When the Strawberry meets the Sky
7 The problem with arriving alive
O Dangai não tinha sido feito para quem não sabia para onde ir.
Sora só percebeu isso tarde demais — quando o chão deixou de ser chão, quando o ar começou a empurrar contra ele como uma correnteza sólida e quando alguma coisa passou ao longe, enorme e rápida demais para ser entendida como qualquer coisa que não fosse perigo.
— Hã...
Nada de exclamações heroicas. Só isso mesmo, um “hã” pequeno e atrasado, do tipo que se tem quando o corpo entende antes da cabeça.
Ele tentou se firmar. Tentou sentir o fluxo espiritual ao redor, como sempre fizera, mas o que respondeu não foi o ambiente — mas ele mesmo.
Aquela sensação estranha no peito voltou, agora mais forte. Não era dor, mas era como se algo estivesse tentando se ajustar por dentro, abrir espaço onde não havia, segurar o que queria escapar. Em momentos normais, dava para ignorar. Em pânico, não.
Mas o Dangai não esperou ele entender.
A queda veio como uma punição pelo simples fato de ter ousado existir ali por alguns minutos.
Por um instante — só um — Sora teve certeza de que ia se despedaçar contra o céu da Soul Society e, então, a asa se abriu depois de ser puxada e sacudida uma única vez.
Não se tratava de uma asa real, mas um tranco seco nos ombros que puxava o corpo para trás com violência suficiente para arrancar o ar dos pulmões, mas não o suficiente para quebrá-lo. O mecanismo chiou, reclamando, mas fez o seu trabalho.
— Valeu, Cara de Texugo — murmurou, sem saber se falava com o objeto ou com o homem que o deu.
Ele ainda caiu. Só que caiu menos.
Atravessou as nuvens como um projétil mal calculado, girou, perdeu qualquer noção de direção e acabou se chocando contra o solo longe demais de qualquer lugar importante — um impacto feio, espalhafatoso, desses que não passam despercebidos. Como um filhote de pato tentando aprender a voar e falhando miseravelmente em fazê-lo.
Ficou alguns instantes deitado no chão, olhando para o céu — o mesmo que leva o seu nome, 空. A respiração ainda parecia um pouco errada e o peito, aquecido.
“Chamativo”, pensou.
Sempre fora. No Rukongai, na residência dos Shiba, em qualquer lugar onde passasse tempo demais. Gente olhava. Gente comentava. Gente lembrava.
Agora, com uma asa mecânica desmontada ao seu redor, um rastro no chão e uma pressão espiritual que ele sentia escorrer para fora mesmo quando tentava conter, “chamativo” parecia pouco.
— Heeh… — murmurou consigo mesmo, sentando devagar. — É tão óbvio assim, então?
Ele se levantou, juntou o que restava da asa e começou a andar, tentando se localizar. A Soul Society era familiar — demais, até —, mas, depois do Dangai, tudo parecia ligeiramente deslocado, como se o mundo tivesse dado meio passo para o lado sem avisar. Quando avistou a casa — um tanto impossível de se perder à vista —, o alívio veio antes das palavras.
Ele entrou com a pergunta já formulada, pesada na língua, pronta para finalmente sair.
“Okaa-san, por que—”
Não deu tempo.
Ela estava de pé antes mesmo de ele cruzar o limiar. Nervosa. Aliviada. Irritada. Tudo junto e mal disfarçado.
— ONDE VOCÊ ESTEVE?!
A mão de Shiba Kūkaku fechou na roupa dele, na altura do peito, puxando-o para perto num movimento brusco e seco, rápido demais para possibilitar qualquer reação. O chão parecia tremer com a pressão espiritual e o punho cerrado estava à altura do rosto dele.
— VOCÊ TEM IDEIA DE QUANTOS DIAS ESTEVE FORA?
A voz ecoou pela casa inteira. O punho ficou ali, imóvel, numa linha tênue entre um soco e um Kidō explosivo concentrado o suficiente para abrir um buraco na parede — e nele — caso ela não gostasse da sua resposta.
Sora congelou. Claro. Quem não?
Ele abriu a boca, fechou e abriu de novo. O cérebro estava ocupado demais calculando probabilidades de morte para formular frases completas.
— Eu—
O punho de Kūkaku estalou no ar. CRAC. Mas não desceu. Ainda. A casa, no entanto, pareceu levar isso como um aviso formal.
— Ótimo — ela sorriu, não com a boca, mas com a ameaça. — Explica no caminho.
E ela o largou só para agarrá-lo de novo pelo outro lado do colarinho e começar a arrastá-lo para dentro como quem carrega um saco de arroz especialmente irresponsável.
— Hã, okaa-san...
BOOM.
Uma parede lateral decidiu que aquele era um bom momento para não existir mais. Poeira subiu, telhas escorregaram, alguma coisa metálica quicou no chão fazendo clonc clonc clonc.
Do corredor, duas cabeças idênticas apareceram em sincronia perfeita.
— Ela tá no modo vermelho, Sora-sama! — murmurou a primeira.
— Vermelho não — corrigiu a outra. — Isso aí já é assassino!
Sora tentou olhar para elas para pedir por socorro, mas Kūkaku o sacudiu como um boneco de pano.
— VOCÊ. — cada sílaba veio acompanhada de um pequeno estouro no ar — DESAPARECE. — estouro — NO OUTRO MUNDO. — outro estouro — SEM DAR QUALQUER SATISFAÇÃO.
— Tecnicamente, eu avisei—
Outro BOOM, dessa vez vindo do chão. Uma cratera modesta abriu sob os pés deles.
— Não — disse Kūkaku, perigosamente calma. — Você não avisou ninguém!
As cabeças gêmeas trocaram um olhar rápido.
— A gente devia…
— Evacuar.
— Concordo.
Os donos delas, os dois servos grandalhões da família Shiba, deram meia-volta e saíram em marcha acelerada, já acostumados a esse tipo de evento doméstico.
Sora engoliu em seco.
— Foram… Quantos dias? — perguntou ela, baixando um pouco o punho. Só um pouco. O suficiente para a esperança florescer e morrer nos próximos dois segundos. — Sete?
Silêncio.
O tipo de silêncio que fazia o ar pesar.
— Sete! — concluiu Kūkaku.
A casa explodiu pela metade esquerda.
Sora nem teve tempo de gritar. Só sentiu o mundo virar, o teto desaparecer, o chão subir para encontrá-lo com entusiasmo excessivo e, em seguida, tudo ficou meio… Torto.
Ele acordou de bruços no chão, o rosto virado de lado, vendo três estrelas que deviam estar no céu da Soul Society. Acima dele, uma silhueta imponente, mãos nos quadris, cabelos soltos e fumaça subindo ao redor.
— Espero que tenha entendido — disse Kūkaku.
Sora levantou um dedinho, tremendo.
— Sim. Desculpe. Okaa-san.
Ela suspirou, longo e profundo. O tipo de suspiro que vinha antes de mais uma explosão ou de um abraço esmagador. Difícil dizer.
— Você vai me explicar tudo... — concluiu. — Depois de reconstruir a casa.
Do lado de fora, um dos gêmeos espiou.
— Aposto cinco fichas que ele ainda tá vivo.
— Aposto dez que não aprende.
E Sora gemeu baixinho no chão.
Ele não tinha medo de nada... A não ser da fúria de Shiba Kūkaku.
Mais tarde, a casa ainda estava de pé. Tecnicamente. Considerando os padrões Shiba, isso já contava como uma vitória.
Sora varria os restos de madeira chamuscada e telhas quebradas com uma vassoura claramente improvisada — um pedaço de cabo, fibras amarradas de qualquer jeito e muita fé. Cada movimento levantava uma nuvem de poeira fina que fazia arder o nariz e deixava o ar com aquele cheiro inconfundível de “Kidō que detonou o que não devia”.
— Sora-sama! Aqui! — gritou Koganehiko, empurrando um pedaço de parede que não era mais, exatamente, uma parede.
— Isso era o corredor! — completou Shiroganehiko, animado demais para alguém cercado por destroços.
— Era — corrigiu Sora, suspirando. — Agora é, hã… Uma lembrança disso.
Ele se abaixou para juntar cacos maiores e, então, a porta — ou o que costumava ser a porta — foi empurrada com força.
— ANEKI, O QUE HOU—
A voz morreu no meio do grito.
Ganju congelou no limiar, olhos arregalados, o olhar correndo pela casa destruída, pelas marcas de explosão, pelos gêmeos animados demais… E então pousando em um Sora coberto de poeira e com uma vassoura na mão.
— Hã...
Silêncio.
— Heeh...
Outro silêncio.
— SORA?
O alívio bateu primeiro. Rápido e forte, como um soco no estômago — daqueles bons. Ganju deu vários passos largos para dentro e agarrou o sobrinho pelos ombros, puxando-o para frente e para trás como se estivesse conferindo se ainda estava consciente.
— Você tá vivo!!
— É — respondeu Sora.
— E inteiro!!!
O abraço veio sem aviso. Forte, desajeitado, daqueles que esmagam costelas e dizem “Ainda bem!” sem usar a palavra.
Durou exatos três segundos, porque o impulso seguinte foi inevitável.
— SORA, SEU MERDINHA!!! — Ganju berrou, levantando o punho. — VOCÊ TEM IDEIA DO SUSTO QUE—
Mas o soco não chegou a acontecer.
Sora havia fechado os olhos por reflexo e Ganju ainda estava com o punho suspenso no ar quando Kūkaku apareceu, uma veia latejando na têmpora.
— Hãaaa?! Vocês estão mesmo fazendo corpo mole enquanto a casa está de pernas pro ar?!
— NÃO, SENHORA! — responderam, em uníssono, Sora e Ganju.
Ela deu uma olhada ao redor, avaliando os estragos.
— Bom, eu vou fumar um pouco. Sora, quando tiver terminado, venha falar comigo.
E se retirou.
Após um silêncio geral constrangedor, os gêmeos ergueram os braços, em comemoração.
— SORA-SAMA VOLTOU!
— GANJU-SAMA TAMBÉM!
— E A CASA SOBREVIVE! – eles concluíram, em uníssono.
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