Wild
1 Capítulo 1
Eu não acredito em histórias de amor. Não mesmo. Mas todas as vezes que eu olho para o sorriso do Miles, com suas covinhas e o jeito que seus olhinhos quase desaparecem, eu começo a acreditar em “felizes para sempre” e toda aquela palhaçada. Miles é o tipo de cara que te faz acreditar que anjos andam entre nós. Quer dizer, ele me faz acreditar nisso toda as vezes em que eu olho para seu rosto, quando eu escuto sua voz, quando ele toca em mim. É engraçado como as coisas são... Quando éramos crianças, vivíamos brincando juntos, as pessoas achavam até que éramos irmãos e é assim que as pessoas nos veem desde então. Como irmãos. Aliás, é assim que Miles me vê: como um irmão.
Eram cinco da manhã quando meu celular começou a tocar enlouquecidamente e eu, que estava meio acordado, meio morto, fiquei sem entender de onde vinha o barulho. Demorei mais do que eu me orgulho para descobrir que era meu celular que estava tocando e, quando descobri, já até sabia quem estava me ligando àquela hora.
Olhei o visor e tive a certeza.
— Ely, eu posso ir aí? — Miles perguntou num sussurro.
— Você sabe que horas são? Hoje é segunda-feira, Miles! Por mais que eu te ame e tudo mais, eu tenho aula daqui a... — Olhei para o relógio. 5:24am. — Três horas.
— É sério, cara. — Sua voz estava carregada, parecendo triste ou como se ele estivesse chorando. O que, obviamente, me preocupou. Miles não era muito de demonstrar sentimentos.
Deixei um suspiro frustrado escapar e acabei concordando, afinal eu tinha a certeza de que, se eu não deixasse, ele acabaria aparecendo de qualquer forma.
Passei alguns minutos no escuro, tentando pensar num motivo pro Miles querer aparecer na minha casa às cinco da manhã e o porquê dele estar soando tão triste. Uns bons quarenta minutos haviam se passado até eu ouvir uma batidinha na janela do quarto. Levantei da cama, instantaneamente me arrependendo de ter dormido apenas de cueca, vesti uma camiseta e abri a janela para Miles entrar. Era difícil enxergar direito devido ao escuro, seus grandes olhos cor de mel estavam assustados e seu rosto, vermelho e inchado, como se estivesse chorando durante um bom tempo. Franzi o cenho, preocupado, e sentei na cama, seguido de Miles.
— O que houve, M? Tá tudo bem?
Miles segurou minha mão, me olhando com os olhos arregalados, e sacudiu a cabeça.
— E, você não pode contar pra ninguém, ok?
— Tudo bem, Miles, mas o que aconteceu? Você tá me assustando.
Ele suspirou e desviou o olhar, parecendo estar segurando o choro. Senti que ele estava à beira do desespero e eu estava mais do que preocupado. Miles não demonstrava sentimentos. Eu nunca havia o visto chorar, aquela fora a primeira vez.
— Ely, eu... — Ele engoliu em seco. — Eu acho que... Que...
— “Que” o quê, Miles? Pelo amor de Deus! — Eu quase gritei, mas quando Miles finalmente falou, sua voz era quase inaudível e nada, absolutamente nada, podia ter me preparado para ouvir aquelas seis palavras.
— Eu acho que eu sou gay.
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