When You Came To Me
16 Stockholm
Mon, 06:10 am
Levante e brilhe! Bom dia!
Rachel acordou na segunda-feira pela manhã e a primeira coisa que fez não foi calçar os chinelos ou jogar os cobertores para o lado, mas apanhar o celular na mesa de canto e digitar tal mensagem. Enviou-a a Finn com pressa, pois temia que a mente, em algum momento, a convencesse de aquela era uma má ideia. Achava que não tinha pretensão nenhuma de receber uma resposta – achava –, mas foi em frente com o plano mesmo assim. A falta de uma resposta poderia significar muita coisa, mas a vinda dela talvez tivesse um significado bem melhor.
Teve tempo de se vestir, tomar um café da manhã reforçado, maquiar-se e pentear os cabelos antes de receber uma resposta. Tinha até se esquecido da mensagem. Voltou a apanhar o celular e leu o que fora enviado por Finn.
Mon, 7:03 am
Bom dia.
Apenas um “Bom dia”, Rachel pensou, fitando o celular como se esperasse que ele se prontificasse a corrigir aquele texto. Uma saudação comum. Respondeu aquilo que mandei para ele de um jeito profissional e irritante. Deve fazer parte do seu feitio.
Desceu as escadas e correu para a caminhada matinal que envolvia a parada para o copo de café em uma Starbucks qualquer e os passos apressados até o prédio em que trabalhava. Não havia pessoa naquela rua que não a conhecesse. Se Rachel prestasse atenção nos comentários feitos quando ela passava, teria percebido que, na falta de um nome, os vizinhos e comerciantes por perto costumavam chamá-la de A Apressada de Salto Alto.
Subiu pelo elevador e bebeu o café. Se havia algum sentido na vida, ou algum sinônimo de felicidade, ele certamente estava preso dentro daquele copo no momento.
Adentrou o espaço da empresa e distribuiu cumprimentos àqueles que faziam parte do corredor de entrada. Jogou-se em sua cadeira com um baque, ligou o computador e usou uma folha de sulfite para afastar o calor, sacudindo-a como um leque. Aguardou a tela inicial e digitou sua senha. Não tinha como fugir, o dia de trabalho já se iniciara, assim como a sua rotina.
Por puro instinto, Rachel olhou para trás. A sala do Vice Presidente permanecia vazia e fechada, mas isso era algo com o qual já estava acostumada. Finn não era pontual e nada no mundo o mudaria quanto a isso. Era poderoso e as pessoas mais precisavam dele do que ele precisava delas. Uma atitude arrogante, do tipo que não dava importância para as demais pessoas, era esperada de alguém como ele, portanto. Não era só comum, era praticamente uma lei da natureza humana.
Quando apareceu, Finn a cumprimentou como já estava acostumado a fazer: bateu no topo da baia, disse um “Bom dia, Rachel!” carregado de sorriso e jovialidade e enfurnou-se em sua sala.
– Bom dia – Rachel sussurrou, embora o chefe, agora, estivesse longe demais para ouvir.
Ele não sente nada por mim, pensou e apoiou a cabeça na mão, fitando os e-mails que apareciam na tela do computador. Não me vê mais do que como uma amiga com a qual contar quando precisa de uma noite de sexo. E eu, na posição de ingênua da vez, concedi a ele tudo o que ele queria. O melhor dos mundos para você, não é mesmo, Sr. Finn Hudson?
– Rachel? – chamou uma voz às suas costas. Rachel conhecia aquela voz, e o que a assustou em ouvi-la foi justamente o fato de ela ter vindo às suas costas, e não pelo fone do telefone, como era esperado. – Gostaria que comparecesse à reunião de hoje. Preciso de alguém que tome notas do que for dito.
– Tudo bem, Sr. Hudson.
– Finn, por favor. Como ainda pode me chamar de Sr. Hudson depois de tudo? – ele disse, sorriu e abriu a porta da sala a fim de se enfurnar dentro dela novamente. – Ah – disse e girou nos calcanhares –, chame os representantes de cada um dos setores. Quero fazer uma reunião de Análise Crítica, então é bom que todos os setores estejam envolvidos.
– Sala de Reunião Stockholm?
– Sala de Reunião Stockholm – ele confirmou. – Obrigado – e só então sumiu.
“Depois de tudo”.
Fora essa a expressão usada por ele. Depois de tudo. Depois de tudo era uma forma tão vaga de terminar uma frase que, apesar de possuir palavras abrangentes, não dizia absolutamente nada. Finn, com isso, quisera demonstrar estranheza pelo tratamento que Rachel usara para se referir a ele depois de tudo, é claro, mas...
Mas depois de tudo o quê?
Depois de tanto tempo trabalhando juntos? Depois de várias ocasiões em que ele tivera que corrigi-la, pedindo para que o chamasse apenas de “Finn, por favor”? Depois de chamá-la para um jantar que tivera como continuação uma das noites mais intensas que Rachel tivera na vida, uma que viera a se repetir apenas para confirmar o que ela mais temia, que homens são sempre os mesmos homens, por mais que seus rostos mudem, por mais bonitos que alguns sejam, por mais incríveis e perfeitos que alguns deles pareçam?
Finn era um homem difícil de decifrar. Também era impossível saber qual era o seu próximo movimento porque, fosse quem fossem a pessoa que o educara, ela o ensinara que o mistério era a melhor forma de conquistar os demais. E de fato era, mas Finn armara um mistério tão complexo em torno de si que era praticamente impossível solucioná-lo. Quer dizer, Rachel estava muito mais do que disposta a ter um romance com ele, uma história inesquecível, algo que durasse anos e anos – algo que fosse tão inspirador quanto um musical da Broadway! –, mas com tantos rodeios e movimentos imprevisíveis vindos de Finn, tudo isso se tornava improvável, inalcançável. Não era Rachel que ditava as regras do relacionamento que os dois tinham, mas sim o homem da relação, Finn Hudson, o cara mais poderoso daquela unidade da empresa e também o mais charmoso e sedutor, aquele que a fizera se sentir mulher durante duas noites, mas que não via por que se apaixonar por ela.
Rachel convocou os principais representantes dos setores da empresa com um único e-mail e, uma hora depois, apanhou um caderno e uma caneta cor-de-rosa, com ponta de estrela, para se dirigir até a tal Sala de Reunião Stockholm, uma das maiores que aquele andar tinha, com capacidade para até vinte pessoas. Uniu-se a um pequeno grupo que fora formado por lá, algo em torno de três homens apenas, uns que Rachel conhecia de nome, mas com os quais nunca conversara. Na ocasião, não estava a fim de conhecê-los tampouco.
Enquanto a sala enchia, uma claridade morna vinha da enorme janela na parede em frente à secretária, e a vista era tão bela... Fora por isso que Rachel se mudara para Nova Iorque, não fora? Aquela selva de concreto era tudo com o qual ela sempre sonhara. Era animador pensar que finalmente realizara (parte) do seu sonho e que estava sendo (quase) muito bem sucedida naquele lugar.
Selva de concreto..., Rachel pensou e riu. Em uma selva de concreto só se adapta bem quem tiver um coração de pedra, não?
Talvez isso explicasse o porquê de Finn Hudson estar tão bem em relação ao quase relacionamento que começara com a sua secretária. Rachel não aprendera a ter um coração de pedra ainda e era mais dramática do que qualquer homem no mundo seria capaz de suportar. Finn, por outro lado...
– Você podia ter chamado aquele panaca que senta do meu lado ao invés de mim – disse uma voz feminina, vinda de alguém que se jogava em uma cadeira ao lado de Rachel. Era Quinn Fabray, vestida como uma deusa em ambiente organizacional, os cabelos louros ao redor da cabeça tão bem penteados, a maquiagem dos olhos tornando magnífico aquele que já era um olhar incrível...
Será que se eu fosse como ela o Finn me aceitaria como uma namorada?, Rachel pensou e apertou os olhos na direção de Quinn. Quer dizer, o meu nariz é um defeito sem precedentes no meu rosto, em vista desse nariz perfeito que ela tem...
– Desculpa, o que disse? – Rachel replicou ao se dar conta de que Quinn esperava uma resposta.
Quinn suspirou.
– Berry, Berry... Eu estou cansada. Fim de semana conturbado – começou a dizer. – Eu tinha até me esquecido de como se interessar por alguém pode acabar com o seu tempo livre e com a sua tranquilidade. – Voltou-se para Rachel. – Você também não está com uma cara muito boa.
– Você disse que uma paixão pode desgastar alguém?
– Eu disse? Não me lembro de ter mencionado a palavrão paixão.
– Deu a entender que...
– Você podia mesmo ter chamado o cara que trabalha comigo. Ele entende, melhor do que eu, os problemas do nosso setor. Quer dizer, eu trabalho muito mais do que ele, mas ele é mais atento. Faço tudo em modo automático. Sou eficiente, mas não eficaz, entende?
– Entendo. Vou me lembrar disso na próxima vez.
– Oh, essa caneta! – Quinn exclamou e tomou a caneta cor-de-rosa da mão de Rachel. – Ainda me lembro do dia em que a utilizei. Nunca mais faço nada do tipo, pelo menos não em um restaurante cujos garçons não falam corretamente a minha língua. – Quinn voltou o olhar na direção de Rachel. – Essa sua cara... Você está sofrendo por causa de uma paixão não correspondida?
– Às vezes, você me assusta com esse seu sexto sentido.
– Não é sexto sentido, e eu já devo ter dito isso. – Quinn virou-se para o lado, apoiando-se no braço da cadeira. – Você se apaixonou por um homem difícil, Berry, um para o qual a maioria dos olhares femininos se volta. Ser quem ele é deve ser interessante, já que as portadoras do sexo feminino, em peso, se curvam diante dele. – Quinn se afastou na cadeira e ajeitou os cabelos. – Eu não faço parte desse grupo porque quem me apetece mesmo é um loiro ingênuo e gostoso que conheci por aí. Aliás, acho que ele vai passar por aqui hoje. Mas isso não vem ao caso.
– Cada vez que falamos sobre esse assunto, penso que você está contra mim. Por que você acha que é uma má ideia ficar com ele? Ele é o meu chefe, mas é um homem como qualquer outro!
– Chame-o de Pé Grande quando for falar dele a partir de hoje.
– Pé Grande...?
– Ele parece um Pé Grande, você sabe, e essa estratégia pode nos permitir falar sobre ele sem nos preocupar com o que os outros ouvem e entendem. – Quinn fez uma pausa. – Se bem que ele parece tanto um Pé Grande que...
– Quinn, por favor!
– Quer saber? – disse Quinn e se ajeitou na cadeira. – Quem sou eu para falar sobre paixões impossíveis? Não consigo me apaixonar de verdade por ninguém há muito tempo, então nem sequer entendo do assunto. Mas talvez você entenda. Talvez você esteja certa. Fique com o Pé Grande, Rachel Berry. Namore-o, tire férias com ele, faça uma viagem. A gente só vive uma vez. Não podemos jogar essa história no lixo.
Rachel não sabia dizer se estava tocada ou espantada com aquele discurso. De qualquer forma, preferiu dizer:
– Obrigada.
– Mande-me um cartão do Paraíso quando chegar lá – Quinn disse de volta. – Talvez eu encontre o meu próprio caminho se levar em conta o seu.
– Indicadores! – disse a voz juvenil de Finn Hudson ao entrar na sala. Se fechasse os olhos, Rachel, ao ouvi-lo falar, teria a impressão de que escutava um adolescente cuja voz acabara de engrossar, e não um adulto formado. – Esse assunto já não entra em pauta há um bom tempo nessa empresa. Alguém sabe me dizer o que eles são e para o que servem?
Rachel não sabia a resposta para aquela pergunta, mas sabia que a voz de Finn lhe era um bálsamo dos mais agradáveis. Vê-lo falar fazia um calor diferente emanar pelo seu corpo, acompanhado de uma felicidade iminente, como se só a possibilidade de um dia poder ter aquele homem ao seu lado lhe fosse significativa. Aliás, a memória de ter divido uma cama com ele, de ter visto aquele corpo, agora vestido em um terno negro de marca, nu e de ter feito um café em sua cozinha super equipada lhe fazia ter vontade de viver. Se isso não era paixão, ela não sabia dizer o que era.
Ou será que sei...?
Se não era paixão, era amor, é claro. Rachel passava tanto tempo pensando em Finn que era praticamente como se fizesse um ensaio antes do que seria realmente viver com ele. Ele precisava saber disso. Além do mais, a ideia de Quinn, a de propor uma viagem a ele, não parecia de todo tão ruim...
–... Indicadores de satisfação! – disse Finn e correu os olhos pela sala, em silêncio. Pousou-os em Rachel e perguntou: – Você saberia me dizer o que é satisfação, Srta. Berry.
Rachel cruzou os braços sobre a mesa, sorriu na direção do chefe e disse:
– Sei. Claro que sei.
Notas finais
E também um YOLO! haha
~~~~
O CD solo de Lea Michele está vindo por aí! Alguém mais está animado com ele (apesar do fato de ela estar se encontrando com o compositor da Katy Perry)?
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