Where is my mind?
3 Capítulo 2
Notas iniciais
“Eu quero cama bagunçada e você do lado.”
— Nessa Cross.
Alice Heartblood
Era finalzinho de tarde, tinha começado a chover. Eu e Harry dividíamos o sofá e o cobertor, encolhidos um perto do outro, assistindo Piratas do Caribe. Na nossa frente, apoiados em nossas pernas estavam um balde de pipoca e duas canecas de chocolate quente com chantilly. O tempo havia mudado rapidamente, o dia que antes estava calor, foi para frio de inverno, como um típico dia em Londres.
Acabamos a pipoca e os chocolates e eu coloco os recípientes já vazios na mesinha de centro. Harry sorri, me abraçando, fazendo com que eu colocasse a cabeça em seu peito, na altura exata de seu coração. Sorrio, fechando os olhos. Depois que fizemos o pequeno ''ritual'' que todos os demônios faziam ao se apaixonarem, eu podia descobrir o que ele pensava quase que exatamente quando ouvia seu coração, e vice-versa.
As batidas ressoavam em seu peito, calmas e ritimadas. Como uma música. Aquele som era como um leve sussurro em meu ouvido, falando ´´Eu te amo, nunca me deixe... Eu só tenho você, minha pequena´´. Sorrio mais ainda, o abraçando. ´´Eu estou bem, mesmo que não pareça. Não tem porquê se preocupar comigo. É apenas uma dor passageira, eu sei que é``. Respiro fundo, abrindo os olhos e olhando seu rosto. Os olhos sonolentos e as olheiras profundas entregavam dias de noites mal dormidas, interrompidas por pesadelos que não tinham explicação.
-Harry... Quer tentar dormir um pouco?- falo do modo mais gentil que consigo -Parece cansado, e eu não gosto de te ver cansado, até acho que fiz alguma coisa errada!
-E o que você faria de errado, anjo?- ele me olha, sorrindo.
-Olha... Eu sei contar piadas bem ruins. -dou de ombros -Horríveis, pra falar a verdade. Ah, sei ser bem chata também, quando eu quero. E grossa... Muito grossa.
Ele ri e revira os olhos, fazendo com que eu sorrisse de canto. Ele se cobre melhor, esticando as pernas na mesinha de centro e fecha os olhos. Rio baixinho, pegando o controle, abaixando o volume da TV. Me ajeito no sofá também, deixando meu celular sobre minha barriga e fechando os olhos. Minha paz durou pouco, pois em menos de cinco minutos meu celular começa a tocar. Harry murmura alguma coisa e eu atendo, já sabendo quem era.
-Mattew, o único ser que insiste em me ligar mesmo sabendo que odeio conversar por ligação. -sorrio de canto, falando baixo para que Harry não acorde. Ele roncava baixinho ao meu lado, abraçando uma almofada.
-Alice, a pessoa mais simpática do mundo!— ouço ele rir baixinho -Como vão as coisas?
-Vão bem, meio nervosa pelo estágio que fiz hoje, mas bem... -olho pra Harry e sussurro -Hey, Jonathan... Vai dormir na cama.
Ele abre um olho, fazendo careta e mostrando a língua, antes de levantar e pegar a almofada. Harry deposita um beijo em minha testa e vai para o quarto. Sorrio mais ainda, estalando minhas costas.
-Como vão as coisas por ai, bichona?
-Ótimas! Aww, você e o Harry são tão meigos juntos... Ele faz você parecer tão feliz e amável, Ali! Estou muito feliz por vocês, anã.
—Ow, Mattew... Obrigada -rio baixinho -Ele me faz feliz, por isso pareço feliz. Não somos daqueles casais pegajosos, na verdade estamos longe disso. Mas ele sabe ser fofo quando quer, e isso é... Nossa, eu não sou tão clichê assim! Que merda aconteceu com o meu jeito ogra?
-Continua intacto, querida Fiona. Mas agora você é uma ogra apaixonada. Geralmente se apaixonar faz você se sentir como se flutuasse em algodão doce... Você está assim!
—Quer dizer que agora sou uma ogra voadora, piloto de algodão doce?- frazi a testa. — Mas não posso voar em outra coisa? Algodão doce é muito... doce, enjoativo. Sou mais uma pizza. Bem gordurosa.
-Ai, meu Deus!- ele começa a rir -Caralho, Heartblood, para de pensar em comida e entenda minha filosofia de vida! Credo, gays não são incompreensíveis, sabia?
—Gays não são incompreensíveis, são divos. Você, meu caro Mattew Ashgold, é incompreensível. Vem cá, começou a usar maconha? Desde quando você é filósofo?
-Desde que eu comecei a sair com o John... Ai amiga, eu to radiante!
—Então trate de apagar o fogo desse rabo ai, Matt -rio, tapando a boca -Vai procurar um emprego... Você é um ótimo fotografo, pensa nisso. Prostituta não ganha mais do que o suficiente pra viver, olha a Samantha por exemplo. Ela e as amigas dela... Nem peidar devem conseguir mais, já que o cu deve estar uma cratera. -rio alto da minha frase, levantando e indo colocar as coisas na pia.
Mattew começa a rir descontroladamente do outro lado da linha e eu reviro os olhos, dobrando o cobertor que a pouco eu e Harry usávamos. Conversei com ele por mais um tempo, desligando depois. Era noite, e eu não estava com sono. Escovo os dentes e lavo o rosto, indo para o quarto. Harry estava jogado na cama, olhando para o teto, apenas de cueca. Sorrio com a cena, me deitando ao lado dele.
-Tive outro pesadelo...-ele murmura, triste. -Eu não aguento mais, Ali... Nunca ouvi tanto o nome ''Christopher'' como ando ouvindo agora... Quem é Christopher? Eu não conheço nenhum!
-Ah, Harry... -suspiro, sentando no meio das pernas dele, acariciando sua bochecha -Calma.. Eu sei que é difícil, mas tenta. Tenta ignorar isso, okay? -me inclino para frente, beijando a ponta de seu nariz e depois seus lábios.
Ele coloca as mãos em minha cintura, sentando-se e me puxando mais perto de modo que eu sentasse em seu colo, com uma perna de cada lado de sua cintura. Seu coração estava acelerado e ele estava desesperado. Coloco as mãos em seu rosto e deslizo as mesmas para sua nuca, massageando a mesma. Ele suspira e separa o beijo, encostando nossas testas. Ele aperta minha cintura novamente e abro os olhos, vendo ele com a testa franzida, deixando as lágrimas rolarem por suas bochechas. Mordo o canto do lábio, beijando sua bochecha, sentindo o gosto salgado das lágrimas. Começo a mexer no cabelo dele, fechando os olhos. Ver ele chorando era pior do que levar uma facada, eu podia sentir meu coração rachar toda vez que uma lágrima caia de seus olhos. Eu não sabia como o animar, não sabia como fazer ele se sentir melhor, e era a pior sensação do mundo.
-Não chora, amor... Vai ficar tudo bem. Uma hora isso vai passar. Tudo passa, até uva passa... -sussurro, e abro um pouco os olhos, vendo ele sorrir fraquinho -A piada é velha e horrível, mas você sorriu. Já é alguma coisa.
-Você tinha razão, suas piadas são horríveis. -ele sussurra, abrindo os olhos que estavam vermelhos. Sorrio de canto, beijando a ponta de seu nariz. -Obrigada por estar aqui...
-E por que você está agradecendo? Credo, até parece que é uma obrigação eu estar aqui! -rio baixinho -Não precisa agradecer. Eu que quis morar com você, lembra?
Ele sorri e volta a me beijar, colando nossos corpos. Coloco as mãos em seu cabelo, bagunçando o mesmo. Nossos corações batiam em um só ritimo, e soavam como sinfonias. Era como se eu pudesse sentir cada célula do corpo dele pulsando, assim como as minhas. Eu queria ele por perto, queria o sentir por completo, queria ele para mim. E ele me queria para ele. Mordi o lábio dele, sentindo a vontade de tê-lo crescer ainda mais. E foi ali, no meio de roupas sendo jogadas e em um emaranhado de cobertas, com o som da chuva forte batendo na janela, que pude ter ele por completo. Senti que aquela vez foi diferente, que alguma coisa tinha mudado. Não só com ele... mas comigo.
Algo que ia além de aparência, além do prazer. Eu me sentia estranha em entrar em um contato tão íntimo com ele, como se minha natureza o negasse. Tudo aconteceu de um modo tão selvagem, tão agressivo... Por minha parte. Com certeza, foi muito bom, como sempre era... Porém era como se um anjo; com toda sua delicadeza, força e calor; colidisse com um demônio vindo diretamente do inferno; selvagem, bruto e um amante impecável.
Quando me deitei ao lado de Harry aquela noite, no quarto iluminado pelos trovões que ecoavam do lado de fora do apartamento, onde os únicos sons eram os de nossos corações descompaçados e as respirações pesadas e aceleradas, eu soube que ele havia notado mudanças também.
O moreno me olha, com um misto de surpresa e satisfação pura espelhados em seus olhos maravilhados. Seu cabelo longo grudava em sua testa, nuca e rosto, emoldurando seu rosto digno de uma pintura feita pelo próprio Deus, ou o próprio Diabo. O suor brilhava por seu corpo inteiro, e seus lábios finos e rosados estavam levemente abertos para facilitar a respiração. Marcas de mordidas e chupões enfeitavam seu pescoço, ombros e peitoral.
-Nossa... -ele sussurra, com a voz rouca. -Tipo... Pelo excelentíssimo senhor Caralho, como foi que não quebramos a cama?
Rio baixinho e nego com a cabeça. Ele estava certo. Eu podia ouvir a cama ainda rangendo. Foi incrível.
Olho para baixo e arregalo um pouco os olhos. As veias, desde meu quadril até meus ombros, estavam pulsando negras. Eu sentia meu pescoço e meus nervos queimando, e um poder frio e estranho emanando de mim. Eu estava pálida, e com medo. Ele respira fundo, me abraçando.
-Devem... ainda ser os efeitos da sua iniciação. Relaxa...-suas palavras eram calmas. -Está tudo bem.
-Harry... -sussurro, fechando os olhos -Agora pouco, quando estávamos acabando... Seus olhos ficaram dourados.
Ele concorda com a cabeça, ficando meio tenso. Em seguida, ficamos em silêncio. Ele mexia em meu cabelo enquanto eu contornava suas tatuagens, observando as veias clarearem aos poucos. Logo a respiração de Harry acalma e seu corpo relaxa. Mordo o canto do lábio e saio do conforto de seus braços. Puxo a coberta, o cobrindo e levando da cama, colocando a blusa dele que estava no chão. Fecho a janela, sentindo um pouco da chuva respingar em minha pele quente, causando-me arrepios. Vou até o banheiro e paro na frente do espelho, me analisando de cima a baixo. Eu estava mais pálida, e mesmo que as veias tivessem clareado elas ainda eram visiveis. Meus olhos estavam cheios de sangue, cobrindo o olho todo menos a íris, que estava em um verde azulado. Minha boca estava ressecada e inteiramente cortada.
Engulo um grito de raiva e fecho os punhos com força. O espelho a minha frente se quebra, fazendo com que eu me afaste rapidamente, assustada. Olho minhas mãos, que estavam tremendo, e volto a olhar o espelho. Eu fiz isso... O que...
O que aconteceu comigo?
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