When You Came To Me
8 Paris
Rachel estava desconcentrada.
Recebera logo cedo um relatório dos grandes para conferir. Um funcionário viajara até a Colômbia e o seu extrato de despesas era particularmente grande – algo em torno de vinte e cinco páginas. Em condições normais, conferi-lo com a planilha enviada pelo tal funcionário e eliminar o que não devia ser pago pela empresa – itens pessoais como livros, roupas, bebidas alcoólicas – seria muito mais do que fácil. Um trabalho que levaria a manhã inteira para ser feito, mas ainda assim fácil. O problema era que o relatório estava em espanhol.
E o fato de a sala às suas costas ainda estar vazia também não ajudava em muita coisa.
Não que só conseguisse trabalhar normalmente se estivesse sob a supervisão do chefe. A ausência de Finn Hudson era um transtorno por um motivo completamente diferente. Desde que recebera as flores e desde que lera o cartão que ele lhe enviara, Rachel estivera ansiosa em rever o chefe – não uma ansiedade saudável, daquela que traz felicidade e calmaria a alguém, mas uma preocupante, do tipo que tira a noite de sono de uma pessoa. Rachel mal conseguira dormir na noite passada, e já eram quase dez horas da manhã e a fonte da sua insônia ainda não dera as caras.
Pensou se ele não estaria tão constrangido quanto ela sobre o que fizera. Pessoas, normalmente, às vezes passam por momentos de impulsos irrefreáveis, o que talvez fosse o caso do bilhete com o nome do perfume e também das flores. Dois impulsos irrefreáveis, a mulher contou. Se não aparecera até então, portanto, talvez estivesse com vergonha de encarar a secretária naquela manhã de segunda-feira, afinal, Rachel não era o tipo de colega de trabalho ele que via esporadicamente durante o dia, mas uma mulher para a qual passava o dia inteiro olhando.
Rachel, às vezes, sentia nos próprios ombros o peso do olhar do chefe.
Duvido que ele se sentisse assim, pensou depois de um tempo. A mesa estava cheia de notas fiscais desorganizadas e folhas de papel sulfite com informações confusas. Um homem poderoso como ele, que veste um terno e se sente confortável com ele, que tem mais formações do que uma pessoa da idade dele deveria ter, não, ele não é inseguro e não sente constrangimentos. Esse papel pertence a mim.
Rachel estava frustrada. O fato de o funcionário que enviara aqueles relatórios não ter pelo menos se preocupado em preencher os formulários na ordem correta a irritava e dificultava muitas vezes mais o seu trabalho. Pensou em tomar o telefone e ligar para o tal homem, exigindo que ele próprio corrigisse os seus erros, mas a mão não foi até o aparelho, como se agisse com rebeldia contra a sua dona.
Sabia de uma pessoa que poderia solucionar aquele problema para ela: Quinn Fabray. Quinn era o final do processo, a pessoa que estava ali para garantir que os relatórios conferidos estivessem corretos, que podiam ser encaminhados para pagamento. Normalmente, ela não se propunha a corrigir nada que estivesse errado, mas Rachel bem sabia que Quinn não era a mais ocupada de todas as funcionárias da empresa e que fazia o seu trabalho de forma tão brilhante que sempre tinha tempo para ajudar uma amiga.
– Fabray? – disse a voz quase sensual da mulher no outro lado da linha.
– Oi, é a Rachel.
– Ah, você.
– Estou tendo problemas com um processo enviado pelo Tim, as notas estão bagunçadas e as datas estão confusas...
– Mande para mim – Quinn a interrompeu, falando quase que de maneira robótica.
– Está falando sério?
– Sim, não há nem a mais leve lembrança de graça no meu rosto agora.
Ela não está em um bom dia, Rachel percebeu e engoliu em seco.
– Está bem – disse, procurando soar casual. – Vou pedir ao office boy que leve o processo até aí. – Por alguma razão, Rachel levantou o olhar automaticamente na direção do fim do corredor ao dizer isso. Talvez estivesse inconscientemente procurando pelo tal do office boy, mas o que viu foi o seu atual chefe, alto, elegante, tão seguro de si que incomodava, caminhando todos os metros que havia entre a entrada do escritório e a mesa de sua secretária, erguendo uma mão saudosa a todos que o observavam. – Obrigada – disse para Quinn.
Não houve resposta da colega antes de o telefone ser desligado.
Rachel abaixou o rosto ao desligar o telefone também. Segurou uma porção de notas na mão esquerda e agarrou uma caneta com pressa, como se estivesse trabalhando desde muito antes de Finn Hudson entrar. Jogou os cabelos em frente ao rosto, como se esperasse evitar qualquer contato visual com o chefe apenas por fazer isso.
Mas nem tanto fingimento o impediu de se dirigir a ela.
– Bom dia, Rachel – ele disse ainda a alguns metros da mesa.
– Bom dia, Sr. Hudson.
Houve uma pausa. Por um momento, Rachel só conseguiu ouvir os passos do homem a se aproximar. E então houve a já comum batida no topo da baia, mas dessa vez ela foi seguida de um:
– Rachel, cinco minutos, Sala de Reunião Paris, por favor.
Oh, meu Deus!, Rachel pensou, e a voz da consciência gritou com o mesmo tipo de histeria com o qual ela teria gritado.
Sala de Reunião Paris. Rachel a conhecia tão bem quanto conhecia o caminho até a sua casa: um aquário minúsculo em que só cabia uma mesa circular e quatro cadeiras. Acesso à internet? Tinha. Ponto de telefone? Tinha também. Mas Finn Hudson não a chamaria para usar a internet e o telefone na Sala Paris, chamaria?
A Sala Paris era usada apenas para tratar de assuntos delicados.
Rachel largou as notas fiscais e as folhas de relatório sobre a mesa como aquela que deixa de mão toda uma vida. Apanhou o celular sobre a mesa mais por força do hábito do que por necessidade. Caminhou os cinco minutos até a Sala Paris com passos lentos e pesados, como um sentenciado à pena de morte que se conformou com o seu destino.
Abriu a porta de vidro da tal sala de reunião e se sentou no estofado que sempre lhe parecera confortável. Hoje, ele não parecia mais confortável do que uma cama de pregos. Apoiou as mãos cruzadas sobre a mesa e abaixou o rosto, ocultando-o em sombras. Pensou se seria pertinente chorar em um momento como aquele. Achou melhor não. Diante de homens seguros o melhor era demonstrar segurança.
Os devaneios que contaminaram sua mente durante aqueles instantes foram tão profundos que ela nem se deu conta de quando Finn Hudson entrara na sala, puxara uma cadeira, sentara, cruzara as pernas e os dedos sobre a mesa. Quando levantou o rosto, ele simplesmente estava lá, como se fosse ela a pessoa atrasada, e não ele.
Engraçado como as paredes de vidro conseguiam abafar os sons exteriores. A Sala de Reunião Paris era conhecida pelo clima de intimidação que podia causar justamente por conta disso – parecia um apêndice do mundo, como uma parte de um universo paralelo.
– Você está bem, Rachel? – Finn perguntou, sério.
Por que se importa? Se vai me demitir, por que se importaria com o meu estado?
Contradizendo todos os seus pensamentos, portanto, Finn Hudson, apesar da presença poderosa, era um homem que se deixava levar por constrangimentos. Sabia que não conseguiria mais conviver normalmente com a secretária depois de dois ataques plenamente impulsivos, e por isso a demitiria. Nada mais natural. Era o tipo de coisa que Rachel conseguia entender perfeitamente bem, embora soubesse que agiria de forma diferente.
– Estou – respondeu finalmente, procurando soar confiante.
– Ótimo. Tenho algumas perguntas a fazer para você.
Pelo menos ele se deu o trabalho de me humilhar sem ter um público por perto. Não é o tipo de coisa que o antigo chefe faria.
– Vá em frente – Rachel disse, dando de ombros. – Estou toda ouvidos.
Finn assentiu e apertou os lábios já finos. Olhou momentaneamente para o chão, como se fizesse uma análise crítica sobre o que acabara de ouvir, e então girou os olhos negros na direção da secretária. Rachel os sustentou apenas por uma fração minúscula de segundo.
– Preciso de você hoje – ele disse. Rachel pensou que ele fosse prosseguir, mas, pelo visto, ele esperava uma resposta.
– Certo – foi a única coisa que conseguiu dizer. De certa forma, a perspectiva de não ser demitida a tinha animado um pouco.
– Depois do expediente.
Hora extra?, foi a constatação que veio como um balde de água fria em cima da sua recente animação.
Se bem que tinha tanto trabalho a fazer...
– Vai fazer alguma coisa hoje, às oito da noite?
Hora extra até às oito? Em plena segunda-feira? Isso sim é saber como humilhar alguém!
– Não – Rachel ouviu-se responder.
– Ótimo. Perfeito. – Finn se recostou na cadeira, tomando uma posição autoritária. – Gosta de churrasco?
– Desculpa, o que disse?
– Churrasco – ele repetiu no mesmo tom. Sabia que Rachel o tinha entendido.
– Sou vegetariana, mas por que a pergunta?
– É uma pena. Encontrei um restaurante que serve churrasco aqui em Nova Iorque, e ele é muito bom. Mas acho que podemos ir a um restaurante indiano mesmo, o que acha?
– Você está me chamando para sair?
– Algum problema com isso?
“Mas seria uma loucura se interessar justamente pelo próprio chefe, não é mesmo?”
– Nenhum – Rachel ouviu-se dizer novamente.
– Ótimo. Posso te buscar no seu apartamento?
– Me espere no hall de entrada.
– Esperarei.
Finn deu uma única pancada no tampo da mesa e se levantou para deixar a Sala de Reunião Paris.
A famosa Sala de Reunião Paris.
Os boatos eram verdadeiros, então. Fortes emoções aconteciam dentro daquela sala de reunião, e isso era o que Rachel acabava de comprovar.
~//~
– Ei, Barbie! – era como o chefe de Sam o chamava quando esse estava na companhia dos demais colegas. – As histórias são verdadeiras? Você foi atropelado por um caminhão e teve que ir ao hospital no fim de semana?
Gargalhadas estrondosas explodiram naquela sala de café da manhã. Sam corou levemente. Não gostava de chamar aquele tipo de atenção, mas nem por isso deixou de rir junto com os demais.
– Não, as histórias são falsas – ele disse, apontando o chefe com o indicador da mesma mão que segurava um copo de leite recém-comprado. – Um amigo meu sofreu o acidente. Uma batida. Já está bem agora. Esse lance de dirigir bêbado, sabe?
– Esse lance de maricas, foi o que você quis dizer? – disse-lhe o gordo colega de trabalho, causando mais risadas ao redor. – Dirigir bêbado e não conseguir chegar em casa é pra quem é fraco, e esses maricas bem fazem esse tipo, não é? – riu e estapeou a mesa como um bebezão que cobra um pouco mais de comida da mãe.
Sam pensou em Blaine. Não gostava quando o amigo e a sua condição eram tratadas daquela forma.
– Não seja tão ignorante... – disse em resposta ao colega.
– Tudo bem, Sam. Nós sabemos que você é um maricas também.
As risadas já começavam a incomodá-lo, portanto, sentiu-se mais do que grato quando o chefe tornou a chamar o seu nome, embora, dessa vez, fosse para delegar um trabalho.
– Pois não, chefia.
– A sua van já está carregada. Toneladas de encomendas hoje para a região da Times Square.
Times Square?, Sam pensou. Por algum motivo, a menção do lugar lhe soara estranha.
– Vejamos aqui: Broadway, Central Park... – o chefe dizia, acompanhando uma lista. – É, acho que você consegue terminar de entregar tudo até o final do expediente, não é?
Times Square? Broadway?
Minha nossa! Quinn Fabray!
Ele não ligara para Quinn Fabray. O papel com o número dela, durante o furor que envolvera o socorro ao amigo, se perdera em algum lugar junto com a lembrança do seu rosto. Sam ficara tão preocupado com a saúde do amigo que nem se dera conta de que deixara uma jovem, bela e gostosa mulher à espera de uma resposta. Agira como um canalha, como o próprio colega de trabalho gordo que, apesar de não ser a última palavra em boa forma, conseguia sair e enrolar garotas com mais frequência do que o normal.
Ela vai querer me matar, pensou, e o pensamento não soara tão divertido quanto ele esperava. A lembrança do olhar fatal da moça, a maneira como ela se portava, a atitude, o modo como falava, tudo denunciava que ela não era só uma mulher comum, mas uma especial, uma que sabia o que queria e que não aceitaria tão facilmente um vacilo como o que ele cometera.
Precisava pensar em uma desculpa. Pior do que ficar sem ninguém era magoar uma mulher linda como Quinn Fabray. Ele precisava reconquistá-la!
– Acha que consegue fazer isso, meu jovem? – o chefe lhe perguntou com um olhar sugestivo.
Será que ele está lendo a minha mente?, Sam pensou, confuso.
Agarrou a lista de entregas da mão do chefe e engoliu em seco. Encarava-o com alguma dificuldade quando respondeu:
– Vou tentar.
– Espero que consiga, Barbie. Chances como essa, de mostrar o homem que você realmente é, não acontecem muitas vezes.
Sam franziu o cenho na direção do homem. Deixou a sala para ir até a van, mas a desconfiança de que o chefe estava lendo a sua mente permaneceu por muito tempo mais.
Será que a gente estava falando da mesma coisa?, pensou ao girar a chave na ignição.
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