Will you remember me?
2 What is happening to me?
Notas iniciais
Tudo, tudo naquele momento pareceu para mim se tornar mais nítido, mais vivo o vento tocando minha face, quase como que em uma caricia a fina chuva que começava a cair, umedecendo meus cabelos ruivos, o contato entre meu corpo e o asfalto frio e principalmente os gritos terríveis vindos de Jane, que naquele momento era amparada por Pepper que chorava discretamente e sussurrava para a amiga, palavras de conforto, de esperança, enquanto Darcy tinha em suas mãos um telefone e embora bem nervosa tentava em vão clicar os números no aparelho.
A dor alucinante e terrível que pensei que sentiria, principalmente pelo fato de que meu corpo havia sido lançado alguns centímetros à frente e minha cabeça ter se chocado com tamanha forca contra o chão quase não eram percebidos por mim, era quase como que o que ocorria ao meu redor fosse de maior relevância, pude perceber uma roda de pessoas logo se formar enquanto alguns diziam palavras do tipo “ É a filha do xerife” ou “Ele a matou?”. O motorista se aproximou lentamente de mim e tocou meu pescoço, provavelmente checando meu pulso.
–Por favor! – Jane gritava desesperada aproximando-se de mim e debruçando seu corpo me abraçando cuidadosamente, sustentando minha cabeça em seu colo. – Ela precisa de ajuda... Por favor. – agora ela praticamente sussurrava, deixando as lágrimas rolarem por suas bochechas.
–Está tão fraco... – o motorista falou pela voz ele parecia ser um homem de certa idade. – Acho que...
–Não... Não ouse dizer isso. – Jane gritou para o homem, eu queria abrir meus olhos e dizer para todos que estava tudo bem, mas isso parecia ser de certa forma impossível.
–Mas eu não sinto... – o homem falou, agora pude perceber tristeza e culpa em sua voz, embargada pelo choro. – Eu... Eu...
–Não... Já disse para ficar quieto. – Você vai ficar bem, vai ficar bem Natasha. – ela falava para mim, aproximando-se e depositando um beijo em minha testa.
Darcy tocou o ombro da amiga e disse:
–A ambulância está a caminho. – falou chorando.
Senti Jane me abraçar com mais forca, ouvindo seus soluços horríveis.
Aos poucos tentei abrir os olhos, tentar ao menos provar aos outros que eu estava viva afinal, que eu estava bem. Assim que o fiz senti a claridade invadi-los de imediato, levei a mão ao rosto, tentando protegê-los e em seguida ao local em que minha cabeça havia se chocado ao chão, mas não senti nada, não havia nada ali, ainda atordoada tentei-me por de pé, apoiando-me na velha picape usada para me atropelar, sustentando todo meu corpo que lutava para permanecer de pé, comecei a dar passos curtos, ainda apoiada na caminhonete, agora sendo capaz de fitar todos. Muitas pessoas choravam alguns velhos conhecidos da família, Darcy conservava seu celular e agora pude perceber que ela falava agoniada, provavelmente pedindo ajuda, como sempre usava uma de suas jaquetas e cachecóis coloridos sempre bem compridos, além dos nada discretos óculos que chamavam ainda mais atenção para suas obres verdes, que agora estavam vermelhas devido ao choro. Pepper estava parada perto da amiga, com seus cabelos ruivos, não tão chamativos quanto o meu presos em um rabo de cavalo, seus olhos também estavam marejados, todos choravam, mas eu não conseguia entender, eu estava bem, eu estava viva.
–Darcy tudo bem, não preciso de ajuda – falei cansada levando minha mão ao telefone, tentando impedi-la de continuar a ligação, porém assim que o fiz, senti minha mão atravessar o objeto, assim como a Darcy, o que me fez dar praticamente um salto para trás. –Mas o que? – falei levando a mão a cabeça, praticamente puxando meus cabelos. – Darcy o que você fez? – falei atordoada, agora com lágrimas presas aos olhos. – Pepper? – chamei-a, mas ela nem ao menos pareceu perceber meu ato, o que apenas aumentou minha agonia. – Por que estão chorando? – eu agora gritava, colocando para fora todo o medo que sentia, mas isso não parecia surtir efeito em nenhum dos presentes, era como se eu nem ao menos existisse, como seu fosse invisível. – Jane? – falei virando para minha amiga, ela ainda se encontrava no chão, chorando copiosamente, abraçada a algo, algo não, abraçada a mim, pude perceber ela afagar meus cabelos ruivos, meu corpo estava coberto por hematomas, o impacto havia sido bem forte, além do sangue, era muito sangue, não os culpava por pensarem que eu estava morta.
–Jane... Não... – falei quase que em um sussurro. – eu estou bem, estou viva, não consegue me ver? – tentei tocar seu ombro, mas assim como das outra vez, meu toque não foi sentido e atravessou a mesma, levei minha mão à cabeça desesperada, o que estava acontecendo? Eu morri?
Senti as lágrimas quentes tocarem minha face e rolarem livremente por minhas bochechas vermelhas, isso não podia estar acontecendo, não, não, eu queria gritar, implorar para que alguém me notasse, sentisse que de certa forma eu estava ali, eu estava bem. Mas não, ninguém pareceu notar a minha “presença”. Jane continuava a apertar meu corpo, frio em seus braços, enquanto Darcy ainda murmurava palavras agoniadas ao telefone e Pepper chorava, lutando para se manter de pé, como se ela estivesse cansada demais, como se a qualquer momento ela fosse desabar. As outras pessoas com lágrimas aos olhos continuavam de pé, sentindo pena de minhas amigas, enquanto o motorista sustentava seu peso na caminhonete. Ele era bem mais idoso do que pensava, não o conhecia, provavelmente um viajante, tinha cabelos grisalhos e um denso bigode, usava camisas xadrez azuis, que agora ele apertava fortemente, temendo ter tirado a minha vida, e em suas mãos um chapéu vermelho, que se encontrava tão amassado quanto suas roupas.
–Por quê? – eu gritei perto dele, meu rosto a centímetros do dele, substituindo minhas lágrimas por minha comum carranca. –Por que fez isso comigo, por que não me olha, por que não me ouve, por que ninguém me percebe? – eu gritava atordoada, tentando socá-lo, porém sentindo minhas mãos atravessa-lo como se eu socasse o ar.
Eu estava atordoada demais, triste demais, por mais que gritasse ninguém nem ao menos me via, abracei-me e me permitir cair ao chão próximo ao meu corpo, chorando, praticamente me despedindo.
Reuni forcas e corri, passando por entre os livros que antes eu carregava e agora estavam jogados ao chão, espalhados, deixando algumas folhas soltas voarem. Pisava fortemente, quase como se tentasse me certificar de que eu realmente estava ali, embora ninguém me notasse, nem mesmo algumas pessoas que agora corriam se juntado as demais, vendo o que havia acontecido, mas eu não queria ver, eu não queria ter que ouvir as pessoas dizerem que eu havia morrido, não era justo, eu estava ali, apenas corri, corri ainda mais rápido, me afastando de todos os gritos e soluços, abraçando meu corpo, tentando conseguir qualquer conforto, deixando que o vento batesse em minha face e bagunçasse meus cabelos, eu estava viva, eu sabia disso.
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