Who Are You?

10 Capitulo 10


A noite passada pareceu durar uma eternidade, e fui vencida pelo pesadelo novamente a cada vez que fechava o olho. Era bem cedo quando meus pais entraram no meu quarto perguntando o que tinha acontecido para me deixar tão assustada.

Pensei na resposta, não queria dizer a verdade para eles, não sabia se aquilo que tinha visto na janela era de fato verdadeiro ou apenas a minha imaginação.

Dando de ombros, respondi que tinha me assustado com um com algo que pensei ter visto lá fora, e que com isso acabei quebrando o copo.

Eles se entreolham e não disseram mais nada. Acho que entenderam que eu não queria muito papo.

Me deixando sozinha novamente, olhei meus pés para ver o tamanho do estrago feito pelos cacos de vidro. Os cortes não eram tão profundos, mas ardiam bastante quando tocava. Seria difícil para andar, pois além de arder, meus pés estavam cheio de pomada para aliviar um pouco.

Minha mãe provavelmente teve o mesmo pensamento que o meu, pois depois de um tempo, me trouxe os comprimidos e meu café da manhã. Ela ia se retirar, mas antes que fizesse isso, a chamei:

–Mãe?

Ela se virou e respondeu:

–Sim?

–Pode ficar comigo agora ou está muito ocupada? — Perguntei.

–Claro que posso filha — Disse ela dando um sorriso e se sentando em minha cama.

Tentamos não voltar no assunto da noite anterior, e conversamos sobre tudo, como nos velhos tempos, e as horas se passaram rapidamente, e logo mais seria a minha primeira sessão com a analista. Mamãe disse que conversaria com ela, a perguntando se tudo bem ela ter essa primeira consulta em meu quarto, pois não poderia me movimentar muito. Agradeci ela por isso, seria bom poder ficar deitada hoje.

Sozinha novamente, fiquei brincando com o bordado do meu cobertor enquanto esperava a doutora Analice.

Depois de um tempo ouvi alguém batendo na porta, e presumi que fosse ela.

–Como vai Lisa? Sua mãe me contou o que houve. — Disse ela ao entrar em meu quarto parando em minha frente.

–Estou bem, só não posso andar por enquanto. — Respondi dando um sorriso amarelo.

Ela sorriu e disse:

–Vamos começar então?

Assenti com a cabeça, e indiquei para que ela sentasse na poltrona que ficava perto da minha janela.

Me sentei para que eu e ela pudêssemos conversar melhor, e a olhei esperando que ela começasse com as perguntas.

–Muito bem... Por que não me conta como foi aquela noite para você?

Já havia contado aquela história varias e varias vezes, por que me perguntavam tanto sobre aquele dia? Já tinha dito tudo que sabia. Suspirando pesadamente, comecei desde o começo. Contei tudo detalhadamente (Tá, não detalhadamente, escondi as partes íntimas minha e do James).

Ela igualmente aos outros, anotava tudo que escrevia, e quando terminei, ela me encheu de perguntas do tipo: ''O que estava sentindo naquele momento'' ou ''Como ele era com você?''.

Ao final da sessão, achava que ela sabia bem mais da vida do que minha própria mãe.

Sem muita enrolação, ela se despediu profissionalmente, e saiu dizendo um ''Até segunda Lisa, espero que melhore''.

Até que não tinha sido tão ruim... o problema, era que ela tinha me feito lembrar mais uma vez daquele episódio horrível que forçava cada vez mais a minha mente a esquecer.

Olhei para o relógio, e já era o horário de almoço, logo mais começaria minha aula com Kai. Fiquei curiosa para saber como seria, será que ele viria até meu quarto, ou minha mãe o pediria para dar continuidade na segunda-feira?

Me ajeitando na cama, passei mais uma camada de pomada nos pés, queria que isso se curasse logo, era horrível ficar tão impossibilitada no quarto.

Sem perceber, vi que minha mãe estava parada ao meu lado. Olhei pra ela confusa.

–Que foi? — Perguntei.

–Seu professor chegou... Expliquei pra ele sua situação, ele disse que sem problemas dar a aula aqui. Tudo bem para você?

–Tudo bem para a senhora? — Retruquei.

Ela ficou pensativa. Mas se bem conheço ela, sabia que iria deixar, aposto que o que ela mais queria é que minha mente estivesse ocupada de mais para pensar em besteiras.

–Contanto que deixe a porta aberta, tudo bem pra mim. — Disse ela por fim.

Meio sem graça, mamãe deixou Kai na porta do meu quarto, que ficou meio envergonhado. Mas por fim entrou. Deu uma breve olhada em mim (Eu deveria estar muito feia). E perguntou como eu estava. Respondi exatamente a mesma coisa que tinha falado a Analice.

–Como vamos fazer então? — Perguntei para cortar o clima ''hospital'' daquele lugar.

–Bem, podemos trabalhar um pouco de gramatica hoje, o que acha?

–Tudo bem. Pode se sentar na poltrona, ou aqui na cama, onde ficar melhor para estudar. — Disse me sentindo uma pateta. Ele deveria estar rindo mentalmente da minha situação agora.

Pensativo ele sentou na beirada da minha cama, mantendo uma distância segura de mim e começou a explicar. Não pude deixar de notar, ele aparentava ter uns 25 anos, mas mesmo assim, já era bem confiante em tudo que dizia.

Tentei me concentrar no que ele falava, mas estava difícil, não por que ele fosse bonito de mais, mas por que ainda estava mal com a noite passada e lembrar de James só piorou tudo.

Acho que ele notou isso, pois de repente parou a explicação e perguntou:

–Tudo bem? Se não estiver se sentindo disposta, podemos retomar outro dia.

Olhei pra ele, não sabia se queria ou não continuar, ou parar ali mesmo. E sem noção nenhuma, acabei falando uma coisa que não devia.

Como uma tagarela, soltei tudo que me incomodava agora. Nem liguei para a cara de assustado que ele fazia, apenas queria desabafar, e ele era a única pessoa que estava comigo ali naquele momento, então não me contive. Por fim disse:

–Sinto muito, você não tem nada a ver com isso, e mesmo assim, te usei como ouvinte.

–Sou um bom ouvinte? — Disse ele.

–Como? — Perguntei confusa.

–Perguntei se sou um bom ouvinte. Então, eu sou?

Pensei, e dando de ombros disse o que passou pela minha cabeça.

–Sim é sim, e obrigada por me escutar, foi como tirar um peso das minhas costas. — Respondi balançando de mais as minhas mãos pelo ar.

Ele deu risada e logo em seguida comecei a rir também timidamente.

A aula já não tinha mais como ser recomeçada, perdi o foco totalmente, e ele percebeu isso. O silêncio se instalou por entre o quarto, e não sabia o que dizer, desviei meu olhar para a janela, e comecei a encarar a movimentação lá fora.

Sem perceber, ele se levantou arrumando suas coisas.

–Acho que por hoje finalizamos aqui.

Assenti com a cabeça, enquanto via ele mexer na mochila em busca de algo.

–Ei? Trouxe isso aqui pra você, pensei que pudesse ler no final de semana, sei la. — Disse ele dando um sorriso torto.

Peguei o livro da mão dele, e li o título: ''O lado bom da vida''. Já tinha ouvido falar, mas nunca tinha lido, e nem visto ao filme. Confesso que achei bem irônico ele me dar um livro daqueles para eu ler.

–Antes que me julgue pelo titulo escolhido, a história é boa, e faz o tempo passar. Vai por mim.

Achei gentil da parte dele. Agradeci e disse que leria, e logo em seguida fiquei sozinha novamente.

As horas correram lentamente enquanto iniciei minha leitura, estava sem foco e cansada. Desanimada fechei o livro e me deitei. O sono chegou rapidamente, e mesmo ainda sendo um pouco cedo, adormeci.

Acordei com um barulho estranho vindo da minha janela, olhei ao redor, estava bem escuro, deveria ser madrugada já. Tentei ignorar o medo que senti, e me levantei. Olhei por entre as sombras e vi um vulto passar rapidamente. Sem ligar para mais nada corri em direção a porta, mas antes que pudesse abrir, senti mãos me puxando tampando minha boca, me deixando indefesa e sem ação.