Wills House
9 Capítulo 9 - O Ritual
Notas iniciais
Estão gostando da fic? pq tá acabando :3 ahusshau
Obrigada pelos reviews ♥ e muuuito obrigada a Ju Emy pela recomendação *abraça* kkk
Boa leitura~~
A parte de trás do hotel não era nada além de um matagal ignorado pelo avanço da cidade. Mas era uma cidade pequena afinal. A mata era densa e fechada, mas eles não iriam por ali. Seu objetivo era justamente o lado oposto da mata, a cidade e a Colina Benson.
O problema realmente se encontrava na parte da frente do hotel. Apesar de boa parte das pessoas se encontrarem no seu interior, ainda havia pelo menos dez pessoas do lado de fora, vagando pela rua. Uma ou outra chutava o carro da Audi ao passar por ele.
Aliás, o carro estava inutilizável. Toda a sua estrutura fora amassada. Os quatro pneus haviam sido furados e os vidros, quebrados. Tom rangia os dentes ao olhar para aquilo, mas procurou manter a calma. Era raiva que se lembrou de sentir enquanto transformado em lobisomem e aquilo era uma experiência que ele não gostaria de repetir. Não queria ter nada em comum com uma criatura daquelas.
Gustav não conseguia dar mais de dez passos sem vacilar e quase cair no chão. Estava se segurando para não gemer de dor e fazer com que os moradores os descobrissem. Demoraria bem mais do que normalmente para chegar até a trilha da colina, já que agora precisavam se esconder.
– Me deixem em algum lugar e vão. – Gustav sussurrou. – Vai ser mais fácil assim.
– Gustav, – Bill respondeu, calmamente. – queremos ter certeza de que quando aquela casa for queimada você vai ficar bem. Não importa quanto tempo leve. Pelo menos se ficar com a gente, vamos saber que você está bem.
A definição de bem, no momento, era respirando. Por que Gustav realmente não podia dizer que se sentia bem. Era como se uma bomba fosse explodir na sua cabeça e no resto do corpo o sangue era bombeado com tanta força que era possível senti-lo formigando enquanto atravessava seu corpo. Nem mesmo respirar era fácil. Parecia que mil agulhas haviam se instalado nos pulmões dele e se enfiavam com força no tecido cada vez que ele inspirava.
Não foi tão difícil se desviar dos moradores, já que a maioria deles já optava por se fechar em casa, longe de janelas ou portas. Mas ainda assim precisaram se esgueirar entre paredes e becos, para ter certeza de que não seriam vistos. A parte mais difícil foi atravessar a praça, por ser uma área aberta, mas por fim chegaram até a trilha.
– Não suporto mais subir a porra dessa colina. – Tom olhou para cima, angustiado. – Toda vez que a gente sobe acontece alguma merda.
Bill olhou compreensivamente para o irmão se lembrando de que a idéia de subir ali pela primeira vez havia sido dele e achou graça de que ele estivesse irritado. Mas se falasse isso em voz alta provavelmente levaria um soquinho do irmão, e aquilo costumava doer, então ele se segurou, rindo internamente apesar de tudo.
Basicamente tiveram que arrastar Gustav até o topo colina. Pela primeira vez desde que chegaram á cidade, não havia nuvens chuvosas no alto do céu e ainda era o meio da tarde.
Assim que alcançaram a clareira em que a casa se encontrava, sentiram que a atmosfera ali estava diferente. Avistaram logo uma criança caída no chão do gramado da casa e eles rapidamente se dirigiram para lá. Gustav não conseguia se mover tão depressa, mas tentou acompanhá-los, preocupado. Era provavelmente o garoto que Will havia levado na noite anterior.
Georg foi o único que voltou para pegar os galões de gasolina que antes haviam sido derrubados numa moita ali perto, quando eles estavam pendurados de cabeça pra baixo pelas raízes de uma árvore. Não havia tempo a perder. Enquanto os outros resgatavam a criança, ele derrubaria o líquido em volta da casa e logo tudo estaria terminado.
Foi isso o que ele se pôs a fazer imediatamente. Derramando o liquido em linha reta até a varanda da casa e jogando o restante na porta e na parede, rezando para que fosse suficiente para provocar um incêndio, ainda que a madeira da casa estivesse úmida devido às chuvas constantes.
Precisou parar o que estava fazendo quando Bill deu um grito abafado. Georg se virou para onde eles estavam e sentiu o ar se esvaindo de seus pulmões quando viu que no lugar da criança, agora havia uma criatura horrenda e desfigurada no chão. Era a mesma criança de antes, porém agora toda a vida havia se esvaecido do seu rosto. Estava deformado, ressecado. Seus dedos se assemelhavam á galhos secos, como se algo tivesse sugado tudo o que havia de líquido no seu interior, deixando-o parecido com uma uva passa, com os ossos salientes em várias partes do corpo. Era repugnante de se olhar.
Foi então que dali da varanda da casa Georg avistou um toco de árvore num ponto mais afastado da clareira. O toco deveria ter sido uma árvore muito velha, pois seu diâmetro ultrapassava um metro. E logo em cima do toco, amarrada por raízes de árvores que partiam do solo, havia uma garota loira, usando um vestido florido que lhe chegava até os joelhos. As pernas pendiam fora do toco, e os pés estavam enrolados em raízes que os mantinham presos ao chão. Parecia inconsciente, pois não se mexia. Georg deduziu que aquela deveria ser Amanda.
Imediatamente um riso irrompeu no ar. Um riso seco, maligno e que só poderia ter sido feito por uma pessoa: William.
Eles prenderam a respiração quando uma figura surgiu no ar, próximo do toco onde Amanda se encontrava amarrada. Lentamente, a imagem criou forma, tremendo no ar como uma miragem, até que ficou tão sólida quanto qualquer um que se encontrava ali.
Era Will. Mas não era o mesmo Will de antes. Parecia ser muito mais velho, deveria ter pelo menos quarenta anos. Usava uma calça preta e uma camisa branca, ambas sociais, e da calça os suspensórios subiam até os ombros. Parecia ter perdido mais cabelo e agora os indícios da calvície começavam a se manifestar, embora em apenas metade da cabeça de Will, já que do outro lado nunca ouve cabelo. Apenas as marcas que o fogo deixara em sua pele.
– Vocês são mesmo estúpidos se tiveram a coragem de voltar até aqui. Tiveram a chance de ir embora, mas decidiram me importunar outra vez. – Enquanto Will falava, Gustav caiu no chão, tossindo e cuspindo sangue e Bill se abaixou, tentando ajudar. – Ah, mas eu deixei um belo motivo para fazer com que vocês voltassem, não é mesmo?
Tom avançou em direção á Will, com os punhos fechados. Georg hesitou por um instante e decidiu segui-lo.
Não houve chance de ataque. As raízes da grama surgiram prendendo os pés deles, atrasando-os por tempo suficiente para que as raízes mais grossas, vindas das árvores da mata os alcançasse por debaixo da terra e pelo ar. Nem mesmo Bill foi poupado. Uma raiz incrivelmente forte agarrou o seu pescoço e deu a volta em torno da cabeça e o puxou para baixo. Ele ficou preso no chão, com a boca amarrada pela raiz, enquanto cada vez mais galhos se enrolavam em torno dele.
Georg e Tom lutavam para se soltar, mas havia plantas por todo aquele lugar. Ambos caíram de joelhos no chão, e mais raízes se enrolavam em torno deles, serpenteando e prendendo-os.
– Fiquem de joelhos perante a mim e assistam o que vocês me obrigaram a fazer. – Ele se virou olhando para Gustav. – Espero que você tenha aprendido sua lição. Não preciso usar artifícios para te prender, seu corpo está inteiramente sob o meu domínio.
Will andava de um lado para o outro, analisando os rostos dos garotos.
– Eu precisei sair daqui e buscar alguém para ser morto. Por culpa de vocês eu não tive energia suficiente para suprir a casa. – Will andava de um lado para o outro, analisando os rostos dos garotos. – Podem dizer o que quiserem de mim, mas eu só pego quem vem até aqui. Quem subiu até aqui para tentar me ferir. Mesmo que ultimamente esses idiotas sem escrúpulos dessa cidade estejam prendendo turistas ignorantes neste lugar e os incitando á subir até aqui. Estão vendo? São eles os assassinos! São eles os assassinos! Se tivessem parado de me perseguir, talvez agora eu não precisasse de tanta energia. – As palavras jorravam da boca dele, repletas de mágoa. – Quanto mais o tempo passa, mais perigosa essa magia se torna, por que vocês não percebem isso? Hã? Não sou eu!
Ele pausou, tentando se controlar e voltando a ter uma expressão gélida. Bill adoraria estar discutindo com Will, e Will sabia disso, por isso usou as raízes para amordaçá-lo, enquanto o resto dos garotos apenas assistia ao espetáculo, presos á grama.
– A vida do menino não foi suficiente e terei de fazer um ritual com a garota. – Ele distribuía velas pelo chão enquanto falava, levando consigo um livro grosso e de aparência antiga embaixo do braço. – Preciso das velas acesas, por isso espantei as nuvens de chuva, embora o fogo não me agrade. E isso tem de ser feito durante a lua cheia e usando a vida de alguém inocente e que não nutrisse raiva por mim ou pela casa. Algo raro nesta cidade, vocês devem ter percebido. Eu matei o noivo dela, sabem? – Ele dirigiu o olhar para o lugar em que Amanda estava, passando a língua nervosamente pelos lábios. – Cinco anos atrás, os moradores prenderam ela e o noivo na cidade, assim como fizeram com vocês, e ele subiu até aqui, trazendo consigo um desses aparelhos fotográficos, enquanto ela não se interessou pelo assunto e decidiu permanecer no hotel. Ela chorou, por muito tempo, e eu soube que o que eu fiz quebrou algo no interior dela para sempre e, para sempre ela estará machucada. Ainda assim, ela não nutriu nenhuma espécie de ódio por mim. Na verdade, ficou triste por mim quando descobriu o que aconteceu. Por mim. Sempre que mato alguém, tudo o que o resto das pessoas sente é raiva, e é dessa raiva que eu me nutro para continuar. Mas com ela foi diferente, tudo o que eu causei foi dor e eu, tendo causado toda a sua dor, sou obrigado a senti-la junto com ela.
Will se posicionou atrás do toco em que Amanda estava amarrada e abriu o livro em cima de uma mesa quadrada rodeada de velas, olhando-a brevemente com ternura. As velas na grama formavam um grande círculo em torno de Tom e Georg e se acenderam imediatamente ao abrir do livro.
– Vou matá-la e assim não irei mais sentir sua tristeza. E vocês serão os próximos. Mas irão assistir a morte dela, por que isso não aconteceria se tivessem ido embora quando deveriam.
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