Wills House

5 Capítulo 5 - Presos entre galhos


Notas iniciais
Alô pra vc que chegou até este capítulo e ainda não desistiu de ler 8D se ainda não te assustei, talvez neste capítulo as coisas mudem. Não leia se estiver sozinha em casa no escuro muaahah brinks, tá de boa HUASHUASAU Espero que estejam gostando da história e pá let me know. Bjs e até depois >.

Farei parte da casa e a casa fará parte de mim. Só assim terei força para superar o fato de ser uma aberração.

As palavras lidas no diário ecoavam na mente de Gustav. Isso tem que dar certo, repetia para si mesmo.

Tudo o que ele sabia era que os símbolos ajudavam a manter o feitiço. Provavelmente estariam desenhados em algum lugar da casa e provavelmente seria o sótão. Eles não perceberam nada desenhado da outra vez que foram até lá por que estava escuro, e não é como se eles tivessem procurado por aquelas coisas desenhadas em algum canto do lugar...

E se quisessem acabar com tudo, teriam que achar William e se livrar dele, de forma a permitir que todos os moradores se libertassem daquela maldição. Possivelmente se salvassem Tom, eles iriam dar o fora daquele lugar antes mesmo que Gustav tivesse a chance de procurar por William e assim ajudar Amanda, como ele planejava.

– Então, Gus, o que estamos esperando? – Bill resmungava, andando em círculos. Havia acordado não tinha muito tempo, e assim que soube do que havia acontecido ao irmão, levantou de um salto da cama e se pôs a se arrumar para ir até a casa.

– Georg foi comprar o que a gente vai precisar para ir até lá Bill.

– Gustav, aqui chove praticamente o dia inteiro. Isso não vai dar certo.

Com esse pessimismo, não vai mesmo, Gustav pensou.

– Se tiver idéia melhor... – Falou, mas foi interrompido por Georg que abria a porta trazendo em cada braço um galão do líquido que eles iriam usar, se fosse preciso.

– Então estamos prontos? – Bill perguntou.

Gustav acenou com a cabeça. Pegou o diário e enfiou no bolso e os três garotos saíram do apartamento. Nenhum deles sabia o que estaria esperando por eles quando alcançassem o topo da colina, mas tinham a certeza de que fariam tudo o que fosse necessário para salvar Tom.

Eles desceram as escadas e passaram pela recepção. Ninguém comentou que o recepcionista, antes tão desligado, os encarou durante todo o percurso até a porta, de uma forma tão intimidadora que fez os três se olharem apreensivos.

Assim que Gustav pisou fora do hotel, sentiu um forte impacto nos ombros que o fez dar um passo para trás e recuar para ver o que havia ocasionado aquilo.

Ian estava parado em frente á ele, se desculpando e ajeitando seu terno branco.

– Ora, mas o que é isso aqui no chão?

Gustav arregalou os olhos ao ver que o diário havia caído do seu bolso e se apressou para apanhá-lo antes do velho. Ao voltar a olhar para Ian, viu que sua expressão havia mudado e se transformado numa máscara de raiva. Quando falou, o som gutural que os garotos ouviram era quase inumano.

– Isso não é seu. – Sibilou entre dentes.

– Peguei emprestado. – Gustav respondeu.

– Gustav, vamos logo. – Bill sussurrou, puxando o loiro pelo braço. O velho tremia enquanto os encarava.

Eles lhe deram as costas e correram. Apesar de já terem coberto uns bons metros, ainda puderam ouvir quando o velho gritou:

– A ponte já foi consertada! Se não saírem daqui agora, não irão sair nunca mais! Ouviram? NUNCA MAIS.

Continuaram correndo pelas ruas desertas até chegar á praça onde antes haviam encontrado o caminho para a colina Benson. Os três pararam para respirar, ofegantes.

O ar estava estranhamente parado, como se estivesse esperando que algo acontecesse. A calmaria antes da tempestade pensou Georg, que estava mais cansado pelo esforço de carregar os galões.

Mas assim que alcançaram a trilha, foram parados por um guarda saindo de um dos arbustos, como se estivesse á espreita dos três. Estava fardado com seu uniforme azul e usava uns óculos escuros, apesar de ser noite e já estar difícil de enxergar com a pouca iluminação que a praça oferecia.

– Aonde pensam que vão? – O guarda, que Gustav reconheceu como o mesmo que o havia atendido na delegacia de polícia, cruzou os braços e se estacionou na frente da trilha, impedindo que passassem.

– Subir. – Bill respondeu.

– Não podem. Aqui é propriedade privada.

– Esse morro é propriedade privada? Quem diabos você pens...

– Somos biólogos. – Gustav silenciou Bill com um gesto. Não havia razão para procurar briga com o guarda. Aquilo só os atrasaria. – Estamos procurando novas espécies de plantas.

– Não, não são. Eu conheço você, garoto. Esteve na delegacia mais cedo. Agora saiam daqui, antes que eu precise levá-los até a delegacia. – O homem gesticulou com as mãos para que eles saíssem.

Bill olhou para Georg que logo entendeu a mensagem. Em um segundo, Georg deixou os galões caírem no chão e avançou no guarda, acertando um soco de esquerda diretamente no rosto do homem. Georg sentiu quando o rosto do homem se contraiu e se deformou pela pancada. Passou uma mão sobre a outra, tentando aliviar a pontada de dor que o soco gerara nos dedos da mão esquerda.

Georg não é fraco. Um soco daqueles faria qualquer um recuar para trás ou pelo menos ter o equilíbrio abalado. O homem simplesmente virou o rosto quando recebeu a pancada que fez seus óculos voarem e caírem na grama úmida. Voltando a cabeça para os rapazes, seus olhos subitamente foram iluminados pela luz de um poste vindo da praça e os três sentiram o ar escapando dos pulmões assim que perceberam o que estava havendo.

Os olhos do homem estavam incolores e não emitiam qualquer tipo de brilho.

Assim como os de Bill quando havia se tornado um vampiro temporário.

O homem sorria de lado de uma forma ameaçadora e intimidadora. Estava sendo controlado pela casa, ou por Will, se é que havia diferença;

– Vocês vão dar meia volta e ir embora daqui. Esqueçam o garoto lá em cima. A casa. Precisa. De. Energia. – Ele disse pausadamente entre dentes. Cerrava os pulsos com força e encarou ameaçadoramente cada um deles nos olhos. – Por que não entendem isso?

Antes que o homem pudesse fazer qualquer coisa para impedi-los, Georg alcançou um galão caído na terra e agilmente desenroscou sua tampa e atirou o líquido no corpo do sujeito, aproveitando-se de um momento de distração durante sua fala. A gasolina se esparramou no peito e descia para as calças quando Bill percebeu o que deveria fazer naquele exato instante.

Retirando o isqueiro que sempre trazia no bolso da calça, Bill acendeu-o e arremessou no homem. Ao entrar em contato com o líquido inflamável, as chamas surgiram, lambendo cada centímetro do corpo do homem e crescendo em uma velocidade assustadora. Em questão de segundos, todo o corpo dele havia se convertido em chamas.

– Vamos. – Bill chamou em meio aos gritos do guarda, que caíra no chão se contorcendo em espasmos de dor.

Gustav hesitou por um momento, observando o desenrolar da cena em câmera lenta. Bom, agora tinham metade de um galão a menos para ajudar com o incêndio que ele planejara causar na Will’s House. Desperdiçada em cima de um ser humano que ainda está vivo e se contorcendo ao meu lado. Por Deus, o que estamos fazendo aqui? Pensou, pegando o isqueiro do chão e correndo para se juntar aos amigos que já haviam adentrado na trilha.

Alguma coisa parecia diferente na trilha. A densa névoa cobria o chão, quase opaca, impedindo que pudessem enxergar qualquer obstáculo ou pedra solta que pudesse haver no caminho. As árvores pareciam se fechar em torno deles, de forma a impedir que continuassem seu caminho.

Deve ser só impressão. Um homem, vivo ou morto, não pode controlar toda a natureza. Não pode...

Gustav olhou em volta, assustado ao ouvir o uivo de alguma espécie de lobo.

– Não tem lobos nessa região. – Bill afirmou. – Eu li isso num artigo uma vez.

– Diz isso pros lobos. – Georg respondeu olhando em volta com um olhar vago.

– Continuem andando. Depressa. – Gustav alertou. Alguma coisa o estava perturbando. Podia jurar que estavam sendo observados. Podia jurar que as árvores balançavam no ritmo em que eles caminhavam e podia jurar que o barulho do vento nas folhas assemelhava-se com o sussurro de vozes.

Já estavam quase alcançando o topo quando Gustav escorregou no cascalho e oscilou no ar.

– Opa, te peguei. – Georg falou segurando-o pelo braço antes que caísse.

– Alguma coisa puxou meu pé. – Falou arfando e se virou para cima para poder olhar para Georg. Além do rosto preocupado do baixista, olhou para as copas das árvores que no escuro pareciam acinzentadas. Tinha a ligeira impressão de que elas haviam se contorcido e se inclinavam sobre ele, como se estivessem curiosas com o que havia acontecido. Como motoristas que passam numa rua onde houve um acidente.

E subitamente a compreensão o atingiu como um soco no rosto. E o impacto fez seu coração disparar e seus músculos se contraírem.

– CORRAM. – Disse, se livrando do braço de apoio que Georg oferecera e empurrando-o para frente. – AS ÁRVORES! ESTÃO VIVAS!

Era isso. Ele não havia tropeçado em um galho. A coisa simplesmente se enroscou em seu tornozelo e o fez cair. Ele sentiu quando a planta deslizou e se enrolou em volta do seu pé e o puxou. Se não estivesse tão atordoado pelo momento, teria pensando em não gritar. Em não anunciar o que havia descoberto. Gustav só queria dar o fora dali antes que algo pior do que um puxão no pé acontecesse. Bill o olhou assustado, sem compreender o que estava acontecendo, mas os três se puseram a correr antes de perder tempo com qualquer tipo de lógica.

O barulho das folhas aumentava, apesar de não haver nenhum tipo de vento para fazer com que se movimentassem. Era como ouvir o murmurinho crescente de uma multidão curiosa. Eles corriam o mais rápido que podiam, se desviando de dedos, ou galhos, que se esticavam em volta dos seus pés procurando derrubá-los. E assim que avistaram a casa, por pior situação que os esperasse lá dentro, se sentiram aliviados.

Mas o alívio não durou. Conforme subiam a colina, os galhos em seus pés engrossavam e ficavam mais fortes ao ponto de não ser possível arrebentá-los. Uma sequóia gigante delimitava o começo da clareira da casa com as árvores da mata e essa sequóia lançou suas raízes em direção aos rapazes, serpenteando entre as suas pernas com os galhos mais finos até que os três não conseguiram mais correr e se viram obrigados a parar para tentar se livrar dos galhos.

As raízes não deram chance para que Georg novamente tentasse atear fogo em alguma coisa. Inesperadamente os galhos se levantaram e puxaram os pés dos garotos até que eles se viram pendurados de cabeça para baixo, encarando a Will’s House. Os galões de gasolina escaparam das mãos de Georg e caíram na grama fofa, no meio de uma moita que crescera na base da árvore.

– Gustav, espero que tenha algum plano reservado para um incidente como esse. – Bill tateou com a mão no ar procurando cutucar o loiro, que estava pendurado logo ao seu lado.

Gustav fez uma careta, permanecendo calado. Os óculos estavam escorregando do seu rosto. As coisas não poderiam piorar.

Um raio cortou o céu e a luz posterior iluminou a velha casa, revelando uma silhueta humana parada nos degraus de entrada da casa. O luar iluminou a campina e o homem que caminhou na direção dos três.

De uma coisa tinham certeza. Aquele não era Tom. Nem um velho conhecido de branco.

O homem se aproximou até alcançá-los e parou de frente á eles. Teria pouco menos de 30 anos e usava um casaco de lã preta e calças de mesma cor. Seu rosto estava á altura do rosto dos garotos pendurados.

E metade daquele rosto estava coberta de cicatrizes. Metade daquele rosto não tinha cabelo, exceto por ralos fios que saltavam para fora do crânio como uma planta que nasce entre pedras. Um dos olhos era cinza, opaco, sem brilho. Enquanto o outro olho, que deveria ser verde, analisava cada um dos rostos á sua frente, e via muito mais do que simples características físicas.

Sua voz cortou o silêncio que pairava desde que eles haviam se embrenhado na trilha. Era seca, áspera e nem um pouco convidativa. Vinha carregada de dor e mágoa.

– Olá. Meu nome é William.