Who are you?
24 Entre a Cruz e a Espada.
Notas iniciais
Para não atrapalhar o clima mais calmo que se instalou na noite anterior com Brittany, Santana resolveu por bem apenas atualizá-la das novidades na manhã seguinte.
— O investigador bem que poderia ter te antecipado alguma coisa sobre o que se trata a nova pista. – Brittany dizia enquanto dirigia rumo à delegacia.
— Eu não sei se isso me deixaria mais ansiosa ou não.
— Se tivesse me dito, eu tinha te feito ir até lá ontem mesmo.
— Você estava mais ocupada com outras coisas... – Revirou os olhos ao se lembrar das cenas.
— Não acredito que você vai recomeçar com isso. É tão absurdo eu e a Marley! – Não conseguia imaginar.
— Como era absurdo nós duas? – Passou a encará-la.
— Não! Nós duas somos diferentes, nossa história é diferente. E você deveria saber que eu não trairia você. Não é porque eu traio o meu marido com você, que eu trairia você... – Disse de forma confusa, que acabou arrancando uma risada das duas.
— Eu sei de você, mas não sei dela... Ela tem um crush em você.
— Quê? Você está se ouvindo? Marley? Marley Rose com um crush em mim? Há dois anos ela trabalha comigo e nunca houve nada.
— Por que acha tão impossível? Você é inteligente, é gostosa, é poderosa... Não há nada que impeça. É só perceber a forma que ela fala com você, querendo te agradar em tudo.
— Ela é minha secretária, trabalha pra mim, é óbvio que ela quer me agradar. – Afirmou como se fosse lógico.
— Tanto assim? E como ela te olha então? Só falta ela te jogar na mesa e te comer.
— Isso eu só quero com você. – Disse num tom mais sexy que Santana sentiu um calor entre suas pernas. – E pra dar um fim na conversa, Rose gosta de homens.
— Quem disse? Ela te apresenta os namorados pra ver se você aprova também?
— Aí Santana, desisto. Quando você mete alguma coisa na cabeça... – Bufou sabendo que aquela conversa não chegaria a lugar nenhum. – Apenas confie em mim e nos meus sentimentos por você. – Pode agora olhá-la nos olhos, já que acabara de estacionar o carro em frente a delegacia.
— Eu confio. Confio mesmo. – Se debruçou no carro e alcançou o rosto dela, lhe dando um breve beijo. – Vamos ver o que temos pra hoje.
— O advogado disse que nos encontraria aqui.
Elas se encaminharam pra parte de dentro da delegacia, onde foram conduzidas pra sala do investigador.
— Senhora Pierce, senhorita Lopez. – O advogado as cumprimentou. – Temos boas e más notícias.
— Acho que é sempre assim, né? Vem a boa e logo em seguida a má. – Lamentou a loira.
— Mas do que se trata?
— Eu respondo. – O investigador surgiu a sala e indicou as cadeiras para que elas se sentassem. – Eu sou o investigador de polícia Zach. E vou passar dois vídeos que nós tivemos acesso. Graças ao sistema de monitoramento de segurança da cidade. Essas câmeras são instaladas na vias públicas pra tentar reprimir o número de crimes. E nós tivemos a sacada de pedir acesso a elas. – Pegou seu notebook e colocou na frente das mulheres. – Essa é você, Santana, saindo do velório dos seus pais em Lima. Entrou no táxi, foi até a casa da família em Lima, cerca de 10 minutos está de volta ao táxi com diversas malas. Num determinado túnel, você é supostamente sequestrada. O taxista registrou um boletim de ocorrência, dizendo que dois caras armados, como você descreveu, cercaram o carro e te fizeram entrar, levando somente as suas coisas e nenhum dinheiro dele.
Santana fechou os olhos e sentiu uma forte pressão em sua cabeça, uma enxurrada de memórias se fez presente. Inclusive dela arrumando as suas malas, colocando etiquetas com seu nome, sem saber o motivo daquilo. O que poderia explicar como uma delas foi parar grudada em sua camisa, motivo pelo qual descobriram sua identidade. Mas junto as suas malas, algumas outras foram deixadas de lado. Depois ela se viu dentro do táxi, chorando horrores, muito provavelmente pela dor de perder os pais, de acabar de enterrá-los. Lembrou-se do momento que os sequestradores encurralaram o táxi e a fizeram entrar com violência no carro. Lembrou de ter uma arma apontada para sua cabeça e dois homens que gritavam com ela o tempo todo. Gritavam seu nome e pediam para que tivesse calma. Calma? Era irônico demais. E por fim, lembrou deles dizendo que iam para longe, para dificultar qualquer busca.
— Eu me lembro! Eles não queriam que eu fosse encontrada, por isso vieram pra Rochester. Eles sabiam quem eu era. Não foi por acaso. – Falou com certo entusiasmo. — Quer dizer que a minha versão se comprova? Eu fiquei praticamente um mês em cárcere?
— Teoricamente sim.
— Por que teoricamente? Vocês têm a filmagem, o depoimento do taxista. – Brittany se demonstrava mais impaciente.
— Tudo isso pode ter sido armado, a senhora não percebe? Nós precisamos encontrar esses sequestradores.
— E o senhor espera que eles se entreguem? Batam aqui na delegacia e falem “doutor, víemos dar nossas cabeças de bandeja”.
— Santana! – Brittany a repreendeu, conhecendo bem aquele espírito agressivo dela.
— Senhorita Lopez, entenda que não podemos descartar nada. Não é só porque a senhorita diz que é inocente, que devemos acreditar.
— Zach, por que não mostra a outra fita? – Pediu o advogado.
— Sim, claro. – Mudou o vídeo. – Essa é a filmagem de uma oficina mecânica, local onde o seu pai deixou o carro pra revisão, um dia antes do acidente. Segundo empregados, eles pretendiam fazer um passeio comemorativo. Essa oficina era a que eles sempre deixavam o carro. E... – Fez uma pequena pausa para adiantar o vídeo. – Essa é você, momentos depois do seu pai deixar o carro pra ser revisado. Entregando uma grande quantia em dinheiro para o mecânico. Esse homem pediu demissão do emprego no dia seguinte, ninguém sabe onde ele se encontra. Mas estão atrás dele, para que ele possa dizer porque você pagou essa quantia tão grande em dinheiro para ele.
Brittany ficou desconcertada com a cena, não sabia o que dizer. Várias coisas passavam em sua mente ao mesmo tempo e nenhuma podia dar uma boa explicação para aquilo, muito menos defender Santana. A latina por outro lado, olhava a cena e tentava se lembrar de algo, tentava fazer alguma relação que pudesse inocentá-la da prova mais concreta que já haviam apresentado contra ela.
— Espera, deixa eu entender. Vocês acham que eu paguei pra sabotarem o carro dos meus pais? Mas eu não morava fora? Como eu posso estar aí? Não me disseram que eu só vim pro enterro? Como eu posso ter feito essa viagem tão rápido? – Foi a primeira coisa que raciocinou. – Eu... Eu... Eu não posso!
— Nós já estamos averiguando. Pedimos informações pra companhia área. Mas o primordial em te trazer até aqui, é que se você tem algo pra confessar...
— Confessar? Confessar o quê? Eu não tenho nada pra confessar! Eu não sou culpada de nada. – Levantou-se enfurecida. – Diz pra eles, Brittany. Diz que eu não posso ter feito isso. – A angustia começava a tomá-la.
— Eu... – Ela ainda não conseguia falar nada, sua razão brigava bravamente com suas emoções.
Santana sentiu-se ainda mais quebrada pelo fato de ver pela primeira vez a sombra de dúvida nebulosa que cobria os lindos olhos azuis, daquela que havia jurado defendê-la.
— Eu não vou ficar aqui. – Saiu da sala com rapidez.
— Santana! – O advogado tentou detê-la.
— Quando eles tiveram um mandado contra mim, saberão muito bem aonde me encontrar, doutor. Até lá, sinto muito, mas eu não tenho nada pra confessar. Eles não podem me prender, ou já teriam feito, não teriam paciência pra me mostrar vídeos. – Dito isso, seguiu seu caminho sem olhar pra trás.
— Senhora Pierce... Eu sei o que deve estar passando pela sua cabeça. Essas provas são graves, isso em um júri é a sentença assinada de Santana...
— Doutor, a minha cabeça está uma bagunça só.Vamos com calma com isso. — Pausou o advogado, ela já se sentia suficientemente confusa, não precisava de mais palavras dele. — Em quanto tempo conseguem descobrir se Santana esteva fora do país, se não há um engano, quem sabe uma montagem no vídeo, ou ela o pagou por outro motivo...
— Os investigadores estão fazendo o que podem. Mas o único que pode revelar de fato o motivo, é o mecânico. Quanto ela estar fora ou não, creio que seja coisa de dias.
— Tudo bem. Por favor, a qualquer novidade no caso, não deixem de me comunicar. E desculpe pela Santana, mas é uma notícia atordoante. E creio que se ela ficasse aqui, poderia se exaltar além da conta.
— Eu compreendo, ela vai precisar de um tempo pra ela. Mas senhora Pierce, assegure-se de que ela não irá tentar fugir diante dessa revelação. Acho que só não pediram a prisão dela, porque está sobre seus cuidados e por seu estado clínico, porém já não temos mais tanta certeza assim se é seguro. A memória dela está se estruturando, ninguém sabe o que pode acontecer... Se for um fardo grande demais cuidar dela, se si sentir ameaçada...
— Santana não é uma ameaça. Desculpa, doutor, eu não tenho mais condições de continuar essa conversa.
— Desculpe. Atropelamos você e Santana com essas informações. Contudo, não tinha outro jeito.
Brittany sentia uma ânsia de vômito muito forte, mal sabia dizer como chegou até seu carro sem que suas pernas vacilassem.
— Meu Deus, Santana! Como você pode? O que eu faço com você? Meu coração grita que você é inocente, mas como ignorar um fato desses? – Falava sozinha tentando colocar seus pensamentos em ordem.
A loira sentia como se estivesse entre a cruz e a espada. Ela não queria ferir Santana, queria ser um pilar para que a latina pudesse se apoiar em um momento tão delicado como esse, mas ao mesmo tempo, era arriscado demais acreditar nela agora.
Por sua vontade pessoal, ela iria em direção a sua casa e se afundaria em sua cama e só sairia de lá depois que toda essa tempestade tivesse passado. Mas a realidade cruel a lembrava de que ela não podia fazer isso. Ela havia marcado uma reunião com Sam, sabia que seria igualmente exaustivo, mas não tinha como se livrar. Ela foi pra empresa com o pouco de forças que lhe sobrava, sendo que tratou logo de se informar se Santana havia chego lá, mas a resposta foi negativa. Ligou então para casa, onde Lisa a informou que a morena estava trancada em seu quarto, após chegar aos prantos.
— Senhora Pierce... – Marley a chamou um pouco temerosa, uma vez que a chefe não havia nem se quer lhe cumprimentado quando chegou, pedindo apenas informações sobre Santana. – Sei que a senhora pediu pra não ser interrompida, pra só avisá-la quando o senhor Evans estivesse disponível pra reunião... Mas estou preocupada com a senhora, parece bem abatida e pálida, depois daquele desmaio no outro dia...
— Eu te traumatizei, eu sei. – Suspirou cansada. – Não precisa se preocupar, a menos que ouça o barulho de uma abóbora se estatelando no chão... Eu só preciso que esse dia termine. Quem sabe essa temporada da minha vida...
— Eu sei o que pode ajudá-la a suportar, uma boa dose de café. Eu vou pegar pra senhora.
— Oh Marley, me conhece muito bem. Eu não sei o que eu faria sem você! – Sorriu fraco pela prestatividade da secretária.
Assim que Marley saiu, o celular de Brittany começou a tocar. Por um momento, ela pensou ser Santana, mas o nome da tela registrava “Rachel”. A loira pensou por alguns momentos se queria atender, não se sentia em condições de levar um diálogo. Mas como se tratava de Rachel, sabia que a morena levaria a conversa sozinha se possível.
— Oi, Rachel.
“- Britt, olá. Eu fui incumbida pela Quinn de cuidar das coisas pro jantar de Ação de Graças, depois de uma injusta aposta que eu perdi...” — A loira podia ouvir a amiga bufar.
— Que tipo de aposta?
“- Do tipo sexual, e que não posso te dizer por telefone...” — Ela tinha certeza que Rachel estava vermelha. – “O fato é que eu estou no supermercado agora, e já está uma loucura. Pretendo me encarregar da sobremesa, já que soube por fontes seguras de que Noah cuidará da bebida. Ou seja, é muito provável que todos, menos Quinn, sofra um coma alcóolico.”
— Queira Deus! Preciso de grandes doses de álcool. – Disse sem pensar. – No que eu posso te ajudar?
“- Eu quero saber se todos estão de acordo com torta de limão, que é minha especialidade. Ou se vocês têm qualquer tipo de frescura.”
Brittany lembrou-se da imagem da Santana chupando limões puros, um desejo que sentia sempre depois que faziam amor. “Amor”, era exatamente isso que elas faziam quando seus corpos se encontravam. Não importava se era selvagem, ou mais delicado, não importava se era uma explosão de tesão ou um pedido da alma... O amor estava presente, era inegável.
“- Brittany? Brittany? Está me escutando?” — A morena tinha um tom alterado.
— Desculpe, eu estou sim... Hã, quanto à torta, todos adoramos limão!
“- Ótimo, então vai ser limão. Vou fazer mais de uma, porque Quinn só falta comer a casa ultimamente...”
— É a gravidez! – Sorriu sabendo perfeitamente como era essa fase. – Rach, você vai estar muito ocupada mais tarde?
“- Não, a galeria vai abrir só depois do feriado. Quinn vai ter uma reunião de conselho, estarei totalmente livre.”
— Ótimo! Eu preciso muito conversar com alguém sobre algo e acho que você é a melhor pessoa pra isso.
“- Eu vou fazer as compras, daqui a pouco eu estou aí.”
— Te aguardo. – Despediu-se da amiga e logo viu Marley entrar na sala trazendo seu café.
— Como à senhora gosta. – Entregou o copo a chefe. – E o senhor Evans a espera na sala de reuniões.
— Que a força esteja ao meu lado! Marley, se Rachel chegar antes de eu terminar, peça que ela me aguarde em minha sala.
— Sim, senhora.
A reunião entre o casal se mostrou exaustiva para ambos, era como um balanço que precisavam fazer mensalmente para juntos prestarem contas aos seus pais. Naquela situação, mais do que nunca, Brittany acreditava que era uma bobagem perder tempo com isso, uma vez que todos sabiam qual era a real situação e que para terem chegado aquele ponto, as outras reuniões não tiveram efeito algum.
— Acho que encerramos, Evans. Pode levar isso pro seu pai. – Empurrou as planilhas em direção ao marido.
— Cadê a cópia pro seu?
— Se ele estiver tão interessado assim pode vir buscar... – Desdenhou enquanto dava mais atenção as suas anotações, mas se sentiu incomodada quando percebeu que Sam continuava sentado a encarando. – Que foi, Sam? – Perguntou sem o olhar.
— Eu preciso falar muito sério com você. Sobre a devolução do dinheiro a filial.
— O que tem?
— Brittany eu... – Nesse instante ela largou sua caneta, levantou sua cabeça e finalmente o olhou diretamente.
— O que foi que você fez?
— Eu... – Engoliu em seco se sentindo receoso.
— Desembucha, homem!
— Eu não tenho como pagar Brittany! – Falou tão rápido que ela quase não entendeu.
— Como assim não tem como pagar? Que absurdo é esse? Tá com medo de perder seus luxos? Não se preocupe, que seu salário é bom.
— Não, Brittany, não brinca. É muito sério!
— Sam, me fala logo o que está acontecendo. Vende suas coisas, mexe em suas aplicações, não sei... O prazo tá acabando, os juros já estão absurdos demais!
— Esse é o problema, eu não tenho mais nada. – Pela segunda vez no dia, as feições de Brittany se paralisaram. – Você tinha razão quando disse que eu não podia ter agido sem a ajuda de ninguém. Na filial, eu fiz negócios com o Ryan do jurídico, foi ele quem me explicou tudo, ele quem fez os papéis e foi comigo negociar com cada banco. Ele me indicou que aplicações fazer e onde fazer, praticamente ele executou todo meu plano.
— E ele estava sentado a minha frente o tempo todo em Queens, traçando metas e soluções de problemas que ele mesmo causou... – Levou a mão ao rosto se sentindo uma palhaça.
— O fato é que eu perdi uma parte do dinheiro na bolsa como tinha te informado, mas havia todo o restante...
— O que aconteceu com o dinheiro? Não me diga que fez outro investimento louco e...
— Não! Eu fiz pior. Eu confiei na pessoa errada. Eu confiei meus bens ao Ryan. Ele que estava gerindo tudo, tendo pequenas participações no lucro. Mas pra isso eu assinei uma procuração... – Brittany colocou os braços sobre a mesa e lentamente foi deitando sua cabeça sobre eles, temendo o que viria a seguir. –Simplificando... Ele roubou o dinheiro. Assim que você saiu de Queens ele ficou apavorado e parece que ficou sabendo por um amigo dele da Receita que vão fazer uma investigação por lá, então ele resolveu fugir com o resto do dinheiro do empréstimo, mais meus bens. Está tudo no nome dele. A herança do meu avô, o dinheiro que meu pai me deu, meus últimos salários, meus imóveis, meus investimentos... Sumiu tudo da minha conta! Está num paraíso fiscal e eu não sei onde. Muito menos posso imaginar onde ele esteja. Eu fali! E se eu não conseguir o dinheiro pra pagar os bancos, eu vou falir nossas empresas também. Sem a minha ajuda, meu pai não vai ter tempo de dispor do dinheiro dele pra cobrir o rombo sozinho, porque ele investe muito e em muitas coisas... Os juros vão triplicar com o tempo e a divida vai nos consumir!
— Cala boca! — Ela gritou e aquilo saiu como uma explosão de seu peito, tinha raiva demais acumulada ali. — Cala boca, Sam, porque eu posso te socar bem agora! Você conseguiu arruinar tudo.
— Por isso eu estou aqui, pra você me ajudar...
— Te ajudar? Claro, você não iria me contar isso à toa, se não quisesse algo. Claro que você precisaria vir correndo pra mim pra que eu pudesse limpar a sua bagunça.
— Brittany, eu te imploro. Se quiser eu me ajoelho. – Saiu da cadeira e foi com os joelhos direto pro chão na frente dela. – Mas você tem que me ajudar.
— Levanta daí, Sam. Para de bancar o ridículo! – Insistia puxando-o para cima pelos braços.
— Você não entende o meu desespero.
— Entendo, claro que eu entendo. Você acaba de jogar todo o nosso patrimônio no lixo. – Gritou a última frase, perdendo mais uma vez o controle de sua voz, uma vez que o do emocional já tinha ido faz tempo. – Sério, como um homem inteligente como você foi cair nessa roubada? Conta pra mim! Onde já se viu um empresário milionário como você assinar uma procuração para que terceiros possam dispor de seus bens? Onde! — Bateu com tanta força a sua mão na mesa que pode senti-la doer. — Olha, Sam, eu vou te ajudar, não porque eu sinta dó de você, que me compadeça de seu desespero. Eu queria mais que você se fodesse. Você não cresce exatamente porque sempre tem alguém que limpe a sua barra. Entretanto, é o patrimônio do nosso filho. As empresas que meus avos construíram que vão para o saco. Tudo pelo que eu dei duro, me dediquei, perdi horas de sono, perdi tempo de qualidade com Luca, perdi a minha vida, vai por água a baixo... Tem muito meu investido aqui também, que vai bem além do dinheiro. Porque se fosse só isso... Eu tenho meu patrimônio particular. Eu viveria muito melhor só com isso. Mas, imagina também quantas milhares de pessoas perderiam seus empregos? Quantos danos causaríamos? Você se fez essas perguntas? Claro que não. Está só pensando em tudo que perdeu e nas consequências disso. Ainda bem que eu ainda tenho um fio de razão na minha cabeça. É só por isso que eu vou te ajudar. Porque eu juro que tem uma voz aqui dentro que está suplicando pra deixar tudo se explodir de vez. Esperar o Titanic afundar, sabe?
— Eu sei que não faz nada por mim, nem eu poderia pedir. De qualquer jeito no final eu não terei nada. Mas você sabe que...
— Seu pai te mataria. É, eu sei que seu rabo está na reta, Evans. Pelo menos seja esperto e notifique a polícia do desfalque que sofreu. Eles podem tentar encontrar o Ryan.
— Com tanto dinheiro você não acha que ele já não desapareceu no mundo? Sem contar que se eu for à polícia, eles vão saber do desfalque que eu dei primeiro.
— Não se preocupe, eles já sabem. – Reuniu todos os seus objetos de cima da mesa e foi em direção a saída da sala.
— Como assim já sabem? – Foi ignorado por ela. – Brittany? Brittany? – Insistiu alterado sem resposta.
— Marley, eu vou pra casa, minha cabeça está explodindo!
— Mas a senhora Berry está na sala, aguardando há pelo menos uns quarenta minutos...
— Aí não, por que eu fui fazer isso? Separa um comprimido então pra mim, saindo eu tomo. – Entrou na sala, reunindo as poucas forças que tinha. – Rach. – Abraçou a amiga que veio ao seu encontro assim que a viu entrar na sala. – Desculpe tê-la feito esperar tanto.
— Não se preocupe. – Beijou o rosto da amiga. –Eu fiquei distraída enviando fotos de quarto de bebê pra Quinn, quando ela sair da reunião, vai ter zilhões de mensagens pra ver. – Sorriu divertida. – Você está bem? Sua cara está péssima!
— Na verdade não. – Indicou o sofá para que se sentassem. – Parece que eu estou carregando uns dez pianos de calda nas costas.
— O que aconteceu? Foi por isso que me pediu pra vim?
— Aconteceu tudo hoje! – Suspirou profundamente. – E sim, eu te pedir pra vim, tem haver com essa situação. Eu sempre falo com a Quinn, ela tem o poder de me colocar pra racionalizar. Mas agora, nesse momento, eu não quero ser racional, eu preciso entender meus sentimentos. E quem melhor do que Rachel Barbra Berry pra tratar de emoção?
— Me sinto até lisonjeada. – Elas riram de forma espontânea. – O que quer saber?
— Como você descobriu que amava a Quinn? Quero dizer, você sempre foi apaixonada pelo Finn e o amou também. Quando você soube que o que sentia por ela era mais forte que tudo? Como teve certeza a ponto de largar tudo por ela?
— Apesar de eu saber há muito tempo, eu demorei pra admitir pra mim mesma. Como você disse, eu amava o Finn e ele me amava também. Porém, à medida que o tempo ia passando, ficou difícil esconder ou negar. Quinn era completamente diferente de mim, mas isso me enlouquecia. Eu queria estar perto dela o tempo todo, ficava ansiosa quando não estava. Queria cuidar, queria abraçar, queria beijar, queria que fosse minha... Então eu pensei que fosse apenas “tesão”, foi quando eu trai Finn com ela. Só que a partir daí os meus sentimentos ficaram mais fortes. Parecia que eu sentia o cheiro dela em toda parte, borboletas no estômago quando ela falava. Ficava deprimida só de pensar que ela poderia ser de outro alguém. Nossas conversas fluíam com tanta facilidade, eu podia passar horas ao lado dela sem me enjoar. Dormia e acordava pensando nela, e a atração virou admiração pela mulher que ela é. Minha cabeça dizia não, que era errado. Mas meu coração falava mais alto e quando eu via já estava ao lado dela. E então, eu decidi desligar o botão do meu cérebro e me deixar levar, foi a melhor coisa que eu fiz. Nunca fui tão feliz quanto ao lado dela.
— Oh meu Deus, eu estou perdida! – Desabafou sabendo que sentia algo similar por Santana.
— Santana é uma boa pessoa, Britt. Logo poderão resolver essa situação para ficarem juntas.
— O problema, Rach, é que o jogo virou novamente e agora está tudo cotra Santana. As provas que poderiam ajudá-la estão cada vez mais frágeis e eu tenho medo de desligar esse botão do meu cérebro e me meter em uma roubada.
— Amiga, essa é uma briga sua. Eu sei que me quis aqui pra poder te ajudar a achar uma solução, mas o melhor conselho que eu posso te dar é: assuma sua vida, assuma suas escolhas. Eu sei que internamente você já escolheu, mas como sempre precisa que alguém te diga que está certo. A sua vida toda você sempre foi controlada pela sua mãe, seu pai, até sua irmã te influenciava em benefício próprio. – Tomou as mãos de Brittany com carinho. – Mas agora ninguém pode te ajudar. Ou você diz a Santana pra sair da sua casa, resolver sua vida e manter distância. Ou você fica com ela e a apoia até o final. Não temos meio termo. Sei que não escolheu a Quinn pra conversar porque ela te diria exatamente isso, ela é bem mais dura do que eu. Contudo, eu não posso assumir essa escolha por você.
— Pelo menos você é mais fofa do que ela sendo dura comigo. – Ambas sorriram.
— Venha aqui. – Abriu os braços e abraçou a amiga.
Em casa, Santana passou horas tentando traçar uma linha em sua cabeça, tentando encaixar cada acontecimento que se recordava, assim como todas as informações que recebeu. Usou até mesmo de um caderno para anotar e tentar deixar tudo mais organizado, traçou teorias, estabeleceu possibilidades, fez uma balança sobre coisas que pesavam contra e a favor de sua inocência. Quanto mais ela pensava, mais sentia sua cabeça ferver e mais uma ideia ganhava força: ela precisava ir a Albany. Ela precisava ir à sua casa, precisava ir à sua empresa e precisava encontrar a sua avó. A angustia iria consumi-la se tivesse que ficar em casa aguardando as próximas acusações, ou pior, esperando que a polícia voltasse de fato com um mandado para prendê-la.
— É hora! – Disse para si mesma.
Não muito depois, Brittany chegou em casa. Não aguentou cumprir seu expediente até o final, estava completamente esgotada emocional e intelectualmente.
Ela jogou sua bolsa no sofá da sala, subiu as escadas com as pernas com peso de chumbo, passou pelo quarto do filho que tirava uma soneca gostosa da tarde e foi em direção ao quarto de Santana. Bateu a porta, mas não obteve resposta, com certeza estava sendo ignorada, como tantas vezes quando a latina se fechava. Pensou em não insistir, mas como Rachel havia dito, ninguém mais poderia resolver essa situação para ela. Entrou no quarto, mesmo sem receber permissão e viu uma bagunça de cabides por toda parte, o guarda-roupa com as portas escancaradas e praticamente vazio. Um desespero tomou seu corpo, junto com um vazio muito grande. Sobre a cama o caderno que Santana havia usado para tentar se entender. A tinta borrada em algumas partes denunciava que a morena tinha chorado muito.
— Senhora Pierce... – Lisa apareceu na porta chamando a atenção da loira. – Ela se foi.
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