When the Strawberry meets the Sky
6 Not special, just early
Ichigo percebeu a presença antes de perceber o homem.
Era como um eco torto dentro da própria cabeça, uma interferência sutil, igual quando duas estações de rádio tentam ocupar a mesma frequência. O ar não ficou pesado — isso ele reconheceria —, mas ganhou uma qualidade estranha, quase granulada, como se o mundo tivesse perdido um pouco da nitidez. A mão dele reagiu antes da mente, os dedos se movendo por instinto na direção do cabo da Zanpakutō.
“Heh”.
A voz veio sem cerimônia, preguiçosa e satisfeita, como alguém se espreguiçando depois de uma boa soneca.
“Faz tempo que não sinto isso”.
Ichigo cerrou os dentes, mas não respondeu, porque responder só tornava tudo pior.
Quando se virou, o homem já estava ali. Encostado de forma relaxada demais, como se aquele fosse o lugar mais natural do mundo para se estar parado observando um adolescente armado até os dentes. O sorriso era aberto, quase simpático — o que, para Ichigo, era automaticamente suspeito.
— Yo — disse o estranho de boina e camisa social com gravata, erguendo a mão num aceno casual.
Ichigo avaliou tudo em segundos: postura solta, mas equilibrada; reiatsu contida, mas definitivamente presente; olhos atentos demais para alguém que fingia despreocupação. Ele já tinha visto esse tipo antes. Pessoas que sorriam porque sabiam exatamente o quanto eram perigosas.
— Você costuma abordar adolescentes na rua assim? — Ichigo perguntou, mantendo a voz neutra. — Ou é só comigo?
O homem riu, como se a pergunta fosse genuinamente divertida.
— Depende — respondeu. — Você sempre anda por aí com essa cara de quem está esperando ser atacado?
“Ele tá provocando... E você tá caindo direitinho”.
Ichigo sentiu o incômodo crescer, uma pressão leve atrás dos olhos. Não vinha de fora. Vinha de dentro. Como se alguém estivesse encostado do outro lado de um espelho fino demais.
— Não sei quem você é — disse Ichigo —, mas se isso for algum tipo de pegadinha, pode parar agora.
O homem inclinou a cabeça, estudando-o.
— Kurosaki Ichigo, né?
Aquilo fez o estômago dele revirar.
“Ohhh”, cantarolou Shirosaki, claramente satisfeito. “Ele sabe seu nome. Isso já não deixa tudo mais interessante?”.
— Quem quer saber? — Ichigo respondeu, os músculos dos ombros se contraindo.
— Um amigo em potencial — disse o homem. — Pode me chamar de Shinji.
Nome dado com leveza demais. Como se não fosse importante e o verdadeiro significado estivesse em outro lugar.
Enquanto Shinji falava — coisas vagas sobre encontros inevitáveis e sobre caminhos que se cruzavam —, Ichigo sentiu aquela sensação piorar. Não era ameaça direta. Era… Reconhecimento. Algo naquele sujeito estranho parecia responder à presença do Hollow que vivia dentro de Ichigo — “Shirosaki” para os mais íntimos —, como se os dois compartilhassem uma língua que Ichigo ainda não entendia.
“Ele sente, Ichigo”, comentou a voz. “Olha o jeito que ele te olha. Como se soubesse que você tá quebrado do jeitinho certo”.
Ichigo engoliu em seco.
— Se veio vender filosofia barata, perdeu seu tempo — disse. — Eu não estou interessado.
Shinji riu de novo, mas havia algo diferente agora. Um brilho curioso no olhar.
— Que pena. A gente costuma cuidar dos nossos — falou. — Família, sabe como é.
A palavra bateu fundo demais.
Família sempre vinha com peso extra: expectativas, segredos, coisas não ditas. E Ichigo já tinha uma família pela qual sangrava o suficiente. Não precisava de outra surgindo do nada com sorrisos enigmáticos e convites mal explicados.
— Não — disse ele, firme. — Seja lá o que for isso, não.
O sorriso de Shinji não desapareceu, mas mudou. Ficou mais afiado.
— E então?
— Você já está bem mais perto da gente do que imagina, sabia?
O mundo pareceu inclinar um grau para o lado errado.
Shirosaki riu, baixo.
“Ele não tá errado”.
Foi então que Ichigo sentiu o ataque — não como impacto, mas como intenção. O ar rasgou ao redor dele quando Shinji se moveu, rápido demais para um simples teste. Ichigo reagiu por reflexo, erguendo Zangetsu e bloqueando o golpe que nem chegou a encostar.
O choque de forças fez o chão ranger sob seus pés.
— Ei! — Ichigo rosnou. — Tá louco?!
Shinji recuou um passo, mãos erguidas em falsa rendição.
— Relaxa — disse. — Isso aqui ainda é só conversa.
Antes que Ichigo pudesse responder, Shinji levou a mão ao rosto.
O gesto foi simples. Quase casual.
A máscara surgiu como um erro na realidade.
Branca, lisa e vazia. Com um sorriso fixo que não tinha nada de humano.
Ichigo sentiu o sangue gelar.
A pressão espiritual explodiu por um instante — Hollow e Shinigami misturados de um jeito que fazia tudo dentro dele gritar errado. O mundo ficou abafado, como se alguém tivesse mergulhado sua cabeça em água.
“HAHAHAHAHA!”
A gargalhada de Shirosaki ecoou alto agora, impossível de ignorar.
“Tá vendo? Eu disse. Eu sempre digo”.
— O quê… — Ichigo começou, mas as palavras morreram na garganta.
Shinji avançou. Não com intenção de matar — aquilo Ichigo sentiu —, mas com precisão suficiente para provar um ponto. Cada golpe era rápido, calculado, empurrando Ichigo para trás, testando seus reflexos, sua resistência, sua reação ao poder Hollow.
Ichigo bloqueou, desviou, recuou. O coração batia tão forte que parecia querer escapar do peito.
— Por que você tem isso?! — gritou, entre um golpe e outro.
— Porque você não é especial — respondeu Shinji, a voz dividida em dois tons de voz diferentes que, de alguma forma, se executavam juntos, assim como acontecia quando Shirosaki falava. — Só é mais adiantado.
O último ataque veio como uma pressão esmagadora, não física, mas espiritual. Ichigo sentiu as pernas falharem por um segundo — e foi o suficiente.
Shinji parou.
Simplesmente… Parou.
A pressão desapareceu como se nunca tivesse existido. Ele deu alguns passos para trás e retirou a máscara com o mesmo cuidado com que a colocara.
O silêncio caiu pesado entre eles.
— Considera isso uma introdução — disse Shinji, com a voz novamente normal. — Não uma ameaça.
Ichigo respirava com dificuldade, o corpo tenso, a mente um caos.
“Corre”, murmurou Shirosaki, surpreendentemente sério. “Ainda não é a hora”.
Como se tivesse ouvido, Shinji virou-se de costas.
— A gente se vê, Kurosaki Ichigo — falou. — Quer você queira ou não.
E então, ele foi embora.
Ichigo ficou ali por longos segundos, tentando convencer o próprio corpo de que ainda estava inteiro. O mundo voltou ao normal devagar demais.
— Droga… — murmurou.
Shirosaki riu, suave, satisfeito.
“Eu avisei”. “Agora você sabe que não tá sozinho nessa”.
Ichigo fechou os olhos por um instante, sentindo o peso daquela verdade se acomodar onde não deveria caber.
E odiou o quanto parte dele já suspeitava disso.
O silêncio dentro da loja era enganoso.
Não era ausência de som — o rangido distante da madeira, o tilintar quase imperceptível de algo metálico nos fundos, o vento passando pelas frestas —, mas um silêncio carregado. Daqueles que surgem quando três pessoas experientes demais estão pensando na mesma coisa e nenhuma quer ser a primeira a dizer em voz alta.
— Então… — disse Urahara, abanando o leque preguiçosamente, o sorriso de sempre no rosto —. Algum de vocês percebeu também, certo?
A pergunta era retórica. Os outros dois sabiam.
Yoruichi estava sentada sobre o balcão, braços cruzados, expressão séria demais para alguém que normalmente tratava o caos como esporte radical.
— E tinha como não? — ela respondeu. — Aquilo era praticamente um farol.
O leque de Urahara parou no meio do movimento por um segundo mínimo. Imperceptível para quem não estivesse prestando atenção.
Tessai Tsukabishi permanecia de pé, mãos escondidas nas mangas do haori, olhar fixo no vazio como se ainda acompanhasse algo que já não estava ali.
— Uma pressão espiritual considerável… — ele disse por fim, a voz grave e medida. — E instável. Não é algo que se apague facilmente.
Yoruichi soltou um suspiro curto.
— É como sair andando com um alvo pintado nas costas — completou. — E um alvo piscando.
Urahara abriu o leque de novo, voltando ao teatrinho habitual, mas havia algo diferente no olhar por trás da sombra do chapéu.
— O garoto é barulhento, espiritualmente falando — comentou. — Mas não por falta de controle. É quase o oposto.
— O que nos leva à pergunta óbvia — disse Yoruichi, descendo do balcão com um movimento leve —. Ele conseguiu voltar em segurança?
Tessai não respondeu de imediato.
Ele havia sentido o rompimento. O instante em que aquela presença atravessou o limiar e, depois, desapareceu. Não suavemente. Não de forma limpa. Mas como algo sendo forçado a caber onde não deveria.
— Não houve perseguição imediata — disse por fim. — Pelo menos, não que eu tenha detectado.
— Imediata — Yoruichi repetiu, erguendo uma sobrancelha. — Uma ótima escolha de palavra. Bem tranquilizadora.
Urahara riu baixo.
— Ara, Yoruichi-san, você soa quase preocupada.
Ela lançou-lhe um olhar afiado.
— Não brinca, Kisuke. Você sabe muito bem que, se metade das pessoas certas sentirem aquilo… — ela não terminou a frase.
Não precisava.
O nome “Shiba” não foi dito em voz alta, mas pairou entre eles como uma presença invisível. Um segredo antigo demais? Um erro que nunca chegou a ser registrado? Talvez algo que não devia existir? — e, ainda assim, existia.
— Ele não é imprudente — disse Tessai, com firmeza. — Pelo contrário. A contenção é deliberada.
— Sim — concordou Urahara. — O problema é que contenção também chama atenção quando o que está sendo contido é fora do padrão.
Yoruichi cruzou os braços de novo, o rabo felino balançando lentamente — um sinal claro de que estava pensando demais e que, também, pensava em tornar-se gato novamente para investigar de forma mais prática.
— A Seireitei não é cega — murmurou. — Certas pessoas são especialmente sensíveis a coisas fora do lugar.
O sorriso de Urahara afinou.
— Especialmente aquelas que gostam de coisas fora do lugar.
Por um instante, nenhum deles falou.
Então, Tessai deu um passo à frente.
— Se ele chegou até aqui… — começou.
— …significa que pelo menos essa parte deu certo — Urahara concluiu. — O que não quer dizer que está seguro agora.
Yoruichi inclinou a cabeça, pensativa.
— Não — disse. — Só quer dizer que o jogo começou.
E o vento soprou mais forte do lado de fora da loja, fazendo o sino da porta balançar levemente.
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