Eu olhava para os três testes diferentes com um misto de terror e falta de esperança. Dean ainda estava chocado, de braços cruzados, escorado na porta, observando os testes em silêncio. Aquele não era o momento, e não poderia ser. Tinha coisa demais acontecendo e eu não podia ficar parada.

— Então – ele pigarreou, me olhando. Parecia com receio de falar. – O que você... O que você quer fazer?

— Sabe o que eu quero fazer – não fiz cerimônia, não havia motivos para isso. – Eu quero ser a mãe dos seus filhos, Dean... – e por um momento, vi uma pontinha de esperança nele. – Mas Lilith está à espreita.

— É, eu sei. Chega a ser irônico, sabe? – ele sorriu triste por um momento. – Eu sempre quis um sinal, um mísero sinal que fosse pra largar a vida de caçador...

— E acha que esse bebê é o sinal que precisa?

— Gostaria de pensar que sim. E essa é a ironia da coisa, acho. Um motivo pra largar tudo no momento em que eu não posso fazer isso.

— Como pararíamos de caçar, considerando o cenário pré-Apocalipse em que a gente tá agora?

— Eu não sei, mas a gente não tem que fazer tudo sozinhos. Castiel está trabalhando nisso também, não está? Além do mais, ele te deu uma folga por ordem dos superiores deles – deu de ombros.

Uma ideia me ocorreu.

— E se... E se os superiores dele estivessem esperando que isso acontecesse?

Dean primeiro franziu o cenho, confuso, e então arregalou os olhos, provavelmente processando a mesma ideia que tinha me passado pela mente.

— Acha que eles vão usar o bebê contra a gente? – me olhou.

— Eu tenho certeza que sim. É uma forma de me manter obediente – suspirei. – Mesmo que em momento algum eu tenha feito algo contra o que eles me ordenavam.

— Seus chefes são bem desconfiados, né?

— Acho que deve ser pelo fato de eles não gostarem da humanidade. Dean, você sabe o que eu tenho que fazer. Eu não espero que concorde com a minha decisão, mas espero que pelo menos você entenda o motivo de eu precisar fazer isso. Não vou deixar essa criança ser usada contra a gente, não posso deixar que ameacem ela.

Ele assentiu, baixando os olhos para o chão. Claramente aquilo o feria mais do que ele gostaria de admitir, mas nós dois sabíamos do perigo.

— Eu sinto muito – me afastei dele, saindo do quarto.

Comecei a descer as escadas para a biblioteca, a fim de ligar o notebook para agendar um horário em alguma clínica na cidade.

Minha visão ficou preta no momento em que toquei na maçaneta.

~

Não sei quanto tempo se passou até que eu abrisse meus olhos novamente, mas quando o fiz, percebi que estava deitada em um divã branco, em uma sala irritantemente branca, que se assemelhava a uma sala de estar com vista para o mar. Toda aquela ‘‘brancura’’ poderia facilmente ser um meio de tortura psicológica. As portas de vidro da sala estavam abertas e uma brisa fresca entrava.

Eu não estava sozinha. Castiel estava bem atrás de mim, de pé, parecendo desconfortável, mas não perguntei o motivo.

Porque o desconforto dele muito provavelmente se devia à presença do outro anjo ali, um que eu nunca tinha visto antes e um que me deixou desconfortável com sua presença. Eu sentia de longe que ele não era do tipo amigável. Me sentei no divã, permanecendo quieta. Não sabia o que esperar dele.

— Você tem coragem, Isabella. E audácia, também, de achar mesmo que Castiel poderia ficar em silêncio. Ele não deve obediência a você, e se bem me lembro, você jurou nos servir. Acha mesmo que algo assim passaria despercebido por nós?

O anjo se virou de repente e seu rosto não me deixou mais tranquila. Tinha um falso sorriso cordial, um aspecto desagradável, como se estivesse ali por obrigação.

— O que acontece com esse bebê não é da conta de vocês.

— Muito pelo contrário – ele começou a se aproximar. – A linhagem Winchester é uma muito importante e você está carregando a continuação dela. Isso é imprescindível para todos nós e a decisão que você tomou não é uma que podemos permitir que seja concretizada.

— E por que não?

— Nós não temos que nos justificar a você – parou à minha frente. – Você vai manter essa gravidez e Castiel estará vigiando você para assegurar que não esteja correndo nenhum risco desnecessário.

— E se eu não fizer isso? Não podem me obrigar a ter esse bebê.

O anjo abriu um sorriso estranho o suficiente para me provocar arrepios.

— Tem razão. Não podemos. Mas sabe o que podemos fazer? Podemos mandar Dean de volta pro Inferno.

— Vocês precisam dele pra matar Lilith – franzi o cenho.

— É, precisamos, mas também podemos improvisar. Nós temos você, e temos o outro irmão, também. Então, espertinha, o que vai ser? Vai ser uma santa teimosa e desobediente, correndo risco de tirarmos sua santidade de você, de perder seu marido de novo, ou vai fazer o que é mandada?

Aquela era uma situação bem mais complicada do que eu imaginava que seria. Castiel, apreensivo ao meu lado, parecia implorar com os olhos.

— Veja bem... – o outro anjo se sentou em uma poltrona branca à minha frente. – Se você se comportar, receberá um bônus por isso. Sam e Dean terão seus nomes limpos, suas fichas criminais deixarão de existir, o que significa que você e Dean até mesmo poderão se casar legalmente. Imagine só, esse bebê vai ter o nome de ambos os pais em seus documentos – seu sorriso parecia debochado. – E tudo o que você precisa fazer é ter esse bebê e continuar cumprindo com as suas obrigações conforme ordenamos.

Desviei o olhar, me sentindo sufocada. Se eu soubesse que ter dito sim a Castiel tempos antes resultaria naquele momento, sabendo o que eu agora sabia, talvez não tivesse aceitado nada daquilo.

Porque eu sempre soube que no fundo nada daquilo era de graça.

— Por acaso se esqueceu de que está aqui para fazer com que eles performem os papéis que o destino escolheu para eles? Você também tem o seu e não está em posição de se negar a isso, Isabella. Tem certeza de que quer desafiar as ordens de Deus?

Engoli a seco, sentindo meu medo se apossar de mim. Por que demorei tanto para enxergar o perigo naquilo tudo? Por que demorei tanto para perceber que os anjos não eram confiáveis? Eu não tinha a quem recorrer, e nem em quem confiar. Céu e Inferno eram igualmente corruptos.

Quem era o Deus para quem eu rezava?

Quem me deu aquela força e poder, somente para me deixar indefesa daquele jeito e tomar minha liberdade?

Eu não suportaria que os dois se ferissem por minha causa. Antes não me restava nada além deles, mas naquele momento, eles eram tudo para mim.

Para ganhar a guerra, era preciso perder algumas batalhas.

Está bem, Gabriel. Vou confiar nas suas palavras. Por favor, não faça com que eu me arrependa disso.

— Okay – encarei o anjo. – Como queiram.

— Boa menina – ele sorriu e se levantou. – Queremos que tome todos os cuidados necessários e que esteja perfeitamente saudável. Você tem exames marcados para mais tarde, Castiel acompanhará você para a sua segurança. Aqui – me estendeu duas pastas de papel. – A documentação dos Winchesters, como prometido.

Como conseguiam fazer tudo tão rápido?!

— Lembre-se desse acordo – ele me encarou antes de soltá-las. – Ande na linha e tudo ficará bem. Eu odiaria que alguma coisa acontecesse ao seu bebê.

Engoli a seco, incapaz de dizer alguma coisa.

Extremamente contraditório. Eu estava sob ameaça de perder minha família se algo acontecesse ao bebê, mas se eu desobedecesse, também ficaria sem ele.

Castiel me deu a mão, me ajudando a levantar, e em um piscar de olhos, eu estava em casa novamente, na varanda.

— Eu sinto muito – ele me olhou.

— Com o que eles te ameaçaram? – o fitei.

— Ameaçaram enviar Dean de volta ao Inferno e ameaçaram mandar você pra lá também. Eu não pude concordar com isso e cedi, confirmei o que já suspeitavam.

— Não é culpa sua – dei dois tapinhas em suas costas. – Eu não reconheci que estava cercada de inimigos. Não percebi que estava trabalhando para eles até ser tarde demais – sorri como uma idiota enquanto meus olhos se embaçavam.

— Bella?!

Vimos Sam dentro de casa, nos avistando, logo chamando Dean e o avisando que estávamos ali. Apenas me sentei à mesa da varanda, Castiel às minhas costas. Os dois abriram as portas, saindo rapidamente para a varanda.

— Onde você estava? – Dean me perguntou. – Procuramos você em todo lugar!

— Sentem-se – eu coloquei as pastas na mesa. – Precisamos conversar.