Where the good memories are?
1 Capítulo 1 - Mudanças
Notas iniciais
A mudança é a lei da vida.
E aqueles que apenas olham para o passado ou para o presente irão com certeza perder o futuro.
No dia em que tudo mudou a minha vida eu acordei atrasada como de costume. Minha mae já havia saído para o trabalho e eu estava super atrasada para a última semana de aula. Não que fosse muito importante a minha presença, afinal eu praticamente nunca era notada e não era como se eu ainda tivesse algo pra fazer naquele fim de mundo de escola.
Tomei um banho bem demorado deixando a água quente relaxarem meus músculos tensos por cauda da noite mau dormida.
Fazia um bom tempo que eu não tinha uma boa noite de sono. Minha mente fica a milhões cada vez que apago a luz, fico pensando em como minha vida seria se algumas coisas fossem diferentes ou em como minha vida seria se eu fosse diferente. Geralmente meus pensamentos duram a madrugada inteira, acho que é um jeito de escapar da monotonia que é minha vida, criar hipóteses de como ela seria se algo fosse diferente.
Vesti uma calça jeans preta rasgada e surrada, minha regata preta preferida e meus vans também pretos. Sequei meu cabelo castanho e o prendi em um coque frouxo, peguei minha mochila e sai de casa batendo a porta do velho apartamento.
Consegui chegar para a segunda aula e entrei sem ser notada, sentando no meu lugar de sempre: a ultima carteira do fundo da sala do lado das janelas. Minha única amiga na escola, Mariana, fora transferida para a outra turma já que segundo os professores não podíamos ficar juntas pois atrapalhávamos a atenção uma da outra, o que é meio ridículo já que mesmo com ela aqui eu não presto atenção em nada.
O dia passou rápido e as aulas foram mais chatas do que de costume pois as provas já haviam passado, então ninguém acabou dando a mínima. Encontrei Mariana sentada em um canto no corredor já com os nossos lanches na mão. Ela parecia ter acordado atrasada também.
E ai como foram as aulas? — Ela me perguntou já sabendo a resposta.
Uma merda. Acordou atrasada também é? — Perguntei olhando pra roupa amarrotada dela e a cara de sono.
Bem, não é todo mundo que mora a 10 minutos da escola sabe e você ainda consegue chegar atrasada, qual o seu problema Amber? — Ela passou a mão nos cabelos castanhos bagunçados.
Demorei bastante tempo para aperfeiçoar essa proeza, mas quem sabe um dia desses eu te ensino. — Rimos. — E ai, fiquei sabendo que seu irmão vai fazer intercâmbio.
Pois é, ele vai pra Inglaterra acho que vai ficar um ano lá ou alguma coisa assim.
Eu achei que ele já tinha ido pra faculdade.
O irmão dela era 3 anos mais velho que a gente e ao contrario dos cabelos castanhos da irmã os dele eram escuros e igualmente bagunçados e a diferença acabava ai. Os dois tinham os mesmos olhos cor de mel e a mesma pele bronzeada e tinham os mesmo hábitos ainda por cima.
Ele trancou a matricula da faculdade pra poder fazer intercâmbio, pedi pros meus pais pra ir também, ainda esse ano se desse, a gente só precisa juntar um pouco mais de dinheiro e eu estava pensando em ir pra Alemanha ou Japão, quer dizer, não deve ter muita coisa pra se fazer em Londres... Mas eu ia te perguntar se você podia ira junto, quando eu fosse, acho que a sua mãe iria deixar.
É mas e as aulas? Ano que vem a gente ainda tem aula sabia?
A gente fica só nas férias oras um meio intercâmbio, mas serio Amber, eu preciso de alguma coisa, tipo, isso aqui é um tédio. — Ela gesticulou pro alto. — Tudo isso, escola, amigos, família, namorado.
E eu não sei disso? Eu juro pra você que não faço a mínima ideia de como a gente agüenta... — dei mais uma mordida no lanche de presunto e queijo.
Que saco de vida. — Mariana deitou nas minhas pernas suspirando. Não respondi, mas era mesmo um saco de vida.
Cheguei em casa três horas depois de ter saído da escola, eu e a Mah havíamos parando pelo caminho pra tomar sorvete e ficar de bobeira em um parque perto da escola. Eu morava com a minha mae em um apartamento de 7 cômodos, uma suite, um quarto pequeno, um banheiro, sala de jantar acoplada com a cozinha e uma pequena lavandeiria e a sala de estar.
Mãe? — Chamei da porta do nosso pequeno apartamento. Olhei em volta e vi as chaves e a pasta do trabalho da minha mae em cima do balcão da cozinha. — Mãe? — Chamei mais uma vez.
Minha mãe apareceu no corredor segurando uma caixa de papelão maior do que ela, seus cabelos ruivos escapando do rabo de cavalo, exibia um sorriso enorme na boca que refletia até em seus grandes olhos verdes.
Eu chamava-o de O sorriso, simplesmente porque era um sorriso raro e verdadeiro, aquele sorriso em que você só da quando realmente está feliz ou está esperando por algo realmente emocionante. Ela me dizia que eu sorria igual a ela quando estava feliz, mas eu duvidava que minhas emoções fossem fortes o bastante para brilharem ate em meus olhos.
Oi querida. — Ela disse quase deixando a caixa cair.
Quer ajuda? — Perguntei já correndo em sua direção e tirando a caixa de suas mãos.
Ah obrigada. Ainda tenho que arrumar mais caixas, só as que eu arrumei não vão ser o bastante.
Mas pra que caixas? O que você vai aprontar agora? — Olhei para minha mae sorrindo.
Ela tinha estatura baixa comparado aos meus 1,70 ela era magra e tinha a pele branca quase transparente e olhos verdes grandes como o de uma coruja, duas coisas da qual eu havia puxado dela.
Como eu nunca havia conhecido meu pai, eu achava que tinha herdado praticamente tudo dela, tirando a altura, a cor dos cabelos e o mal humor, mas com o passar do tempo acabei achando mais características incomuns do que antes, características as quais ela falava ser iguais as do meu pai.
O que me fazia refletir em como eu conseguia ter tantas coisas iguais a uma pessoa em que eu nunca havia visto na vida. O jeito de segurar o garfo, o modo como eu gesticulo ao falar, minha competitividade e mal humor e varias outras coisas que eu achava que eram quase impossível de serem passadas geneticamente.
Ok tenho uma grande noticia. Ela pode ser boa ou pode ser má dependendo do modo como você olhar pra ela, mas eu realmente acho que você vai adorar. — Ela me olhava quase dando pulinhos de empolgação. Então ela jogou no ar a frase que mudou a minha vida. — Nos vamos nos mudar para a Inglaterra.
Oh Merda. Esse foi o primeiro pensamento que me veio a mente. Fiquei ali de pé com a caixa de papelão nas mãos encarando os grandes olhos de coruja verdes. Nos. Vamos. Nos. Mudar. Merda. Merda. Nos vamos nos mudar para outra cidade.Em outro pais. Em outro continente. Mas que grande merda.
Querida? Você está bem?
Hum? — Falei despertando do meu choque inicial.
Sei que é uma mudança grande, mas tudo depende da maneira que você vai enxerga-la querida. — Coloquei a caixa aos meus pés e me sentei no sofa marrom ainda meio atordoada. — Vamos nos mudar em uma semana, temos que despachar nossas coisas em três dias. — Três dias, uma semana, Inglaterra, tudo girava dentro da minha cabeça, como um furacão.
Hum...Mas...mas por quê tão rápido assim? E por quê agora? — Perguntei ainda meio tonta.
Ah... Bem existem vários motivos, um deles é que eu nasci lá, e acho a cidade maravilhosa e seria muito bom voltar, outro é que eu recebi uma boa proposta de emprego uma realmente boa. — Encarei seu rosto mas sem ver nada. — E outra coisa querida. — Ela pousou sua mão no meu braço que estava largado ao lado do meu corpo. — Eu encontrei um homem que veio pra cidade a trabalho há alguns meses atrás... — Ah não, pensei, por favor não... — E nos saímos e conversamos, estamos namorando já faz algum tempo, mas agora ele e o filho tem que voltar para a Inglaterra. — Então esse era o verdadeiro motivo da mudança rápida e drástica.
Mãe vocês se conheceram a pouco tempo, você não pode largar tudo aqui só pra ir atras de um cara! E ele ainda tem um filho!
Nos não nos conhecemos a pouco tempo, ele estudava comigo e com o seu pai na escola. Nos éramos bons amigos, mas acabamos perdendo contado ao longo dos anos. E eu não vou largar tudo aqui, na verdade não temos nada aqui querida.
Bem eu não sei você, mas eu tenho! — Falei me levantando abruptamente. — E meus amigos? A escolha? Falta apenas um ano pra eu me formar!
A Mah vai ficar bem, e você também, tenho certeza que as duas vão conseguir fazer novas amizades.
Não estou falando só da Mah, eu tenho mais amigos também! — Minha mãe levantou uma sobrancelha ruiva pra mim. Suspirei. — Ok só a Mah, mas mesmo assim mãe... — falei quase com um gemido. Era meio vergonhoso ver que a minha mãe sabia que eu só tinha uma amiga.
Olhe bem querida. — Ela me pegou pelo braço e me puxou pra baixo, fazendo com que eu me sentasse novamente no sofa velho. — Você não vive falando que acha sua vida chata e sem graça? Agora é a hora de recomeçar, refazer tudo do zero, você pode encontrar tudo o que vinha procurando com essa mudança.
Fitei seus olhos brilhantes, e por um momento achei que tudo aquilo era verdade. Mas só por um momento.
Acordei no dia seguinte com menos entusiasmo do que antes, minhas costas estavam doendo e meus olhos ardendo de sono. As hipóteses borbulharam por minha mente a noite inteira, ate mais do que o normal. Vesti uma roupa qualquer e peguei minha mochila, minha mãe estava na cozinha preparando o café da manha.
Olha quem acordou na hora hoje. — quando não respondi nada ela continuou. — e pelo visto com um bom mau humor. — Ela me lançou um sorriso e colocou duas torradas e um copo de suco na minha frente.
Valeu mãe.
Eu estava pensando aqui com os meus botões... O que você acha de dormir mais um pouco e mais tarde nos podemos sair e fazer algumas compras pra viagem? E pensei também que você ia querer dar uma mudada no visual sabe. — Ela disse rindo da minha cara apavorada.
O que aconteceu com você ? Quem é você e o que fez com a minha mãe? — Agarrei seus ombros sorrindo. — Meu deus olha o que uma mudança faz com você! Valeu mãe! Te amo! Te Amo! — Falei enquanto agarrava seu rosto e beijava suas bochechas sem parar.
Já entendi, você me ama, agora vai lá dormir em quanto eu arrumo mais algumas coisas, depois vamos sair pra comprar algumas roupas e ir ao cabeleireiro. Ah e se você quiser fazer aquele pircing na orelha acho melhor você aproveitar o meu bom humor. — Ela olhou pra minha cara de espanto e sorriu. — Agora vai descansar porque hoje vamos ter muita coisa que fazer.
Lhe dei um abraço apertado e corri pro quarto jogando a calça em algum lugar e deitando na cama de solteiro.
Acordei algumas horas depois muito melhor, minhas costas já não doíam. tanto e meus olhos já estavam sem sono. Tomei um banho e vesti um shorts rasgado e uma regata preta com uma cruz invertida, calcei meus vans e fui procurar por minha mãe. Ela estava em seu quarto empacotando algumas coisas.
Pronta? Eu só ia terminar essa caixa e já ia lá te acordar. Então vamos?
Andamos por várias lojas e compramos roupas de frio e coisas pra neve, já que em janeiro faz muito frio em Londres. Depois fomos ao cabeleireiro onde pintei minhas unhas de preto enquanto minha mãe pintava as dela de vermelho.
Mãe, posso pintar o cabelo? — perguntei de repente. Já fazia um bom tempo que eu queria pintar o cabelo.
Depende da cor, o que você estava pensando?
Pensei em pintar de vermelho e repicar pra ele ficar enrolado como da ultima vez... — Olhei esperançosa. Minha mae deu O sorriso e olhou pra mim.
Acho uma ótima ideia, vai ficar perfeito em você. Além disso, é o nosso dia!
Valeu mãe! — Falei toda sorridente.
Quando saímos do cabeleireiro meus cabelos agora estavam vermelhos e enrolados na altura abaixo do meu peito, eu estava radiante, sempre sonhei em pintar o cabelo dessa cor. Não parava de mexer no cabelo até chegarmos no studio de tatuagens onde eu havia feito todas as minhas tatuagens até agora.
A loja tinha as paredes brancas cobertas com desenhos e fotos de tatuagens e pircings, havia duas mesas de vidro no meio da loja onde ficavam os portifolios de tatuagens e algumas fotos, o estúdio ficava atras de duas portas de vidro que permitiam ver a sala bem iluminada com a mesa cheia de equipamentos e tintas e uma poltrona reclinavel, havia uma outra sala fechada com uma maca para tatuagens mais demoradas ou em lugares mais privados.
Amber? — Rick um tatuador amigo meu perguntou assim que entrei na loja. — O que aconteceu com você? Uau ficou foda, vai arrasar corações heim. — Ele falou rindo.
Hey Rick, e ai? Acabei de pintar.
Ficou ótimo pequena, quase não te reconheci apesar de ser meio impossível com essa aura de animação pairando sobre você. Ah olá Sr. Summers como vai, é um prazer em reve-la. — Era meio estranho ver um cara de 55 anos cheio de tatuagens e alargadores chamar a minha mae de 35 anos de senhora e apertar a mão dela.
Se veio procurando o Matt ele já foi viajar. — Matt era o irmão da Mah, ele trabalhava na loja e foi quem fez as minhas tatuagens.
É a Mah me contou, ele está em Londres. Falando nisso, acho que essa vai ser a ultima vez que venho aqui... — Falei com um pouco de pesar.
Oxe mas porque pequena? — Rick falou meio chateado. Eu e a Mah costumávamos passar um bom tempo com o pessoal enquanto Matt trabalhava então acabamos fazendo amizade com a maioria do pessoal da loja.
Eu estou me mudando para Londres também. — Fiz uma careta sem minha mãe ver e Rick riu.
Bem vai ser uma pena, a gente adorava os seus desenhos, vai ficar em falta aqui agora que você e o Matt vao se mudar.. — Eu costumava fazer desenhos de algumas tatuagens, alguns clientes viam e acabavam tatuando meus desenhos, assim como os do Matt. — Mas o que posso fazer por você pequena?
Vim fazer aquele pircing na orelha. — Falei radiante.
Haa, agora sim heim. Pode ir sentando lá no estúdio enquanto eu pego as coisas. — Ele falou já se afastando.
Nossa que rápido e eu pensando que ia poder te convencer a não fazer em quanto você escolhia. — Minha mãe riu do meu lado.
Sabe mãe, eu não sou tão impulsiva quanto você pra fazer as coisas.
Por isso mesmo que você acha tudo sem graça, você pensa de mais. — Ela falou enquanto bagunçava meus cabelos.
Maaae meu cabelo, qual é! — Falei enquanto ria e tentava bagunçar o cabelo dela.
Vamos lá pequena, passar pelo quartinho da dor. — Rick falou entrando na sala e rindo com a piada enquanto eu o seguia.
Me sentei em uma das poltronas pretas e tirei o cabelo da orelha. Rick esterilizou o local e preparou a pinça e a agulha. E com um movimento rápido pra cima ele furou a cartilagem da minha orelha, no começo eu nem senti a dor, só o sangue escorrendo pela orelha. Rick colocou o anel prateado e em seguida passou para o próximo furo, como minha orelha estava mais sensível a dor nesse foi pior, no terceiro eu já estava quase me contorcendo na cadeira.
Pronto, já acabou. Agora é só cuidar bem disso ai pra não infeccionar. Viu eu bem que falei que não doia. — Demorei um pouco pra responder segurando as lagrimas. Porra aquilo doía sim. — Ha! Tadinha de você. — Rick me deu um tapinha nas costas enquanto tirava as luvas.
Isso dói pra caralho. Puta merda Rick.
Qual é, pra quem agüenta tatuagem isso aqui não é nada, agora relaxa e curte ai.
Me despedi de todos na loja, trocamos telefones e prometemos nos falar e mandar noticia. Chegamos em casa lá pelas oito da noite, ajudei minha mãe com o jantar e a lavar a louça, em seguida deitei na cama e praticamente desmaiei de tão cansada. Estava louca pra ver a cara da Mariana no dia seguinte...
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