Why Cliché?
17 Capitulo XVI
Notas iniciais
– Olha quem decidiu nos dar o ar de sua graça! – Basso me saudou, e eu me questionei se ele não tinha mais nenhum cumprimento fora esse. – Por que não se senta, querida, para podermos conversar melhor? – Apontou pra uma carteira próxima a Carrie. Quando não fiz menção de me mover, um dos comparsas de Basso me empurrou nada delicadamente pra cadeira. O mesmo ficou perto de mim, com a arma apontada pra minha cabeça.
– Isso é realmente necessário? – Perguntei, e o mafioso fez um gesto para que o homem abaixasse a arma. Porém ele não saiu de perto de mim.
– Sara, meu docinho, você deve estar se perguntando o que está fazendo aqui. – Pra morrer, pensei. No entanto apenas bufei, impaciente.
– Eu sei exatamente o que estou fazendo aqui, Basso. – Retruquei e então olhei pra minha amiga, que me observava confusa. – Eu só não sei o que ela está fazendo aqui ainda. Seu problema é comigo, não com ela. Pode liberá-la.
– Eu vou liberá-la quando eu quiser liberá-la, e se eu quiser! – Exclamou, bem perto do meu rosto. – Não esqueça que o único a dar ordens aqui sou eu.
– Como quiser. – Respondi, tentando passar indiferença na voz. Mas por dentro, eu estava morrendo de medo.
– Posso continuar? – Ele perguntou, cínico. Eu apenas assenti. – Enfim, como você provavelmente já sabe, seu namoradinho não conseguiu pagar a dívida. Porém, ao contrário do que você pensa, ele não está morto. Ainda não.
– Como assim? – Murmurei, uma onda de alívio percorrendo meu corpo.
– Como assim que o vagabundo conseguiu fugir. E como ele é bem previsível, foi direto pra sua casa. Se despedir, convencê-la a fugir com ele ou qualquer planinho idiota que vocês tivessem. Tinha que ter visto a cara de decepção dele quando seus pais falaram que você estava no baile, sério, foi hilária. – Riu, mas quando eu não o acompanhei, ficou sério novamente. – Eu poderia tê-los matados, sabe, Peter e seus pais. Mas eu não o fiz, porque tinha um plano. Qual a graça de matá-los assim, sem nenhuma plateia, se eu posso te matar na frente de Stevens? – Basso sorriu maléfico, e eu engoli em seco. Olhei dele pra Carrie, que agora me encarava apavorada. Estava pronta pra sussurrar um pedido de desculpas pra ela, quando a porta se abriu com um estrondo, revelando os rostos esbaforidos de Peter e Lisa.
– Acho que agora o circo está completo. – Basso falou, sorrindo. Em seguida, carregou a arma e a apontou pra mim. – Nós podemos começar o espetáculo.
– Basso, espere, vamos conversar. – Lisa tentou, e o mafioso a encarou curioso.
– E você, quem é?
– Lisa Stevens. Sou a irmã de Peter. – Ela engoliu em seco, parecendo desconfortável com olhar que Basso lhe lançava.
– Ah, mais uma pra morrer. – O agiota revirou os olhos, se concentrando em mim novamente. – Essa lista só aumenta...
– Não. – Peter interrompeu, aparecendo pela primeira vez na cena. – Ninguém merece morrer aqui se não eu. Deixe-as em paz.
– E perder a chance de te ver sofrer antes de morrer? Não, não Stevens. Você vai ver cada uma delas morrer, e então, e só então, vai ser a sua vez. — E virando-se pra mim, ele apontou novamente a arma. – E sua namorada vai ser a primeira.
– Por favor, Basso... – Peter começou novamente, mas foi interrompido.
– Coloque-a de pé, Juan. – Ele ordenou, ignorando Stevens. Senti um puxão em meus cabelos, e logo estava de pé. – Traga-a pra perto de mim. – O comparsa agarrou meus dois pulsos atrás das minhas costas, e me deu um chute na parte de trás do meu joelho, me obrigando a andar. Enquanto caminhava a passos lentos até o meu assassino, arrisquei uma olhadela pra meus amigos, as pessoas que eu tanto amava. Carrie, agora de pé a alguns metros de mim, encarava o chão. Mentalmente pedi que ela olhasse pra mim, pra que pudesse me despedir. Mas ela não o fez.
Lisa, minha melhor amiga há mais de uma década, parecia desolada. Sua mão estava na frente da boca, e seus olhos estavam arregalados, já começando a se encher de lágrimas. Lancei-lhe um sorriso tímido, um pedido silencioso de que ela ficasse bem. Enfim, encarei Peter. Ele estava estético, os olhos encarando o nada. Mas antes que eu virasse pra frente, pude captar um olhar. Um olhar que durou um segundo, mas que teve um milhão de significados. Dor, culpa, raiva e enfim, amor.
Num pensamento masoquista, imaginei uma vida paralela, aonde não existia dívida, nem Basso, apenas eu e Peter felizes, morando numa casa simples, mas confortável, com um casal de crianças correndo por ai.
A cena de uma família normal me lembrou de algo bem mais doloroso. A minha própria. Meus pais, que já sofreram tanto perdendo uma filha, agora perderiam outra. Enquanto lágrimas quentes corriam pelo meu rosto, rezei pra que minha mãe fosse forte o suficiente pra aguentar mais essa perda. Caso se afundasse na depressão novamente, meu pai teria que interná-la numa clínica pra poder trabalhar e conseguirem sobreviver. Sabia que minha mãe não aguentaria isso. Perder duas filhas e ser abandonada numa clínica. Ela morreria lá. E meu pai ficaria sozinho.
Eu ainda chorava quando um puxão no braço me fez parar de andar. Eu estava razoavelmente mais perto de Basso, e alguns metros de Carrie. O mafioso me encarava zombeteiro, mas eu não me importei. Apenas fechei os olhos.
– Acabe logo com isso. – Pedi, seca. Ouvi sua risada baixa, e me perguntei como uma pessoa podia ser tão cruel assim. Será que ele não tinha filhos? Será que não tinha ninguém no mundo que amasse, por isso era tão frio? Como alguém podia achar graça em acabar com a vida de alguém?
– Prometo que será rápido, docinho. Você não irá sentir nada. – Ele respondeu e eu assenti, ainda de olhos fechados. Não queria ver a minha própria morte. Respirei fundo e me preparei. O ouvi apontar a arma, e então, apertar o gatilho. Fui fortemente empurrada pra trás e bati a cabeça em algo duro. Era isso? A morte era assim? Então por que nada doía?
Parei de me fazer perguntas quando senti algo pesado em cima de mim, e logo várias vozes se fizeram ouvir. Abri meus olhos, percebendo que ainda estava na sala de aula. Quando olhei pra baixo pra entender o que era aquilo que tanto pesava, porém, meu coração parou.
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