When the Strawberry meets the Sky
21 Bees at home
Soi Fong não tinha encontrado resistência ou obstáculo para localizar Yūshirō-sama.
O que, honestamente, já era estranho.
Ela esperava perseguições. Esperava rastreamentos. Esperava semanas de buscas. Não esperava encontrá-lo sentado no pátio da antiga propriedade dos Shiba discutindo explosões com dois residentes da moradia dos Shiba.
— Ca-capitã Soi Fong!
— Yūshirō-sama.
— O... que faz aqui...?!
— Em missão de localizá-lo e trazê-lo de volta, em segurança.
Yūshirō empalideceu.
— Sua ausência já provocou mobilização suficiente.
— Eu...
— Está na hora de retornar, Yūshirō-sama. Por favor, não resista.
Simples. Direto. Resolvido. Ou pelo menos deveria estar.
Ele desviou o olhar. Aquilo imediatamente chamou sua atenção. Porque Shihōin Yūshirō não era o tipo de pessoa que evitava encarar alguém, principalmente ela.
— Não.
Então Soi Fong ficou imóvel, incrédula.
— Perdão?
— Eu disse “não”, Capitã Soi Fong.
Silêncio. Até mesmo os pássaros pareceram reconsiderar a própria existência.
— Yūshirō-sama!
— Eu ainda tenho coisas para fazer aqui. Não quero ir para casa, ainda.
— Sua família o espera, com grande preocupação!
— Eu sei.
— O Kizokugai está em polvorosa. Eles não sabem o que aconteceu com o último herdeiro da Família Shihōin!
O garoto hesitou. Por um segundo, mas hesitou.
— Eu sei.
— Então venha comigo, Yūshirō-sama!
— Não.
Soi Fong estreitou os olhos. Aquilo estava começando a ficar ridículo. Ela havia ido presencialmente na residência dos Shiba para possivelmente localizar e resgatar o herdeiro desaparecido dos Shihōin, não para discutir com ele.
Foi então que uma terceira voz se elevou:
— Ele disse que não quer ir.
Soi Fong virou o rosto. O garoto de cabelos pretos e olhos verdes havia se levantado de onde estava. Aquele que ela não sabia o nome ou se já tinha visto o rosto antes. Seria um empregado?
Até então, ela não o havia dado muita atenção. O que foi um erro. Agora, observando-o de pé, percebeu melhor a sensação incômoda que ele provocava. A reiatsu dele era... Estranha. Não pela quantidade, mas pelo comportamento. Parecia dispersa. Fragmentada. Como se estivesse sendo constantemente desviada para algum lugar.
Então seus olhos desceram até o pingente pendurado em seu pescoço. O objeto pulsava. Quase respirava. Não era um ornamento; era um dispositivo espiritual.
Mas para quê? E produzido por quem?
— Isto não lhe diz respeito!
— Diz sim.
Yūshirō fechou os olhos.
— Ah, não...
Soi Fong ignorou.
— Esta é uma questão interna da Família Shihōin!
— E ele é meu amigo!
— Continua não lhe dizendo respeito!
— É exatamente por isso que me diz respeito!
Aquilo começou a irritá-la. Muito. Porque o garoto não demonstrava medo. Não demonstrava reverência. Não demonstrava sequer o bom senso mínimo de perceber com quem estava falando.
— Quem é você, afinal?!
— Shiba Sora!
Os olhos da capitã se arregalaram imediatamente, e uma breve sensação de pânico a tomou. “Shiba”? Não era possível... O que estava acontecendo ali?!
Ela se concentrou em manter a voz sob controle:
— Shiba Sora... Ou seja lá quem você é, está interferindo em uma operação oficial do Gotei 13, e pode ser detido por isso.
— E você está tentando arrastar alguém que claramente não quer ir com você.
— Sora-san...
— Fica tranquilo, Yū!
— Eu não estou tranquilo!
E Soi Fong suspirou, irritada.
— Chega!
Instantaneamente, a pressão espiritual dela aumentou. Não como ameaça, mas como aviso. O efeito foi imediato: dezenas de seus homens, sempre vestidos em roupas pretas leves e com os rostos parcialmente ocultos, começaram a surgir no pátio externo dos Shiba, alguns sobre o muro, outros sobre o telhado; todos cercando completamente o grupo. Se o tal Shiba tentasse algo, seria facilmente contido.
Yūshirō-sama recuou. Shiba Ganju ficou tenso. Afinal o ar ficara pesado. Shiba Sora, no entanto, foi o único que não se moveu. Pior: ele ergueu uma das mãos. E os olhos de Soi Fong se estreitaram porque ela reconhecia aquela postura: Kidō.
— Sora-san, não!
Tarde demais.
— Bakudō número sessenta e um...
Por um breve instante, Soi Fong acreditou ter ouvido errado. Sessenta e um?? Aquele moleque?!
— Rikujōkōrō!
Uma luz dourada explodiu, e foi exatamente nesse instante que Soi Fong entendeu duas coisas.
A primeira: o garoto dominava Kidō avançado. A segunda: alguém tinha ensinado aquilo a ele, e esse alguém só poderia ter sido Shiba Kūkaku.
As seis conhecidas barras de luz dourada dispararam pelo pátio. Rápidas. Precisas. Muito mais rápidas do que Soi Fong esperava. Por um instante, genuinamente por um instante, ela se sentiu surpresa. Aquele garoto não havia apenas pronunciado o encantamento completo; ele o havia executado corretamente e com rapidez.
As barras se posicionaram ao redor dela. Mas surpresa e incapacidade eram coisas diferentes.
Shunpo, e o mundo pareceu sumir por uma breve fração de segundos. As colunas luminosas se fecharam sobre o vazio.
Sora arregalou os olhos.
— Hã?!
E então ela já estava diante dele.
— O que pensa estar fazendo?
O garoto recuou um passo, instintivamente. Mas errado.
Soi Fong girou o corpo e o golpe com a perna atingiu sua lateral. Não com força letal, nem sequer próxima disso, mas ainda era o chute de uma capitã. O impacto arrancou o ar dos pulmões de Shiba Sora e ele foi empurrado vários metros pelo pátio, atingindo um banco de madeira antes de rolar pelo chão.
— SORA-SAN!
— SORA!!
Ela viu Yūshirō disparar para a frente.
— Fique onde está, Yūshirō-sama!
A ordem saiu automática. Militar e fria. E o garoto imediatamente conteve o próprio passo, enquanto Soi Fong mantinha os olhos fixos no Shiba, que ainda respirava e tentava se levantar. Bom... Isso já o colocava acima da média de alguns, o que não tornava a situação menos preocupante; muito pelo contrário.
Porque agora ela tinha ainda mais perguntas: Quem era ele? Quem realmente o havia treinado? Como conseguia dominar Bakudō avançado? E por que a Soul Society não possuía um único registro de sua existência?
— Você perdeu o juízo? — perguntou ela.
Sora apoiou uma mão no chão. Tossiu uma vez, depois outra.
— Eu...
— Acabou de atacar uma capitã das 13 Divisões de Proteção da Soul Society!
— Mas você... Estava tentando arrastar o Yū!
— Sora! — Shiba Ganju finalmente interveio, alarmado. — É... melhor você ficar quieto!
— Yūshirō-sama deve retornar agora ao Distrito dos Nobres — continuou Soi Fong. — E é o que será feito.
— Ele não quer voltar! — rebateu Shiba Sora.
— Isso não é uma decisão sua.
— Também não é sua!
— Sora-san...! Por favor... Pare de falar! — pediu Yūshirō.
Tarde demais. Porque uma nova pressão espiritual atravessou o pátio. Pesada. Quente. Explosiva. Mas diferente da precisão afiada de Soi Fong. Diferente da energia dispersa de Sora. Aquilo lembrava pólvora prestes a encontrar uma faísca.
E então todos agora reconheciam quem havia acabado de chegar.
— Aaah... — Shiba Ganju empalideceu. — Estamos mortos.
Soi Fong virou o rosto. A mulher parada na entrada da varanda estava imóvel, a mão envolta em camadas espirais de energia espiritual azul, pronta para a execução de um Kidō.
Shiba Kūkaku. E parecia furiosa.
Devagar, ela observou o pátio parcialmente destruído: o banco quebrado, Yūshirō-sama congelado, o tal Sora tentando recuperar o fôlego. Então seus olhos pousaram em Soi Fong.
— Capitã.
A voz saiu calma. O que, vindo dela, soava quase irônico.
— Shiba Kūkaku.
— Gostaria de confirmar que realmente acabou de atacar meu filho dentro de minha casa.
Silêncio. Soi Fong piscou uma única vez.
Filho?
Seu olhar voltou automaticamente para Shiba Sora, depois para Shiba Kūkaku, e depois para Shiba Sora novamente. As semelhanças físicas não eram tão óbvias, mas, agora que a informação existia... Havia algo. Alguma coisa. Um formato de rosto. Uma expressão. Um jeito de erguer o queixo.
— Seu filho...
— Foi exatamente o que eu disse.
— Ele me atacou primeiro! Eu apenas o neutralizei. Contenha-o, ou posso leva-lo sob custódia...
— E o que pensa que estava fazendo para ele achar necessário atacá-la, Capitã?
— Executando uma missão oficial.
— Dentro da minha propriedade.
— Recuperando Yūshirō-sama.
— Meu convidado.
A temperatura do ambiente pareceu subir alguns graus. Yūshirō observava as duas como alguém assistindo a uma explosão se aproximar em câmera lenta.
— Hã...
Mas ninguém ouviu.
Porque, naquele instante, Soi Fong já não estava pensando apenas em Yūshirō-sama. Ou em sua missão. Ou sequer em Kūkaku. Ela estava olhando para o garoto. Para o amuleto estranho. Para a reiatsu irregular. Para o Kidō de nível sessenta e um. Para o fato de que Kūkaku acabara de chamá-lo de “filho”.
E uma pergunta começava a se tornar impossível de ignorar: como alguém assim permaneceu escondido sabe-se lá por quanto tempo?
E pior: como isso aconteceu? A linhagem dos Shiba estava decadente, mas a reiatsu de Shiba Kūkaku ela conhecia bem. Aquela assinatura oculta no garoto... A precisão do Kidō executado com tamanha naturalidade por um espírito supostamente sem qualquer treinamento militar...
A tensão no pátio era quase palpável, com as duas mulheres se medindo em um duelo de vontades silencioso, quando um passo suave quebrou o transe.
Shihōin Yūshirō deu um passo à frente, colocando-se entre Soi Fong e os Shiba. Ele parecia menor do que o habitual, a postura encolhida pela culpa, mas os olhos dourados tinham uma determinação triste que Soi Fong raramente via no jovem príncipe.
— Chega. Por favor.
A voz dele saiu baixa, mas clara o suficiente para cortar a eletricidade no ar.
— Eu vou com você, Capitã Soi Fong.
— Yūshirō-sama...
Soi Fong começou, mas ele a interrompeu com um aceno sutil.
— Eu já causei problemas demais.
Ele olhou para Sora, que ainda tentava se erguer com a mão na costela, e depois para Kūkaku.
— Muito obrigado pela hospitalidade. E me desculpe, Kūkaku-san. Eu não queria que nada disso acontecesse.
Sora tentou dar um passo à frente, a expressão indignada cruzando seu rosto pálido.
— Mas Yū, você não precisa...!
— Eu preciso, Sora-san.
Yūshirō-sama sorriu, um sorriso fraco que não alcançava os olhos, mas que carregava a dignidade de sua posição.
— Não se preocupe comigo. Só estou indo para a minha casa.
Kūkaku desfez lentamente o Kidō em sua mão, a energia azul se dissipando no ar como fumaça. Então ela deu uma tragada longa em seu cachimbo, soltando a fumaça na direção de Soi Fong com um certo desprezo silencioso que a capitã optou por ignorar.
— Leve o garoto, Capitã.
A voz de Kūkaku era rouca e fria.
— Mas saiba que a hospitalidade da minha casa tem limites. E a sua presença nela já expirou.
Soi Fong não respondeu. Apenas fez um sinal discreto com a mão, e seus subordinados da Onmitsukidō desapareceram das frentes dos muros e telhados tão rapidamente quanto haviam surgido, restabelecendo o silêncio.
— Vamos, Yūshirō-sama — disse Soi Fong, dando as costas para os Shiba.
E enquanto caminhava para fora da propriedade ao lado de um Yūshirō silencioso, ela não conseguiu resistir ao impulso de olhar para trás uma última vez pelo canto do olho.
Shiba Sora estava de pé agora, apoiado em Shiba Ganju, os olhos escuros fixos neles. No pescoço do garoto, o pingente estranho continuava a pulsar ritmicamente sob as roupas em tons pastéis.
Soi Fong guardou aquela imagem na mente.
Ela retornaria ao Seireitei com o herdeiro dos Shihōin, mas com uma nova e verdadeira missão: ela precisava descobrir o que exatamente o clã Shiba estava tentando esconder no Rukongai.
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