Uma, duas, três, quatro, dezoito borrifadas de perfume no ar e Rachel atravessou a nuvem de fragrância de braços abertos, como se recebesse uma benção, como se agradecesse ao divino por uma graça alcançada. Essa realidade não estava muito distante de ser a verdadeira, tratando-se do seu antigo desejo de conquistar o chefe, apesar de as más vozes dizerem que isso era errado. Talvez não fosse, do contrário, Deus não permitiria o seu acontecimento, permitiria? Claro que não. Chefe e funcionário não são parentes, um beijo na boca entre os dois não quebra regra nenhuma no mundo, um filho vindo dos dois seria a mais saudável de todas as crianças, e também a mais bela, levando em conta que...

Filhos?

– Não seja precipitada, Rachel! Esse é só um primeiro jantar. O segundo encontro é a confirmação do primeiro, e como o primeiro nem aconteceu ainda, não vamos levantar hipóteses sobre nada, está bem?

Palavras fáceis de dizer e difíceis de serem levadas a sério. Assim que fechou o vestido azul que escolhera para a noite, a paranoia de que o encontro poderia dar errado tornou a preencher a mente de Rachel.

Poucos minutos depois e o interfone tocou.

– Sim? – disse ao atendê-lo.

– O Sr. Hudson te aguarda aqui embaixo – disse a voz rouca do porteiro da vez.

– Diga a ele que já estou descendo!

Mas não estava. Parte do encanto que havia em um encontro estava no atraso, e Rachel conhecia isso tão bem quanto conhecia seu alcance vocal.

Colocou seu tradicional colar de prata com o seu nome, calçou sapatos de salto baixo, colocou uma fita listrada sobre a cabeça e comportou a franja negra sobre a testa. Reforçou o contorno dos olhos com rímel, passou um batom discreto e uniu as mãos em frente à barriga enquanto se contemplava no espelho. Estava linda. Quer dizer, o vestido leve, a escolha de cinto e de acessórios a fazia parecer uma cantora de coral prestes a entrar no palco, mas ainda assim achava que estava bonita. Gostava desse aspecto.

Finn já esperava por quinze minutos quando Rachel o encontrou no hall de entrada. Vestia roupas mais casuais do que as dela, uma camisa polo listrada, de marca, calça jeans e sapatênis, mas o sorriso sedutor continuava o mesmo, assim como o penteado casual que praticamente lhe era uma marca registrada. Tão à vontade, parecia ficar ainda mais bonito.

Finn ensaiou envolver Rachel com um braço enquanto eles caminhavam até o carro, estacionado exatamente em frente à fachada do prédio, mas a ansiedade que tomava a mulher a faz acelerar o passo. Por conta disso, a enorme mão do chefe não encontrou nada quando desceu. De qualquer forma, eles estavam perto do carro, e o abraço, se acontecesse, não duraria tanto tempo assim.

– Você está linda – disse Finn ao volante. Aquela era a primeira das muitas vezes em que repetiria aquela frase naquela noite. – E esse seu perfume...

– Não adianta perguntar qual é a marca que eu não vou dizer – Rachel apressou em dizer. – Sabe que uma mulher dificilmente revela os seus segredos durante um encontro.

– Durante um encontro?

– S-Sim, isso é um encontro, não é? – Rachel gaguejou.

– É claro que é um encontro – Finn assegurou com satisfação.

– Um encontro entre amigos, no caso – Rachel emendou, imaginando que precisava consertar a situação esquisita em que se metera. Estava sendo pretensiosa, e certamente o chefe notara isso.

O restaurante era iluminado o suficiente para tornar cada uma das mesas um cenário único, era calorosamente frequentado e um ambiente agradável à primeira vista. Peças de carne aos montes estampavam pinturas ao redor, o que Rachel achou repulsivo e preocupante. Será que não teria o que comer naquele lugar?

– O buffet de saladas – disse Finn e apontou um dedo na direção do buffet em questão. A outra mão estava levemente encostada nas costas de Rachel, guiando-a por entre as mesas.

Sentaram-se em uma mesa de casal ao lado de uma janela que revelava a vista de uma praça, um jardim, um lago e uma ponte de pedra sobre esse lago. Os postes de luz lá fora concediam um calor a mais àquela imagem, deixando-a ainda mais bonita. Rachel sentiu-se tão atraída por aquele cenário que sorriu.

E foi esse o sorriso que Finn elogiou.

– Obrigada – ela disse, fechando os olhos de maneira carinhosa, encolhendo os ombros como uma criança indefesa. Finn a observava com um interesse a mais, mas Rachel estava tão envergonhada que mal tinha coragem de olhá-lo nos olhos.

Um garçom pousou dois cardápios sobre a mesa e disse uma saudação agradável. Rachel abriu-o e, de imediato, não viu nada que a tivesse interessado. Finn sugeriu uma Salada César, e Rachel aceitou a sugestão, embora estivesse tão acostumada com aquele prato que quase não sentia apetite nenhum por ele. Para si próprio, Finn pediu uma costela. Assim que os pratos chegaram, acompanhados de taças de vinho, foi que algum assunto surgiu na mesa.

– A noite está bonita, não está? – disse Finn, ignorando a costela fumegante sobre a mesa.

– Sim, realmente.

– Tanto quanto você.

– Obrigada. É muito gentil da sua parte.

– Há quanto tempo você trabalha na empresa?

– Desde quando cheguei à Nova Iorque, há algum tempo.

– Ah.

– E você? Mora, estuda e trabalha em Nova Iorque há quanto tempo?

– Há alguns anos, desde que terminei o ensino médio.

Há alguns anos...?, Rachel repetiu em pensamento, mastigando um pouco da salada.

– Há algo em você que me é estranho – disse antes que pudesse evitar.

– Estranho? Em que sentido?

– É algo bom.

– Menos mal.

– Como alguém que tem a idade que você aparenta ter conseguiu tanta coisa na vida? Digo, estudar tanto, trabalhar tanto, ganhar tanta influência e dinheiro. Isso não é normal com pessoas da nossa idade. Você tem algo que os outros não têm. Consegue conquistar não só jovens mulheres, mas também homens empreendedores e líderes de corporações. Isso chega a ser mágico. Acho que sei o que você é.

Finn não disse nada de imediato. Cruzou os braços sobre a mesa, aproximou o rosto ao de Rachel e sussurrou:

– Então diga em voz alta, Rachel.

Rachel engoliu em seco antes de dizer:

– Um vampiro.

Finn jogou-se em sua cadeira com um baque tão alto que algumas cabeças pelo restaurante se viraram na direção da dupla para descobrir o que estava acontecendo. O homem ria segurando a barriga, tossindo de vez em quando, enquanto Rachel o observava incrédula, quase que com espanto, imaginando quando aquilo iria terminar. Não tinha como o encontro dar mais errado, e ela tinha vontade de ir para casa, onde poderia chorar e ouvir Barbra Streisand em alto e bom som enquanto repassava o vexame que fora aquela droga de conversa com o chefe.

Talvez saísse daquele jantar sem um emprego, também – não era uma possibilidade tão remota assim. Se Finn achasse que a funcionária era boba o bastante para significar uma demissão, ora, por que não?

– Você acha que a única forma de ser bem sucedido profissionalmente antes dos trinta é ter a aparência de alguém de vinte e poucos anos e ser imortal como um vampiro? – perguntou Finn, uma das mãos repousada sobre a mesa, tão próxima à de Rachel que uma união entre as duas, de repente, não pareceu algo tão impossível assim.

Rachel não respondeu. Nem se lembrava mais de que tinha voz. O ar lhe fugira dos pulmões durante aquele vexame. Talvez fosse bom que tivesse perdido a capacidade de falar mesmo, pois só assim conseguiria evitar vergonhas maiores do que aquela.

– Deixe eu te dizer uma coisa – Finn prosseguiu e, para o total espanto da mulher, entrelaçou seus dedos nos dela, como se eles já fizessem aquilo no dia-a-dia, como se aquele gesto não fosse tão íntimo quanto Rachel imaginava, como se o chefe simplesmente estivesse com vontade de tocá-la. – Tecnólogos de Administração duram pouco tempo. Uma pós-graduação dura menos ainda. Uma boa lábia é algo que você pode desenvolver cedo, sem necessidade de faculdade ou experiência profissional propriamente dita.

Rachel não sabia se prestava atenção no que ele dizia ou no movimento que os dedos grandes de Finn faziam por entre os seus. Eles subiam e desciam com lentidão, numa velocidade constante, explorando cada centímetro dos dedos da mulher. O polegar, de vez em quando, alisava a mão de Rachel com carinho, com admiração.

– Se duvida de mim, eu posso te provar tudo isso. Guardo os meus diplomas no mesmo lugar em que guardo os meus vidros de perfume. – A mão de repente parou e o rosto de Finn ficou sério, os olhos negros e sem brilho parados nos de Rachel como se o homem estivesse prestes a dizer algo sério, preocupante. – Se quiser que eu te mostre tudo isso, depois da sobremesa, a gente pode ir para a minha casa.

Rachel engoliu em seco.

– E, no meu quarto, eu mostro a você o que você quiser – Finn emendou.

Rachel engoliu em seco novamente, mas dessa vez a bola de constrangimento demorou um pouco mais a descer.

– Tudo o que eu quiser? – ela perguntou, rouca.

Finn assentiu demoradamente com a cabeça, com um abrir e fechar de olhos mais demorado do que o normal.

Rachel garfou a sua salada e devorou-a com avidez.

Finn, por outro lado, brincou com sua costela como se não tivesse vontade nenhuma de comê-la.

– A gente pode fazer isso – disse Rachel com um falso desinteresse.

É claro que eu quero ir à sua casa hoje!, pensava, entretanto, as mãos trêmulas, mal conseguindo segurar o garfo. Afinal, foi só por isso que eu aceitei vir a esse restaurante assassino de animais hoje, não foi?

~//~

É claro que Sam poderia ter usado a chave que estava no bolso frontal direito da sua bermuda para abrir a porta de seu pequeno apartamento, mas o desespero o fez preferir usar o pé. Um chute bem acertado no encontro da fechadura com a parede e trincos, maçanetas e até um pedaço da parede voaram no ar, inutilizando a porta, fazendo-a colidir com a parede em um claro ato de desespero.

Jogou a bolsa que carregava diariamente e o boné para o lado. Jogou-se no chão como se uma bomba estivesse prestes a explodir. Olhou embaixo da cama, da mesinha de criado-mudo, da cômoda de roupas, dele e de Blaine, de uma mesa de estudos que Blaine nunca usava, e depois se levantou, levantando também o colchão da sua e da cama de Blaine para verificar se encontrava algo. Não encontrou. Lençóis, a essa altura, estavam no chão.

Levantou a TV, o telefone, o único rádio da casa, o micro-ondas, e depois verificou debaixo dos balcões, da mesa de jantar, do fogão, da geladeira, e depois dentro do fogão e da geladeira – comera sorvete na noite passada e imaginava que, por alguma razão, o papelzinho amarelo com o número de Quinn tivesse se embrenhado no meio da massa. Não foi o que aconteceu.

Verificou a gaveta de cuecas dele e de Blaine – não que duvidasse que Blaine fosse capaz de esconder uma informação tão importante, mas às vezes as pessoas escondem as coisas sem ter consciência nenhuma disso. Checou o banheiro, onde encontrou Blaine fazendo a barba – Boa noite, Blaine, como está? –, dentro do espelho, do vaso sanitário, dentro da caixa d’água do vaso sanitário, e nada.

Nada.

O telefone de Quinn Fabray havia se perdido no universo e, por isso, ele jamais poderia ligar para ela e marcar algo para sexta-feira. Se a sua dislexia já não o fizesse se sentir burro naturalmente, tal constatação certamente o faria.

Sam sentiu vontade de chorar.

Estava sentado na cama, a cabeça apoiada entre as mãos, quando percebeu Blaine aparecer.

– Você consegue observar o prejuízo que a sua busca desesperada nos causou, não consegue? – disse o rapaz, caminhando por sobre lençóis jogados no chão. – Lençóis sujos, a fechadura da única porta do apartamento quebrada, gavetas bagunçadas, sorvete tocado de maneira inapropriada, o que me obriga a jogá-lo no lixo. – Blaine agachou-se diante da mesa de criado-mudo de Sam, puxou a primeira gaveta e, dela, retirou um papel pequeno e amarelo. – E imagino que tudo isso por que você queria encontrar isso? – finalizou, oferecendo o número de telefone de Quinn Fabray ao amigo.

Sam o agarrou como se agarrasse uma pedra preciosa.

– Antes de arrombar a porta do nosso apartamento novamente, pergunte onde pode estar suas coisas – disse Blaine calmamente. – Achei que você soubesse que o responsável pela nossa organização sou eu, e não você.

– Obrigado, Blaine.

– De nada. Agora, será que você poderia cuidar da maçaneta? Não me importo muito com os lençóis, acho que vai fazer calor essa noite e a gente talvez nem precise usá-los, mas você sabe como a noite de Nova Iorque não é nem um pouco segura, não sabe?

Sam sabia, e foi por isso que não hesitou em perguntar:

– Blaine, onde é que fica a minha caixa de ferramentas, mesmo?

Notas finais
Me perdoem a referência "esquisita" no meio do capítulo, se é que vocês a perceberam rs