Eu olhei para o garoto, que estava sentado ao meu lado. Suas mãos pousavam em suas pernas, os olhos olhavam em direção a elas, seus lábios finos superiormente e mais grossos inferiormente estavam em uma linha sem expressão, como se a minha presença estivesse incomodando-o, eu sabia que não era isso, ele apenas temia que eu falasse aquilo que pensava, seria errado da minha parte falar, eu admito, mas mesmo assim, eu falei.

- Nós somos demônios, em busca que alguma Alma Pura nos ame. Quando encontramos isso, não interessa se amamos ou não essa Alma, nós apenas aceitamos o amor que acreditamos merecer. Você não é o mesmo quando se está junto com alguma Puritana, você muda, talvez seja algo bom, mas no fundo, você quer soltar todo o seu lado demônio que fica preso quando se está ao lado delas. – Falei de uma maneira fria e arrogante, já para mostrar o que ele estava tentando esconder durante todos esses meses.

Nós éramos demônios, da pior raça possível, éramos parte dos três mais poderosos depois de Lúcifer. Em primeiro lugar ficava Eddard, ele raramente vagava sobre a terra. Mas quando vagava era apenas para transformar Almas Puras, em pequenos demônios. A maioria era descartável, usávamos para fazer algum trabalho, onde eles sempre acabavam mortos. Não que isso importava, Almas Puras sempre tentavam se tornar Puritanas novamente, nunca dava certo, mas era divertido vê-los tentando. Uma das maiores qualidades dele, era a facilidade que ele tinha em manipular Puritanas de mente fraca. Ele dava uma atenção, fazia coisas para elas, fazia com que elas se apaixonassem por sua beleza e carisma. Então puf, elas quebravam a maior qualidade de uma Alma Pura.

Veja bem, sendo uma AP (como chamamos às vezes as Almas Puras), seu destino deve ser ao lado de um humano com o coração bom, ou então, outro AP, para manter uma linhagem “pura”. Então, ao perder a virgindade com um demônio, com toda a certeza do mundo, você estará bem lascado com o seu superior, que eu não fazia idéia de quem era.

Eu era a segunda, logo após o Eddard. Quando vim para a terra, me tornei aquilo que muitos tinham medo, uma mulher, linda, poderosa, persuasiva e mortífera. Meu maior divertimento, era observar as AP, vê-las se apaixonando e então, acabar com tudo. Elas normalmente iam à loucura. Mas não era esse meu trabalho, eu tinha que treinar os AP, transformá-los em algo útil ou então, mandá-los para alguma missão suicida.

Uma vez conheci uma antiga AP, que chorava muito, por causa do Edd, ela dizia que o amava. Que queria vê-lo. Ela tinha algo especial, que por um breve momento de insanidade, me fez ter compaixão. Deixei que ela fosse vê-lo, logo depois fosse se despedir de sua família. Quando Edd descobriu, ele veio diretamente a mim, me amarrou em um poste, pegou seu chicote de espinhos, foram quarenta estaladas em minhas costas, eu nunca esqueci, mas também, nunca mais errei.

Já Henry, ele tinha algo diferente. Alguns dizem que ele já foi um AP, mas uma demônio conseguiu corrompe-lo, logo após isso, eu nasci e ela morreu. Pois em um lugar onde só se podem ter três postos, alguém deve morrer. Então Henry assassinou-a e eu ocupei seu lugar. Alguns dizem que ele a amava, mas não conseguia perdoar o que ela havia feito a ele. Eu não sei até onde era verdade, mas nunca perguntei para ele. Passado é passado, somos demônios, não devemos nos importar com isso.

Ele tinha uma aparência bela, estilo bad boy, mostrava o lado um lado sensível, compreensivo, carinhoso, mas ao mesmo tempo ele adorava quebrar regras, ele era... encantador. Quando eu cheguei no inferno, logo após a demônio anterior a mim morrer, Henry me ajudou a entender as coisas. Demônios tem um misero de sentimentos e eu me apaixonei por Henry, tivemos um caso, ele parecia ser o par perfeito. Até que eu vi a preferência dele, por Almas Puras, superei, ergui a cabeça e todo aquele misero de sentimentos, se congelaram. Dediquei-me a boa parte do meu tempo a fazer todas as AP’s sofrerem. Então Eddard me chamou e explicou minhas tarefas, mas não vou negar, sempre que possível, eu dava um jeito de manter as coisas difíceis para ele.

Agora estamos aqui, dentro de um ônibus, um do lado do outro, seguindo em alguma direção que não sei aonde vai nos levar. Henry sempre adorava transportes humanos, já eu e Eddard abríamos nossas asas e íamos para onde queríamos. Apenas quatro seres do mundo inferior possuíam asas, Lucifer, com as asas mais brancas que podiam cegar ou encantar o individuo que olhasse Eddard, com asas acinzentadas e pontas vermelho fogo, as minhas são pretas com fios dourados e as asas do Henry pretas com branco.

- Você vai mesmo ficar quieto, Henry? É tão covarde a esse ponto de se calar? – Falei olhando em direção a janela. Passávamos em frente a prédios, casas, humanos vivendo sua vidinha medíocre, resumida em: trabalho e dinheiro.

- A única coisa que penso em falar agora, Carrie, é, cala a boca. – Falou ele, não consegui conter o sorriso, coloquei minha mão sobre a mão dele.

- Olha pra mim, — Falei com calma, ele olhou. Seus olhos negros e brilhantes piscaram, os cílios espessos se tocaram, suas narinas se inflaram, as sobrancelhas grossas se ergueram e eu sorri, recebendo um sorriso branquinho, com seus caninos pontudos, dentes perfeitamente alinhados, tudo perfeito. – Eu só quero ajudar, querendo ou não, se o Eddard ou Lucifer souberem do seu caso com ela... você sabe o que vai acontecer.

- Eu sei, vou ser chicoteado, ela vai sumir de todas as partes do universo e assim vai. – Falou ele com um ar extremamente cansado. Ele já havia passado por isso.

Ela era uma Alma tão maravilhosa, querida, fofa, bonita. Até eu gostava dela, quando descobriram sobre Henry estar tendo um caso com ela e sobre eu ajudar a encobertar. Nós dois fomos para o poste, o próprio Lucifer nos chicoteou, vinte chicotadas em mim e noventa nele. A pior parte foi vê-lo sofrendo e não poder fazer nada. Só de lembrar, minhas asas se agitavam e as penas se arrepiavam e então, a pior parte de todo aquele show de horrores, foi escutar a voz rouca de Lucifer falando “Apesar de tudo, vocês são meus favoritos, os três abaixo de mim. Mas... o amor deixa vocês fraco, por isso, digam adeus a ela”. Ele mostrou a menina e então, ela virou pó, diante dos nossos olhos.

- Eu gosto de você, se você morrer, alguém ira surgir para tomar seu lugar, não to a fim de ter um novato falando ou fazendo merda igual você faz. – Era a mais pura verdade, só que eu... tinha medo de perde-lo.

- Eu também gosto de você, apesar de muitas vezes você estragar meus relacionamentos e trazer o inferno até a terra quando esta com ciúmes, eu gosto de você. – Falou ele pegando na minha mão.

- A onde vamos? – Falei entrançando meus dedos nos dele.

- Temos trabalho a fazer, almas a recolher. Tem uma garota, que é um demônio, o nome dela é Jane Kings, você vai ter que treiná-la. – Falou ele.

- Por algum motivo em especial ou só por ela ser nova? – Perguntei me virando em direção a ele.

- Pelo fato de que ela é um demônio, nascida demônio, criada como humana. – Falou ele sério. Ergui a sobrancelha em espanto, não era o primeiro caso sobre um demônio meio humano, eles eram fracos e morriam, mas essa demônio parecia ter algo de maior nela. – Ela uma duquesa do Inferno, abaixo do nosso escalão, extremamente forte, você vai precisar ajudá-la.

- Nem fodendo, Duquesas são cheias de frescura, Lucifer que treine ela.

- Ele mesmo ordenou isso, você não vai querer desobedecer a uma ordem dele, não é mesmo? – Fiz que não com a cabeça. Henry levantou, segui atrás dele, descemos do ônibus.

- Vamos voando? – Perguntei baixinho.

- Vamos, aqui é perigoso demais, até pra gente. – Abrimos nossas asas levantamos vôo e seguimos em frente. Podíamos ser uma das criaturas mais fortes do inferno, mas mesmo assim, tínhamos inimigos. Demônios eram mortos, suas asas eram entregues em nossos portões. Lucifer ordenou certa vez, um ataque, mas nunca descobrimos quem eram os atacantes e nem de onde vinham. Sobrevoamos vários lugares, até que pousamos em um deposito antigo, todo quebrado, Henry abriu uma porta, onde la estava sentada uma garota, parecia ter mais ou menos a minha idade, ou pelo menos o que eu aparento ter, porque na verdade tenho 900 anos, mas com carinha de 17.

- Olá senhora e senhor, o próprio Lucifer mando vocês virem buscar a Duquesa do inferno mais linda desse mundo? Adoro uma bela escolta, principalmente com um Demônio tão lindo. – Falou ela, que estava sentada em uma cadeira de madeira com veludo vermelho. Levantei a sobrancelha e o Henry deu uma risada seca.

- Nós viemos te levar pro Inferno, mas antes temos coisas para fazer, Almas para buscar, não é só você não, fofura.- Falei rispidamente.

- Hum, interessante. Então vamos, porque não sou obrigada a esperar vocês. – Disse a Duquesa se levantando. Sua pele morena, quando em contato com o pouco de luz do sol que entrava no deposito, ficava brilhando, como se ela mesmo irradiasse brilho, seus cabelos vermelhos como fogo lembravam as pontas das asas de Eddard, seus lábios grossos eram carregados de batom vermelho, seus olhos escuros possuíam maquiagem escura, seu corpo... que corpo ein, magra, seios praticamente amostra por causa do decote da blusa de couro preta, faziam com que eles parecessem enormes, suas coxas fartas e amostra por causa de uma micro saia preta, exibindo sua pele bronzeada “cor do pecado”, já em seus pés, saltos vermelhos, com...eu acho que eram rubis vermelhos, davam um toque final, mostrando que ela realmente é uma Duquesa Infernal.

- Va-vamos então. – Gaguejou Henry. Dei uma cotovelada no garoto que olhava fixamente para a menina, que percebeu isso, sorriu e jogou o cabelo que estava cobrindo os seios para trás, dando uma risadinha e piscando para ele.

- Vamos queridos. – Disse ela se aproximando, pegando na minha mão e de Henry. Olhei torto pra ela e ela disse – Você realmente não acha que eu vou andar com esses belos saltos, né? – Revirei os olhos, abri minhas asas, Henry fez o mesmo. Então nos pusemos a voar com a Duquesa.