Megan corria o mais rápido que seus all star permitiam naquele terreno cheio de galhos e pedras, e via apenas os arbustos se mexendo um pouquinho mais a frente. Ele era mais rápido do que ela, se tentasse atacá-lo, o perderia de vista.

Ela viu a pequena coisinha peluda sair rapidamente do meio das árvores, e então um par de mãos a empurrou, fazendo cair sentada no chão.

— Megan, o que você...?

— Sai! Sai da frente! — Megan empurrou devolta a irmã, e outro par de mãos a derrubou outra vez no chão.

Ela viu a coisinha se esconder tremendo atrás de um par de pernas, segurando com força um pedaço do tecido meio sujo daquela calça escura. Megan ergueu os olhos por um instante e viu um chapéu de caubói sobre a cabeça do dono da calça, e logo voltou a olhar a coisinha.

— Esse troço me mordeu!

— Você também morderia se alguém tentasse te agarrar. — o homem retrucou.

Megan levantou do chão olhando pra ele, e mostrou a marca dos pequenos dentes na base do polegar.

— Ele poderia ter arrancado meu dedo!

— Não com esses dentes de leite. Não se preocupe, vai sobreviver.

Megan bufou, furiosa. Alba passou os dedos em seus cabelos e ajoelhou-se ao lado do rapaz, falando suavemente com a coisinha.

— Olá, pequeno. Sou Alba. Não precisa ter medo de mim, não vamos te machucar.

Ela estendeu a mão e tocou nos cabelos cacheados e castanhos dele, fazendo parar de tremer.

— Você vai se desculpar.

— Não mesmo, Alba, ele me mordeu! — Megan bufou.

Alba segurou a mão do pequeno, fazendo ele sair de trás do rapaz. Megan já tinha lido sobre mitologia, criaturas híbridas de humanos e animais, mas ninguém espera de verdade ver um desses pessoalmente. Ele tinha a altura da cintura do rapaz, orelhas pontudas e caídas para os lados como as de uma cabra, e pernas peludas de cabra.

— Peça desculpas, Megan. — Alba rosnou entre os dentes. Megan bufou.

— Tá. Me desculpa, pequeno sei lá o que. Achei que fosse outra pessoa.

Alba sorriu para ele.

— Viu? Não vamos te machucar. Qual o seu nome, pequeno?

— Ele ainda não tem. — o rapaz mexeu nos cabelos do pequeno — Faunos recebem um nome numa cerimônia, quando os chifres nascem. Por enquanto, o pai dele me confiou esse baixinho pra treinar e aprender.

Alba sorriu mais uma vez para o pequeno fauno, e levantou do chão.

— Então vocês estão perdidas?

— Não exatamente, — Alba falou como se já tivesse dito isso antes — eu perdi um livro pelas redondezas, um grande, e... Sabe como é... Minha chefe me trucida se eu não levar ele devolta e inteirinho...

Megan torceu o nariz. Nunca tinha visto a irmã ficar de risadinhas e falando coisas bobas para um estranho.

— ... Então, se puder nos ajudar a encontrar, ficaríamos muito gratas.

O rapaz passou os dedos nos cabelos por baixo do chapéu, e olhou para o fauno, que deu de ombros.

— Certo, vou quebrar o galho de vocês, o que o velho Nick não faz para ajudar moças, não é? — ele sorriu, tomando a dianteira.

As duas irmãs seguiram o rapaz e o pequeno fauno pelo curto caminho entre as árvores que Megan já conhecia. Os olhos de Alba brilharam quando viu o trenó de mogno escuro puxado por um único cervo grande, mas com chifres pequenos. Megan mordeu a língua segurando o comentário maldoso que passou por sua cabeça "parece que ninguém consegue ter chifres perto desse cara".

— Não brinca! Isso é um trenó? De verdade? — Alba correu e passou os dedos naquela madeira com entalhes suaves de flores, um tanto desgastada pelo uso constante.

— Você nunca tinha visto um desses? — o rapaz segurou o pequeno fauno e o levantou no ar, colocando na traseira do trenó junto com algumas bolsas e sacos de pano escuros.

— Não, — Alba caminhou uns passos, passando os dedos no pelo do cervo — quer dizer, já tinha visto em livros e algumas lojas colocam trenós falsos quando o inverno chega para decoração... Mas assim, de verdade e totalmente funcional, nunca tinha visto de perto.

O rapaz segurou o cinto da calça com as duas mãos e sorriu, olhando para o trenó.

— Sobe aí, moça.

Alba não esperou ele dizer outra vez. Subiu rápido na traseira do trenó junto com o fauno e segurou firme a madeira do assento da frente. Megan não estava nem um pouco animada em ir na frente com o cara desconhecido, sem portas laterais ou cinto de segurança; mas com certeza não queria ir atrás com a criaturinha que tinha mordido ela. Então só sentou na frente e cruzou os braços, emburrada. O rapaz balançou a cabeça, subiu no seu lugar costumeiro, e com um aceno leve nas rédeas do cervo, colocou o trenó em movimento.

Notas finais
Eu gostaria de não me sentir sozinha.