Wind Walker - O Mercenário Voador

10 L - Lembranças de infância - Falhas


Notas iniciais
Olá novamente, caro leitor!
Perdão pela demora, o natal demandou-me mais tempo que o previsto.
Os comentários são sempre bem-vindos.

Outra faísca de sofrimento acendeu-se em meu peito enquanto eu estacionava minha motocicleta de flutuação na área designada.

Desejei, mais uma vez, ter a possibilidade de permanecer deitado ao lado de minha linda garota sentindo seu cheiro sempre agradável, sua serena respiração, e seu gracioso coração a pulsar. Como ela estaria neste momento? Será que já havia acordado? Perguntei-me silenciosamente imaginando-a como vi pela última vez: Seu corpo inclinava-se em direção a um espaço vazio o qual, pouco tempo atrás, eu ocupava na cama; Suas mãos, com frequência, procuravam inconscientemente por meu corpo ao seu lado, sem sucesso, ao mesmo tempo em que seus cabelos se espalhavam de forma leve sobre o travesseiro que apoiava o sorridente e adormecido rosto.

Suspirei ao pensar que, assim que o teste chegasse ao fim, poderia desfrutar todo o tempo livre em sua presença. Mas, para que tal prova tenha um final, ela certamente precisa ter um começo, portanto, passei a me concentrar apenas nos assuntos que poderiam ser considerados importantes para a resolução desta mesma.

Livrei-me do negro-fosco capacete que desfavorecia minha visão periférica, colocando-o na parte traseira da moto no mesmo movimento que me conduzia para fora do veículo, acertando o frio asfalto do estacionamento com meus sapatos relativamente novos, o que me proporcionou dores em ambas as pernas que fariam muitos gemerem loucamente. Lembrei-me tarde demais daquele último e pior acidente que me custara os quatro ossos das pernas enquanto procurava no interior do automóvel a chave que usava para calibrar as minhas duas próteses.

Recordei daquele dia ensolarado de domingo que eu havia reservado exclusivamente para treinar a corrida de velocidade na fofa areia da praia, colocando cargas gradativamente mais pesadas apoiadas nos joelhos, eu tinha doze anos:

=/-/=

–Olá Alyss! – Exclamei ao notar a chegada de minha grande amiga – Pode me acompanhar nesta corrida?

–Oi Luke! – Respondeu ela, beijando-me na bochecha, como de costume – Tem certeza que vai colocar todo este peso? – Perguntou, com sua costumeira preocupação.

Direcionei um sorriso confiante àquela linda face enquanto falava:

–Não se preocupe comigo, tenho dois anos de costume, acho que estou pronto para isto.

–Tem certeza? – Perguntou ela

–Vou ficar bem, confia em mim?

–Confio, com certeza! – Respondeu ela.

Agradeci com um rápido olhar virando-me em seguida para o sol que se estendia no horizonte, contemplando sua glória ao nascer novamente. A areia que eu pisava estava seca e macia com um tom bege bem claro e uma pequena brisa soprava em meu rosto, condições perfeitas para iniciar mais um dia cansativo. Abaixei-me e ajustei a carga que eu iria usar (Apesar de não me lembrar do peso da carga, neste dia em especial, exagerei em seu uso) levantei-me novamente, determinado a começar.

Comecei a andar, sendo seguido por meu anjo que se encontrava livre de qualquer tipo de peso. Os cinquenta primeiros passos, apesar de dolorosos, foram relativamente fáceis; O real problema foi quando comecei a sentir uma dor incomum em minhas pernas, esta dor era diferente de qualquer dor física que eu já havia sentido, ela parecia explodir por dentro dos meus ossos fazendo-me gemer de uma forma não muito digna. Senti minhas pernas estalarem diversas vezes enquanto eu caía involuntariamente sobre meus próprios pés, com o triplo da dor inicial. Naquele momento eu soube: Havia esmagado os meus pares de tíbia e de fíbula com o peso excessivo. “Como pude falhar desta forma?” Pensei naquele momento, enquanto lutava contra um oponente invencível que me atacava novamente: O sofrimento.

Tudo estava ficando estranhamente turvo e contuso, mas eu não iria morrer. Não com a minha pequena amiga cuidando dedicadamente de mim. Meus olhos se fecharam e eu mergulhei num mar de escuridão sem fim onde as únicas palavras que eu ouvia vagamente eram: “Não me deixe, meu herói, não agora, não deste jeito”.

=/-/=

Parei de lembrar tal momento triste assim que achei a pequena chave com um buraco octogonal em sua ponta dentro de meu veículo. Calmamente levantei a bainha da minha calça até a altura das cochas, controlando a dor, desencapei um pequeno local da minha falsa perna destinado a reparos rápidos e ajustei as duas próteses mecânicas que simulavam com perfeição, em todos os aspectos, uma perna humana normal.

=/-/=

Abri os olhos objetivando reconhecer o local em que eu estava. Minha visão estranhamente turva dificultava o processo, mas, com a melhora da mesma pude notar que estava deitado na cama de meu quarto, a dor havia passado de forma parcial, e eu me sentia estranhamente bem. Meu pai estava dormindo numa cadeira em frente à cama e algo estranho e quente envolvia meu corpo. Olhei para trás com inevitável curiosidade e me deparei com uma cena um tanto surpreendente: Meu pequeno anjo me abraçava por trás, segurando-me firmemente pela cintura, com o rosto colado ao meu, respirando calmamente com uma face que transparecia, mesmo em sono, preocupação.

Arrastei-me cuidadosamente para a borda da cama, com a intenção de ficar de pé, mas a consequência de meu erro agora se tornara evidente: Eu não possuía mais nada abaixo dos joelhos além de curativos. “Eu falhei novamente” sussurrei com um tom triste que acordara Alyssia acidentalmente.

–Meu corajoso herói está bem? – Sussurrou ela em meu ouvido, segurando-me mais firmemente – Você me deixou preocupada – Continuou ela enquanto lágrimas de alívio nasciam em seu rosto e pingavam no meu.

Eu tentei lamentar minha perda, mas ela apertava fortemente meu tórax, impedindo de forma proposital a minha fala, preocupando-se apenas em transmitir o carinho guardado para mim nestes dias.

=/-/=

Depois daquele dia, fiquei dois meses sem poder sair da cama, apenas rascunhando as próteses que, um dia, viriam a ser estas que eu uso.

Levantei do asfalto frio, sacudi minhas roupas que, por sorte, não se sujaram, e caminhei em direção do meu destino: o grande teste.


Notas finais
Gostaria de pedir desculpas: Eu ainda não corrigi este capítulo, então, no caso de algum erro ser encontrado, peço perdão.
Espero que tenha lhe agradado!
Alguém está lendo? Ou estou escrevendo para as paredes?