Where is my mind?
4 Capítulo 3
Notas iniciais
''Ah, meu bem. Eu já me acostumei com as noites
vazias, as tardes sombrias e os dias frios.''
—O Diario de Sofi
Anthony Owlnight
Estava tudo tão escuro que mal podia enchergar um palmo a minha frente, e tão quieto que nem minha respiração era ouvida. Mas mesmo com tudo isso, eu sabia que não estava sozinho naquele espaço. Eu podia sentir uma presença, alguma coisa que me fazia sentir algo que nunca experimentei. Eu sabia que não deveria estar ali, que era alguém nada bem vindo... Mas afinal, onde eu estava?
O silêncio desconfortável se desfez, quebrado por uma voz feminina que eu nunca havia escutado antes. Era calma, mas ao mesmo tempo determinada. E era simplesmente ótima de se ouvir. Cada letra que passava por meus ouvidos me causava um arrepio diferente.
—Eu vou achar ele, mãe... E você sabe que não pode me impedir.—a voz fala, cada vez mais próxima de onde quer que eu estivesse.
—April... Você sabe que se sair daqui nunca mais voltará. Não posso perder vocês dois...—a voz de uma mulher mais velha aparece, parecendo preocupada e até mesmo com medo.
-Você nunca me perderá... Assim como nunca o perdeu. Você é a líder, tem que ficar aqui. Um dia, talvez voltemos. Mas talvez não. Ele está lá a tanto tempo, deve ter uma vida. Eu só quero meu irmão de volta, quero consertar o que fiz!
-Sabe que a culpa não é sua. E sabe também que agora seu irmão anda com alfas. É perigoso de mais.
-Mesmo assim. Sinto muito, por tudo. Mas preciso mostrar a ele quem ele realmente é, de onde veio... O que ele é. Adeus, mãe.
Ainda confuso com as palavras, pude sentir o ar em minha volta ficando rarefeito e quente, e a escuridão vai clareando, até eu ver um borrão, e depois disso mais nada.
* * *
Acordei suando frio, vendo pontos escuros em minha visão. Minha respiração estava falhada, e meu coração acelerado. Me sento na cama, com a cabeça entre as mãos, controlando minha respiração e tentando me acalmar. Quando consegui me recuperar e olhar pelo quarto, olhei diretamente para os colares e pingentes pendurados em minha parede. Um deles emanava uma áurea negra, fria. Era algo que indicava morte, raiva, ciúmes e armargura. Engulo em seco, me levantando trêmulo e indo até aquele pingente.
Aquele símbolo não só emanava todas as coisas ruins que todos sentem, mas pingava sangue. O metal, antes dourado, agora estava prata e vermelho. Aquela rosa, que um dia fora tão indefesa e linda, agora parecia ansiar por morte. E, devido ao sono, demorei para notar o que realmente estava acontecendo, para lembrar de quem era a rosa.
Alguma coisa muito errada tinha acontecido com Alice Heartblood.
Alice Heartblood
Era madrugada de domingo. Harry tinha dormido rapidamente e agora estava lá, roncando, quentinho em nossa cama. Eu havia abandonado o abençoado lugar ao seu lado, já que o sono não tinha me atingido ainda. Eram mais ou menos três da manhã, e eu era a única no Green Park. O frio atravessava minha jaqueta grossa e meu moletom, fazendo-me tremer. Minhas mãos estavam extremamente brancas, mostrando todas as minhas veias. Não que elas precisassem disso para ser vistas, já que desde o acidente na minha iniciação estavam mais escuras.
Alguma coisa dentro de mim queria sangue. Mas não o sangue vindo das rosas. Eu queria sangue humano. A raiva havia tomado conta do meu corpo desde que quebrei o espelho na madrugada passada. Lembro de Harry correndo até mim e me recolhendo em seus braços, assustado, perguntando o que tinha acontecido. Eu estava chorando, e não conseguia me explicar. Depois de ele conseguir me tranquilizar um pouco, fomos dormir. E sonhei com tudo de ruim que poderia um dia acontecer.
Sonhei com Harry sendo arrancado de mim, sonhei com minha irmã morrendo. Sonhei com minha mãe sofrendo um acidente em uma de suas viajens, sonhei com meus amigos me abandonando, com minha família partindo, um por um... Me deixando.
Esses pensamentos sempre rodeavam minha cabeça, mas eu conseguia controlá-los. Andei pelo apartamento inteiro tentando pensar em outra coisa, mas nada adiantava. E agora eu estou no centro do Green Park, chorando com essas malditas ideias rodeando minha mente. Queria gritar, socar algo, afinal, a culpa de estar pensando isso tecnicamente era minha.
Como estudante de psicologia eu não deveria pensar assim, mas quando ocorre com você é totalmente diferente de quando você apenas ouve e tenta ajudar alguém com esses pensamentos.
Fechei os punhos com força o bastante para cortar as palmas de minhas mãos. E com esse ato, tudo a minha volta foi morrendo, secando e até mesmo sangrando. Vi marcas surgirem nas árvores em minha volta, pude ouvir gritos de pessoas que não estavam ali. E ao longe, vi alguém que tinha notado o que estava acontecendo.
Abro as mãos, sentindo meu sangue escorrer dos cortes. Eu sabia que meus olhos estavam cor de sangue, com a íris azulada e a pupíla grande. Eu sabia, porque vi quem eram as pessoas e da onde ela estava vindo como se tudo fosse em HD. E isso fez com que a raiva borbulhasse em mim, sem qualquer motivo.
Eram duas meninas que voltavam de alguma festa. Ambas loiras, com os saltos em mãos e o olhar confuso. Cobri o sorriso de bochechas rasgadas e dentes afiados e fui até elas, o sangue pulsando em minhas veias. Eu precisava matar, meu bom-senso não comandava mais nada. Minha mente não comandava mais nada.
-Podemos ajudar? Precisa ir em um hospital? Samantha, acho que ela teve um derrame pelos olhos. –a mais alta fala lentamente, assustada. Sorri de canto, vendo ramos se prendendo em suas pernas, a mobilizando. Elas começam a pedir ajuda. Apenas estendo a mão em direção a menor, como se fosse pegar algo distante.
-Calem a boca, estou com fome. –minha voz saiu alterada, como a de Ethan quando ele possuiu o corpo de Oliver. Elas começaram a me oferecer dinheiro, mas eu apenas fecho a mão e puxo para trás com força.
O rosto da menina mais baixa fica sem cor, seus olhos reviram e sangue começa a escorrer de sua boca roxa. Suas roupas ficam banhadas em sangue e o pouco brilho que restava em seu rosto se apaga. Seu coração cai aos meus pés e ela desaba. Me voltei para a outra menina antes que ela começasse a gritar, apavorada. Apenas repeti o procedimento, vendo seu corpo desabar ao lado da amiga.
Me sento no meio dos dois corpos, bebendo um pouco do sangue. Achei uma garrafa térmica na bolsa da loira mais alta, joguei fora o resto de vodca que tinha ali e coloquei sangue. Me levantei, e voltei para casa. Eram cinco horas da manhã de segunda feira quando pisei no apartamento. Guardei a garrafa e tomei um banho rápido, me deitando ao lado de Harry novamente. Dali a uma hora ele acordaria, se arrumaria para o trabalho e receberia a noticia de um assassinado no Green Park. Mandaria uma mensagem que eu só veria quando acordasse, relatando o acontecido.
E isso tudo sem saber que a assassina dormia ao seu lado na cama.
Melody Heartblood
Acordei com o despertador de Oliver e me sentei na cama. Minha cabeça latejava pela noite mal dormida. Manti os olhos fechados enquanto ouvia ele se arrumando lentamente. Conseguia imaginar ele colocando uma blusa qualquer, jeans surrados, os corutnos e a jaqueta. Ouvi a pequena TV da sala ser ligada em um volume baixinho e logo passos se aproximando. A respiração dele entra em contato com minha pele quando ele começa a sussurrar.
-Ahn... Acho melhor você ver essa noticia. Acho que Ethan finalmente deu um sinal de vida.
Abro os olhos, assustada e saio da cama correndo, meio tonta ainda e paro na frente da TV, aumentando o volume. Ao ver a cena, tive que me apoiar em Oliver para não cair, ou desabar. Eu coração para, e um nó se forma em minha garganta. Me sento no sofá, com ânsia ao olhar as imagens ao fundo.
“Duas meninas foram encontradas mortas essa manhã no Green Park. Ambas tiveram seus corações retirados. Policiais tentam achar o culpado. As únicas informações que temos até agora são suas identidades, teor alcoólico no sangue e maconha em suas bolsas. É com você, Mint”
Eu estudei com aquelas meninas. Oliver e Harry também. Nunca fomos amigos, mas conversávamos bastante, ou pelo menos costumávamos conversar. Eu estava tremendo. Por mais que eu nem fosse uma grande amiga, a dor era forte. Me lembro das duas sempre sorrindo nas aulas, nunca atrapalhavam. Nunca fizeram nada de ruim pra ninguém.
Meu coração aperta, a raiva sobe a cabeça, e em seguida eu comecei a chorar. Eu não sabia o que fazer. Em minha mente, apenas um nome ecoava.
Ethan.
Oliver fica o tempo que pode comigo, mas logo tem que sair para o trabalho. Limpo o rosto e desligo a TV, voltando para o quarto e me sentando na cama. Fiquei encarando a parede pelo que pareceram séculos. Se duvidar, a manhã inteira.
Quando sai dali, devia ser começo de tarde. Fui para a cozinha e comi alguma coisa. Depois, lavei a louça e fui lavar o rosto. Eu precisava me vingar, mesmo que não tivesse sido ele. Eu ia descobrir, e ia matar essa pessoa do mesmo jeito.
Harry Stormblood
Era noite quando cheguei em casa, como sempre. Entrei no meu apartamento, esperando ouvir ou a TV ligada, ou alguma música. Esperei ver todas as luzes acesas e Alice falando sobre seu segundo dia no estágio. Mas encontrei o lugar escuro, silencioso, e com um frio estranho. Franzi a testa, deixando as coisas sobre a mesa e trancando a porta. Comecei a andar pelo lugar, até ouvir um soluço baixinho. Respiro fundo e vou para meu quarto, encontrando a TV ligada no mudo, e as notícias do assassinato das duas meninas que estudaram comigo passando. Alice estava encolhida na cama, abraçando os joelhos. Ela vestia uma jeans mais nova e uma camisa, agora aberta e amassada, com respingos de sangue nas mangas. O cabelo estava preso em um coque e sua expressão era de pavor. Sua maquiagem escorria junto com suas lágrimas, suas veias estavam pulsando, negras, e tudo a sua volta estava me lembrando um apocalípse. A cama desarrumada, as paredes rachadas, a cortina balançando fortemente. Olhei para suas mãos e vi sangue escorrendo, conseguindo imaginar suas unhas cravadas nas palmas.
-Ali... –começo, me aproximando dela, preocupado.
-Fui eu... –ela sussurra, extremamente baixo, ainda encarando as imagens. –É minha culpa.
-O que você está falando?- sento ao lado dela e ela me olha.
-Fui eu... Harry, eu sou um monstro, Foi eu quem fiz isso...
-Não, não foi, anjo... Se acalme, por favor... –ela me interrompe, aumentando o tom de voz, fazendo a TV sofrer interferência.
-Eu matei as essas meninas noite passada. Sai enquanto você dormia, porque eu queria matar alguém. Elas apareceram, e eu senti raiva, sem motivo nenhum. E ai matei elas. Sem tocar em nada. Harry, eu estou virando um monstro! O que está acontecendo?
Olhei dentro de seus olhos, querendo ver que ela mentia... Mas ali, naquela imansidão verde, pude ver as cenas claramente. As meninas aparecendo no Green Park, tarde da noite. As meninas confusas. Alice, com apenas um movimento de mão, arrancando o coração de ambas, deixando seus corpos sem vida cairem aos seus pés.
Minha cabeça começa a latejar fortemente e a dor em minhas costas volta, como se algo me cortasse de dentro para fora. Solto um grito de dor, colocando a cabeça entre as mãos e fechando os olhos. Um brilho forte, dourado e quente como fogo aparece na minha frente e meu corpo todo começa a doer. Imagens começam a passar rapidamente em minha mente.
Crianças brincando. O sorriso caloroso de uma mãe. O abraço de uma irmã. A brisa de verão em meu rosto. O mundo pela perspectiva de uma criança. Asas. Um beco. Uma casa. Dor. Lágrimas. Gritos de socorro. Pessoas chamando por “Christopher”. Uma risada. Sangue. A sensação de cair. O rosto de uma pequena menina, com cachos loiros e olhos azuis. Pânico. Uma espada com rosas cravadas na lâmina. O chão ficando seco e morto. O rosto de um homem loiro com olhos negros, veias pulsantes e dentes de demônio. “Assim como o primeiro anjo, que deu início a nossa raça... Eu derrubo seu filho, para dar início a uma nova era.”. “Eu vou atrás dele”. “Ele está com os alfas”.
Abro os olhos, caindo da cama e começando a tremer. Minha visão estava borrada, mas eu consigo ver Alice acima de mim, desesperada, gritando meu nome. Sinto seu toque em meu rosto. Tudo vai ficando cada vez mais distante.
Depois disso, escuridão.
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