Winds of Fortune
11 Capítulo 10
Depois de deixar a casa do Bobby em ordem de novo, nós acabamos dormindo lá mesmo, pois estávamos cansados demais para pegar a estrada.
Na manhã seguinte, acabei acordando bem mais tarde do que deveria. O sol já estava brilhando, me incomodando quando acordei. Já passava das 9h quando finalmente tive ânimo para levantar.
— Bom dia, bela adormecida! – Bobby brincou quando me viu entrando na cozinha. – Meu Deus, Bella, você perdeu muito peso – ele logo ficou mais sério.
Ficar de regata e shorts também não me ajudava a disfarçar, mas eu não ficaria de jeans e camiseta naquele calor. Quando percebi, Sam também me olhava com seriedade, e eu sinceramente esperava que ele sentisse uma bela pontada de culpa.
— É, acontece quando se está de luto e trabalhando o dia inteiro, eu acho – puxei uma cadeira para me sentar à mesa.
— Castiel realmente não brincava em serviço, né? – Dean me olhou enquanto enchia uma caneca com café e a entregava pra mim.
— Demônios à solta e aquela cadela tocando o terror no mundo e rindo das nossas caras... – suspirei. – Foi uma merda.
Depois do café, partimos para a estrada. Era quase normal, quase como se nada tivesse acontecido, e quase, apenas quase, como se eu ainda não estivesse com raiva de Sam pelas coisas que havia dito e feito.
E assim como antes de todas as merdas em nossas vidas acontecerem, estávamos resolvendo casos em sequência, quase sem pausas. Eventualmente eu precisava voltar para casa para verificar a comida na geladeira e na dispensa, e com isso acabávamos ficando um pouco e mesmo descansando.
Eu me sentia cada vez mais cansada. Não entendia a ânsia de Dean de resolver um caso atrás do outro, apesar da parte que dizia respeito à Lilith ser perfeitamente compreensível. Parcialmente era a culpa que sentia em saber que o que ele fez no Inferno estava resultando em tantas mortes.
O que ele parecia não entender era que aquilo não era culpa dele. Ele foi usado por aquela diaba, ela havia se aproveitado do maior ponto fraco dele para conseguir o que queria. Ainda assim, ele não conseguia se perdoar.
Depois de resolvermos um difícil caso envolvendo um rugaru, no Missouri, eu me sentia fisicamente horrível. Não apenas porque rugarus comiam carne humana e aquilo me deixou com o estômago revoltado, mas também porque o caso inteiro tinha sido bem difícil. Nosso monstro da vez nem mesmo sabia o que ele era e eu só podia imaginar a confusão em sua cabeça em perceber que não era humano.
Ter que queimá-lo vivo para que ele não ferisse mais ninguém, para mim, foi a pior coisa. Não era como se aquilo fosse culpa dele, ou uma escolha de estilo de vida, mas ele não tinha controle sobre aquilo. Não era do tipo de monstro que podia manter certa humanidade e agir com consciência.
Tudo o que eu queria depois daquele trabalho era voltar para casa e dormir por uma semana. Não tínhamos pistas de Lilith e Castiel não aparecia há tempos.
O trajeto de volta para Lawrence foi um martírio. Eu estava com uma enxaqueca insuportável que mal me deixava abrir os olhos e meu estômago estava embrulhado com cheiro do cheeseburguer que Dean estava comendo no carro.
Assim que cheguei, joguei minha mochila em um canto do quarto e fui direto para o chuveiro. Água fria para apaziguar o calor no fim de julho. Eu estava sem vontade nenhuma de pegar um bronzeado, a luz do sol era quase impossível de suportar. Meus olhos doíam só de sair à luz do dia.
Me enfiei em minha camisola de algodão favorita, fechando as cortinas, ligando o ar-condicionado e me deitando. Dean e Sam provavelmente beberiam cerveja e comeriam alguma besteira, então eu não tinha nada com o que me preocupar.
~
Eu pensei que acordaria me sentindo melhor. Apesar de minha cabeça não estar mais prestes à explodir, ainda me sentia nauseada.
— Tá acordada, benzinho? Espero que esteja com fome – Dean perguntou, abrindo a porta. Trazia uma bandeja com café, torradas, ovos fritos e bacon.
Senti uma pontada em meu estômago na hora em que senti o cheiro da fritura. Me levantei em um salto e corri para o banheiro, tentando colocar pra fora o que eu nem tinha no estômago, meus olhos lacrimejando na mesma hora.
Dean se aproximou, afastando as mechas de cabelo do meu rosto enquanto eu permanecia ajoelhada na frente do vaso sanitário. Colocou a costa da mão em minha testa, verificando minha temperatura.
— Você tá pálida – me olhou preocupado. – E não tá comendo quase nada ultimamente. O quê que tá acontecendo com você, hein? – perguntou enquanto esfregava minhas costas.
— Eu só tô cansada de estar na estrada. Eu tô nisso há meses – baixei a cabeça, sentindo a náusea ameaçando me fazer vomitar de novo.
— Cadê a droga daquele anjo quando a gente precisa dele? – ele se irritou. – Te fez trabalhar à beça e quando você tá mal, nada dele aparecer. Que belo anjo, esse Castiel!
Ouvi um bater de asas não muito longe de nós.
— Falando no diabo... – murmurei.
Dean se virou e logo se assustou quando percebeu que Castiel estava de pé bem atrás dele.
— Até que enfim, hein? – ele encarou o anjo. – Você sumiu!
— Estou ocupado. O que houve com Isabella?
— Me diga você. Ela tá perdendo peso há meses, cara, há meses, desde que você ficou arrastando ela pra todos os lados! Ela não come quase nada, tá sempre com dor de cabeça, e agora tá vomitando o que ela nem comeu!
Castiel franziu o cenho, confuso, mas não perguntou nada.
— Com licença – ele passou por Dean, se aproximando de mim. Colocou uma mão em minha testa e eu senti alívio imediato do enjoo.
— Uau. Valeu, Cass.
Me levantei, baixando a tampa do vaso sanitário para dar a descarga. Castiel ainda me encarava com o cenho franzido, os olhos semicerrados como se estivesse tentando enxergar algo.
— O que foi? – perguntei sem entender nada.
— Com licença – ele aproximou as mãos, segurando o meu quadril.
— O que cê tá fazendo? – Dean perguntou.
Depois de um minuto de silêncio, Castiel abriu um largo sorriso, e nos entreolhou.
— Vocês não fazem ideia, não é?
— Não fazemos ideia do que?
— Você tem um pequeno milagre crescendo aí dentro – ele sorriu pra mim. – Você está à espera de uma criança, Isabella.
Perdi a conta de quantas vezes eu pestanejei em menos de dez segundos, em choque enquanto tentava processar o que havia acabado de ouvir.
Dean foi bem menos sutil.
Dean simplesmente havia desmaiado.
Foi pura sorte Castiel o segurar antes que ele batesse a cabeça na parede e algo pior lhe acontecesse. Pedi a Cass que o tirasse dali, que o deitasse na cama, pois eu precisava de um banho.
Mas na verdade eu só queria ficar sozinha em baixo do chuveiro frio, tentando entender o que tinha acabado de ouvir. Na minha mente, eu repassava os últimos meses, procurando os sinais que eu havia deixado passar batido.
É verdade que meus seios estavam estranhos, mas eu não liguei pra isso, porque pensei que fosse coisa da TPM, e é verdade que certos cheiros estavam me incomodando, mas muitos cheiros me incomodavam desde que o meu olfato ficou apurado. Eu estava dormindo muito ultimamente, mas apenas estava aproveitando o fato de que tinha mais tempo para descansar, já que eu estava sempre ocupada com Castiel antes.
E, certo, é verdade que minha menstruação estava esquisita, mas talvez fosse só o estresse. Porque não tinha a menor chance de eu estar grávida, e...
Aquela madrugada.
Não, sem chance.
Sem chance de eu ser azarada a ponto de ter engravidado na única vez em que transamos sem camisinha porque foi no calor do momento e eu não estava preparada para aquilo porque até horas antes eu era viúva!
Estávamos no pior momento possível para ter um bebê, e lá estava eu, idiota como sempre, grávida!
Ouvi batidas na porta.
— Isabella? Dean está na cama, ainda está desacordado. Eu preciso ir e avisar nossos superiores sobre isso.
Desliguei o chuveiro na mesma hora e corri para a porta, a abrindo.
— Vai contar isso pra eles por que?
Castiel desviou o olhar enquanto me respondia.
— Gabriel precisa saber, para que você não assuma certas missões a partir de agora. Precisará ser protegida, mais do que nunca.
— Não conte a ele.
— Eu preciso.
— Castiel, não conte! – segurei sua mão. – Por favor!
— Por que? – se virou para me encarar.
— Só... Não conta. Por favor. Eu não sei o que vou fazer ainda.
— Do que está falando?
— Eu não sei se... Não sei se... – engoli a seco, me arrepiando só de pensar no conceito. – Não sei se terei esse bebê. Estamos em guerra, Lilith está à solta... Essa criança... Seria usada contra nós. Não posso tê-la.
Eu nunca tinha o visto tão assustado até aquele momento.
— Não conte a ninguém, entendeu? Por favor. Eu nunca te pedi nada.
Ele engoliu a seco, assentindo.
— Tudo bem. Mas em algum momento, eu precisarei falar.
— Apenas... Me dá um tempinho, tá?
— Como queira – crispou os lábios. – Preciso ir.
Eu assenti e ele bateu suas asas, desaparecendo. Fechei a porta do banheiro novamente, voltando para o chuveiro.
Que diabos eu ia fazer?
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