A sala principal do Urahara Shop estava lotada. Isso, por si só, já deveria ser considerado um problema, mas era melhor que marcar com todo mundo para tomar um suco na casa de alguém.

Ichigo descobrira ao longo dos anos que, sempre que muitos indivíduos espiritualmente poderosos ocupavam o mesmo cômodo, alguma coisa ruim acabava acontecendo. Às vezes, uma invasão. Às vezes, um Hollow. E, às vezes, havia apenas Urahara Kisuke falando. As três opções eram igualmente perigosas.

— Então deixa eu ver se entendi direito...

Ichigo apontou para Renji.

— A Soul Society enviou vocês porque apareceram três “Arrancar”, ou seja lá o que for.

— Dois, precisamente — corrigiu Rin.

— Dois e meio.

— Não existe meio-Arrancar, Kurosaki-san.

— Eu vi o Yammy. Existe sim.

Rin abriu a boca, mas fechou. Pensou por alguns segundos, e então...

— ...Aceitável.

— Obrigado.

Renji esfregou o rosto.

— Como você consegue transformar qualquer conversa séria nisso?

— Karakura nunca foi um lugar normal.

— Justo.

Kira suspirou.

— O ponto é que a Soul Society considera a situação preocupante.

— E Aizen também ajudou nisso — comentou Rukia.

— Sim.

— E quanto ao desaparecimento de Yūshirō? — perguntou Yoruichi.

Kira hesitou só por um instante, mas Yoruichi percebeu. Todo mundo percebeu.

— Espero que não estejam pensando que o estou escondendo aqui.

— Não temos evidências de nada, Yoruichi-sama — respondeu Kira.

— Estava brincando. Mas é óbvio que Yūshirō não está aqui.

— ...

— Kira.

— Eles acham que existe a possibilidade — disse Ichigo, dando de ombros.

Yoruichi recostou-se na parede, mas abriu um sorriso. A expressão dela permanecia tranquila, o que era exatamente o tipo de expressão dela que deixava Ichigo nervoso. Porque normalmente significava que ela estava pensando em algo que ninguém mais havia considerado. Ou que estava prestes a fazer alguém parecer idiota. Às vezes, os dois.

— E quais pistas vocês têm?

— Poucas.

— Quais?

— O último registro confirmado dele foi no próprio Kizokugai.

— E depois?

— Nada.

— E vocês imediatamente cogitaram que ele veio para cá?

— Bem... — disse Rukia — Nos parecia o mais lógico. É sabido o desejo de Yūshirō-sama em encontrá-la, então, hã, nós pensamos que... Ele pudesse ter vindo aqui atrás da senhora.

— Há quantos dias ele está desaparecido?

Renji respondeu:

— Vários.

— Huum...

— O quê?

— Nada.

Bom, claramente não era nada. Ichigo conhecia Yoruichi havia tempo suficiente para saber disso. Rukia também. Urahara também. Talvez até Chad, pois Chad parecia sempre saber de tudo. Era irritante.

— Hã, Yoruichi-san... — começou Orihime.

— Sim?

— Você está fazendo aquela coisa.

— Que coisa?

— Aquela coisa.

— Isso esclarece muito.

— A coisa que você faz quando acha que todo mundo está errado.

— Ah.

— Então você está fazendo?

— Estou.

Renji gemeu.

— Claro que está...

Yoruichi ignorou completamente.

— Vocês estão assumindo que ele está em Karakura, quando ele pode estar, por exemplo, em Rukongai.

— Oh, isso... Realmente não passou por nossas cabeças — respondeu Rin.

— Mas... — inferiu Rukia — Por qual motivo ele desapareceria no Rukongai?

Ichigo estalou a língua.

— Báa, Rukia! E se ele apenas se cansou do Kizokugai?

— É uma possibilidade — disse Yoruichi, com um novo sorriso.

Houve um momento de silêncio.

Rin piscou.

Kira piscou.

Renji piscou.

Tatsuki, Orihime e Chad também piscara, só que simultaneamente.

Ichigo teve a impressão de estar assistindo seis cérebros tentando subir uma ladeira ao mesmo tempo.

— Bom... — disse Tatsuki, finalmente se manifestando — Vocês vão precisar se dividir.

Yoruichi arqueou uma sobrancelha.

— A alternativa óbvia. Está aprendendo rápido, Tatsuki.

E Tatsuki retribuiu, não com um “Oh, muito obrigada, Yoruichi-sama!” ou um “Aah, deixa disso...”, mas com um dar de ombros.

Kira suspirou.

— Arisawa-san está certa. Precisaremos determinar quem irá procurar por Yūshirō-sama.

Rin ergueu um dedo, como quem pede a vez de falar. Então o pesquisador ficou pensativo por alguns segundos e retirou um pequeno bloco de anotações. Depois, escreveu alguma coisa, e depois escreveu mais.

— Considerando os riscos que enfrentamos ao estarmos investigando Arrancar no mundo humano, é estatisticamente mais prudente que somente um retorne à Soul Society para procurar por Yūshirō-sama no Rukongai.

— Ótimo! Joguem pedra-papel-e-tesoura — disse Ichigo.

Renji levou as duas mãos ao rosto.

— Pelos deuses...

Urahara, até então estranhamente em silêncio, enfim abriu a boca:

— Muito bem! Quem volta?

Silêncio.

— Não eu — respondeu Renji imediatamente.

— Você foi o primeiro a responder — observou Ichigo.

— Porque eu te conheço, Ichigo. Se eu sair daqui, você vai explodir a cidade no primeiro eventual encontro com um Arrancar.

— Ah, cala a boca.

— De qualquer forma... — disse Urahara, abrindo o leque. — Talvez seja prudente discutirmos uma questão relacionada aos Arrancar.

Renji suspirou.

— Lá vem.

— Lá vem — concordou Yoruichi.

— Lá vem o quê? — perguntou Ichigo.

— Informações importantes apresentadas da maneira mais irritante possível — respondeu ela.

— Ah.

Urahara ignorou os dois.

— Os Hollow possuem uma espécie de linha evolutiva. Quanto mais almas devoram, mais fortes se tornam.

— Disso a gente já sabia — disse Ichigo.

— Arisawa-san talvez não, mas fico feliz em saber que minhas aulas não foram completamente ignoradas.

— Eu aprendi isso antes de te conhecer...

— Que crueldade.

Kira pigarreou.

— Continue, Urahara-sensei.

Urahara fechou o leque.

— A maioria dos Hollow nunca evolui além de formas relativamente simples. Alguns, porém, acumulam poder suficiente para se tornar Menos Grande.

Rin imediatamente abriu o bloco de anotações.

— Os Gillian — disse.

— Exatamente.

— Aqueles compridões com máscara de Pinóquio que Kuchiki desenhou para mim — perguntou Tatsuki.

— Esses mesmos! — respondeu Rukia.

— Acima deles existem os Adjucha.

— Esses ainda não vimos, creio — perguntou Chad.

Urahara assentiu.

— Esses são menores, mas mais inteligentes e normalmente muito mais perigosos.

Ichigo cruzou os braços.

— E acima desses?

Pela primeira vez, Urahara ficou um pouco mais sério.

— Vasto Lorde.

O ambiente pareceu ficar ligeiramente mais silencioso, de repente.

— E o que eles têm de especial, Urahara-san? — perguntou Orihime.

— São raríssimos.

— Isso não responde à pergunta dela — disse Tatsuki.

— Verdade.

Urahara apoiou o leque sobre o ombro.

— A melhor forma de explicar é esta: um Vasto Lorde não é perigoso porque possui uma quantidade absurda de poder espiritual, e sim porque ele possui poder espiritual, inteligência, autocontrole e experiência, todos ao mesmo tempo.

Rin ergueu os olhos do bloco.

— Uma convergência estatisticamente incomum em Hollow...

— Exatamente.

Yoruichi assentiu.

— Muitos Hollow fortes agem por instinto. Muitos Hollow inteligentes não possuem força suficiente para representar uma ameaça real.

— Um Vasto Lorde reúne ambos — completou Urahara.

Ichigo fez uma careta.

— Então vocês estão dizendo que eles são tipo Capitães?

— Alguns poderiam até mesmo superar Capitães... — respondeu Kira.

— Em determinadas circunstâncias — acrescentou Urahara.

— Essa é uma resposta muito mais razoável do que a que eu normalmente escutava na Soul Society... — comentou Yoruichi.

Renji apontou para ela.

— Concordo!

— Milagre — respondeu ela.

Urahara continuou:

— O verdadeiro problema não é um Vasto Lorde isolado.

— É o Aizen transformando vários deles em Arrancar — concluiu Rukia.

— Precisamente, Kuchiki-san.

Silêncio.

Porque aquilo fazia muito sentido, embora isso não fosse exatamente tranquilizador.

Não era uma questão de "dez Vasto Lordes destruiriam toda a Soul Society", mas uma questão de que mesmo alguns poucos indivíduos desse nível, se trabalhando juntos, organizados por alguém como Aizen, poderiam alterar completamente o equilíbrio militar entre os mundos.

— Certo... — disse Ichigo. — Agora estou começando a entender por que todo mundo está tão preocupado.

— Excelente, Kurosaki-san! — respondeu Urahara.

— Mas ainda acho que vocês deveriam decidir isso no pedra-papel-e-tesoura.

— Kurosaki-kun! — protestou Orihime, não resistindo ao riso.

— O quê? Tô tentando ajudar!

Ninguém percebeu naquele momento, mas a discussão sobre quem retornaria à Soul Society já estava atrasada.

Porque, a várias camadas dimensionais dali, o desaparecido Shihōin Yūshirō estava muito ocupado criando problemas novos para esperar que alguém o encontrasse.


Yūshirō já não tinha mais dúvidas de que os Shiba eram uma família de ex-nobres estranha, uma conclusão um tanto impressionante para alguém que havia sido criado para ser um assassino profissional e um ladrão de informações ao mesmo tempo em que fora educado para ser um príncipe da Sociedade das Almas e um guardião de objetos sagrados e valiosos.

Ainda assim, os Shiba conseguiam se destacar. Talvez pelo fato de que ninguém naquela casa parecia considerar explosões um motivo legítimo para preocupação.

Sora estava sentado no corrimão da varanda, equilibrando-se de maneira que fazia Yūshirō sentir ansiedade física apenas de olhar.

— Você vai cair, Sora-san...

— Não vou.

— Vai...

— Não vou!

Yūshirō desistiu. Porque aquela conversa claramente já havia acontecido várias vezes antes. Foi então que seus olhos pararam, mais uma vez, no objeto pendurado no pescoço do garoto. Um pequeno amuleto, discreto, escuro e, espiritualmente, estranho. Muito estranho. Yūshirō franziu a testa.

Aquela energia não parecia perigosa, mas também não parecia normal. Na verdade, parecia fazer exatamente o oposto do que amuletos espirituais normalmente faziam.

— Hã, Sora-san... O que é isso?

Sora piscou.

— Hã?

— Isso no seu pescoço.

O garoto olhou para baixo.

— Ah, isso.

— Sim. Isso.

Sora segurou o amuleto entre os dedos.

— Não sei.

Silêncio.

— Como assim você não sabe?

— O Cara de Texugo que me deu.

— “Cara de... Texugo”?

— É. Ele se chama Urahara Kisuke, mas para nós ele é o Cara de Texugo.

Yūshirō não pôde deixar de arregalar os olhos. Urahara Kisuke. O homem por trás da criação do Instituto de Pesquisa e Tecnologia da Seireitei, e um amigo pessoal da Família Shihōin... Aqui era apenas o “Cara de Texugo”. Bem, afinal, o que entre os Shiba não era inacreditável ou inusitado? Ele logo engoliu a própria surpresa.

— E você aceitou um objeto misterioso de Urahara Kisuke sem perguntar o que era?

— Claro.

— Por quê?

Sora pareceu genuinamente confuso.

— Porque era do Cara de Texugo.

Aquilo não respondeu muita coisa, mas...

— E o que ele disse que isso faz?

— Não lembro.

— Sora-san!

— O quê?

— Você não perguntou?

— Talvez.

— Você esqueceu??

— Talvez.

Yūshirō fechou os olhos e, por um instante, apenas por um instante, conseguiu imaginar perfeitamente o porquê de Shiba Sora parecer tão aéreo a maior parte do tempo: ele claramente tinha problemas de atenção.

— Então, você não sabe para que serve?

— Sei mais ou menos.

— Como?

— Porque, quando eu tiro, todo mundo volta a falar.

— ...

— Dizem que minha reiatsu sempre chegou antes de mim.

— “Chegou antes de você”?

— É.

— Isso não é bem uma unidade de medida.

— Eu sei.

— Então o que significa?

Sora deu de ombros.

— Significa que a maioria das pessoas começa a me perceber a metros de distância, mesmo as pessoas comuns.

Aquilo fez Yūshirō unir as sobrancelhas. Então Shiba Sora tinha problemas de contenção de reiatsu. Isso naturalmente o tornava um alvo, mas... Até mesmo para almas comuns?

— Mesmo? E você sempre foi assim?

— Não era tanto quando eu era pequeno. Foi piorando à medida que cresci.

Yūshirō encarou novamente o amuleto, depois voltou a encarar o garoto.

— Você já explodiu alguma vez?

— Não.

— Tem certeza?

— Acho que sim.

— "Acha"?

— Okaasan diz que algumas explosões contam só pela metade.

Yūshirō suspirou.

— Isso... Não é uma frase que deveria existir.

Do outro lado do pátio, Ganju ergueu a cabeça e falou em voz alta o suficiente:

— Ah, essa discussão de novo não!

— "De novo"?

— Já tivemos essa conversa.

— Quantas vezes?

— Umas quatro.

— E ninguém resolveu?

— Báa, o amuleto do Urahara funciona. É o que importa!

Yūshirō apontou para Sora.

— Mas ele não sabe o que faz!

— Nem o Urahara deve saber exatamente.

— Isso é ainda pior!

— É verdade — admitiu Ganju.

Sora apenas girou o pingente em formato de cristal entre os dedos.

— Ah, eu gosto dele.

— Por quê?

— Porque me deixa menos agitado.

Yūshirō piscou.

— “Menos agitado”?

— Uhum.

— Você?

— Sim.

— Isso é você menos agitado?!

Sora sorriu.

— Bastante menos.

E Yūshirō ficou em silêncio. Porque aquela informação era sinceramente aterrorizante.

A conversa morreu aos poucos, não porque alguém tivesse ficado sem assunto, mas porque uma pressão estranha atravessou o pátio. Uma muito leve, muito rápida, mas também muito incisiva, como uma agulha passando pela pele.

Yūshirō foi quem ergueu a cabeça primeiro. Os olhos dourados dele se estreitaram.

— Hã...?

Sora também pareceu sentir, mas talvez não soubesse explicar por quê. Será que ele havia sido treinado formalmente por Kūkaku? Se ele sabia Kidō, talvez também soubesse detectar diferentes tipos de reiatsu.

A recém-chegada pressão espiritual agora se aproximava como o prenúncio de uma tempestade.

Ganju foi o terceiro a perceber.

— Estão sentindo isso?!

Então uma voz feminina grave surgiu, fria e controlada. Imediatamente reconhecível para Yūshirō.

— Finalmente o encontrei.

Houve um momento muito breve de silêncio enquanto Yūshirō sentia o sangue gelar.

— ...!!

Do alto do muro, uma figura pequena de uniforme negro e sobretudo branco observava o trio.

Soi Fong.

Capitã da 2ª Divisão do Gotei 13, e atual Comandante da Onmitsukidō.

Ela estava de braços cruzados e expressão fechada, quase irritada. Ou seja, problemas.

— Ca-capitã Soi Fong!

— Yūshirō-sama.

— O... que faz aqui...?!

— Em missão de localizá-lo e trazê-lo de volta, em segurança.