Wild Passion
23 Irmãos?
Notas iniciais

Pov Escritora
Quando Gael acordou de madrugada, numa das únicas salas particulares do Hospital Regional do Rio de Janeiro, um suspiro de alivio foi solto em uníssono pelos familiares, que esperaram nervosos e apreensivos seu retorno a consciência durante quase toda a noite.
– MEU AMOR!– Dandara foi a primeira a dar um grito, e se jogar na cama por cima do namorado.
– Ai, ai, ai, ai.– Gael queixou-se de dor, mas já estava com o sorriso estampado quando sentiu a mulher atracada, o beijando.
– Você ta machucando o MEU paizinho!
– Desculpa.– a cantora escutou a reclamação de Bianca, e saiu da cama, corando com o que a felicidade de tê-lo de volta levou-a a fazer.
– Mais um segundo, e quem seria machucada é a minha mãe.– João defendeu, levando em troca uma revirada de olhos tediosa da quase atriz.
– Nunca machucaria sua mãe, pirralho adotivo.
– Nãaaaaaao?? Então o mestre ta esquecido do quanto ela gritou, aquele dia que fomos lá no hotel de Búzios e vocês se trancaram no quarto por quase duas horas e...
– JOÃO!– Dandara o impediu de terminar o pensamento, morta de vergonha.
– Se minha analista vivesse metade do que eu vivo, já teria ficado DOIDA.– falou por fim, sentando-se numa das cadeiras dispostas no quarto, tirando o celular do bolso.
– Melhor você não estressar meu pai ein moleque, não depois do que o médico disse! NADA DE PASSAR RAIVA!
– O que foi que eu tive? E por que esse negócio ridículo no meu pescoço? – Gael perguntou sobre o assunto a primeira vez desde que acordou. Lembrava-se de ter sentido uma forte dor no peito, seguida da imagem de sua filha mais nova como num flashback, e depois... de mais nada.
– Isso é uma atadura, decidiram colocar pra você não mexer muito o pescoço que machucou na queda.
– Da onde eu cai?– indagou, fazendo careta e sentindo a cabeça latejar.
– Da cadeira.– João respondeu sarcástico, fazendo boca de riso.
– OLHA AQUI SEU...
– Mas é verdade Gael!– Dandara o repeliu, antes que o mestre se levanta-se do repouso e desse dois tapas estalados em João.
– E o que diabos eu tive?
Essa pergunta, ninguém quis responder.
Ficaram os três se olhando, um esperando que o outro começasse a contar, mas ninguém queria ser o portador da má noticia, mesmo que ela fosse necessária para que Gael mudasse os próprios hábitos e tivesse chances de uma vida sem problemas, como qualquer pessoa.
– VOCÊS VÃO FALAR OU EU VOU PRECISAR GRITAR E CHAMAR A ENFERMEIRA?
– Eu falo!– João se prontificou, cansado da confusão.
– Então diga logo.
– Como é que eu posso explicar...
– AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA!– Gael gritou, estressado com a enrolação de todos, se sentindo impotente e louco pra sair daquela cama dura.
– FALA LOGO JOÃO! ELE NÃO PODE PASSAR RAIVA!
– Ok, vou ser direto.
Se Gael pudesse suspender o pescoço pra escutar melhor, ele o faria, mas não conseguia de forma alguma.
– Teu coração queria escapulir pela guela.– o nerd falou rapidinho.
– An?
– Pai... O senhor teve um inicio de infarto.– Bianca tentou explicar, devagar e calmamente, mas seu tom de voz não obteve resultados.
– O QUÊ? EU INFARTEI?????????????????
– Sim Gael. E isso não é normal pra homens que praticam esportes como você, o médico acha que andou comendo muitas coisas gordurosas nos últimos tempos e...
– QUE MANÉ COISA GORDUROSA, DANDARA?!– ele gritou, fazendo todos quererem tampar os ouvidos.
– EU TO PASSANDO É RAIVA MESMO! OLHA O QUE ACONTECEU COM A KARINA! EU PERDI A MINHA FILHINHA! EU SOU UM PÉSSIMO PAI, UM PÉSSIMO EXEMPLO...
– Pai!
Bianca correu desesperada, e se ajoelhou no chão, perto da cama, segurando a mão do homem que tremia, e que mais do que tudo não poderia passar por aquilo novamente.
Ela só não esperava que gritos, vindos do quarto da frente, chamariam sua atenção, fazendo-a perder toda a linha de raciocínio que usaria pra tranquilizar o mestre desamparado.
– Mas que merda é essa?
João perguntou, desviando a atenção do telefone, e encontrando o olhar de Bianca, que arregalou bem as bolotas quando percebeu que a gritaria vinha de nada mais, nada menos que: da boca da sua irmã caçula. Com certeza, aquela era a voz de Karina.
– Shhhhhhhhhhhhhhhhhhhh!– repreendeu João, antes que o pai pudesse perceber. Aquele não era o momento certo pra eles se encontrarem, ainda mais... no HOSPITAL? Pra Karina estar ali, algo sério devia ter acontecido, e Gael não poderia nem sonhar com isso.
– Por que ta implicando com o João agora?
– Nada pai.
Mais um grito saiu do quarto da frente, só que dessa vez de Pedro, e João foi o primeiro a reconhecer. Ele não esqueceria tão cedo do homem que quase o matou enforcado.
– PUTA QUE PARIU!
– CALA BOCA JOÃO!
– POR QUE VOCÊS DOIS ESTÃO BRIGANDO AGORA?– Dandara estourou o pavio, ela estava muito avulsa e preocupada com o namorado pra dar atenção aos gritos.
– Porque... PORQUE PRECISAMOS...– outra frase gritada de Karina interrompeu Bianca, e o próprio Gael percebeu algo estranho, tentando esticar o pescoço engessado, sem sucesso.
– Você ta ouvindo essa gritaria??
– AAA PAI! É SÓ UM PACIENTE QUE CHEGOU SENTINDO MUITAAAAAAAAAAAA DOR!
– Ta falando alto porque menina? To engessado, mas não to surdo.
– Desculpa, eu estava dizendo que eu e o João precisamos ir no banheiro. URGENTE. Não é João?– Bianca disse firme, olhando cúmplice para que João pudesse entender, porém o máximo que ele conseguiu escutar foi o: “ precisamos ir no banheiro”.
– PRECISAMOS?– perguntou, assustado.
– Sim, João. A gente precisa.– A atriz deu uma piscadela achando que ele estivesse sacando o plano, e o coração do garoto quase teve uma parada, igual ao do padrasto.
– Ai meu bendito Goku... precisamos MUITO ir nesse banheiro.
Um segundo foi o bastante para João já estar carregando a irmã adotiva pelo braço, em direção ao banheiro do hospital, e outro segundo também foi a única coisa que bastou, para ela o interromper, parando na frente da porta fechada do quarto de onde vinham os gritos.
– Você ouviu aquilo???
– Sim, era o Pedro. Mas o que eu tenho a ver? VAMOS NO BANHEIRO!– ele arrastou-a só mais alguns centímetros antes de ser novamente parado.
– NÃO JOÃO! Você não conhece a voz da Karina, mas eu não tenho dúvidas, é ela... e você mesmo escutou a do Pedro. Só podem ser eles atrás dessa porta.– Bi disse apontando para o local, que agora estava silencioso.
– Tem certeza que quer entrar aí? Pode ter acontecido alguma coisa com ela...– o menino tratou de avisar. De forma alguma gostaria de ver o amor não correspondido da sua vida sofrendo.
– Sou forte.
Ele assentiu, e silenciosamente pegou na mão de Bianca, tomando as rédeas e abrindo a porta.
O que se viu ali dentro, não foi apenas um baque para a jovem, mas aos dois.
O cheiro do lugar era horrível. Uma mistura extremamente adocicada de sangue e suor, dos aproximadamente 30 pacientes amontoados na pequena salinha do hospital reservada ao público. Bianca se manteve em pé graças a pegada forte e firme da mão de João na sua, pois, a real vontade da garota quando viu a perna escorrendo salmoura e pus de um homem rodeado de moscas, era sair dali correndo.
– Qual delas é sua irmã?
– Eu... Eu não consigo olhar pra isso.– Bianca se rendeu, escondendo o rosto no peito dele e sendo acalentada logo em seguida.
– Ok, espera que resolvo isso.
João ficou nas pontas dos pés e com a visão periférica da sala, logo achou Pedro, sentado no canto, com um olhar completamente indecifrável.
– ACHEI!
Eles rumaram rapidamente para o que só poderia ser o leito de Karina, mantendo uma distancia segura de um homem forte e musculoso que estava em pé perto do médico e arreganhava os dentes de alegria pra todos os moribundos da sala, como um louco.
– KARINA!
– Bi...
A loira olhou perdida e atarantada para a irmã, que nem ousou se aproximar, vendo o seu estado.
– O que foi que aconteceu com você?– Bianca perguntou, sentindo o coração apertar, e começando a ver as coisas turvas por conta das lágrimas.
– Bi...
Karina só conseguia dizer isso, sem nem mesmo olhar para Bianca. Seu olhar tinha se voltado para Pedro todo desengonçado no chão, e a situação inteira era bastante confusa para os dois invasores do outro quarto.
– Eu... eu... to grávida.
– MEU DEUS!– Bianca levou as mãos à boca e sua preocupação se transformou puramente em alegria. ELA SERIA TIA!
– VOCÊ VAI SER MAMÃE!! MAMÃE MESMO???
– Sim, ela vai ser.– Pedro disse áspero, pela primeira vez se pronunciando na conversa.
– Bianca, a gente precisa voltar, seu pai vai querer vir atrás e...
– MEU PAI TA AQUI?– Karina perguntou, interrompendo João, nervosa.
– Ta sim Ka... ele teve só um probleminha, mas não pode passar estresse por enquanto, então acho melhor não contar nada pra seu Gael agora.
– Tudo bem. E quem é esse? Seu namorado?– indagou cansada, referindo-se a João que inflou-se de orgulho após as conclusões de Karina.
– Nosso irmão.
– AN?
– Longa história... nosso pai ta namorando minha professora de canto, daí esse encosto...
– BIANCA! A GENTE PRECISA IR!
A insistência de João foi a única coisa que obrigou as irmãs a se separarem naquele momento tão especial, que tinham certeza: demoraria muito a ser repetido. O sonho das duas sempre foi ter um sobrinho, e parecia que o de Bianca havia se realizado primeiro.
– Você não deveria ter me tirado de lá daquele JEITO!– Bianca reclamou, assim que foi jogada do lado de fora por João.
– Ah claro que não... ENTÃO EXPLICA PRO SEU PAI QUE A FILHINHA DELE TA GRÁVIDA DE UM EX-G-O-G-O-BOY!
– CALA A BOCA!
A garota saiu batendo os pés, furiosa, de volta pro quarto limpo e espaçoso do pai. Tão diferente de onde a irmã estava.
– Vocês demoraram.– Gael comentou, com um sorrisinho estranho no rosto.
– Nada demais.– João respondeu.
– Por acaso estavam falando com a Karina?
Nesse momento, o sangue fugiu do rosto dos mentirosos, deixando-os com a boca amarela de medo. Como explicariam uma coisa daquelas à Gael sem que ele morresse?
– Ficou doido, pai?– Bi tentou disfarçar.
– MESMO DEPOIS DE TANTOS MESES, BIANCA, LEMBRO DAQUELA VOZ!
– Não tinha nenhuma loira peituda aonde a gente foi não...– João falou medroso, coçando a cabeça e só piorando a situação.
E o tempo que ele levou para disfarçar, foi o que Bianca precisou para pensar no plano momentâneo mais louco da sua vida.
Respirando fundo, a menina tomou coragem. Pulou pra perto do garoto miúdo e passou rapidamente a mão até seu cabelo castanho, colando seus lábios violentamente nos dele, num beijo que consumiu tudo, principalmente suas línguas.
No primeiro momento João ficou paralisado, tentando acreditar que aquilo era verdade, e quando sentiu a língua de Bianca empurrar seus dentes pedindo passagem, ele teve certeza, ERA REAL, NÃO ERA FANFIC! Apertou bem a bunda dela se aproveitando, e com vontade, começou a coordenar o beijo enquanto a sentia se derreter nos seus braços, e ser tomada pela volúpia e vontade que ele transmitia com a boca.
Já Bianca, que pensava não estar brincando fogo, se queimou.
Sem pensar duas vezes, agarrou o garoto que a infernizava dia e noite com piadinhas sarcásticas e bobas. Pensando somente na irmã, nem ousou imaginar que teria como consequência futura: ter adorado o beijo, e querer bis quando ele terminou.
– Então pai... eu disse que fomos ao banheiro.– falou, arfando pelo transtorno de sentimentos e o esforço na respiração, enquanto olhava pra um Gael e uma Dandara completamente chocados e paralisados, com as bocas escancaradas.
– E não se fala mais nisso.
Bianca aquela noite tinha ganhado um sobrinho e uma confusão sentimental (de quebra), mas, pelo menos, não havia ganho um pai cheio de flores dentro do caixão.
Gael estava focado demais na cena que os filhos fizeram, para questionar o grito de mais cedo, da filha grávida.
Pov Pedro
40 minutos antes, corredor de espera do Hospital Regional.
A preocupação tomava conta de cada parte do meu ser.
Karina já estava naquela sala fazia 2 horas, e nenhuma noticia de sua atual situação, NADA, nem sinal do médico que entrou correndo com ela na maca do Samu.
Como se pra piorar, ter que ficar sentado todo esse tempo numa cadeira do lado do homem que provavelmente foi o causador do mal estar dela, o idiota resolveu que era hora de puxar assunto.
– Acha que Karina ta bem?– Alan perguntou, parecendo tão preocupado quanto eu, mas não cairia novamente no seu teatrinho nem na sua falsidade. Já tinha aprendido minha lição do pior jeito.
– Se dependesse de você, com certeza não.– falei, sem encará-lo, passando a mão pelo meu cabelo e respirando profundamente.
Não tinha nenhum pingo de saco pra manter uma conversa civilizada com Alan.
– E se dependesse de você, Pedro? Estaria? Porque que eu me lembre, não fui eu que abandonei Karina.
Aquela frase pronunciada tão pausadamente e risonha pelo meu ex-meu melhor amigo, me fez estourar tão rápido quanto gasolina entrando em contato com fogo. Joguei a cadeira longe, provocando um baque alto, sem nem me importar com a atenção que recebia dos outros parentes aguardando por noticias, e enfermeiras trabalhando.
– OLHA, SEU FILHO DUMA PUTA! VOCE ME PROMETEU A LIBERDADE DELA, POR ISSO EU FUI EMBORA!! E O QUE KARINA GANHOU? EIN? UM ESTUPRO, ALAN! VOCE TENTOU ESTUPRAR A MULHER QUE EU AMO.
Gritei, enquanto algumas das enfermeiras davam gritinhos, como fariam em casa assistindo uma novela qualquer.
– ESTUPRO? HAHAAHAHAH PEDRO! Me poupe! Ela queria transar comigo, tanto quanto eu a queria, e foi por muito pouco que não comi Karina em cima daquela mesa, de novo...
Não esperei que ele ousasse denegrir ainda mais a imagem de Karina, falando aquelas coisas ridículas como se eu fosse o mesmo otário de antes, como se eu não tivesse visto com os meus próprios olhos ela gritar por ajuda, chorar de medo.
Deixei todas as imagens que vi naquele vídeo voltarem na lembrança com força total. Deixei o sangue subir. Me permiti sentir novamente todo o ódio que tinha por Alan, e fechei o punho, depositando com força e brutalidade um murro bem no meio do seu nariz.
– AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAI!!!!– Alan gritou recebendo o impacto, e caindo no chão.
– NUNCA MAIS FALE COISAS DESSE TIPO! OUVIU BEM? E NEM OUSE CHEGAR PERTO DELA, NEM OUSE.
– Você não aguenta ouvir a verdade Pedro, MAS EU NUNCA VOU ME CANSAR DIZER: KARINA ME AMA!
Ainda tremendo de raiva, dei um forte chute em Alan, que gemeu sem saber se segurava o pênis ou o nariz sangrando.
– Você é tão sujo e podre quanto o seu pai. Sinceramente, acho que mereceu tudo o que passou durante a infância.– falei acidamente sem pensar, e logo me arrependi quando vi os olhos dele se encherem de lágrimas e decepção.
Eu não deveria me sentir culpado, ele era o culpado, o ocupado por estragar tudo, inclusive nossa amizade, mas mesmo assim, acabei me sentindo...
– Desculpa.– estendi a mão, e ele aceitou, sendo puxado pra ficar em pé logo em seguida.
– PARENTEEEEEEEEEEEEES DE KARINA DUARTE??? PARENTES DE KARINA DUARTE??
– AQUI!– gritei pro médico que procurava apressado alguém que conhecesse Karina, e ele veio correndo em nossa direção, assim que me viu com o braço estendido.
– Ótimo, desculpem pela demora, mas são muitos pacientes lá dentro, os exames já foram feitos e estão em análise, daqui a pouquinho saem.
Olhei pro crachá do médico, e estava escrito “Eduardo”, provavelmente seu nome, então logo perguntei ansioso sobre as informações que tanto esperei.
– Eduardo, você já sabe o que ela tem? É alguma virose? Ela vomitou muito, deve estar desidratada. Deram soro?– joguei todas as perguntas de uma vez, sem nem parar pra respirar.
– Calma rapaz! O que você é da garota?
– Noivo.– falei, orgulhoso.
– Hmmmm... então já sabemos quem é o causador, quer dizer, ainda tenho dúvidas...– o médico começou a falar para si mesmo coisas que não entendi.
– Ele quis dizer: EX-NAMORADO.– Alan se pronunciou, já sentado estancando o sangue, e seu comentário foi mais desnecessário do que Karina ter vomitado na minha blusa nova.
– Cala a boca ou te capo, coisa que aliás... estou sonhando MUITO em fazer ultimamente.
– UEPAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA! Já tem briga demais nesse hospital. O senhor que é o noivo por favor, entre na sala e tente acordar a menina, para que possamos conversar sobre os exames.
– Também vou.– Alan disse se levantando, até ser repreendido:
– Sangrando desse jeito??? Não mesmo. Chame uma dessas enfermeiras pra fazer um curativo, e depois pode entrar, é na sala 23.
Alan assentiu, enquanto eu sumia pelo corredor sendo conduzido por Eduardo.
Não esperava ver o que vi, quando a porta foi aberta pelo homem de branco, mas também não esperava ver um campo de tulipas vermelhas. O odor do local era horrível, e as pessoas gemendo de dor tornava todo o ambiente mais insuportável ainda.
Meu coração se apertou e se comprimiu até o tamanho de um caroço de feijão assim que vi ela dormindo, avulsa a todas as coisas horríveis que se passavam ao seu redor, e com uma expressão calma como se nenhum mal, durante os últimos meses, houvesse lhe acontecido. Do jeito que a vi dormindo, pela primeira vez.
FlashBack ON
Levantei a ajeitando de lado e corri para vestir minhas roupas.
Eu passava dias transando a fio, mas nunca, de nenhuma forma, nada tinha sido tão intenso como havia sido hoje com aquela mulher... Sinceramente, não dava pra pensar naquele quarto. Não dava pra pensar com ela dormindo igual um anjo, babando no colchão e roncando um pouquinho.
Karina era o sinônimo de perfeição para mim... mas eu tinha obrigações, o que fazer? Sair daquele lugar primeiramente. Eu não conseguiria tomar nenhuma atitude correta com aquela garota por perto.
Me aproximei da dorminhoca e lhe dei um beijo na testa, puxando o lençol e cobrindo o corpo nu que eu mais amava. Nesse momento ela deu um sorrisinho, sonhando, e eu acabei sorrindo também. Precisava fugir dali o mais rápido que desse.
FlashBack OFF
– Pedro?
– Desculpe Dr. pode repetir?
– Claro! Eu estava dizendo que se ela acordar e quiser vomitar, tem um baldinho do lado da cama, e que a distraia conversando, é melhor do que ver essas situações horríveis de pessoas que chegam aqui e ficar traumatizada de vez.
Senti meus olhos encherem de água, quando me dei conta que nem dinheiro pra pagar uma consulta particular eu tinha para oferecê-la, mas elas nem chegaram a cair pelo meu rosto, pois no mesmo instante entraram dois policiais segurando um rapaz com a perna evidentemente destroçada por tiros.
– Meu Deus!– roguei, enquanto meu estômago se revirava vendo a cena.
– Você precisa ser forte Pedro, só enquanto eu vou buscar os resultados.
– Tudo bem...– respondi, meio incerto, balançando a cabeça para que a visão daquilo sumisse.
– OOOOOOOOOOOK, estou indo! Até daqui 5 minutos.
Nem esperei o médico bater a porta. Corri para perto de Karina e me ajoelhei, pegando delicadamente na sua mão aonde estava o anel, e começando a conversar com ela, mesmo dormindo, para que a minha própria tensão sumisse. Tendo a certeza de que apenas o contato da sua pele era o bastante pra me acalmar.
– Ka, ta doendo te ver assim. Doendo muito.– desabafei, depositando um beijo no seu dedo anelar.
– Dói mais ainda saber que a culpa foi minha, que tive que te ver sofrer dessa forma pra tomar jeito...
As lágrimas começaram a cair, e eu a fungar.
– Meus pais me contavam uma história quando eu era pequeno, pra aliviar nossa vida pobre, assim como toda essa gente que ta aqui sofrendo, nessa sala. E acho que por conta dela, sempre fui tão mesquinho.– peguei a mão de Ka, e passei pelo meu rosto, enxugando minhas lágrimas.
– Um certo dia, Buda resolveu tomar caminhos diferentes de onde sempre trilhava. Foi pra uma região muito seca, que não chovia há um ano, e encontrou um pastor de ovelhas desesperado, que o pediu pra orar por ele.
Assim que comecei a contar a história, senti o clima da sala mudar, ninguém fazia mais barulho, todos pararam de sentir suas dores para prestar atenção. Pigarreei nervoso com toda aquela atenção, e voltei a contar.
– O pastor começou orando e dizendo: “Deus, por favor, mande uma forte tempestade para encharcar os pastos e salvar as minhas ovelhas”.
– E Buda repetiu: “Deus, por favor, mande uma forte tempestade para encharcar os pastos e salvar as ovelhas do pastor”.
– O pastor continuou, “Deus, por favor, mande uma forte tempestade para encher os rios de água e salvar a mim, a minha mulher, e aos meus filhos da sede”.
– E Buda repetiu: “Deus, por favor, mande uma forte tempestade para encher os rios de água e salvar a vida do pastor e da família dele da sede”.
– E o que aconteceu?– Karina perguntou ainda de olhos fechados, e comecei a sorrir abertamente quando percebi que ela, com certeza, prestava atenção desde a primeira frase.
– Buda foi embora, e voltou um mês depois, quando a forte tempestade havia caído.
Observei apaixonado, enquanto ela abria os olhos azuis cintilante devagarzinho, se acostumando com a claridade, e sorria junto percebendo o anel de casamento no dedo. Estávamos tão no fundo do poço, e tão completamente felizes...
– O pastor se salvou?– Ka perguntou, curiosa como eu me lembrava que era.
– Na verdade, o pastor foi o único que sobreviveu.
– COMO ASSIM?– uma senhora gordona, que estava atenta a história, perguntou representando todos da sala.
– A forte tempestade veio, encharcou os pastos até matar o capim, afogou as ovelhas, e matou toda a família do pastor, sem piedade.
– MAS QUE DESGRAÇA DE HISTÓRIA É ESSA SEM FINAL FELIZ?– a senhora reclamou, xingando, e todos os doentes voltaram a gemer suas dores e pararam de me dar importância, ou ao resto da história.
– Continua.– Karina pediu baixinho.
– O pastor viu Buda e gritou desesperado: BUDA! OLHA SÓ O QUE DEUS FEZ COMIGO, COM AS MINHAS OVELHAS, COM A MINHA FAMILIA! COMO VOCÊ PODE FICAR TÃO BEM ASSIM VENDO ISSO TUDO?– falei, gesticulando sem parar e fazendo cara de bobo, conseguindo arrancar umas gargalhadas de Ka e cumprir a missão de distraí-la, dada pelo médico.
– E Buda disse: Pastor, eu pedi tudo isso por você e não por mim. Eu não tenho nada nessa vida, nada que Deus possa me reclamar de volta, eu não tenho nada a perder.
Ka fechou os olhos novamente, escutando calada minha última frase, perguntando em seguida:
– Então foi por isso que me deixou?
Beijei sua mão outra vez, sem respondê-la. E ela continuou prosseguindo com o raciocínio:
– Eu entendi a história, Pedro. Você era como Buda antes de eu chegar, não tinha quase nada a perder na vida por isso não se importava. Poderia cair uma forte tempestade ou continuar uma seca horrível, você não tinha nada a perder, e por isso nunca largou o emprego de gogoboy e foi atrás de outro como o que tem hoje: pra você tanto fazia ser um garoto de programa, ou não. Só que eu cheguei... e a historia mudou, você virou o pastor, teve tudo, teve responsabilidades, teve que orar e depender de Deus.
– E quando foi embora e me deixou, queria voltar pra vida antiga, voltar a ser Buda com todas as facilidades que lhe ofereciam.– constatou, e estava certa.
– Como eu disse, fui mesquinho. Achei que estava fazendo aquilo pra te proteger, mas na verdade estava agindo igual a Buda, sou um fraco e não mereço seu perdão.
– Sou tão mesquinha e fraca quanto você.– disse, se esticando pra me dar um beijo na testa, exatamente quando ela que deveria estar sendo beijada.
– CHEGOOOOOOOOOOOOOOU O PORTADOOOOOOOOOOOR DAS BOAS NOTICIAS!!!!
Pov Karina
Eu já havia acordado muito antes de Pedro chegar, mas decidi fechar os olhos e não abri-los tão cedo até que alguém aparecesse pra me tirar daquele lugar tenebroso. O lampejo de tempo que levei com eles abertos, pelo menos, foi o suficiente pra visualizar o anel no meu dedo, e descobrir que aquilo (a volta de Pedro, ele tocando piano, o pedido de casamento na escada) não foi nenhum sonho...
– CHEGOOOOOOOOOOOOOOOU O PORTADOOOOOOOOOOOR DAS BOAS NOTICIAS!!– um homem vestido de branco, provavelmente o médico, entrou chamando nossa atenção, e Pedro ficou de pé se ajeitando.
– Graças a Deus, então são boas noticias.– meu namorado suspirou aliviado, e eu também. Queria receber alta o mais rápido possível.
– Antes eu vou passar algumas recomendações, mas você precisa ficar de olho pra ver se ela vai cumprir, é MUITO IMPORTANTE!
– Claro, eu já estava planejando fazer uma lista pra Karina.
– Que lista?– perguntei.
– Depois eu explico, continua doutor.
– Ela vai precisar comer direito, principalmente muita proteína pra dar sustância, nada de porcarias ou muita gordura.
– Até porque gordinha, ela já ta demais.– Pedro falou sorrindo, e se aquele soro não estivesse pendurado na minha veia, ele levaria um bom murro.
– E também vai precisar de muito carinho e amor...
– Vem cá, que espécie de médico é você que fica fazendo poesia na hora de passar a receita? Eu quero saber dos remédios pra ficar boa logo e ME CASAR.
– Que menina esquentada, Jesus é pai, vou receitar uns calmantes e uns diasepans também.
O médico zoou com minha cara, mas Pedro escutava tudo tão atento, que deveria ter levado a sério até aquilo.
– Da para o senhor ser direto?– fui arrogante, sem nem imaginar que o que escutaria em seguida, mudaria todo o rumo da minha vida.
– Karina Duarte, foi exatamente o que imaginei desde que você chegou aqui, e o exame de sangue confirmou. Não existe doença alguma, você só está grávida.– ele disse, como se estar grávida fosse uma coisa que a gente ficasse todo dia.
Engoli em seco e, mesmo tendo certeza de que o médico estava errado no diagnóstico, não pude deixar de me deliciar com a reação de Pedro.
– O QUE??????– ele pirava, primeiro colocando a mão na boca, depois na cabeça, depois andando de um lado pro outro, até conseguir finalmente ficar parado de volta a posição inicial: mão na boca.
– EU VOU SER PAI?
Se eu dissesse, que já havia visto alguma vez Pedro chorando daquela forma que chorava agora, estaria mentindo. A melhor definição para o momento só pode ser: seus olhos sorriam.
– EU VOU SER PAI MESMO??? PAAAAI?
As lágrimas desciam, e ele com certeza estava se controlando pra não gritar de alegria quando pegou um copo de água em cima da mesinha e engoliu com remédios que nem sabia para que serviam. Pra quem não queria transar sem camisinha... Pedro estava me saindo um “quase pai” muito feliz, e eu precisava contar logo a verdade antes que ele pirasse.
– Pedro... se acalma pelo amor de Deus. Olha o vexame.
– É UM MENINO! EU TENHO CERTEZA QUE É UM MENINO!– ele gritava, erguendo as mãos para o céu, e até a gordinha que voltou a gritar de dor depois da história, começou a rir.
– Alguém ajuda esse garoto!– ela comentou.
Eu tinha que parar com aquilo.
– PEDRO! SE ACALMA!
– Me acalmar? MEU AMOR! A GENTE VAI TER UM BEBÊ! EU QUE SUMI NÃO QUERENDO NADA... VOLTEI TENDO TUDO! Acho que to passando mal.– Pedro terminou o raciocínio, fechando os olhos, e eu explodi.
– EU NÃO ESTOU GRÁVIDA, PEDRO! NÃO TEM CRIANÇA PORCARIA NENHUMA!
Logo me arrependi de ter sido rude demais, quando ele encarou, ainda com aquele sorrisinho bobo, me achando louca.
– O médico ta aqui com o exame... você vomitou, ficou enjoada, A GENTE TRANSOU SEM CAMISINHA!
– UHUUUUUUUUUUL!– os pacientes que assistiam atentos, endoidaram batendo palmas e eu faltei morrer de tanta vergonha.
– EU ESTOU MENSTRUANDO, É IMPOSSIVEL SEU IDIOTA!
Vi Pedro murchar, ser reanimado na mesma velocidade que desanimou, e minha vida virar de cabeça pra baixo quando o médico disse:
– Nos primeiros meses de gravidez é considerado normal ainda ter algum tipo de sangramento. Vai parar conforme o tempo, com a medicação que te passei e uma alimentação correta.
“Nosprimeirosmesesdegravidezéconsideradonormalaspofjasfapsofjapfosjapfodsj” error 404.
– Karina... ta tudo bem?– Pedro se aproximou, preocupado. Eu com certeza deveria estar transparecendo todo o medo, ansiedade e confusão que sentia.
– Eu... to grávida...– falei, tentando acreditar.
Então aquela coisa... aquele bolor na barriga... aquele carocinho... era um neném?
– SIM! A gente vai ter um FILHO! Não era com isso que você tanto sonhava?– Pedro exclamou feliz, me sacudindo, enquanto eu continuava imóvel, tentando captar a informação.
– Não.
– An?
– Não pode ser.
– Como assim não pode ser Karina? Você ta roxa! Fica tranquila... por favor, vai dar tudo certo.
– Não pode...
Não podia ser por milhares de motivos, eu poderia citar mil, mas os piores eram: eu morava num porão, e não fazia ideia de quem era o pai da criança.
– VOCÊ TA GRÁVIDA!– Pedro gritou pela última vez, tentando por aquilo na minha cabeça, exatamente na hora que Alan entrou pela porta, segurando um pano no nariz.
– Eu vou ser pai?
Quis me esconder embaixo do buraco mais profundo da Terra. Só que era tarde demais, a bomba tinha sido lançada.
– Ficou doido, seu palhaço?
– EU VOU SER PAI????
Alan correu em minha direção, me dando um selinho emocionado sem dar-me chances nem de piscar, muito menos ter uma reação.
– Eu vou te matar.
Foi a última coisa que meu namorado disse, antes de um amontoado de dois homens grandes irem ao chão, brigando de murros, pontapés, chutes e mordidas.
– PAREEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEM! PEDROOOOOO!!!– gritei, mas ninguém dava atenção, estavam focados demais em se matarem.
Só bastou que Alan acertasse um murro estalado no queixo de Pedro e ele gritasse, para eu finalmente decidir acabar com aquela palhaçada.
– ELE PODE SER O PAI SIM!
Gritei, e Pedro parou de socar, me olhando sem entender, com a boca machucada.
– Não precisa proteger...
– EU TRANSEI COM O ALAN! NA NOITE QUE VOCÊ FOI EMBORA!
– Ooooooooooooooooooooooh!– a sala inteira exclamou, pra piorar o que já estava ruim.
– Você o quê?– ele perguntou, sem acreditar, e vendo seu rosto magoado consegui apenas uma coisa: desabar em uma confusão de lágrimas e convulsões. Meu peito doía absurdamente.
– VOCÊ TINHA ME DEIXADO E... EU FIQUEI LOUCA, EU QUERIA DAR PRO PRIMEIRO QUE APARECESSE, QUERIA ME VINGAR DE VOCÊ PEDRO, MAS...
– VOCE FEZ O QUÊ?– Pedro ficou em pé, parecendo um pouco tonto, e prestes a cair de novo.
– Me perdoa... eu também errei... a gente errou! Eu não sou culpada nisso sozinha.– consegui dizer, mais chorando do que falando, enquanto Pedro se encostava na parede, e escorregava, escorregava, até sentar no chão, pingando suor e exalando mágoa.
– Você dormiu com o meu amigo...
– PAAAAAAAAAAAARA PEDROOOOOOOOOOOOOOOOOOO!– me debati, querendo tampar os ouvidos, querendo voltar no tempo, querendo fazer tudo diferente, mudar todo o futuro.
– EU VOU SER PAI! UHUUUUUUUUUUUUUUUUUL!– Alan pulava de alegria, beijando a gordinha na bochecha, mesmo vendo eu e Pedro completamente acabados.
– NINGUÉM TEM CERTEZA! Só vai dar pra saber quando a criança nascer, e fizermos o teste.– não sei de onde retirei forças pra falar aquilo, mas não aguentava aquela comemoração idiota dele.
– Na verdade...– o médico se pronunciou depois de toda a confusão.
– Existem testes avançados, onde podemos retirar o DNA da criança ainda na placenta e verificar se bate com o DNA do pai verdadeiro. Só há um problema, que com certeza não deve ser o de vocês.
– Qual?– Pedro perguntou, parecendo se agarrar a última chance, mas com certeza seu sentimento de traição permaneceria ali sabendo ou não se era o pai. Eu estava perdida de todo modo.
– Se houver algum parentesco entre os dois, fica impossível saber com 100 por cento de certeza se a criança é filha de um, ou de outro.
– Isso não vai ser um problema.– Pedro sorriu, sarcástico. E estava certo, o problema era eu ter transado com Alan.
– Quando podemos assinar os papeis pra vocês fazerem o teste?
Assinar... Os papeis...
FlashBack ON
– Espere eu redigir o contrato, e você assina os papeis.– o homem alto e mal encarado me disse.
– Achei que não fosse nada muito oficial sabe... – comentei, começando a me preocupar, mas Heideguer acalmou-me com seu tom de voz melodioso.
– Que isso, princesa! E não é, é só pra manter na lista e ter controle das profissionais que entram e saem.
– Hmm... ok.
– Acho melhor eu ler antes né.– sorri nervosa, já com a caneta na mão para assinar, até observar um item no mínimo interessante.
– Como assim os meus descendentes serão propriedade da Wild Passion?
– Isso ai é porque já tivemos muito problema com prostitutas que engravidaram de clientes pra dar o golpe, meio que evita golpes da barriga se a criança no contrato nos pertencer, pensam duas vezes antes de agir.– ele explicou.
–Aaaaa, desculpe a burrice! É que eu não manjo dessas paradas.– Heideguer devia me achar tão burra...
– E esses 500.000 aqui? – perguntei.
– Nada demais, acho melhor você assinar logo porque estou cheio de serviço!– pressionou-me.
– Eu vou poder sair amanhã se eu quiser?
– Claro! Agora assine.
E assinei, colocando não só a minha vida em risco, como a dos meus descendentes. Como a daquela coisinha miudinha, que morava dentro de mim, que só descobri há pouquíssimos minutos sobre a sua existência, que já amava mais do que qualquer pessoa que conheci, do que qualquer coisa. Que protegeria até mesmo do homem por quem sou apaixonada caso fosse filho do Alan. Daquela coisinha que era, agora, a minha única prioridade na vida: o meu bebê, e de mais ninguém.
Nem de Pedro, nem de Alan, nem de Heideguer. Meu.
FlashBack OFF
– KARINA!– Bianca gritou.
O fato de ser Bianca ali, o fato de termos conversado sobre o nosso pai estar ali, o fato de ter um garoto parecido com um duende do lado dela, nada, fez-me voltar totalmente à realidade. E mesmo depois que ela saiu, que eu completamente perdida e voando no espaço consegui sussurrar um “ eu te amo” para Pedro antes que eles fossem fazer o teste, que o próprio Pedro disse que me amava de volta, me tranquilizando um pouco depois de tudo aquilo, eu ainda não tinha voltado a realidade.
– Agora a luta não é só por mim, é por nós.– falei chorando feliz pra minha companhia, acariciando minha barriga, no nosso primeiro momento íntimo de mãe e filha.
Se Pedro tinha certeza que era um menino, eu tinha certeza que era uma menina.
Pov Cobra
– JADE?!– chamei por ela, achando estranho todo aquele barulho.
– Já estou indoooooo!– gritou de volta, animada e soltando risinhos abafados junto com Esther.
Eu estava me sentindo bastante frustrado, pra dizer a verdade.
Odiava não compartilhar dos segredinhos de amiguinhas delas, e aquele negócio de fazer compras a tarde, voltar àquela hora da noite me escondendo as sacolas, se trancarem no banheiro pedindo para que eu fosse deitar e relaxar, só me deixou ainda mais transtornado, depois de toda aquela CONFUSÃO de ter sido tocado, e tocá-la.
Quando a pessoa começa a se conformar que nunca mais vai transar na vida, ter nenhum tipo de contato sexual com a mulher que ama (e acha extremamente sensual), perde as esperanças de filhos, um futuro normal ou qualquer coisa do tipo, lá vem sua namorada autista querendo ver “o que os meninos têm embaixo” e destrói todo aquele muro que você demorou tanto pra construir. O muro que era a única coisa que me impedia de não atacá-la, jogá-la em cima da cama, tirar sua roupa e fodê-la sem nenhum tipo de clemência ou piedade...
– Cobra, vocês vão dormir juntos, e você NÃO VAI FAZER ISSO. Se controla, se controla Cobreloa.– ordenei a mim mesmo, para que pudesse parar de imaginar coisas que tinha certeza: não iriam acontecer. Aquilo hoje a tarde só foi um golpe de sorte, ou um milagre de Jesus.
– Falando sozinho?
Uma mulher irreconhecível me perguntou, parada na porta, passando a mão por suas coxas, num gesto de insinuação.
– O-o-o-que- que é-é-é iss-o-o-o?– eu não conseguia parar de gaguejar, muito menos desviar o olhar daquele monumento de lingerie preta.
– Não gostou...– Jade disse, abaixando a cabeça, e eu fiquei lá, parado em choque na cama.
– Isso é maquiagem?
Ela não usava maquiagem! Mas espera... ela também nunca tinha usado uma roupa daquela. O QUE ESTAVA ACONTECENDO COM ELA?
– Foi a Esther que fez... mas não dever ter servido de nada.
Quando percebi que Jade abria a porta pra sair, endoidei. Corri e até tropecei no caminho, mas consegui a interromper a tempo, e descobri que perigo maior ainda era ficar tão próximo daquilo que não podia correr o risco nem de tocar.
– Você ta muito...– não poderia completar a frase, não pra uma menina inocente como Jade.
– Gostosa?
Arregalei os olhos, quando ela pronunciou aquela palavra, e se pudesse arregalaria mais ainda quando fui arremessado fortemente na cama pelos seus braços longos, e cai estirado, só de cueca.
– Muito gostosa.– sorri safado, enquanto ela se rastejava esfregando devagar e deliciosamente o corpo por cima do meu, já excitado e assustado.
– Cobra... eu quero sentir o amor.
Jade sussurrou, infantilmente, me surpreendendo mais ainda e enfiando a mão, de vez, no “amor”.
– Ta sentindo?– perguntei, mordendo a boca, enquanto ela me masturbava. Como aprendia rápido...
– Unrrum.
Segurei Jade pelos cabelos, chupando o seu pescoço enquanto ela gemia e continuava me dando prazer. Queria aproveitar ao máximo a intensidade daquilo, porque com certeza, dali não passaria.
– Me fode.– ela gemeu no meu ouvido, abrindo o fecho do sutiã, e o arremessando longe.
– Para de ser doida, vamos aproveitar.
Ela nem sabia o que significava aquilo, não sei aonde tinha aprendido, mas com certeza sua virgindade era algo que eu preservaria, mesmo a abusando tanto quanto estava agora... brincando com os seus seios, depois os esmagando e enfiando na boca com vontade.
– Enfia, por favor, enfia em mim.
Gemi alto com suas palavras sussurradas, e um pouco atrapalhado joguei minha cueca longe, mais livre para que ela pudesse esfregar a mão melhor e continuar a masturbação.
– Que delicia... faz mais rápido vai...– implorei, só que ela fez exatamente o contrário, exatamente o que não poderia fazer.
Jade tirou a calcinha e ficou me olhando, parada, enquanto eu aproveitava do momento para analisar todo o seu corpo. As pernas torneadas e abertas, sua vagina lubrificada pela excitação, os seios balançando por conta da respiração forte, e o rosto implorando para que eu fizesse aquilo, que prometi nunca fazer.
– Adeus sanidade.
Falei arfando, e no outro segundo jogando ela por baixo e beijando sua boca loucamente. Sugando sua saliva até fazer barulho, passando a mão em todos os lugares aonde eu conseguia enfiá-la e me deliciar com a maciez de sua pele.
– Abre as pernas Jade.– ordenei, puxando uma perna pro lado, e ela obedeceu abrindo a outra e sorrindo animada.
– Não vou mentir pra você. Vai doer, e eu não vou conseguir parar... pode ser traumatizante e eu juro que estou morrendo de medo de ser o responsável por isso e...– Jade pegou no meu pênis, me impedindo de terminar a frase, e começou a esfregá-lo na entrada da sua intimidade, com os olhos fechados e a boca tremendo de agonia e tesão.
– Meu corpo quer isso, eu quero isso. Me come Cobra.
E não precisou repetir aquilo duas vezes, para eu querer consumar de vez o nosso amor.
Deitando-me melhor por cima dela enfiei devagar meu membro na abertura de Jade, sentindo suas paredes e o tecido fino da sua vagina envolver-se em volta de mim. Ela arranhava e rasgava minhas costas com suas unhas, mas eu não me importava, estava avulso a tudo, entrando e saindo sem parar, me importando somente em sentir seu cheiro e morder seu queixo vez ou outra.
– Paraaaaaaaaaaaaaa! Ta doendo...– soltou um gritinho, agoniada, na primeira investida forte que dei e rompi seu hímen.
Continuei rebolando dentro de Jade sem ligar pros gritos, e tomando impulsos pra trás de 4 em 4 segundos ritmados. Enfiando com força e sentido-a totalmente, enquanto ela depositava toda a dor me arranhando da coluna até as pernas.
– Rebola só com a ponta dele... por favor... só com a ponta...– ela implorou em meio aos seus e aos meus gemidos.
Obediente, fiz o que ela pediu, segurei firme na cabeceira da cama mesmo com os músculos estalando, e a saciando só com a minha glande, me esfreguei e rebolei por cima do seu clitóris ensopado, sentindo-a ficar inchada e apertar as pernas em volta da minha cintura, louca de excitação.
– Mais devagar...
Aquilo era torturante pra mim, mas era o que ela queria, era o que fazia ficar mais apertada ainda gemendo que me amava.
– Aooowwwwn...– foi o último gemido antes de suas mãos se afrouxarem, e eu ficar completamente gozado, satisfeito com sua própria satisfação.
Sai de dentro dela super devagar, aproveitando-me de cada segundo em contato com seu sexo, até por fim deitar suado do seu lado.
– Eu te melei muito com minha aguinha?– Jade perguntou, preocupada, quando na verdade eu que estava calado de preocupação por tê-la machucado.
– Sim meu amor, e eu adorei.
Dei um beijo de adoração em sua bochecha e ela sorriu, me abraçando e se aninhando contra mim.
– Ta ardendo um pouco ainda.– comentou.
– Será que depois de arder... você vai querer fazer sabe, de novo, e me deixar soltar a água dessa vez?– indaguei com receio. Aquela era hora de saber se ela havia gostado, e se não... nunca mais faríamos de novo.
– Acho que...
Cheguei bem perto do seu rosto, até colar nossas testas e nos olharmos profundamente nos olhos. Jade sorriu, e me fez sorrir com sua resposta, e com tudo o que havia acontecido naquele dia maravilhoso:
– Tenho certeza que sim, eu quero muitas vezes.
Dei um selinho rápido, antes de ser interrompido, por mais um comentário que fez toda a angústia e temor que sofri terem valido a pena:
– Nunca senti algo tão bom e gostoso na vida, Cobra. Na verdade, não me deixavam viver, e você é minha vida agora.
Pov Pedro
– Eu te odeio.
Falei, assim que a enfermeira terminou de retirar uma seringa cheia de sangue, e ele me encarou sorrindo.
– Idem.
Alan não entendia, não poderia entender o nível de ódio que eu sentia por ele. Havia destruído minha vida de uma forma absurda e continuava tranquilo e feliz. Do que adiantou dar a esperança de uma nova chance me tirando das drogas se roubaria tudo de volta? Ele tinha roubado Karina... nem que fosse por alguns segundos, mas tinha. Poderia roubar aquele filho sendo o pai, e pelo visto, planejava roubar a mãe da criança pra sempre.
– Eu nunca vou aceitar isso.– comentei, tremendo, observando como ele estava despojado em cima da cadeira, sem preocupação nenhuma.
Eu sentia inveja de Alan. Ele não tinha nenhuma preocupação.
– Que eu sou pai do neném?
– Obvio que não é isso. EU SOU O PAI, eu sou O NOIVO da Karina, mesmo se não for meu filho de sangue, vou continuar sendo o padrasto, ou o pai, como você quiser chamar.– assim que terminei de dizer, Alan se sentou corretamente, parecendo abalado.
– O que eu nunca vou aceitar é vocês terem transado. É ELA TER FEITO AMOR COM VOCÊ! UM IMPRESTÁVEL, UM INÚTIL, UM ESTUPRADOR FILHO DE UM TRAFICANTE IMUNDO E...
– Seja menos idiota, Pedro.
O suor pingava pela minha testa. Ele estava brincando com ácido borbulhando e não tinha medo.
– Acha mesmo que Karina vai te querer como noivo com uma atitude dessas? KKKKKKKKKKKKKK Otário! É melhor você ir desistindo da ideia de ser o padrasto do meu filho...
Levei dois exatos minutos captando aquela frase, pra entender que aquele louco traidor, tinha toda a razão do mundo.
Se Karina transou com ele logo depois que eu a abandonei, só podia ser por raiva... raiva não devia contar como desejo, não é mesmo? Não podia contar.
– Meu Deus, eu não acredito que fui mesquinho de novo. Ela ta sofrendo mais do que todo mundo.– murmurei, pra mim mesmo, disposto a sair daquela sala correndo assim que o teste estivesse pronto, disposto a assumir a criança fosse de quem fosse, e mais do que tudo, disposto a ser o melhor marido pra Karina e perdoá-la do erro.
Eu oficialmente era um corno manso, e quer saber? Não me importava, não depois de tudo o que passamos juntos.
– Vocês estão de borete com a minha cara! Não tem condições.
O médico entrou xingando, vermelho de raiva.
– EU SOU UM PROFISSIONAL! OUVIRAM BEM? TENHO MUITOS PACIENTES PRA CUIDAR E OS DOIS BRINCANDO COMIGO, ME FAZENDO PERDER TEMPO!
– Dá pra você explicar?– Alan pediu, com tédio.
– OS TESTES!
– O que tem eles? Quem é o pai?– me levantei de vez, ansioso pela resposta, e mesmo que ela não fosse adiantar muita coisa... seria maravilhoso ser o pai de sangue.
– NÃO FIZ TESTE DE PATERNIDADE NENHUM! VAI DAR 25 POR CENTO DE PROBABILIDADE DE ERRO.
– Esse médico tem problemas?– Alan perguntou pra enfermeira.
– Antes do teste de paternidade, fazemos o teste de sangue entre vocês, pra saber se não há nenhuma possibilidade de serem parentes e dar errado.– a enfermeira explicou, no lugar do Eduardo.
– Ainda não to entendendo.– afirmei.
– COMO NÃO TA ENTENDENDO? VOCES SÃO IRMÃOS! POR QUE DIABOS NÃO FALARAM LOGO?
Eu e Alan nos olhamos assustados, e aposto que sua expressão me definia muito bem: choque total.
– Isto é impossível...– comecei a dizer sorrindo de nervoso, mas fui interrompendo.
– Querido, metade do DNA de vocês é IGUAL, sinto informar, mas alguém andou pulando a cerca.
Eduardo jogou os papeis na minha cara e saiu estressado da sala, enquanto eu, tremendo, analisava e confirmava: 50 por cento do DNA era o mesmo.
– Não pode ser... NÃO PODE SER! EU TENHO FOTOS NASCENDO DA MINHA MÃE! ISTO É IMPOSSIVEL!– pirei, pela terceira vez no dia.
– Mas o pai...
Alan insinuou, enigmático, como se soubesse de alguma coisa que eu não sabia.
– TA INSINUANDO QUE MINHA MÃE TRAIU O MEU PAI? COM O NOJENTO DO SEU PAI? ME POUPE ALAN!
– NÃO ESTOU INSINUANDO! ESTOU AFIRMANDO. Eu que não quis te contar, mas numa das conversas com Heideguer, ele falou que sua mãe já trabalhou pra ele... antes do seu “suposto pai” aparecer.
– NÃO!– ele ainda tinha a coragem de chamar minha mãe de prostituta?
– Ninguém sabe do passado de ninguém, Pedro.– Alan disse, se aproximando, e eu me afastando.
– EU NÃO SOU CRETINO COMO VOCÊ, OU COMO HEIDEGUER!
– Tudo é a criação.
– Meu Deus...
Eu poderia fingir que nunca vi aquilo, sair daquela sala, apagar tudo da cabeça e acreditar novamente que minha antiga vida foi uma verdade. Mas eu vi os papeis, eu vi o exame, era real, mesmo que não aceitasse... era a verdade. Eu era filho, e irmão, dos meus piores inimigos.
– Não dá pra contar isso pra Karina, ela vai ficar acabada...– só pensava em Karina, na sua reação. Sobre a índole da minha mãe... eu questionaria depois.
– Nisso eu tenho que concordar com você, amar dois irmãos ao mesmo tempo deve ser horrível.
Alan me estendeu a mão, num gesto de amizade e paz momentânea, até quando tudo aquilo passasse.
– Quero que fique claro, Alan, que estou apenas te dando uma trégua, só até a criança nascer e descobrirmos de quem é, pelo bem da Karina.– estendi minha própria mão, e apertei a sua, tentando fingir que não estava abalado.
– E eu quero que fique claro, Pedro, que eu como provável pai, vou querer dar atenção para o meu filho e cuidar da mãe dele.
Rosnei, mas pelo bem de todos, continuei apertando a mão de Alan.
– Agora precisamos proteger duas pessoas, e esse é nosso objetivo em comum. Mas quando eu conseguir livrar ela do Heideguer, quando tudo isso estiver acabado e nossos objetivos não forem mais os mesmos, essa trégua acaba também.
– Faço das suas palavras as minhas, meu adorado irmãozinho.
Irmão... Eu nunca me acostumaria.
– E que vença o melhor.
Pov Karina
– Eu não to entendendo... por que tenho que trocar minha roupa? Já recebi alta? Mas e os testes? Ainda não tiraram o material da minha placenta!– indaguei doida, enquanto era empurrada pela enfermeira pra dentro de um banheiro, e recebia minhas roupas de volta.
– As minhas ordens foram que te entregasse seus objetos, apenas isso. Não fui informada de nenhum teste.
A bruaca falou, jogando tudo em cima de mim, e saindo do banheiro.
– Merda de vida de pobre. Runf.– reclamei, tirando a camisola velha de hospital e ficando nua.
Quando comecei a avaliar minha blusa e minhas roupas íntimas, o celular que virou um hábito carregar pra cima e pra baixo, caiu do bolso do short, e acabei tendo uma ideia pra aliviar minha tristeza e o sentimento de “fui uma puta com o meu namorado e destruí nossa felicidade”.
Passei uma mensagem pra minha melhor amiga, que por sinal, havia magoado também.
Karina: Sabe aquele dia, que eu disse que não tava grávida...
Me vesti colocando a calcinha e o sutiã devagar, até o telefone apitar e eu ter certeza: Fabi não tinha guardado rancor, e aquilo era um alívio enorme.
Fabi: ESPERA, VOCÊ TA GRÁVIDA?
Karina: Sim. Acabei de descobrir... me perdoa por ter te expulsado do “meu porão”. L
Fabi: VOCÊ TA GRÁVIDAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA!!!!!! EU TO QUICANDOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOO!! NINGUEM SAI!
Karina: SIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIM!!!!
Enviei o torpedo, sorrindo e fazendo carinho no meu neném.
– Ta vendo, Maria Leuda? Só a titia Fabi consegue fazer a mamãe sorrir sempre.
– E o papai?
Quase enfartei quando escutei a voz de Pedro e o vi entrando e trancando a porta do banheiro atrás de si. Não estava preparada pra ter mais uma briga agora... não estava preparada pra ver ele daquela forma, acabado, fingindo estar feliz num sorriso forçado, com a boca ainda sangrando da briga de mais cedo.
– Desde quando você estava me espiando?– perguntei, erguendo uma sobrancelha.
– Hm... faz algum tempinho.– Pedro disse, fazendo bico, e eu corei na hora.
– Vai ficar com vergonha de mim agora?
– Não...– mas estava sim, odiava ficar quase nua perto dele, era perigoso demais, perto demais...
– Eu vou fingir que não cheguei aqui antes o suficiente pra ouvir você chamando nosso menino de Maria Leuda.
Ele afirmou chateado, num instante, e no outro já estava me abraçando apertado, e eu me aconchegando nos seus braços e aproveitando pra sentir seu cheiro que há tempos não sentia.
– Desculpa pelo o que estou te fazendo passar...– implorei, deixando-me chorar e apertando mais forte ainda seus músculos em volta da minha cintura.
– Shhhh, shhh, Ka, tudo bem. Eu fiquei nervoso, mas quem não ficaria? Já respirei melhor, já pensei, e vou ser o pai dessa criança seja de quem for.
– Sério isso?
– Anrram.– ele confirmou, sorridente, puxando meus cabelos num rabo de cavalo num gesto antigo, e me obrigando a olhar nos seus olhos.
– Por enquanto não vai dar pra fazer o teste. Descobrimos que o governo não paga testes de DNA ao público e não temos tanto dinheiro assim pra nos darmos ao luxo. Alan concordou e foi pegar um táxi pra gente, ele também concordou que não vamos ficar te enchendo a paciência com isso agora, apenas cuidar de vocês, sem briga, sem estresse, sem dor. –
Respirei aliviada pela última parte, mas a de não saber quem era o pai logo... aquilo me agoniava de uma forma absurda.
– Tem certeza que a gente não pode pagar esse teste agora?
– Tenho, confia em mim.– Pedro disse sério, e acreditei nele cegamente.
Ficamos abraçados mais um tempinho, até eu tomar coragem, ou melhor, como diria Fabi: “até voltar a ser a safada que eu era” e pedir o que queria desde que o vi tocando piano na sala mal assombrada.
– Você ainda não fez o que o Brasil inteiro quer ver.
– HAHAAHA! O Brasil? Ou você?
– Hmm... EU!– dei um gritinho animada, e ele parou de sorrir, me olhando firme e depois descendo o olhar até a minha barriga desnuda.
Pedro se ajoelhou, enquanto eu me contorcia de felicidade, e segurou meu ventre com as duas mãos, depositando desde o seu retorno, depois de dois sofridos e angustiantes meses, o primeiro beijo de reconciliação mais carinhoso que já havia me dado na vida. No meio da minha barriga estufada e gordinha.
– Acho que eu vou chorar mais.– falei manhosa, segurando sua cabeça, até ele decidir que deveria parar de dar beijinhos ali.
– Duvido que vá chorar agora.– me desafiou, sapeca.
– E por quê?
– Porque agora vem a parte que vou te dar um beijo sugador de saliva, rotatório de língua, desentupidor de cano, e provavelmente... arrancar a sua boca.
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