Wills House
6 Capítulo 6 - O Lobisomem
Notas iniciais
Ele disse aquilo em um tom calmo e neutro. Era óbvio que não precisava dizer quem era.
Gustav esperava que William Wilson fosse um homem velho. Deveria estar velho ao menos. Se não fosse pela ausência de cicatrizes, poderia até mesmo dizer que o velho Ian era ele. Esperava que fosse um sujeito de aparência repugnante e que lhe despertasse ódio, afinal, era só o que alguém tão vingativo poderia despertar em alguém. Mas olhando aquelas cicatrizes se espalhando em torno do rosto de Will, Gustav sentiu uma pontada de pena crescendo no peito. E olhando aquele único olho verde, a sensação de pena se esvaeceu e tudo o que ele sentiu foi desprezo.
Era um olhar astuto. Aquele único olho revelava que William sabia exatamente o que vinha fazendo e não se arrependia de nada. Seria capaz de fazer muito pior, pois o brilho daquele olhar só revelava ódio. Era um ser tomado pelo ódio.
– Mas eu sei que eu não preciso me apresentar á vocês e sim o contrário. Vejo que voltaram a minha residência sem que fossem convidados. Esqueceram alguma coisa? – Will continuou sua fala, nitidamente sarcástica. – Não se preocupem. Não me interessa saber quem vocês são. Mas não irei recusar alimento que me foi tão bem oferecido.
Um uivo vindo do interior da casa pontuou sua fala.
– Quem você pensa que é para se achar no direito de fazer isso com essas pessoas? – Bill falou agressivamente, tentando em vão se livrar dos galhos que o prendiam pelos pés.
– E quem essas pessoas acham que são para me julgar pela minha aparência ou por minhas origens? – William gritou de volta com raiva.
– Não são mais as mesmas pessoas de 60 anos atrás! O que há de errado com você para continuar fazendo isso! – Bill respondera de volta sentindo o ódio crescendo dentro de si.
– Sei que não são as mesmas por que eu mesmo dei um jeito na maioria delas. Mas é o mesmo sangue que corre nessa população. O mesmo preconceito doentio de uma cidade de padrões rudimentares e ultrapassados e sim, eles irão pagar por isso. Irão pagar por esse meu corpo deformado. Se não criassem seus filhos sob preceitos tão rígidos, talvez ninguém tivesse tentando por fogo nessa casa. Talvez eu não tivesse sido julgado como uma aberração. – Ele parou, fazendo uma careta ao olhar para Bill. – E não importa o que eu faça, eles continuam com o mesmo pensamento.
– E assassinando as pessoas, você acha que vai mudar alguma coisa? – Gustav perguntou se recusando a acreditar no que ouvia. Ninguém em sã consciência acharia aquilo certo. Mas Will, é claro, não era uma pessoa sã. Acreditava realmente no que dizia.
– Não. – William riu rudemente. – Mas faz com que eu me sinta melhor. Faz com que eu seja onipresente nesta cidade. Olhe só para mim, pareço realmente ter mais de 70 anos? E não me julgue como se eu forçasse alguém a entrar na casa. Eles vêm até mim. Vocês vieram. Eu apenas uso a energia dos seus corpos para poder fazer tudo o que eu quero fazer. E querem saber? Eles mesmos que se matam. São consumidos pela raiva, pelo ódio, pela amargura e pelos próprios medos que guardam dentro de si antes que eu use toda a energia que possuem. Acham que sou um monstro? Já olharam dentro de si mesmos? Você, Bill Kaulitz. Guarda tanto rancor no fundo do peito que mal consegue segurá-los dentro de si. Sua inveja te transformou num vampiro. No vampiro que sempre quis ser desde criança. Eu só dei um pequeno empurrãozinho. Você tem medo que não te aceitem. Tem medo de ser julgado pelo próprio irmão...
– Cale a boca! – Bill gritou e Will parou, sorrindo maliciosamente.
–... E tem medo de ouvir a verdade. Por que não entra e descobre no que seu irmão se transformou? – Sorriu, gesticulando para a casa. – Ah deixe para lá, vai ficar aqui até eu consumi-lo e transformá-lo em pó. Então eu venho e busco outro dos seus amigos. Podem gritar e se debater. Não vai dar em nada por que mesmo que alguém naquela cidade te ouvir, não irão dar a mínima. São egoístas e só ligam para o próprio bem estar. Tudo bem, enquanto não for um membro da família deles. Ninguém quer ser morto. Sinceramente, todos, até os que não são da cidade e que tiveram um amigo ou membro da família presos aqui, deixaram-no para trás e foram aproveitar a própria vida. Me admira que vocês quatro tenham se empenhado tanto em salvar um ao outro. Vou apreciar o sofrimento de vocês enquanto cada um morre.
Gustav tentava não prestar atenção no que Will falava. Sua mente trabalhava a todo vapor pensando em um modo de se desprender dos galhos, mas quando tentou chutá-los percebeu que eram tão grossos e fortes que somente com a ajuda de um machado conseguiria se soltar dali.
Talvez pudesse dar um jeito então na força que os controlava. Seria Will?
Ou seria através daqueles estranhos símbolos que a força viria?
E se não houvesse símbolos apenas na casa, como também em outras coisas, como o diário? Gustav não imaginava que iria se encontrar cara a cara com Will, mas se ele possuía o diário, isso explicaria o súbito aparecimento dele ali e do ataque das árvores, já que antes nada disso havia ocorrido. Ora, se não fosse isso, Will teria aparecido também nas outras vezes em que eles vieram á casa.
O diário era algo importante e devia ser mantido em segurança.
Se não fosse o diário, Gustav jamais teria tido a idéia do fogo. Em todas as anotações era possível perceber o nítido pavor que William tinha ao fogo. Era quase uma aversão. Até mesmo do sol ele se escondia, por vezes. E se a casa e Will trabalhariam como um só, então ambos teriam a mesma fraqueza. Se colocasse fogo na casa, se livraria dos símbolos que mantinham os feitiços ativos. Mas para isso, deveria conseguir entrar sem ser barrado pela força invisível que os expulsou da outra vez. Novamente, talvez o fogo fosse ameaça suficiente para impedir a ação daquele tipo de proteção. Não seriam derrubados no gramado se trouxessem consigo uma tocha acesa e todo o lugar estivesse banhado em gasolina. Aquilo obviamente provocaria um incêndio e Gustav apostava que Will não ousaria se arriscar em um incêndio.
Então Gustav voltou sua atenção para o diário. E se todos aqueles símbolos não fossem apenas rabiscos de esboços? Poderia ser realmente algo importante para Will. Em todo seu ego elevado, ele não pensou em guardar o diário em algum lugar em que ninguém pudesse encontrá-lo. E se... E se colocasse fogo nele? O que aconteceria? O que Will faria se desse errado?
Iria rir. Apenas.
Observou a fervorosa discussão em que Will e Bill haviam se envolvido e retirou o diário do bolso interno do casaco e pegou o isqueiro de Bill que havia guardado no bolso da calça. Felizmente não caiu no chão.
Vamos, acenda! De cabeça para baixo, era difícil se concentrar para acender o fogo. O sangue formigava acumulando na cabeça. Mas ele conseguiu depois de algumas tentativas. Ao ver a chama reluzindo, Will ignorou a fala de Bill e encarou Gustav com os olhos arregalados.
– Você, seu porco nojento. O que pensa que está fazendo? Pare agora mesmo, ou eu juro que vai sofrer quando for a sua vez! Está me ouvindo? EI!
Gustav não prestou atenção. Encostou a chama na borda das páginas e o fogo começou a se espalhar.
Will rugiu em resposta esticando as mãos na direção de Gustav. Seu rosto estava completamente desfigurado pelo ódio.
O corpo de Will começou a pegar fogo junto com o diário. As chamas começaram pelos pés e subiam em direção ao rosto. Will olhou para baixo desesperado e encarou Gustav com o diário ainda em mãos. Aproximou-se de Gustav, visivelmente nervoso.
– Se acha que eu tenho apenas esta forma, se acha que vai vencer alguma coisa, saiba que está enganado. Eu vou destruir vocês, especialmente você. – Disse, agarrando Gustav pelos cabelos e puxando para baixo. Gustav gritou em resposta, e Will colocou a outra mão sob a testa do garoto. Imediatamente Gustav sentiu sua testa queimar. – Estou te dando um presente, para que você veja quão podre você também é por dentro. Acha que é esperto, não é? Sabe garoto, eu não poderia usá-lo nem mesmo para me dar energia. Você é fraco, covarde. Se ficasse preso na casa, provavelmente se transformaria em um rato, se escondendo nos cantos. O bebezinho tem medo de se impor, não é? Eu sei o que está dentro da sua cabeça!
Will se afastou ao terminar de falar. Embora pegasse fogo, seu corpo não emitia calor e as chamas não atingiam nada que não fosse o próprio corpo dele. Diferente das chamas do diário, que logo queimariam as mãos de Gustav se ele não se livrasse daquilo.
O aperto que os galhos causavam foi diminuindo conforme o corpo de Will se consumia em chamas. Gustav soltou o diário no chão. Will falava como se não se importasse com as chamas, mas o desespero com que olhou para o fogo estava estampado nitidamente em seu rosto.
Antes que o fogo o atingisse por completo, Will se virou para a casa e fez um gesto com as mãos, como se estivesse chamando algo que estivesse lá dentro. Um uivo ensurdecedor veio do interior da casa e logo em seguida a porta da frente despencou e bateu com um baque surdo no chão, levantando a poeira acumulada.
Will ria insanamente enquanto seu corpo se queimava e, logo quando as chamas chegaram ao rosto, ele desapareceu completamente.
Simplesmente sumira no ar, levando consigo as chamas e deixando para trás apenas o eco de suas risadas alucinadas e o diário carbonizado na grama.
Bill caiu primeiro e se espatifou no chão. Georg foi logo em seguida, caindo na diagonal por cima de Bill, formando um X. Gustav caiu desajeitadamente ao lado dos dois, por pouco não caiu em cima do diário, que ainda se queimava.
Antes que pudessem descobrir se nada havia se quebrado durante a queda, voltaram o rosto para a casa e a figura que se movia agora na direção deles.
Dessa vez era Tom. Sem camisa e descalço, caminhava como um bêbado através da grama mal cortada. Parecia zonzo e tinha o olhar vago. Não era preciso se aproximar para saber que seus olhos, normalmente castanho-amendoados, estavam incolores.
Então, a pouco menos de dez metros de distância garotos, Tom caiu de quatro no chão e gritou de dor. Bill se levantou imediatamente pensando em correr até lá, mas ainda estava tonto por ter ficado de cabeça para baixo e tropeçou nos próprios pés.
Ninguém pode fazer nada quando Tom começou a se contorcer de dor. Apenas observaram de olhos arregalados quando seu calcanhar e seus braços se alongaram; As unhas humanas se tornaram pontiagudas; O nariz se alongou no que parecia ser um focinho canino e as orelhas também cresceram, formando uma ponta triangular; Para completar, pêlos se espalharam por todo o corpo de Tom e os dentes se tornaram afiados o suficiente para arrancar o braço de um homem. Os gritos de dor cresceram até se transformarem em uivos quando a criatura finalmente se pôs de pé, rosnando como um animal.
Assim a transformação parou. Metade homem, metade lobo. Tom havia se tornado um lobisomem.
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