Nada servia de indício de que aquela seria uma segunda-feira diferente das outras.

Quinn Fabray acordou cedo e foi trabalhar naquele dia. Rachel Berry também acordou cedo. Finn Hudson fez o possível para chegar ao trabalho no horário. Sam Evans, que dificilmente se atrasava, chegou ao prédio da UPS no horário de sempre, em sua van, pronto para começar as entregas do dia. Foi apenas algumas horas depois que tais indícios chegaram, anunciando a quem quisesse que aquela definitivamente não seria uma segunda-feira comum.

Eram quase dez horas da manhã quando Finn Hudson entrou no prédio. Como estava acostumado a fazer, cumprimentou a tudo e a todos com sorrisos e acenos. Venceu com alguns passos a distância entre a entrada da empresa e a porta da sua sala e lançou um olhar despreocupado à mesa da secretária que, naquela manhã, estava vazia. Não era muito incomum que Rachel não estivesse em seu posto naquele horário; comum era que, às vezes, ela fosse ao banheiro e demorasse um pouco mais por lá, coisa típica de mulher. Deu um tapa amigável no limite da baia da secretária e entrou na própria sala. Começou o dia lendo e-mails e se dando conta de que estava atrasado em alguns minutos para a primeira reunião do dia.

Reunião da qual Quinn não chegou nem perto de sentir falta. Odiava quando tinha que interromper o seu trabalho para ouvir uma hora de discurso maçante sobre indicadores, metas e objetivos, e odiava ainda mais o fato de essa rotina fazer parte de uma segunda-feira, um dia crítico na vida da maioria do proletariado.

Além do mais, dez horas da manhã, horário para o qual a reunião estava marcada, era o mesmo horário em que Sam Evans aparecia para fazer as habituais entregas da UPS. Como mais cedo naquele dia um engenheiro lhe ligara para avisar que os seus processos chegariam naquela mesma segunda-feira para serem conferidos, Quinn os aguardava com ansiedade, certa de que recebê-los seria o mesmo que receber o corpo de Sam junto.

Mas não foi o louro de lábios carnudos quem apareceu às dez horas da manhã. Quinn ouviu os passos clássicos de uma botina de solado de borracha se aproximar, mas a frequência com que os passos batiam no chão não era aquela com a qual estava acostumada. A pessoa que caminhava daquela vez era mais apressada e pisava com mais força, com mais urgência. Bateu com um soco, e não com leves batidas, no portal da baia, e muito embora o inconsciente de Quinn estivesse certo de que não fora o seu pretendente o homem que chamara a sua atenção naquele instante, ela girou em sua cadeira com a mesma ansiedade de sempre, desejando encontrar Sam e seu sorriso enorme à entrada de seu posto de trabalho.

Mas o homem que apareceu ali não era o Sam, nem naquele e nem em outro universo, muito menos se nascesse de novo. Sam não parecia um lutador de vale-tudo que fizera de tudo para caber em um uniforme da UPS e jamais rasparia a cabeça daquele jeito. Suas sobrancelhas não pareciam duas taturanas negras sobre os olhos, que fitavam os rostos que o encaravam com agressividade, como se vivesse em um constante estado de ameaça.

– Algo está errado – pensou Quinn em voz alta enquanto se dirigia até o homem. – O que você está fazendo aqui?

– Uma entrega – respondeu o homem com uma voz rouca e nada sensual. – Quinn Fabray é você?

– Cadê o Sam Evans?

– O Barbie?

– Onde ele está?! – Quinn indagou, socando o peitoral do homem.

Aos risos, ele respondeu:

– Em qualquer outro lugar, que não esse aqui, mocinha.

Sam Evans estava em Bronks.

Visitar aquelas ruas o faria pensar em Everybody Hates Chris, mas a distância que o chefe o obrigara a ficar de Quinn o fazia pensar nela – e apenas nela – enquanto a van fazia curvas em ruas sinuosas, repletas de crianças negras jogando futebol, flertando umas com as outras ou fazendo poses para a câmera de um celular.

A gente não daria certo, ele pensou e sacudiu a cabeça em negativa. Mantinha o corpo curvado sobre o enorme volante da van em uma postura derrotista, conformista. Retirou o boné da cabeça e o apertou contra o peito. Algo estava entalado em a sua garganta, o que ele imaginou que fosse a culpa por ter feito a coisa errada com a mulher pela qual estava apaixonado. Não devia ter cedido aos seus instintos e prejudicado aquilo de melhor que os dois tinham, que era aquela relação aberta, mas confiável, que o fazia desejar Quinn a todo instante.

Mas Sam não podia ignorar que, quando o destino mexe os seus pauzinhos para que algo aconteça, há uma boa razão para isso. Quinn não estava apaixonada por ele – ou pelo menos era o que dava a entender –, portanto, insistir nessa causa era desperdiçar esforço. Quinn certamente adoraria passar o restante de sua vida topando Sam em salas de reunião para uma manhã de sexo rápido e nada mais. Conversar sobre as novidades do dia, nesses instantes, não seria uma opção. Nem nos encontros de fins de semana. Essa era uma prática de casais que se amavam, e, apesar de Sam suspeitar que amasse Quinn, ela deixara bem claro que não o amava de volta. Só gostava do seu corpo.

Como toda mulher no mundo, pelo visto. Seria tão impossível para ele encontrar o amor verdadeiro em algum lugar?

Mais cedo naquele dia, Sam passara pela Broadway, esperando se despedir do lugar que lhe oferecera ótimas experiências nas últimas semanas, e passara com a van ao lado de Rachel, sem se dar conta disso. Rachel estava deixando a mesma cafeteria de sempre, caminhando, dessa vez, com passos lentos e descompromissados, como se não estivesse atrasada realmente para o trabalho. E talvez não estivesse mesmo.

Um pé vinha depois do outro em uma caminhada tão lenta que parecia parte de um ritual lúgubre. Rachel vestia um vestido laranja, quase salmão, mas, em sua mente, vestia algo preto. O copo de café poderia muito bem ser um buquê que ela carregava em direção à lápide que pretendia visitar.

Não à lápide, corrigiu-se em pensamento. Ao enterro ao qual devo comparecer.

O enterro do amor que sinto pelo Finn.

A vida é curta demais para gastar tempo com possibilidades infrutíferas, era do que Rachel sempre esteve certa. Insistir no amor com Finn era insistir em algo que jamais daria certo. Depois do que ele dissera no Breadstix, se pensasse em vê-lo novamente, estaria agindo com burrice. Quantas não foram as garotas e mulheres que conhecera na vida que não se decepcionaram terrivelmente por insistir em amores que não eram amores de verdade?

Passar por aquele drama lhe era quase como uma experiência teatral, exceto pelo fato de que, daquela vez, as lágrimas que ela vez e outra derramava não eram motivadas pela ficção, mas pela realidade. Até então, Rachel tinha uma ideia muito sutil do que era frustração. Deixar o Breadstix na semana passada com a certeza de que o amor que sentia por Finn não era correspondido, no entanto, lhe serviu como uma senhora porção de frustração, algo que ela saboreou durante todo um fim de semana e que lhe causara o maior mal estar que ela jamais pensou que fosse sentir em vida.

Mas você não decidiu vir até Nova Iorque porque estava em busca de amor, decidiu?, pensou e limpou as lágrimas com uma mão livre. Por pouco não derrubou o folheto que carregava embaixo do braço. Não... Você veio até aqui para fingir o amor no palco. Nova Iorque nunca prometeu ser uma boa experiência. A Broadway, por outro lado...

Rachel tivera pensamentos do tipo durante toda a hora seguinte. Finn, que fora dar falta da funcionária já quando estava próximo do horário de almoço, finalmente se preocupou com a possibilidade de a secretária ter se adoecido e, por conta disso, faltado ao trabalho. Mas por que ela não avisaria? Talvez estivesse tão mal, de cama, que fosse incapaz de pegar o celular e discar qualquer coisa que fosse, mesmo o seu número que, em um pensamento prepotente, ele imaginava que estivesse gravado na discagem rápida do celular da mulher.

Ligou para o seu celular, então, mas não obteve resposta. Ora a ligação tocava duas vezes, ora três, ora apenas uma, e então a ligação caía. Foram dez tentativas e nenhuma delas o permitiu falar com Rachel. Talvez ela estivesse com problemas de sinal, mas problemas do tipo não aconteciam com linhas de telefone fixo, aconteciam?

Mas ele não tinha o número do telefone do apartamento de Rachel.

O RH da empresa, por outro lado, tinha.

– Rachel Berry, secretária do vice-presidente – ele informou à garota loira, de olhos verdes, que servia de estagiária no RH. – Uma baixinha, queixo quadrado, cabelos negros, a mulher por quem acho que me apaixonei.

– Bem... – disse a garota e franziu o cenho, consternada. – Sinto em ter que te dizer isso, Sr. Hudson, mas a Srta. Berry já não faz mais parte do nosso quadro de funcionários.

O quê?! E quem a teria demitido?

– Ao que parece, ninguém.

– Então deve haver um engano!

– Ela pediu demissão. Entregou o formulário de feedback nessa manhã, e eu inclusive já o arquivei na pasta dela...

– Me passe o número da casa dela.

– Vou ter que procurar no arquivo, afinal, ela já não faz mais parte dos nossos registros eletrônicos...

– Então o faça! – disse Finn à funcionária do RH e Quinn ao funcionário da UPS.

A loira, que estava sem fome nenhuma desde quando descobrira que o entregador da UPS da sua região fora novamente mudado, decidiu aproveitar o seu horário de almoço não para comer, mas para averiguar o desaparecimento de Sam. Que pessoa no mundo seria tão cruel com a sua causa a ponto de achar uma boa ideia afastá-lo dela? Quinn estava fascinada por Sam e faria qualquer coisa para tê-lo de volta.

– Você está falando de um loirinho...?

– Loirinho é eufemismo, amigo – retrucou Quinn ao funcionário da recepção. – Estou falando da porra de um loiraço que fazia entrega nas mediações da Times Square! Sam Evans, você deve saber quem é, não são tantos os homens do planeta que se parecem com ele!

– Eu sei de quem você está falando, é só que...

– Você quer que eu te pague para soltar a informação?

– Ele está fazendo entrega no Bronks.

– Não fica muito longe daqui, graças a Deus!

– Mas solicitou transferência para outro estado.

Quinn sentiu as narinas arderem.

– Por que ele faria isso?!

Porque não quero conviver como a possibilidade de encontrar Quinn algum dia, sentir a vontade incontrolável de dizer que a amo e ela dizer que não me ama como eu a amo, Sam pensava, com um indicador dobrado e enfiado entre os dentes, enquanto circundava uma praça no centro de Bronks. Não saí de Lima para encontrar mais problemas. Eu saí de lá para solucionar a minha a vida. Mas a Quinn é uma solução impossível para mim.

Sentiu uma coceira nos olhos e fez a curva.

Finn girou nos calcanhares e praticamente correu em direção à sua sala. Apesar das paredes de vidro, sentia como se lá fosse o único lugar do mundo em que se sentiria seguro o bastante, onde refrearia qualquer ímpeto de esmurrar o rosto de alguém por conta da própria burrice.

E Quinn, quando deixou a recepção da UPS, chorava como se lhe tivessem roubado algo, como se a partida de Sam tivesse significado a perda de um membro, algo insubstituível.

Algo insubstituível?, pensou enquanto atravessava a rua. Arregalou os olhos, surpresa, quando deu-se por si pensando: Puta merda, o que eu sinto por ele é amor!

Pensamento não muito diferente do que Finn tinha a respeito de Rachel enquanto socava a parede de sua sala.

Rachel subia vagarosamente os degraus que levavam ao andar superior de um prédio e, já ali embaixo, conseguia ouvir certo falatório. O lugar devia estar lotado. Por que ela não pensou nisso antes? Devia ter caprichado mais no visual. Aproveitou que ainda havia vinte degraus para serem cobertos e limpou as lágrimas que insistiam em descer pelas faces. Torcia para que a maquiagem não tivesse borrado, porque esse detalhe certamente lhe contaria como ponto negativo.

Ao fim da escada, encontrou um amplo espaço com cadeiras a um canto, todas tomadas por mulheres, e uma mesa no centro, com dois homens e uma mulher de aspecto bastante intimidador. Olharam para ela por cima de óculos e não esboçaram reação nenhuma.

Rachel engoliu em seco. Aquilo era o melhor que podia fazer depois de tudo pelo que passara. Não suportaria voltar a ver Finn depois do que ele dissera. O seu destino, afinal, estava traçado dentro daquela sala. Fora para isso que nascera.

– O que procura aqui, mocinha? – perguntou o homem na bancada, o do meio, usando um tom tão agressivo quanto o de um oficial do exército.

A solução para os erros que cometi?, Rachel arriscou em pensamento.

No lugar, acabou dizendo:

– É aqui que estão sendo feitas as audições para o musical sobre a Marilyn Monroe?

As três cabeças na bancada confirmaram em silêncio.

E então Rachel tomou a última cadeira vaga ao lado de outras vinte moças que aguardavam, ansiosas, a sua chance de tentar o estrelato em um musical da Broadway.

Notas finais
Spin-off com a Rachel, ouço anjos entoando um glória???
rssssss