Sam saiu do elevador, desejou um bom dia ao rapaz que o acompanhara até ali, agarrando a aba do boné pardo para adicionar um pouco de ênfase à saudação, e caminhou empresa adentro, captando já ali alguns olhares na sua direção. A caixa embaixo do seu braço era a de uma loja de livros, e estava pesada, talvez houvesse cinco livros lá dentro, mais do que Sam já lera na vida – isso se algum dia lera algum livro. A princípio, procurou manter a calma e caminhar com segurança, como estava acostumado a fazer desde muito tempo atrás, mas de repente a tarefa se tornou impossível de ser concluída.

Os olhares na sua direção pareciam pesados, insuportáveis. Algumas sobrancelhas se franziam em expressões hostis, como se ele fosse um criminoso e merecesse tal tipo de tratamento por ainda cometer crimes, mesmo depois de liberto. Que crime Sam podia ter cometido, no entanto, ele não sabia dizer. Quer dizer, cometera alguns erros nos últimos dias, mas eles não podiam ser comparados a crimes, podiam? Claro que não. Pessoas normais erram de vez em quando. Errar é humano.

Pelo menos era disso que tentava se convencer enquanto caminhava. Quinn Fabray não o julgaria por não ter ligado para ela, julgaria? Errar era humano, e ela, uma mulher inteligente, culta, responsável por um grande cargo em uma grande empresa – ele imaginava – devia compreender isso com mais facilidade do que qualquer outra pessoa. Imprevistos aconteciam com mais frequência do que o desejado em Nova Iorque, o que talvez fosse fruto da contingência de pessoas e da enorme probabilidade de tudo dar errado o tempo inteiro. Bastava um olhar na direção da rua e isso se tornava mais do que claro.

Nova iorquinos não eram exemplo nenhum de educação no trânsito, eram? De jeito nenhum! Na sexta-feira passada fora o amigo de Sam, mas na próxima talvez fosse até um amigo de Quinn o homem estirado no chão depois de um atropelamento.

Inconscientemente, bateu um punho fechado na madeira de uma baia ao fazer a curva em um corredor. Não queria que qualquer amigo de Quinn sofresse o que o amigo dele sofreu. Uma perna quebrada era algo que ele não desejava nem para o pior inimigo.

E por que vocês estão me olhando assim?, ele pensou e foi a sua vez de franzir o cenho na direção de um rapaz. O olhar que lhe fora destinado fora tão julgador que Sam se sentiu como um réu prestes a entrar em um tribunal. Afinal, o que acontecia àquela empresa? As pessoas não sabiam como ser sutis quando não gostavam de alguém? Será que essa era outra qualidade exclusiva de Nova Iorquinos?

Ou será que Quinn Fabray andara espalhando o boato de que o entregador da UPS era um falso cumpridor de promessas, do tipo que tomava telefones de mulheres inocentes em uma mão e então os amassava com a outra, tentando acertá-lo na lata de lixo como numa cesta de basquete?

Não... Não podia ser. Quinn Fabray não parecia tão doentia a esse ponto. Uma mulher estudada não faria isso. Aquelas filhinhas de pais ricos que moravam em Lima, Ohio, sim, mas as nova iorquinas, não.

– Bom dia! – disse uma mulher baixinha, bonita, de cabelos negros e lisos, ao passar por ele. Sorria como uma criança que acabava de receber um presente e caminhava de um jeito vivaz, as mãos espalmadas como se a caminhada fizesse parte de um passo de dança, e não de um simples movimento de locomoção.

– Bom dia – ele respondeu, agarrando a aba do boné novamente. Pelo menos alguém educado nessa droga de empresa.

Avistou a baia de Quinn Fabray à distância e engoliu em seco. Não se sentira ansioso até então, mas agora, diante da vista dos cabelos louros e bem penteados da mulher, quase sentia o coração saltar à garganta. Que mulher um dia o fizera se sentir assim? Nenhuma. Geralmente, era ele o intimidador, e não o contrário. Isso devia significar alguma coisa.

Pigarreou à entrada do setor, mas quem se virou primeiro foi o colega esquisito que se sentava ao lado de Quinn, o responsável por cutucá-la e por fazê-la notar o entregador da UPS ali.

– Entrega para Quinn Fabray – ele disse procurando agir com o máximo de formalidade possível, mesmo que estivesse encarando o olhar sério e doloroso da mulher a quem se dirigia.

– Livros? – ela perguntou, mas algo no tom da sua voz deu a entender que ela na verdade não dava a mínima para o conteúdo da entrega.

– Isso, livros.

Quinn Fabray girou na cadeira, levantou-se, fazendo a saia leve que usava balançar entre as pernas, revelando coxas belas e firmes, e caminhou até o entregador. A boca estava selada e os olhos, sérios, focados em qualquer lugar abaixo do olhar de Sam, nunca na sua direção. Ele estendeu a máquina de assinatura eletrônica para ela, mas Quinn, inicialmente, a recusou com uma mão espalmada.

– Me acompanhe, por favor – pediu ao passar por ele.

Sam acompanhou, mas não sem resistir.

– Tenho mais entregas para fazer – disse. Estava tão conturbado, incomodado com a entrega debaixo do braço, com o boné na cabeça, com a maneira como a bermuda da UPS, terminando acima dos joelhos, o fazia parecer infantil, que os pés começaram a vacilar. – Muitas! Meu chefe pediu que eu entregasse toneladas de encomendas por aqui, então tenho muito trabalho a fazer!

– Que bom pra você – foi a única frase que ele ouviu durante todo o percurso até o desconhecido destino.

– Não posso me atrasar. Ele disse algo sobre a honra de um homem, e, meu Deus!, eu comecei nesse emprego há pouquíssimo tempo! Não posso me atrasar com as outras entregas!

Quinn não respondeu nada. Segurou a maçaneta de uma porta branca e empurrou-a para dentro. Pediu que Sam entrasse, e foi com muita cautela que o homem o fez. Quinn o acompanhou e fechou a porta, girando inclusive a chave na maçaneta. Não havia mais do que uma mesa oval, algumas cadeiras, uma enorme janela e um quadro branco na sala.

– A encomenda, por favor – Quinn pediu, estendendo as mãos à frente. Sam sabia como era bom receber uma compra feita pela internet, portanto, a seriedade no rosto da mulher, diante dessa perspectiva, não lhe pareceu pertinente de jeito nenhum. Era uma expressão errada.

– Preciso ir embora – ele disse ao entregar a caixa. A máquina de assinatura eletrônica estava em cima dela. – Não sei se ouviu o que eu disse momentos atrás, mas tenho trabalho a fazer. Achei que tivesse me chamado até aqui para dar uma boa gorjeta, coisa que ninguém mais faz, mas algo me diz que você não está com pressa de finalizar o que quer que esteja acontecendo aqui agora. Me deixe ir embora, por favor.

Quinn terminou de assinar a máquina, sacou um estilete de algum lugar às costas e apontou ameaçadoramente – e momentaneamente – a lâmina na direção do entregador. Depois, guiou-a até a fita adesiva que mantinha a caixa selada e cortou-a.

– O que você faz quando uma mulher te entrega um número de telefone, hein? – disse, para o total espanto de Sam. – Guarda no bolso de trás da calça? Na carteira? Guarda em uma caixa de papelão velha com os números de todas as outras? Usa o papel para embalar um chiclete e jogar no lixo?

– Eu tive um problema.

– Teve um problema! – ela repetiu. Quinn usava o estilete não como se abrisse uma embalagem, mas como se imaginasse Sam deitado sobre a mesa e arrancasse suas vísceras daquela forma. – Todos nós temos problemas!

– Exatamente.

– E qual foi o seu?

– Um amigo foi atropelado. Precisei ajudá-lo, era urgente. Agora ele está bem, mas na hora...

– Interessante. Agora, me diga uma coisa: da Lista de Desculpas Para Se Distribuir Para Mulheres Bonitas e Independentes, qual é o número dessa? Deve ser uma das últimas na lista, não é mesmo? Chega a parecer nova para mim.

– Não é uma desculpa esfarrapada! Estou falando a verdade!

Quinn agarrou os livros dentro da caixa como se agarrasse os intestinos de Sam e os arrancasse em um único movimento. Lançou-os todos de uma vez ao lixo, fazendo um barulho metálico quando a lixeira bateu na parede com a força do lançamento.

– Isso pode me causar uma encrenca – disse Sam, contemplando a lixeira. – Se essa é a sua forma de querer me punir, jogando a encomenda no lixo e dizendo que ela nunca foi entregue, bem, acho que pode dar certo. Meu chefe não vai acreditar em nada do que eu disser. Sou funcionário novo e ele não confia em mim.

– Eu nunca estive interessada em livro nenhum – disse Quinn, aproximando-se com passos rápidos. Sam não sabia o que esperar, então deixou a ruim expectativa fazer todos os seus músculos se enrijecerem. – Mas, pelo visto, você é tolo demais para perceber isso.

A mão que Quinn usou para levantar a camisa de Sam e sentir o seu abdome estava incrivelmente fria, tanto quanto Sam imaginava que as próprias mãos estivessem. Os dedos exploraram o que ali encontraram, desde as saliências dos músculos abdominais até os raros fios de pelo que havia em torno do umbigo. Sam sentiu arrepios, e Quinn, é claro, pôde senti-los também.

– O que está fazendo? – Sam ouviu-se perguntar. Que pergunta idiota para fazer em um momento como esse, meu rapaz!

– Estou vendo se vale a pena continuar a lutar por essa causa. – Agora a voz de Quinn soava rouca, embargada, de um jeito nada autoritário. Derrubara a carranca que estava usando durante o caminho que fizera até ele. Os dedos frios ainda brincavam com a barriga do entregador, descobrindo-o.

– L-Lutar p-por essa causa...?

– Sim. Quero ter certeza de que não vou me arrepender depois de fazer isso.

Sam não teve oportunidade de perguntar o que ela tinha vontade de fazer, porque ela não abriu espaço para isso. Calou-o colando seus lábios nos dele. Afastou-se segundos depois, mas Sam ainda conseguiu sentir o hálito fresco da mulher em suas narinas, tão próxima que ela estava.

– E então? – perguntou em voz baixa, tentando manter a tranquilidade. Não conseguiu.

– Vê se me liga – disse Quinn e afastou-se por inteiro dessa vez. – Sexta-feira à noite eu estou livre. – Abriu a porta da sala da reunião e se retirou com rapidez.

Sam não tivera nem tempo de pedir o número dela novamente – não se lembrava de onde deixara o papelzinho amarelo que ela entregara da última vez e temia que, na verdade, o tivesse perdido para sempre.

~//~

– Restaurantes vegetarianos e carnívoros – Finn Hudson digitou na busca do Google. Um milhão de páginas e links foram sugeridos para ele. – Em Nova Iorque – tornou a digitar. – Na Broadway? – refinou novamente. Os resultados da busca eram tantos que nem com um mês de dedicação ele conseguiria conferir todos eles.

E também não tinha vontade disso. Ele não queria comer realmente, embora considerasse a costela assada do restaurante que ele tinha em mente a melhor da região. Só de pensar nela vinha água à sua boca. Uma pena que o mesmo não acontecesse à Rachel Berry, que, por um infeliz motivo, era vegetariana.

Mas há saladas naquele restaurante, não há?, pensou, coçando o queixo.

Como conhecia de cor o número do estabelecimento, discou-o no telefone e aguardou na linha, ouvindo alguns jingles e frases de bem estar – uma ironia quando comparadas à quantidade de gordura que um bom bife bovino tinha por lá.

De qualquer forma, Finn não estava interessado em comer realmente. O que ele queria era Rachel consigo, ao seu lado, com a mão na sua. Na melhor das hipóteses, que ela estivesse nua. Na melhor ainda das hipóteses, que estivessem em seu quarto, nus, fazendo amor, e que fosse ele o responsável por levá-la ao trabalho no dia seguinte.

– Steak & Happiness, Grace falando, bom dia! – disse uma voz feminina e alegre do outro lado da linha.

– Bom dia, aqui quem fala é Finn.

– Bom dia, Sr. Finn. Em que posso ajudá-lo?

– Vocês têm mesa de buffet com uma grande variedade de saladas, não têm?

– Temos sim.

– Têm cardápio vegetariano, também?

– Steaks de carne de soja ou proteína vegetal, temos, sim.

Finn gritou vivas em pensamento.

– E tem disponibilidade para hoje à noite, às oito?

Houve uma pausa e um folhear de páginas.

– Desculpe, não temos mesas disponíveis para hoje, Sr. Finn.

Mas eu quero sair com a Rachel Berry hoje!

– Poderia revisar o seu horário? Verifique se não há nenhuma mesa para o Sr. Hudson, por favor.

– Ah, o Sr. Hudson...

Finn sabia o que seu sobrenome significava para o restaurante. Tinha tanto respeito por lá quanto tinha entre os funcionários da nova empresa que geria.

– Às oito, uma mesa próxima à janela, tudo bem? – disse a jovem do outro lado da linha.

– Sim. Assim fica melhor.

– Posso ajudar em algo mais?

– Não. Obrigado, Grace.

– Steak & Hapiness agradece! Tenha um bom dia!

Terei, Finn pensou ao pousar o gancho do telefone.

Notas finais
Finn, Finn... rs