When You Came To Me
7 Vodca e Maçã
Quinn estava diante do espelho de seu banheiro, passando rímel nos cílios. A boca se mantinha levemente aberta, como parte da concentração que ela procurava. Como a sexta-feira, na rua, já era noite, a mulher teve que acender uma lâmpada sobre o espelho, um detalhe que sempre lhe fazia pensar em uma atriz de teatro em seu camarim. Quando terminou o trabalho nos cílios, focou-se na boca, e para isso usou um batom com um tom de vermelho mais escuro, com um aspecto tão rebelde e revoltado quanto ela própria estava.
Revoltada, é claro, porque o tal do Sam – aquele imbecil, idiota, tolo e gostoso do Sam! – não tinha ligado. O celular estava ali, recebendo tanto sinal quanto recebia diariamente, mas a ligação não viera. Recebera uma mensagem de texto durante a tarde, mas fora apenas a UPS avisando que o pedido de livros estava a caminho. Uma pena que Quinn não estivesse nem um pouco interessada nos livros. E pensar que excedera um pouquinho do limite do cartão de crédito só por causa de um homem que, por algum motivo, não se interessava por ela.
Vestida com uma roupa para a noite escura e colada, Quinn esperava curtir a noite de Nova Iorque e esquecer que um dia Sam Evans existira. Homens que nem ele são assim: conquistam, roubam o coração de uma mulher, o mantêm bem preso em seu punho fechado e então vai embora, abandonando a mulher, agora vazia e sem sentimentos, onde quer que ela esteja. Era o tipo de homem que não devia ser amado de jeito nenhum, mas quem disse que mulheres como Quinn seguiam à risca essa regra?
Sam era um deus. Bonito, loiro, enorme – um tanto avoado – e um homem que não se podia deixar passar. E Quinn tentara conquistá-lo, mas ele não quisera ser conquistado. Talvez fosse gay, afinal.
Pegou uma bolsa de mão pequena sobre a mesa de canto e saiu pela porta do apartamento. As amigas já a aguardavam no hall de entrada há alguns minutos – não pedira para que subissem para o apartamento porque sabia que isso só atrasaria as coisas.
No hall de entrada, a primeira a correr até ela foi uma mulher com porte de adolescente, mas com um rosto tão sensual, moreno, que acabava se parecendo mais com uma mulher fatal. O corpo estava vestido com um vestido vermelho e provocante.
– Santana! – Quinn disse ao abraçá-la.
Em seguida, veio uma loira alta, de rosto ingênuo e belos olhos azuis. Não usava vestido – dificilmente usava –, mas o short jeans que escolhera para a noite deixava suas longas e esguias pernas à mostra em um visual gracioso e tão provocante quanto o da amiga. Aquela era Brittany, e Quinn a abraçou também.
Fazia tempo que não via aquelas amigas. Quinn as conhecera justamente em uma balada, na época em que ainda tinham amigos em comum. A sinergia entre as três, naquele dia, mostrou-se tão intensa que não demorou muito para que começassem a sair sozinhas, deixando os amigos em comuns para os planos B.
– Qual é a balada da noite? – Quinn perguntou às amigas no taxi. A pergunta fora feita por curiosidade, mas o taxista já esperava uma dica de destino há algum tempo enquanto rodava pela Times Square.
– Eu estava pensando na Coconut Bar...
– Isso é um bar gay, Santana! – interrompeu Brittany. – E eu nunca entendo por que aqueles caras lindos nunca querem me beijar...
– Você não deve esperar beijar caras em um bar como esse, Brittany!
– E é por isso que eu acho melhor a gente ir à outra balada – Quinn opinou. – Quero beijar muito hoje, e não estou a fim de ser rejeitada por caras e apreciada por mulheres.
Santana deu de ombros. Brittany bateu palmas.
Meia hora depois, o taxi parava em frente a uma balada que, de fora, não parecia mais do que um imenso galpão, apesar dos letreiros em neon na fachada. Do lado de dentro, no entanto, o lugar era lindo, com luzes que dançavam no alto, sobre a cabeça de jovens que dançavam a toda. A música tocada era uma daquelas de batidas repetitivas, mas a intensidade do som era empolgante e envolvente. O ambiente, um tanto escuro, parecia propenso aos mais intensos tipos de pegação, e uma rápida esquadrinhada revelava futuros casais aos beijos com mais frequência do que Quinn achava que legal.
– Vou pegar uma bebida! – foi o que Santana gritou quando tomou a mão de Brittany e a puxou em direção ao bar. Quinn assentiu com a cabeça, mas não entendeu realmente o que ela tinha dito. Pensou ter ouvido dizer que ela ia ao banheiro.
Embrenhou-se no meio da multidão e então uma infinidade de ombros começaram a ir de encontro aos seus. As pessoas suavam, e os cheiros exalados da multidão eram diversos, entre bons e ruins. Quinn ainda não dançava, então andar em meio a tanta gente tornou-se um imenso desafio. Seus olhos, no entanto, estavam atentos.
Atentos porque, primeiramente, Quinn acreditava na remota possibilidade de encontrar Sam em meio aos homens que via. Sam devia ter amigos e seus amigos deviam ser do tipo que frequentava baladas em uma sexta-feira à noite, não? Ignorava que Nova Iorque tinha centenas de baladas e ignorava que, talvez, o entregador da UPS fosse um homem caseiro. Estava positiva de que iria encontrá-lo naquela multidão, afinal, se fora capaz de encontrá-lo até mesmo em um restaurante chinês, por que não ali também?
Uma mão tocou seu ombro e girou o seu corpo em cento e oitenta graus. Quinn soltou um suspiro, tão intensa que fora a força empregada. Deparou-se com um homem até que bonito, de rosto forte, com cabelos negros e arrepiados que se confundiam com as costeletas ao se unirem à rala barba que tomava conta do seu rosto. A língua do estranho corria os lábios como se quisesse umedecê-los. Quinn, participante da vida boêmia como era, sabia muito bem o que significava aquilo. Um beijo estava a caminho.
Ela não podia estar mais certa.
A mão que a havia girado segurou sua cabeça pela nuca e a puxou para perto. Os lábios se encontraram e não tardou para a língua do rapaz invadir a sua boca. Quinn o beijou sem vontade nenhuma, apenas como uma mulher que sabia beijar bem, mesmo em situações esquisitas como aquela – ainda que estivesse à procura de Sam, não conseguia resistir quando um homem lhe tomava daquela forma.
Pensar em Sam, no entanto, a fez perder a vontade de beijar.
Primeiro porque os lábios que massageavam os seus não eram nem metade tão grandes quanto os que Sam tinha, e isso era algo que não precisava ser visto, mas sentido. Além do mais, o perfume dele, um muito bom, não era o mesmo usado por Sam, e isso para não mencionar que, ao segurar o seu rosto, Quinn sentira a aspereza da barba por fazer do rapaz nas próprias mãos, e Sam não tinha barba nenhuma em seu rosto liso e perfeito. E os cabelos que ela agarrou? Eram curtos e estavam espetados. Sam tinha os cabelos compridos e loiros, então os do estranho não se assemelhavam aos dele em absolutamente nada.
Quinn apoiou uma mão no peito do rapaz e o empurrou. Ouviu algum flerte que envolvia a palavra “gatinha”, mas não deu atenção àquilo. Caminhou para longe daquele homem e tornou a se embrenhar na multidão. A música estava tão alta que parecia tocável. O ritmo era o responsável por guiá-la em meio ao mar de gente.
Os olhos giravam ao redor, procurando, inconscientemente, por Sam. Havia muitos homens ao redor que se pareciam com ele, mas parecer não significava ser igual, e isso a revoltava ainda mais. Será que seria capaz de reconhecê-lo, mesmo na escuridão? Ele estava ali em algum lugar, ela sentia!
Ou será que estava apenas sendo paranoica?
– Preciso beber – sussurrou para si.
E bebeu.
Vodca, cerveja, vodca novamente, uma dose de tequila que deixou seus pensamentos tão altos quanto as nuvens no céu. O rosto estava corado, mais do que qualquer blush que ela usasse seria capaz de reproduzir, e os olhos de repente lhe pareciam pesados, ao mesmo tempo em que o garçom, um homem já com mais de trinta anos, lhe pareceu o homem mais sexy já visto na face da Terra.
Pensou em puxá-lo para um beijo, mas a mente novamente fez a comparação com Sam, o que a obrigou a deixar o plano de lado. Substituiu a vontade de beijar por um novo copo de vodca. A bebida, àquela altura, parecia o líquido mais saboroso e envolvente que os lábios da mulher já haviam tocado.
A música, ainda alta, de repente ficou mais interessante. Os ombros de Quinn dançavam involuntariamente enquanto ela, sentada, fazia um esforço tremendo para se manter equilibrada no minúsculo banco. Sentiu o desejo de dançar e por isso se levantou num pulo. Caminhou com passos trôpegos até a pista de dança – Ei, aquelas ali são a Santana e Brittany? Se beijando? – e jogou-se contra o corpo de uma mulher. Quando menos pôde perceber, estava dançando em meio a centenas de pessoas estranhas.
E muitos e muitos caras a abordaram para beijá-la. Quinn negou todos.
Nenhum deles se parecia com Sam.
Não, na verdade, nenhum deles era o Sam.
E Quinn não queria beijar mais ninguém naquela noite além do entregador da UPS.
Por isso, dançou como se não houvesse amanhã. A sensação foi libertadora.
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No sábado de manhã, Rachel Berry caminhava com uma sacola de papel pardo pendurada em uma das mãos. Acabara de passar em um mercado e em uma feira para comprar seus alimentos. Encontrara verduras e frutas a ótimos preços. Seu almoço e jantar vegetariano do fim de semana estavam garantidos.
Tomara o caminho maior para voltar para casa, porque gostava de caminhar por Nova Iorque. As pessoas que observava, os comportamentos, os lugares, tudo era tão bonito que enchia os olhos. Sempre fora o sonho de Rachel morar em Nova Iorque, e agora que morava, desejava aproveitar ao máximo a experiência, mesmo que durante uma caminhada depois de sair de um mercado.
Um cartaz em um poste à frente chamou a sua atenção, não sem motivo. Havia lâmpadas de neon ao redor do pôster e uma mulher vestida de Marilyn Monroe, com os braços abertos, simulava o que parecia um solo que nunca terminaria. Havia números de telefone, sites, nomes e mais um monte de informações ao redor da imagem. Não era preciso prestar muita atenção nele para saber que aquele era um convite para audições para uma nova versão do musical Bombshell, sobre a vida de Marilyn Monroe.
Rachel sacou o celular do bolso frontal de seu vestido e tirou uma foto dele. Mais tarde, pensava em ligar para aquele número e tentar a sorte. Não era a primeira – e ela tinha a impressão de que muito menos seria a última – vez que ela tentava a sorte em uma audição para um musical da Broadway, mas não pensava em desistir da carreira tão cedo. Viera à Nova Iorque inicialmente com essa finalidade, não? Nascera para ser uma estrela, e jamais se esqueceria disso.
Guardou o celular e enfiou a mão na sacola para apanhar uma fruta. Encontrou uma maçã. Comer uma maçã na Big Apple!, pensou, divertindo-se com o pensamento. Passou pelo portão do prédio em que morava e, talvez por estar de bom humor, ignorou o elevador e subiu os andares até o seu apartamento pelas as escadas, depois de dar um bom dia ao porteiro.
Estava fazendo a curva no corredor, indo em direção à sua porta, quando se deparou com algo em frente a ela que definitivamente não era esperado.
Havia um buquê de flores, no chão, à sua espera.
Não um buquê qualquer, é claro, mas um tão grande que tomava metade do corredor para si. Em um cesto de palha, havia flores roxas, em maior quantidade, e amarelas, essas em menor quantidade. De longe, pareciam um céu estrelado dentro de uma cesta. Rachel não conhecia muito bem de tipos de flores, então não soube dizer quais eram aquelas, mas fossem quais fossem eram lindas, perfumadas e de uma espécie tão bem cuidada que não era de se admirar se fossem caras também.
– Deve ter havido um engano – sussurrou para si, embora torcesse pelo contrário. – Quer dizer, quem, em toda Nova Iorque, me mandaria flores em um dia como esse? – perguntou-se, fazendo um esforço ferrenho para refrear a hipótese de o dono das flores ter sido Finn Hudson.
O cartão que o buquê carregava, no entanto, afirmou o que ela mais temia.
Espero que tenha pensado com carinho no meu convite.
Esses eram os únicos dizeres no pequeno cartão, mas não era preciso mais texto para que Rachel soubesse que fora o seu atual chefe o responsável pelo inesperado presente.
“Mas seria uma loucura se interessar justamente pelo próprio chefe, não é mesmo?” a voz de Quinn Fabray dizia em sua cabeça.
Será que seria uma loucura mesmo se apaixonar por um homem que, em um sábado de manhã, pensa em mandar flores para a mulher em que está interessado?, Rachel pensou, mordendo o lábio inferior.
Apanhou o buquê e entrou no apartamento. Não conseguia nem imaginar como seria trabalhar na segunda-feira depois daquele presente, mas, ainda assim, estava mais ansiosa do que nunca para voltar à sua mesa de trabalho.
Notas finais
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E o que comentar sobre a entrada da Demi Lovato em Glee? Eu curti! :D
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