Megan precisou soltar os braços e segurar firme no apoio na frente quando o cervo deu um salto e pegou velocidade, puxando o trenó cada vez mais rápido. As árvores passavam rápidas ao redor deles, e nenhuma pedra ou galho impedia a passagem dos trilhos, o veículo deslizando suavemente na grama como se fosse neve macia.
Alba ria apoiada no assento da frente, os cabelos loiros flamulando ao vento. O pequeno fauno pegou o chapéu do rapaz e colocou em sua própria cabeça segurando firme, rindo junto com sua mais nova colega.
— Como disse que se chamava mesmo? — Megan perguntou, tentando disfarçar o medo repentino.
— Nick, às suas ordens.
— E você por acaso não tem um outro nome, digamos, mais crível?
O rapaz riu, mordendo o lábio inferior suavemente.
— Só Nick, moça. — ele respondeu.
— E o que você faz pra viver?
Nick riu outra vez, meneando a cabeça para Alba.
— A moça faz sempre tantas perguntas? — ele perguntou, ao que recebeu um aceno positivo da irmã — Eu faço entregas, moça. Cartas, encomendas pequenas, grandes, é só pedir que o velho Nick traz!
Megan bufou, olhando para a irmã.
— Isso quer dizer que estamos no carro dos Correios? FedEx? — e cruzou os braços, mas logo se arrependeu — Espero que o frete não custe uma fortuna...
— A primeira viagem é cortesia, moça. — o rapaz riu.
O trenó deslizou suavemente pela floresta por algo que pareceram quinze minutos, e depois parou. Estavam em uma parte da floresta bem iluminada, com muitas árvores jovens e ainda verdes, algumas altas, mas não muito. Ele desceu e caminhou até a traseira, pegando um pacote embrulhado em papel pardo e amarrado com um barbante cru. Caminhou então até a árvore mais próxima e piou como uma coruja na madrugada.
Os galhos finos e folhas de algumas árvores se agitaram, aproximando-se cada vez mais da árvore onde o Nick estava apoiado. Um vulto pequeno e vermelho desceu da copa da árvore até um galho próximo e parou. Aquele era o maior esquilo que Megan já tinha visto na vida, tinha quase o tamanho de um gato. Seus pelos eram todos vermelhos, e ele tinha brilhantes olhos verdes.
— Oh Nick que bom que finalmente chegou, eu já estava ficando preocupado.
— Eu disse que ia entregar hoje, Relâmpago. — o rapaz estendeu o pacote para o esquilo, que o pegou e rasgou cuidadosamente em um cantinho, apenas para conferir que era mesmo o que ele havia encomendado.
— Oh sim, sim, musgo da melhor qualidade, vai servir perfeitamente para o ninho. Obrigado, Nick, não tem mais destes por aqui e é muito difícil eu sair para procurar com minha esposa em casa, sabe como é, os filhotes... — o esquilo segurou o pacote, dando uma coçadinha na sua orelha — Soube o que aconteceu perto das Tocas? Terrível, muito terrível... Meu primo Avoado até perdeu o ninho dele naquele desastre...
— Do que será que ele está falando? — Megan sussurrou.
O esquilo olhou para ela e tremeu os bigodinhos.
— Acho melhor eu voltar para casa agora, minha esposa está me esperando para o jantar...
E tão rápido como chegou, o esquilo atravessou a floresta desaparecendo entre as árvores. Nick voltou mordendo o lábio inferior para seu assento, e colocou a carruagem em movimento.
Pouco mais de vinte minutos depois, ele parou perto de uma grande faia. Desceu do trenó e pegou o pequeno fauno no colo, ajudando-o a descer. Então tirou a lona escura que cobria algumas encomendas, e pegou quatro cadeirinhas entalhadas em carvalho, passando uma a uma para o pequeno fauno ao seu lado. Então ambos caminharam até o tronco e bateram nele três vezes.
Uma portinha se abriu, e um anão rosnou, reclamando do atraso na entrega.
— Achei que nunca mais viria, pensei que seu trenó tivesse queimado no incêndio que está nas Tocas... — o anão resmungou, levando uma a uma as cadeirinhas para dentro — Já que não queimou, não vejo motivo para você ter demorado tanto, Nick. Ou vai me dizer que agora vai trabalhar como seu pai, aparecendo só uma vez por ano?
Nick balançou a cabeça devagar, passando os dedos nos cabelos castanhos. O anão levou a última cadeirinha para dentro, e voltou com um saquinho cheio de pedrinhas de ouro.
Megan suspirou baixinho, e o anão rosnou, olhando para ela.
— Não devia andar com filhas de Eva, Nick. Ouça o que digo. Aquela ali me atacou hoje mais cedo.
E dito isso, entrou na sua toca e fechou a porta. Nick voltou para o trenó, e ajudou o pequeno fauno a voltar para a traseira.
— Então teve um incêndio? — Megan perguntou, preocupada.
— A moça é curiosa, heim? — Nick pegou seu chapéu com o pequeno fauno e colocou na cabeça, sua voz não era mais debochada, agora soava irritada — Se não ouviu direito, ainda está tendo.
— Você vai para lá agora? — ela sussurrou.
— E correr o risco de queimar minhas entregas? — ele rosnou — Quem mora lá que se preocupe com isso, eu tenho mais o que fazer. E a propósito, se ainda quer essa carona, tente não ser notada, meus clientes não estão gostando de ver filhas de Eva nessas redondezas.
E dito isso, sacudiu as rédeas colocando o trenó em movimento.
As próximas entregas foram muito parecidas. Algumas garrafas de óleos aromáticos para uma dríade de uma cerejeira e ela desaparecendo com rapidez ao notar as duas moças no trenó. Outros esquilos quando as viram, nem quiseram receber suas compras.
Alba não estava gostando nada daquilo, parecia muito errado. Quando Nick voltou frustrado para o trenó lá pela vigésima entrega, Alba se levantou do seu lugar.
— O que está fazendo, moça? — ele olhou para ela, assustado.
— Indo embora. Desculpa, Nick, você foi muito gentil em nos oferecer essa carona, mas não queremos atrapalhar seus negócios. — ela desceu do trenó.
O pequeno fauno chiou baixinho contrariado, e Nick correu na direção da Alba. Megan não queria levantar também, não estava entendendo muito.
— Moça, por favor, não precisa ir.
— Olha Nick, — ela sorriu, fazendo sinal para a irmã se levantar — muito obrigada mesmo por ter nos ajudado, mas não podemos permitir que você perca clientes por nossa causa...
— Não tem que se preocupar com isso, por favor... — ele mordeu o lábio inferior, suspirando baixinho, não sabia exatamente o que fazer para que ela ficasse — Olha moça, já está anoitecendo... É perigoso ficar sozinha na floresta, moças assim, como vocês...
— Fica com a gente essa noite.
— É, — disse Nick, concordando com o pequeno fauno sorridente — podem passar a noite na minha casa.
Alba olhou para a irmã, vendo a outra sentar-se outra vez, de braços cruzados. Nick segurou as mãos da Alba, conduzindo ela para o trenó outra vez.
— Ora moça, não se faça de rogada, vamos andando, vamos...
Cedendo a pressão popular, ela voltou para seu lugar no trenó, e Nick seguiu viagem."
***
— Nossa, que estranho! — Lúcia olhou para o rosto do amigo, passando os dedos na grama macia. — Por que os narnianos não gostavam de Filhas de Eva? Elas eram inofensivas...
Tumnus suspirou, penteando os cabelos dela com os dedos.
— As pessoas tem o costume de julgar antes de conhecer...
— É... — Lúcia suspirou, fechando os olhos outra vez.
***
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