguel e quando tudo isso acabar, você receberá prêmios inimagináveis – abriu um largo sorriso enquanto circundava Dean. – Vai ter tudo o que quiser, tudo o que sempre quis.

— Eu já tenho tudo o que eu sempre quis, valeu – ele respondeu confiante.

— Então deixa eu clarear as ideias pra você entender melhor... – Zacarias ficou à centímetros dele. – Se não disser ‘‘sim’’ à Miguel, você nunca mais verá Charlie ou Bella.

— Não podem ferir a Bella.

— Tem razão. Ela é uma Santa, não podemos, mas Charlie... – se virou para nos encarar. – Charlie é outra história. Podemos fazer o que quisermos com ela.

— Ela é um bebê, seu desgraçado!

— Assim como outros milhões – ele deu de ombros. – Apesar de que... Bem, ela descende de duas linhagens muito especiais. Me diga, Dean, consegue imaginar o tipo de coisa que um demônio do tipo do Alastair faria com um bebê no Inferno?

Nós dois estávamos tomados de medo, nos olhando em pânico.

A porta do banheiro subitamente se abriu, nos assustando mais ainda.

— Ei, otário! – ouvimos Castiel falar.

— O que pensa que está fazendo? – Zacarias perguntou irritado, caminhando em sua direção.

Castiel fez alguma coisa que não conseguimos distinguir e logo os outros anjos começaram a brilhar. Dean correu até nós para nos proteger do show de luzes, e logo estávamos sozinhos novamente.

— Aqui não é seguro – Castiel se aproximou, Anna logo atrás dele. – Precisamos sair daqui. Cadê o Sam?

— Voltou pra casa, com a Ruby.

— Vou pegá-lo – Anna disse antes de desaparecer.

— O que está acontecendo? – perguntei assustada.

— Um cerco. Os anjos vão atacar por todos os lados e os demônios também.

— Os demônios eu entendo, mas por que os anjos? – Dean o encarou.

— Explico quando estivermos seguros. Vamos, rápido – ele disse enquanto guardava nossas coisas de volta nas bolsas.

Dean me ajudou a levantar com Charlie no colo e Castiel colocou suas asas ao nosso redor, nos teleportando.

Imaginei que seríamos levados aos salões de Gabriel, mas quando abri os olhos, percebi que estávamos em um lugar totalmente diferente.

Parecia ser uma casa de praia comum, com grandes portas de vidro abertas para a praia. O sol brilhava, e a brisa era agradável. Eu não sabia o quanto sentia saudades do calor até senti o clima mudar. Estávamos no sul?

— A resposta é sim.

Me assustei ao ouvir a voz da estranha por perto. Ela entrou na sala de estar onde estávamos, vestida de preto da cabeça aos pés como sempre, e dessa vez de chinelos, imediatamente se aproximando de mim para ver Charlie, que estava dormindo no meio da mamada.

— Olha só pra ela – sorriu. – Tão fofinha! A mistura de vocês que resultou nela tá tão perfeita que eu não sei onde acaba você e começa o Dean.

— Ah, peraí, quem é você? – Dean a encarou. – Você conhece a Bella de onde?

— Digamos que... Eu conheço a Bella há muito, muito tempo, e de outro lugar.

Aquilo era novidade pra mim.

— Mas aqui a gente só se conhece há mais ou menos um ano. E eu também te conheço, Dean – sua expressão ficou mais séria. – Você, Sam, Castiel, Anna, Ruby... – deu de ombros. – A lista é grande, mas enfim, eu vou explicar depois. Sentem – indicou os sofás. – Assim que Anna chegar com Sam, explicarei as paradas pra vocês.

Ela se afastou de nós, se aproximando de Castiel para abraçá-lo, um abraço muito firme, o que pareceu ter pegado ele completamente de surpresa.

— Ah... Eu a conheço?

— Não, bebê – ela se afastou um pouco afagou o rosto dele. – Mas não esquenta com isso, não – e se afastando de repente, rumou para outro lugar da casa, o que parecia ser um corredor. Bateu em uma porta – Ô, bonitão, larga de fingir ser antissocial e sai desse quarto, a antissocial aqui sou eu!

Ouvimos alguém responder de volta, mas não conseguimos entender o que era.

— Olha só, meu filho, eu não sou o teu pai, não, tá? Eu sou doida e eu vou te tirar desse quarto se tu bancar o difícil! Larga de ser nervosinho e vem aqui, tu faz parte disso também, ô, prima-dona!

Dean, Cass e eu nos olhamos em confusão, sem saber o que deveríamos fazer. Ela retornou à nossa vista, estalando os dedos, no que a mesinha de centro da sala foi preenchida com café da manhã completo.

— A senhora precisa se hidratar – ela me encarou. – Beber bastante água e uns sucos reforçados aí, porque a Charlie vai secar você – ela riu de nervoso.

Sam e Anna apareceram na sala de estar na mesma hora em que Gabriel deu as caras, e o momento teria sido de grande desconforto entre eles se ela não tivesse quebrado o silêncio desconfortável.

— Sam! Anna! Chegaram bem na hora! Senta aí, vocês dois – ela apontou. – Tu também – encarou Gabriel, que revirou os olhos e se sentou no sofá à nossa frente, só para não ter que ficar perto de Sam.

— O que tá rolando? – ele perguntou desconfiado, se sentando ao meu lado. – Quem é você?

— Quem eu sou não importa – a estranha respondeu levemente irritada, se sentando ao lado do Gabriel. Castiel se sentou ao lado de Dean e Anna ao lado dele. – O negócio é o seguinte: o Apocalipse começou – cruzou os braços. – E o negócio vai ser feio.

— A coisa já tá feia – Dean franziu o cenho.

— E vai piorar. Pra caralho – ela franziu o cenho, suspirando. – Lúcifer já tá tocando o terror e os quatro Cavaleiros do Apocalipse vão começar sua caminhada já já. Muita gente vai morrer e vai ser uma merda.

— E a gente tá aqui porque...? – Sam semicerrou os olhos.

— Porque Céu e Inferno tão caçando vocês e eu não posso deixar vocês morrerem, né, meu anjo? – retrucou azeda.

— Eu tô confuso, aqui – Dean chamou sua atenção. – Quem é você e por que tá ajudando a gente?

— Isso não importa.

— Importa sim – respondeu indignado. – Porque até agora ninguém apareceu pra fazer nada pela gente, então pra qual facção você trabalha: a de cima ou a de baixo?

Ela pestanejou algumas vezes, provavelmente surpresa com a reação dele, e eu o censurei com o olhar.

— Primeiro... – ela ergueu o indicador. – Eu tô ajudando vocês faz tempo. Eu tô interferindo mais do que eu deveria, correndo o risco de me foder a qualquer momento, e tudo isso por vocês. Segundo... – ergueu o dedo do meio em seguida. – Eu não tô na facção do Céu e nem do Inferno, eu tô na facção de vocês.

— Como é que é? – Sam riu descrente.

— É isso aí – descruzou os braços, os apoiando em seus joelhos, nos encarando. – Eu tô aqui com o único propósito de mudar o final dessa história, e se vocês querem sobreviver, vão ter que confiar em mim.

— Ou o que? – Dean arqueou as sobrancelhas.

Ela respirou fundo por um momento, fechando os olhos, e Gabriel a olhou com preocupação, dando dois tapinhas em suas costas, como consolo.

— Eu avisei que não seria fácil – ele disse.

— Valeu pelo óbvio, gênio – ela revirou os olhos, se levantando em seguida e se aproximando de nós, no que Dean ficou imediatamente na defensiva. – Eu amo vocês – ela nos entreolhou. – De verdade, vocês são tudo pra mim e é o único motivo de eu estar aqui, mas puta merda, cara, vocês são chatos.

Ela ergueu os braços, tocando as testas de Sam e Dean com os indicadores. Castiel e eu imediatamente ficamos alarmados com o gesto.

— Relaxa, neném – ela me olhou. – Só mostrei pra eles as vidas miseráveis e infelizes que eles tiveram em outra versão dessa história, a versão que eu tinha te contado.

— Sabia disso? – Dean me olhou. Parecia ter visto um fantasma.

— Sim.

— E não contou pra gente? – Sam se esticou para a frente, para me ver.

— Vocês dois tão proibidos de ficarem bravos com o meu neném – ela ergueu o indicador em censura aos dois. – Bella aguentou muita, mas muita merda pra salvar vocês até agora e vocês dois não tem o menor direito de ficarem bravos com ela. Agora calem a boca aí e me deixem falar o que eu tenho que falar.

Obviamente eles não estavam nada felizes com aquela situação.

— A parada é a seguinte... – ela voltou a se sentar ao lado de Gabriel. – Tu é a casca do Miguel – apontou para Dean. – E tu é do Lúcifer.

Sam estava prestes a abrir a boca quando ela ergueu o indicador, o censurando e ele foi obrigado a ficar quieto.

— E não adianta ficarem putinhos comigo, eu não tenho nada a ver com essa merda. Deus quis assim, então fiquem putos com Ele, tá? Eu tô tentando salvar o rabo de vocês, mas vocês não facilitam muito. Como eu ia dizendo, vocês são as cascas dos dois arrombados lá. Eu disse pra Bella antes que se vocês quisessem vencer essa guerra, teriam que fazer o que eu mandasse. Era disso que eu tava falando – ela me encarou. – E foi o que o Gabriel te disse há muito tempo. Vocês têm papéis aqui, todo mundo. Querem sobreviver ao Apocalipse e salvar o mundo? Vão ter que engolir o orgulho de vocês. Querem viver em paz e tocar as suas vidas numa boa, sem ter que caçar nunca mais? Vão ter. Que engolir. O orgulho. Não é uma opção, é uma ordem, e isso não é brincadeira. Vocês dois sabem exatamente do que eu tô falando porque eu mostrei a outra versão disso pra vocês. O que eu quero saber é: vão fazer o que eu mandar pra todo mundo se salvar ou vão repetir os mesmos erros de antes de acabar destruindo tudo?